Naturalizar o que é natural
Antes mesmo de saber da existência de Malu, Denise já tinha o sonho de passar por uma gestação tranquila e o ápice seria um parto natural.
Admito que pra mim, a forma do parto era um assunto distante, mas Denise sempre falou desse desejo.
Quando Malu apareceu em nossas vidas chegou a hora da verdade. Denise perguntou o que eu achava e de imediato apoiei o desejo dela. Desde então, ainda em setembro do ano passado começamos a estudar o assunto e descobrimos como o ser humano perdeu (foi induzido) simplesmente o protagonismo de um momento que é seu e pra o qual nasceu preparado pra isso.
Logo no início da gestação, descobrimos a diabetes gestacional em Denise e esse foi um grande medo para o objetivo final. A grande maioria dos médicos de cara já apontaria o parto por cirurgia cesárea como único caminho. O medo chegou, mas estudando e escutando profissionais capacitados e comprometidos entendemos que o parto natural era tranquilamente possível. E super indicado nesses casos!
Controlamos a diabetes, mas Maria Luiza tinha que chegar até a 39° semana de gestação.
Na 37° semana começamos o processo de indução do parto. Não foi fácil, mas quem disse que seria? A gente estava preparado!
O processo começou em casa. Apesar das tentativas, Malu estava gostando de ficar no forninho. Na metade da 38° semana, a equipe decidiu que era hora da gente seguir para a maternidade e fazer a indução de lá.
Por causa da pandemia, as visitas eram proibidas e encarar esse momento ficou apenas comigo e Denise.
Começamos a medicação e foram horas de espera pra Malu dar sinal de chegada. A espera durou mais de 24h. Ansiedade, receio e a vontade de tudo dar certo.
O cansaço estava batendo, afinal de contas não dá pra descansar 100% no ambiente hospitalar.
O grande dia chegou.
Dia 28 de abril de 2021, uma quarta-feira, Denise acordou mais uma vez sem contrações. Ficamos apreensivos ainda, porém confiantes. Por volta de meio-dia, Denise começou a sentir alguns incômodos, ali era o sinal que o trabalho de parto estava iniciando. Às 13 horas, a coisa apertou. As tão esperadas contrações chegaram com tudo e começamos a colocar em prática tudo o que aprendemos.
Banho quente, bola de Pilates, muito amor e espera. As contrações foram ficando mais frequentes e fortes, isso era um ótimo sinal. Confesso que fiquei apreensivo, mas sabia que tudo aquilo era normal do processo. Fiquei com Denise o tempo todo. Segurando a mão, dando força, descontraindo. A cada contração Denise transferia as dores em força na minha mão, confesso que doía pra caramba, as unhas encravadas na minha mão, isso quando ela não tentava morder meus dedos rsrsrsrs. Mas nada comparado com a maratona que ela estava percorrendo.
O trabalho de parto nada mais é do que acompanhar e esperar, porque o corpo da mulher faz todo o trabalho sozinho.
A noite foi chegando, as horas avançando. Denise já demostrava cansaço, eu também, mas desistir não era uma opção.
Perguntei a nossa médica obstetra, quanto tempo levaria o trabalho de parto e ela disse que depende muito e poderia chegar até 24h. Eu até brinquei, respiramos fundo e seguimos.
Por volta das 19h Denise sentiu algo mais forte e mostrava que estava mais perto a chegada de Malu. Fiz uma previsão com a equipe que nossa Malu chegaria até às 20h.
Essa hora final, que é a parte expulsiva do parto é talvez a mais difícil para a mulher. Muitas não aguentam e pedem anestesia pra não sentir mais as contratações. Porém Denise sabia que se pedisse anestesia, o parto ia esticar mais ainda.
Seguimos fortes!! O relógio marcava 20h14 minutos quando Maria Luiza chegou para o grande encontro.
Foi o momento mais mágico da minha vida!! Depois de tantos meses de preparação, esperando esse dia, o encontro aconteceu.
Não deu pra segurar a emoção.
Malu chorou um pouquinho e logo veio pro colo de Denise. Ela fixou o olhar na gente e a gente ficou encantado com ela. Por uma hora ficamos ali curtindo esse momento. Essa é a chamada "hora dourada do parto". O termo representa a oportunidade de ouro para fortalecer vínculos, diminuir riscos para a saúde do bebê e estabelecer a amamentação com sucesso.
A médica me perguntou se eu gostaria de cortar o cordão umbilical, de imediato topei e foi uma emoção também.
E como um passe de mágica, o leite começou a jorrar do seio de Denise e a nossa bebê já fez ali a primeira e importantíssima alimentação da sua vida.
Depois dessa primeira hora, tirei minha camisa e peguei Malu no colo pela primeira vez. Foi um contato incrível e inesquecível.
Só depois disso a nossa pediatra pegou Malu para fazer as medições, a pesagem e os testes necessários. Nenhum procedimento invasivo desnecessário foi feito na nossa bebê.
O resumo de tudo é que tenho o maior orgulho do mundo de ter vivenciando essa experiência fantástica de perto e sendo parte ativa. Aqui está um relato bem resumido.
Foi maravilhoso ver minutos depois nossa Malu super saudável, Denise extremamente feliz e digo a vocês, nem parecia que ela tinha acabado de dar a luz. Estava toda disposta, sem sentir dor nenhuma, independente, tomando conta de Malu, se alimentando, amamentando, andando normalmente, uma recuperação fantástica, sem marcas, só boas recordações.
Uma experiência que vou ter o maior prazer de falar e que gostaria que todo pai participasse.
A figura masculina foi excluída historicamente desse momento por uma sociedade machista. O parto não é uma responsabilidade só da mãe. O pai tem e deve estar presente de corpo e alma.
Não é fácil, mas isso é porque não fomos conduzidos pela sociedade pra viver esse momento.
Por fim deixo uma indicação pra todo mundo. Assistam o documentário "O renascimento do parto" que está disponível na Netflix.
A produção mostra exatamente porque a sociedade (principalmente a brasileira) foi levada a optar por cirurgia cesárias em vez de ir pelo caminho natural, seguro e respeitoso do ser humano.