Ainda tento me desvincular do fatídico 22 de dezembro. A mente explode quando tento entender como, de uma hora para outra, alguém decide que simplesmente não gosta mais de alguém. Ainda tento me desvincular dos planos, das memórias, da vontade de estar junto. Ainda tento me reerguer e me achar. O amor, quando acaba, parece que ele nunca existiu. Parece que nunca existiram os infinitos beijos, as mãos dadas, as juras de amor, os nomes dos possíveis futuros filhos. Parece que nunca existiu me chamar de mãe dos seus 4 cachorros. Parece que nunca existiu playlist apaixonada. Parece que nunca existiram as conversas, o dengo, os filmes de madrugada. Parece que nunca existiram a vontade louca, a obsessão e a paixão.
As mensagens bêbadas ainda chegam. O SMS com “você é o amor da minha vida”. Mas, se fosse, estaríamos passando por isso? Ou é a expectativa de uma vida toda que planejamos (e que não irá mais existir)?
Acredito que desvincular da falta e da saudade seja o mais difícil. Li um poema que era assim:
“- Será que ele sente a minha falta?”, “Você sente tanta falta dele assim? - perguntaram.”
Respondi: “Todos os dias”.
“Pelo menos não são todos os minutos”.
E foi a primeira vez que eu consegui quantificar a minha saudade. Era muita, mas não era o tempo inteiro. Eu sei de que o amor acaba. E sei de que acaba, mesmo existindo amor. O amor vai embora da mesma maneira que chega, de forma rápida. Ele vai embora junto da pessoa que eu queria que ficasse.
O amor acaba e vai embora assim, numa sexta qualquer, numa noite qualquer, depois de 4 cervejas, num bar de esquina. Bar que, pelas boas línguas, era considerado nosso, mas voltou a ser totalmente teu. Na verdade, tudo que era nosso voltou a ser teu. Menos eu, que, por coincidência do destino, não voltei a ser tua.
Análise da crônica em grupo:
A crônica lírica "Ironia do Destino" explora o tema da desilusão amorosa e a dificuldade de desvincular-se de alguém após o fim de um relacionamento. O texto revela a perplexidade do narrador diante da abrupta mudança de sentimentos de seu parceiro(a), expressando a sensação de que todo o amor compartilhado parece desaparecer de uma hora para outra.
A autora descreve a luta interna para se libertar dos planos, das memórias e da vontade de estar com o outro, destacando como o término de um relacionamento faz com que tudo o que parecia tão real e tangível se torne efêmero e ilusório. A crônica também aborda a persistência da saudade e da falta, destacando a dificuldade de desvincular-se emocionalmente do ex-amado, mesmo sabendo de que o amor acabou. A citação do poema sobre a intensidade da saudade, medida não em minutos, mas em dias, ressalta a complexidade dos sentimentos envolvidos nesse processo de desapego.
A ironia do destino é enfatizada na conclusão da crônica, cujo narrador reflete sobre como o amor pode desaparecer em circunstâncias banais, como uma noite qualquer num bar, reforçando a ideia de que tudo que era compartilhado entre o casal agora pertence, exclusivamente, ao outro, exceto o próprio narrador, que permanece separado por uma mera coincidência do destino.
A crônica "Ironia do Destino" é, portanto, uma reflexão densa sobre o fim de um relacionamento e os desafios emocionais de desvincular-se de alguém que um dia foi tão importante, ilustrando a complexidade dos sentimentos humanos diante do amor e da perda.