CONTEXTO HISTÓRICO DO CIPOAL

Nossa história: de onde viemos, como chegamos e por que permanecemos.

Nossa história começa muito antes de o rio Pacajá receber nossos nomes, nossas casas e nossas roças. Ela nasce do sofrimento, da coragem e da esperança de famílias negras e pobres que foram obrigadas a deixar suas terras de origem para continuar vivendo.


Nossos antepassados vieram principalmente do Ceará e do Piauí, fugindo da seca severa que castigava o Nordeste. Não era apenas a falta de chuva, mas a falta de condições de vida. A água era tão escassa que muitas vezes era recolhida à noite, no sereno, em bacias improvisadas. Beber aquela água era questão de sobrevivência. Quando nem isso foi mais possível, a decisão foi tomada: partir.


Eles se organizaram em grupos de famílias e seguiram viagem à vara e a remo, em canoas simples, enfrentando dias e noites pelos rios da Amazônia. Foram cerca de dez famílias nessa travessia. Ao chegarem em Breves, algumas ficaram. Outras seguiram viagem e chegaram às margens do rio Pacajá, no território conhecido como Cipoal Velho, onde começaram a reconstruir suas vidas.

Foi ali que fincaram raízes. Foi ali que nasceram filhos, netos e bisnetos. Foi ali que se formou o verdadeiro Cipoal, reconhecido pelos mais velhos como o lugar de origem e pertencimento do nosso povo.


Nossa comunidade cresceu a partir do trabalho coletivo e do profundo respeito pela natureza. Nossos pais e avós viveram da roça, da pesca, da caça, da extração da castanha, da seringa, da maçaranduba e, mais tarde, da madeira. Tudo era feito com o esforço do próprio corpo, com machado, com as mãos, com saberes transmitidos de geração em geração.


Aqui, o rio sempre foi estrada, sustento e proteção. Os igarapés guardam memória, alimento e vida. As roças não eram grandes para explorar, mas suficientes para alimentar as famílias. A floresta não era vista como mercadoria, mas como casa.


Antes mesmo da chegada definitiva das famílias quilombolas, este território já era habitado por povos indígenas. Os mais velhos contam que o Pacajá “era lugar de índio”. Com o tempo, alguns desses povos foram “amansados” — palavra dura, mas usada para descrever um processo marcado por conflitos, medo e também convivência. Houve trocas, convivência e respeito, mas também violência e apagamento.


Nossa história também é marcada por conflitos fundiários profundos. Terras foram vendidas sem o conhecimento das famílias que nelas viviam. Comunidades inteiras foram ameaçadas de expulsão. Casas quase foram soterradas. Muitas famílias foram obrigadas a se deslocar novamente, sempre resistindo, sempre recomeçando.


A chegada das grandes empresas madeireiras e fazendas intensificou os conflitos. Diferente do uso tradicional da terra feito pelas comunidades, essas empresas devastaram grandes áreas, destruíram castanhais, poluíram rios, impediram a circulação das famílias e criminalizaram práticas tradicionais como a caça e a pesca. Houve intimidações, ameaças armadas e violência simbólica e física.


Mesmo assim, nosso povo permaneceu.


Permaneceu porque essa terra guarda nossos mortos, nossos cemitérios, nossas festas, nossas procissões fluviais, nossos santos, nossas rezas e benzimentos. Permaneceu porque aqui estão as histórias das parteiras, dos benzedores, dos trabalhadores da roça e dos rios. Permaneceu porque este território não é apenas chão: é identidade.


Com o tempo, fomos nos organizando. Criamos a nossa associação, fortalecemos a educação, participamos do mapeamento social do território e passamos a contar nossa própria história, com nossas palavras, nossos mapas e nossas memórias. O livro nasce desse processo: como instrumento de luta, de afirmação e de denúncia.


Somos quilombolas do rio Pacajá. Somos descendentes de quem resistiu à escravização, à seca, ao abandono do Estado e à violência do capital. Nossa formação não foi fácil, mas foi coletiva. Nossa migração não foi escolha, foi necessidade. Nossa permanência, sim, é decisão.


Seguimos aqui, defendendo o território, a floresta, o rio e a vida para que nossos filhos e filhas saibam de onde vieram e tenham orgulho de quem são.