O documento histórico é um testemunho inegável do fato. Por este motivo é preservado em arquivos, em museus. Mas não passa de um sobrevivente. Foi preservado porque atendia a interesses, ou seja, em determinado momento confirmava o que alguém tinha interesse em confirmar.
A maioria dos documentos antigos são fósseis. Têm de ser garimpados, extraídos de porões escuros, úmidos e infestados por pragas. Ou descobertos, quanto por sorte esquecidos. Em geral foram colocados nesses locais para que o tempo fizesse o que seus responsáveis não tiveram a oportunidade de fazer. Também são documentos sobreviventes, apesar de tudo. E por enquanto. Ocultas nas linhas dos documentos antigos, verdades inconvenientes que, quando descobertas, levam o documento ao destino derradeiro: a história ou o fogo.
Quem pode se interpor entre o algoz e o documento é o arquivista, ou o historiador.
Mas essa máxima não tem se traduzido em realidade. Procurando documentos históricos sobre o Regime Militar na internet, encontramos muita coisa recentemente adicionada à grande rede.
Em geral se referem ao período como "ditadura", e são pós "Comissão da Verdade". São documentos escolhidos a dedo, e incluem determinadas publicações contrárias ao regime militar, publicações essas que são tratadas como se fossem documentos históricos, quando na realidade se tratam de matérias pseudo-jornalísticas contrárias ao regime.
O pesquisador, ao revirar esses sites, encontra mais lacunas do que respostas. Ao pesquisador atento, parece que falta mais material do que se apresenta. São informações pela metade, pois a "Comissão da Verdade" não foi criada para esclarecer o que se passou no período. Estando mais para uma "Comissão das Meias-Verdades", atendia a interesses de políticos que hoje, em sua maioria, ou estão presos ou são acusados de corrupção.
Em 20 de junho de 1998 publiquei no antigo provedor Geocities uma frase, de minha autoria (diz respeito ao arquivo):
" ...sem a menor peça do nosso objeto de trabalho, o documento, não é possível a administração moderna; o direito torna-se privilégio; a economia esmorece; os Poderes sucumbem. Sem o documento, só existe a barbárie." (Jacinto Murowaniecki, 1998. Página "Arquivologia", http://www.geocities.org/athens/agora/5333, inativa devido ao fim do provedor. Cópia disponível em http://www.oocities.org/athens/agora/5333/)
Entendo que a frase continua atual, passadas duas décadas.
Talvez o primeiro fato interessante ocorrido comigo ao tomar posse no Senado Federal foi encontrar, em 1995 ou 1996, dentro de um container de entulho, uma pasta com a inscrição "Documentos Confidenciais". Como então estudante de Arquivologia, não pude deixar de recolher a mesma, fosse para estudo ou pelo instinto de preservação da memória.
Aparentemente a pasta fora descartada pelo ou por ordem do Senador Jarbas Passarinho. Mesmo encontrando documentos interessantes não quis dar publicidade a qualquer deles para evitar algum constrangimento ao então ex-Senador, ou a mim, então servidor público na ativa.
Com a morte de Jarbas Passarinho na manhã de 5 de junho de 2016, aos 96 anos em Brasília, e estando eu aposentado, comecei a pensar em uma forma de disponibilizar esses poucos mas interessantes documentos.
E aí estão, nas páginas seguintes. Nesses poucos documentos está o registro de atividades que, se estivessem na posse da "Comissão da Verdade", provavelmente teriam tomado o rumo da picotadora.
Os documentos mais pesados foram otimizados e convertidos para escalas de cinza como forma de reduzir o tamanho final, de forma a que nenhum documento tenha mais do que 2 MB.
Boa pesquisa.