A medicina holandesa ainda é “conservadora” em relação à perimenopausa
Por Yekaterine Novakov- Especialista em medicina Ayurvéda
Aqui na Holanda, eu sinto isso muito claramente e vejo sempre na prática: a perimenopausa ainda é tratada mais como um fato biológico inevitável do que como uma fase da vida que pede cuidado e escuta de verdade. A ciência sabe que os hormônios mudam. Isso ninguém discute. O que ainda falta é reconhecer o impacto real dessas mudanças na vida da mulher. É muito comum a mulher chegar até mim exausta, sem dormir direito, ansiosa, com dores no corpo ou enxaqueca, e contar que ouviu no consultório: “Isso é normal da idade, se tiver dor, tome um paracetamol.” E sim, pode até ser comum.
Mas, para mim, não deveria ser normal viver sem energia, sem prazer, sem clareza mental e sem qualidade de vida.
A medicina holandesa é extremamente competente quando falamos de números, estudos e protocolos. Mas ela ainda olha pouco para aquilo que não aparece nos exames: o cansaço profundo, a perda de vitalidade, a irritação constante, a sensação de não se reconhecer mais no próprio corpo. Para eles, é “gewoon”, normal!
Existe aqui uma cultura muito forte de cautela, de esperar, de intervir o mínimo possível. A reposição hormonal, por exemplo, ainda é vista com muito receio por muitos médicos, baseada em estudos antigos e no medo de riscos e implicações legais. Quando eu comparo a Holanda com outros países, essa diferença fica ainda mais evidente.
A Alemanha tem uma abordagem mais integrada do que a holandesa, com maior autonomia médica e abertura para terapias complementares, o que permite um cuidado mais individualizado.
E no Brasil, apesar de todas as suas contradições, muitas vezes oferece algo que aqui faz falta: escuta. Há mais disposição para investigar sintomas, ajustar tratamentos, integrar reposição hormonal, alimentação e estilo de vida, olhando para a mulher como um todo — e não apenas para os riscos.
Por isso, eu diria que a Holanda ainda ocupa um lugar bastante conservador nesse tema. É um país avançado em ciência, sem dúvida, mas ainda lento em transformar conhecimento em cuidado humano.
O grande desafio hoje não é provar que a perimenopausa existe, e sim reconhecer que a mulher não precisa sofrer em silêncio nessa fase — e que cuidar da perimenopausa é cuidar da saúde, da autoconfiança e da qualidade de vida feminina.
Autismo no Brasil e Holanda: visibilidade, diagnóstico e direitos ao longo da vida
Por Fatima de Kwant
O autismo é um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais discutidos nos últimos anos. Documentários, artigos, séries de TV, produções de Hollywood e, sobretudo, a autorrepresentatividade de adultos autistas nas redes sociais contribuíram para popularizar uma condição que, até pouco tempo atrás, era amplamente desconhecida em sua complexidade.
No Brasil, dados do Censo do IBGE de 2022, divulgados em 2025, revelaram que uma em cada 38 crianças brasileiras está dentro do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Esses números não apenas dimensionam a realidade, como também deveriam servir de ponto de partida para a formulação e ampliação de políticas públicas voltadas a essa população.
Diferenças entre o autismo no Brasil e na Holanda
Segundo o Centraal Bureau voor Statistiek – órgão oficial de estatísticas dos Países Baixos – de 2022-2024, cerca de 3% da população holandesa acima de 4 anos está dentro do TEA.
As principais diferenças entre Brasil e Holanda residem nas políticas públicas. Enquanto a Holanda construiu, ao longo de décadas, uma rede estruturada de apoio às pessoas autistas, o Brasil ainda enfrenta uma longa batalha para implementar legislações e práticas que garantam direitos efetivos a crianças, adolescentes e adultos no espectro. Ali, famílias e profissionais lutam diariamente por acesso a tratamentos médicos e terapêuticos de qualidade, com equipes multidisciplinares e atendimento contínuo. Na Holanda, esse processo já foi consolidado há muitos anos, permitindo que o foco esteja na adaptação dos suportes às necessidades individuais, e não na sua inexistência.
“Agora todo mundo é autista?”
Expressões como “agora todo mundo é autista”, “autismo virou moda” ou “você não tem cara de autista” são frequentemente ouvidas — e profundamente ofensivas — para pessoas no espectro e suas famílias. A verdade é simples e precisa ser reafirmada: autista não tem cara, e autismo não é moda.
As comunidades mundiais do autismo têm se empenhado em esclarecer que não há uma epidemia de autismo, mas sim um avanço significativo do conhecimento científico sobre a condição. Esse progresso ampliou a compreensão do espectro autista e permitiu reconhecer manifestações antes invisibilizadas.
A conscientização internacional sobre o autismo despertou o olhar atento de famílias cujas crianças apresentam comportamentos atípicos, diferenças na comunicação social — inclusive em crianças verbalizadas — e dificuldades na interação social, como iniciar ou manter contatos sociais. Ao aprenderem a identificar sinais, inclusive os mais sutis, essas famílias passaram a buscar diagnóstico e apoio. Portanto, não se trata de aumento de casos, mas de uma consciência social inédita sobre o autismo.
Autismo ao longo da vida
Na Holanda, o autismo é compreendido como uma condição que acompanha a pessoa ao longo de toda a vida. O princípio é claro: uma pessoa autista pode necessitar de pouco, moderado ou alto nível de suporte em diferentes fases da vida, e cabe ao Estado garantir esse amparo de forma contínua, personalizada e digna, enquanto for necessário.
Autismo não tem cura, mas tem desenvolvimento.
Que as pessoas autistas no Brasil tenham assegurado o direito de viver com dignidade, com cuidados que respeitem, validem e reconheçam plenamente a sua existência.
Direitos das Gestantes nos Países Baixos: O Que Você Precisa Saber
Por Karine Grassi
Para mulheres brasileiras vivendo nos Países Baixos, a gestação pode trazer dúvidas sobre direitos, atendimento médico e segurança jurídica. Conhecer as garantias oferecidas pelo sistema holandês é essencial para uma gravidez segura e bem assistida.
1. Acompanhamento Pré-Natal
O acompanhamento é feito, na maioria dos casos, por parteiras (verloskundigen), com cobertura do seguro básico de saúde (basisverzekering). Estão incluídas consultas de rotina, dois exames de ultrassom e orientações gerais.
> Atenção: exames genéticos e pré-natais adicionais podem implicar custos parciais. Consulte sua seguradora.
2. Direito de Escolha no Parto
As gestantes podem escolher entre parto domiciliar, em centro de nascimento (geboortecentrum) ou hospital, de acordo com sua saúde e preferências. O plano de parto (geboorteplan) é um instrumento útil e recomendado.
3. Licença-Maternidade
Trabalhadoras legais têm direito a 16 semanas de licença-maternidade remunerada, concedida pelo UWV (órgão de seguro social). O afastamento pode começar até 6 semanas antes da data prevista para o parto.
> O pedido deve ser feito com apoio do empregador e médico ou parteira.
4. Apoio Pós-Parto: Kraamzorg
Trata-se de um serviço de assistência domiciliar nos primeiros dias após o parto. A kraamverzorgster oferece apoio à recuperação da mãe, cuidados com o bebê, amamentação e organização da rotina inicial.
5. Direitos no Ambiente de Trabalho
Durante os primeiros 9 meses após o parto, mães lactantes têm direito a até 25% da jornada de trabalho diária para amamentação ou extração de leite, em local reservado e apropriado, sem prejuízo salarial.
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Fontes e Links Úteis
Zorginstituut Nederland (Instituto de Saúde):
Informações sobre o que está incluído no seguro de saúde:
Rijksoverheid – Governo Holandês:
Regras sobre licença-maternidade e proteção no trabalho:
www.rijksoverheid.nl/onderwerpen/zwangerschapsverlof
UWV – Seguro Social:
Solicitação da licença-maternidade e pagamento de benefícios:
Kraamzorg.nl:
Portal de informações e registro de serviços de cuidados pós-parto:
Parto e maternidade (em inglês):
Informações práticas para gestantes internacionais:
* Karine Grassi é Doutora em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Mestre e Graduada em Direito. Atua como Pesquisadora Independente, Mentora Acadêmica e Revisora Textual, combinando rigor acadêmico com precisão linguística. Além de sua trajetória no universo jurídico, dedica-se à ficção literária.
Por Dani Maniá
Houve uma época em que ser corajosa era sinônimo de suportar tudo. Aguentar firme, com o queixo erguido e o peito estufado.
Era uma performance de força, uma armadura solitária e, pior… a mulher corajosa era premiada pela sociedade dessa forma. Quanto mais forte, mais ganhava medalhas e reconhecimento.
Mas coragem, para mim, não tem nada a ver com essa imagem exausta da mulher-heroína que salva todos e depois se esquece.
Coragem é outra coisa.
É quando a alma se recusa a silenciar. E o coração escolhe seguir.
Eu acompanho mulheres há mais de uma década e percebo que a coragem nunca aparece como elas imaginavam.
Elas esperam uma força súbita, uma confiança definitiva, uma certeza iluminada. Mas o que chega é um desconforto, uma vontade de sair correndo e, ao mesmo tempo, uma voz interna sussurrando “vai assim mesmo”.
Essa é a coragem real: a que vem tremendo as pernas.
Uma das mulheres que atendi anos atrás era uma brasileira vivendo na Alemanha. Tinha um bom trabalho, dois filhos pequenos e uma saudade que ela escondia até de si mesma.
Me procurou porque “não estava dando conta de tudo”.
Mas, no fundo, a dor dela era outra: era a dor de não se reconhecer mais.
Ela havia deixado sua intuição num armário junto com as roupas que não serviam ao novo clima. Reinventou sua maneira de falar, de se vestir, de ser… Tudo para caber.
Mas caber, em alguns contextos, é sinônimo de se abandonar.
Demorou meses para que ela dissesse a primeira frase inteira em que a alma aparecia:
“Sinto saudade de mim.”
Foi ali que começou o trabalho verdadeiro.
Porque a coragem que transforma é aquela que te traz de volta.
Voltar para si dá medo. Dá vergonha. Dá trabalho. Mas é o único caminho possível para uma vida que valha a pena ser vivida.
Coragem não é ausência de medo, e você já sabe disso.
Mas talvez ainda não tenha escutado que coragem também nem sempre é uma grande virada de mesa, não precisa vir em tom épico.
Muitas vezes, ela acontece no pequeno gesto de dizer não para o que já não te representa. Ou de dizer sim para um novo amor, mesmo ainda carregando marcas do antigo.
Coragem é escolher dar voz à sua intuição mesmo que ela vá contra tudo que parece seguro.
É confiar em um ciclo novo sem provas nem promessas.
É deixar de esperar pela aprovação da mãe, do marido, da sociedade.
Eu vejo nas mulheres expatriadas uma força rara: elas já romperam com um sistema inteiro para viver o novo.
Mesmo quando dizem que têm medo, a alma já escolheu seguir.
Elas são corajosas antes mesmo de se perceberem assim.
Mas muitas adoecem porque acreditam que coragem é carregar tudo sozinha.
Que ser corajosa é não sentir, não chorar, não tremer.
E aí desabam no silêncio, porque ninguém vê a guerra interna de quem sempre sorri no Zoom ou no Instagram.
Eu escolhi trabalhar com virtudes porque elas são as estruturas invisíveis de uma alma em expansão.
E, entre todas, a coragem é a que abre muitas portas.
Sem ela, a autenticidade não aparece, a fé não se sustenta, a sabedoria não se revela.
Então, se você está lendo esse texto e sabe, bem no fundo, que chegou a hora de mudar algo na sua vida… Seja a forma como se trata, o trabalho que mantém por medo, o relacionamento que já expirou ou a cidade que já não te acolhe, escute isso com carinho: Você não precisa estar pronta. Nem ter todas as respostas. Nem vencer o medo.
Você só precisa dar o primeiro passo com o coração desperto.
Porque quando a alma se move, o universo se alinha.
Não há chão garantido, mas há asas que só se abrem no ar.
E coragem, no fim das contas, é isso: aprender a ouvir seu coração e caminhar pelo caminho da alma.
Eu te desejo que tenha coragem de ser feliz, de prosperar, de se amar.
Com amor,
Dani Maniá
Dani Maniá é empresária, terapeuta e mentora das maiores empreendedoras, executivas e artistas desta geração. Vive na Holanda há sete anos e já conduziu mais de 5 mil pessoas em jornadas profundas de transformação por meio da Mentoria de Negócios Virtuosos e da Academia das Virtudes, onde une alma, estratégia e verdade em um só caminho.