Pensamento e ficção em tempos de crise
por Kathrin Rosenfield
“Decidi deixar Musil de lado, pois é mais inteligente que necessário” (Walter Benjamin, em carta a Theodor Adorno)
O que teria acontecido se R. Musil e W. Benjamin tivessem se encontrado... num mundo melhor? Teriam concluído uma amizade duradoura? Teriam elaborado, talvez, uma teoria da dimensão mística e criativa da racionalidade matemática? Seus caminhos se cruzaram repetidas vezes entre 1914 e 1938, e seus pensamentos evidenciam surpreendentes afinidades. Começando pela reflexão sobre a intuição mística, os sentimentos (ir) religiosos e a ciência que começaram a ter grande impacto sobre a literatura e a sociedade. Um mesmo complexo de problemas ocupa Musil em torno de 1900 e W. Benjamin (doze anos mais jovem) em 1912-14. Ao longo da década seguinte, as ideias de ambos se voltaríam para o problema da linguagem, para Goethe e Hölderlin, para as novas formas de narrar de Kafka e Walser; depois para a tecnologia e modos alternativos de ver mundo e dizer a experiência. Mas apesar dessas afinidades, os dois autores nunca se encontraram pessoalmente, e – mais estranho ainda - fizeram questão de não comentar os textos que leram um do outro – como Benjamin deixa claro com a rápida menção na sua carta a Adorno.
A proposta do colóquio Musil, Benjamin & seus contemporâneos: pensamento e ficção em tempos de crise propõe abordar essas questões de modo indireto – refletindo sobre o contexto, sobre as pessoas, os lugares e as ideias que impactaram (ou deixaram de impactar) o romancista e o crítico. Será uma troca de ideias sobre uma época tão repleta de tensões, contradições e paixões acirradas como a nossa e sobre os reflexos que esses dilemas tiveram nas obras de intelectuais em torno de Musil e Benjamin.
Ideas of Europe in Austrian interwar literature
The paper compares different understandings of Europe among prominent Austrian writers of the interwar period. The writers provide quite different justifications for their European ideas. While Hugo von Hofmannsthal argues along aesthetic lines, Stefan Zweig bases his essays on Europe on the ethics of conviction (Gesinnungsethik). By contrast, Robert Musil attempts to make an argument based on philosophical anthropology and the ethics of responsibility (Verantwortungsethik).
Ideias a respeito da Europa na Áustria do entre-guerras
Compararei os entendimentos divergentes do que seria a Europa entre os mais importantes escritores austríacos do período do entre-guerras. Esses escritores fornecem justificativas muito didiferentes para suas respectivas ideias sobre a coesão europeia. Enquando Hugo von Hofmannsthal argumenta numa linha estética, Stefan Zweig baseia seus ensaios sobre a Europa em convicções éticas (Gesinnungsethik). Em contraste com ambos, Robert Musil procura argumentar com bases na antropologia filosófica e na ética da responsabilidade (Verantwortungsethik).
Narrar nos ensaios de Musil e Benjamin
Erzählen bei Musil und Benjamin
No seu famoso ensaio O Narrador, Considerações sobre a obre de Michail Lesskow (1936) Walter Benjamin desenvolve reflexões sobre a perda de valor da “experiência” devido à revolução midiática e o trauma da guerra industrializada redundando na perda da capacidade narrativa na era moderna: “O Narrador – por mais que soe familiar esse nome – não está bem presente na nossa realidade viva e efetiva. Ele já se tornou para nós algo longínquo e algo que continua se afastando.” (GS OO.2, 438).
Poucos anos antes disso, Robert Musil, no seu romance O Homem sem Qualidades (1930-32-póstumo) atribui ao seu protagonista Ulrich a observação “que ele deu falta de uma experiência originária do épico, que a vida privada ainda preserva, embora na vida pública tudo tenha se tornado antinarrativo, e não segue mais o ‘fio vermelho’ mas alastra-se numa superfície infinitamente enredada.” (MoE 650)
O ‘fim da narrativa’ constitui, portanto, um diagnóstico típico da época dos anos 1920, porém provocou reações diversas: Se Benjamin continuava a exigir da “arte de narrar” que ela mantivesse a “história que ela narra livre de explicações” (GS II.2,445), Musil responde de modo diferente a essa problemática: ele concebe o romance ensaístico. Não é de se surpreender que Benjamin não tenha se entusiasmado pelo romance de Musil – e não só por razões estéticas. Assim, Musil por sua vez chegou à conclusão que era apenas consequente o fato que “comunistas e nacionalistas e católicos [...] adoram que se lhe contam histórias [ilusórias...]. A demanda surge de imediato, onde a ideologia se fortaleceu. Onde o objeto [do interesse] é dado.” (P 1412, GW II) O modo narrativo tradicional, que Benjamin honra com um elegíaco obituário, preenche, no entender de Musil, a função ideológica precária de criar uma certeza sem fundamento real. Minha fala reconstrói as reações divergentes dos dois autores à crise do narrar na modernidade, contrastando as visões de Musil e Benjamin.
Walter Benjamin and the youth movement at the beginning of the twentieth century
It is well known that young Walter Benjamin was a passionate youth activist for a couple of years. However, not many may know what exactly this „youth movement“ was supposed to be. Some identify it with pre-fascist movements, others suggest that it was oriented towards romanticism, a third party supposes that the youth movement was totally anti-political. Then there were so many groups of youth movement that it is barely possible to speak about „the youth movement“. There were groups of young workers as there were unions of young artists, poets, of athlets or people who wanted to live in nature or have a „natural life“, there were male groups and female groups, Christian or Jewish, nationalist or socialist groups. All called themselves as belonging to the „youth movement“. Young Benjamin stands at the center of my paper, I will ask how he interpreted the revolution of the youth, its goals and its ideas. And I will analyze how his mission as politician within the youth movement abruptly ended at the beginning of world war I when large parts of the male youth movement enthusiastically went into the war and were killed in the trenches of France Belgium, Russia or elsewhere. In my paper I will analyze how and by which means the idea of a revolutionary youth movement spread about the German society and how it affected young intellectuals.
W. Benjamin e o movimento de juventudo no início do século XX - Walter Benjamin and the youth movement at the beginning of the twentieth century
É bem conhecido que W. Benjamin, quando jovem, foi um ativista apaixonado por alguns anos. No entanto, poucos sabem o que era exatamente esse „movimento de juventude“, nem o que pretendia. Alguns o identificam com os movimentos pré-fascistas, outros sugerem que eles se orientava segundo as linhas do romantismo, ainda outros imaginam que o movimento de juventude tinha orientações totalmente anti-políticas.E também havia tantos grupos que é quase impossível falar „do movimentos de juventude“. Havia grupos de jovens trabalhadores, como havia sindicatos de jovens artistas, poetas, atletas que queriam viver na natureza ou „uma vida natural“; havia grupos masculinos e femininos, cristãos e judeus, nacionalistas e socialistas. Todos consideravam que pertenciam ao movimento de juventude“.
Minha pergunta é como o jovem Benjamin, que está no centro de minha fala, interpretou a revolução juvenil, seus objetivos e suas ideias. Analisarei como sua missão política no interior desse movimento cessou abruptamente no início da Primeira Guerra mundial, quando grande parte dos homens que pertenciam ao movimento se precipitaram na guerra com entusiasmo e terminaram morrendo nas trincheiras da França, da Bélgica, da Rússia, ou em outros lugares. Abordarei a questão de como a ideia de um movimento revolucionário da juventude se espalhou na sociedade alemã e como afetou os jovens intelectuais.
The great illusion of Walter Benjamin, Bertolt Brecht, and Theodor W. Adorno
In 1995 the French historian Francois Furet published his great work „Le passé d‘une illusion“. The titel focuses on the epochal illusion named Socialism. But where did the illusion come from. How did it emerge? Furet focuses on the role the intellectuals played in the process of spreading the grand illusion all over Europe. In my paper I will show how the desire for illusions and illusionism came up with the age of industrialization and was strengthened by the event of world war I. It surfaced on all levels of society: e. g. the worker‘s ideal that exploitation could be erased by the abolition of private capital. Craftsmen and artisans wanted to make the world brandnew, its furniture its fashion, its way to move the body… Composers wanted to radically purify the musical world. Directors wanted to bring theater on to the streets and the masses into the theater. Within the youth movement the illusion of a fundamental spritual renewal of the German imperium via „German Youth“ was forwarded. Last but not least, intellectuals started thinking about the idea of a secular kind of „redemption“ realized by a regime which would bring forward liberation from the exploitation of labour, the end of oppression, of poverty, and social inequality. These were not just abstract ideas, this way of thinking was rooted in the experience of the industrial revolution and equally in the horror of world war I. And many people were driven by them. In my paper I will analyze different forms of „redemption-thought“, all of them referring to a metaphysical dimension of politics.
A grande ilusão de W. Benjamin, B. Brecht e T.W. Adorno
Em 1995, o historiador francês François Furet publicou sua grande obra O Passado de uma ilusão. Seu foco é a ilusão que fez época – o socialismo. Mas de onde veio essa ideia? Como emergiu? Furet se concentra sobre o papel que os intelectuais assumiram no processo de divulgar a grande ilusão sobre a Europa. Na minha palestra mosrarai como o desjo de ilusões e ilusionismo emergiu na era da industrialização e se fortaleceu devido à Primeira Guerra mundial. Emergiu em todas as camadas da sociedade: no ideal dos trabalhadores de que a exploração poderia ser abolida junto com a abolição do capital privado. Artesãos e trabalhadores manuais queriam renovar o mundo, sua mobília e sua moda, além das maneiras de mover o corpo. … Compositores queriam purificar o universo musical de modo radical. Diretores de teatro queriam trazer drama e atuação para as ruas e as massas para dentro dos teatros. Com o movimento de juventude, promovia-se a ilusão de uma renovação espititual fundamental do Império através da „Juventude Alemã“.
E, por fim, intelectuais começaram a pensar numa espécie de „redenção“ secular através de um novo regime que liberaria a população da exploração no trabalho, poria fim à opressão, à pobreza, e a desigualdade social. Não se tratava de ideias apenas abstratas; esse modo de pensar tinha suas raízes na experiência da revolução intustrial e também no horror da Primeira Guerra mundial. E muitas pessoas se sentiam mobilizadas por elas. Analizarei diferentes formas do pensamento da „redenção“ – todas elas remetendo à dimensão metafísica da política.
A ideia da Europa Central e os judeus conservadores: Hugo von Hofmannsthal, Leopold von Andrian e Otto Maria Carpeaux
por Helmut Galle
O Império Habsburgo constituiu numa Europa moderna dos estados nacionais um anacronismo. Ao mesmo tempo sua constituição pluriétnica e multicultural garantiu uma convivência apreciada por certas minorias. Após a Primeira Guerra Mundial, a ideia da “Europa Central” prometeu, aparentemente, conservar essas vantagens num clima nacionalista e antissemita. Nessa situação, intelectuais austríacos de origem judaica apoiaram, paradoxalmente, correntes antidemocráticas e até fascistas para manter uma base de humanismo e tolerância. A palestra analisa com H. v. Hofmannsthal, L. v. Andrian e O. M. Carpeaux três casos muito específicos e destacados; Andrian e Carpeaux são particularmente interessantes porque, durante ocupação nazista, buscaram exílio no Brasil.
The idea of Central Europe and conservative jews: Hugo von Hofmannsthal, Leopold von Andrian e Otto Maria Carpeaux.
In the scenario of modern European national states, the Habsburg Empire was an anachronism. Its multiethnic and multicultural constitution, however, guaranteed a coexistence appreciated by certain minorities. After World War I, the idea of “Central Europe” apparently promised to retain these advantages in a nationalist and antisemitic climate. In this situation, Austrian intellectuals of Jewish origin paradoxically supported undemocratic and even fascist currents to maintain a basis of humanism and tolerance. The lecture analyzes three very specific and outstanding cases: H. v. Hofmannsthal, L. v. Andrian and O. M. Carpeaux. Andrian and Carpeux are particularly interesting because, during Nazi occupation, they sought exile in Brazil.
Musil e Benjamin sob o olhar pós-moderno de Michel Maffesoli.
Do homem sem qualidades ao cotidiano sem aura e ao reencantamento do mundo. Uma reflexão sobre o contemporâneo a partir da noção de pós-modernidade sustentada pelo sociólogo francês Michel Maffesoli, que busca frequentemente elementos nas obras de Robert Musil e Walter Benjamin de modo a amparar a sua interpretação do vivido.
Sensibilidade e intelecto em crise. As perspectivas caleidoscópicas de Musil e Benjamin
por Kathrin Holzermayr Rosenfield
A riqueza da literatura austríaca e suas perspectivas multifacetadas receberam um destaque atual pela premiação da obra de Peter Handke. Essa inscreve-se numa tradição peculiar que cultivou olhares diferenciados para os dilemas legados por um país multicultural que não soube adequar seus costumes aos desafios da modernidade. Em que medida a Áustria se compara à Alemanha da primeira metade do século XX? Os ensaios de Musil e Benjamin iluminam esses dilemas (e diferenças) de Áustria e da Alemanha com ensaios que abordam quase os mesmos temas – porém chegando a elaborações muito diversas. Minha fala se debruça sobre o papel que ambos autores atribuem à religiosidade no mundo contemporâneo e sobre a relação da vida espiritual com as ciências exatas. Religiosidade no sentido lato abarca para Benjamin e Musil a questão da ética da literatura e a tarefa do narrador-tradutor.
Stefan Zweig no Brasil e suas procuras em tempos de crise
por Gerson Neumann
O diálogo entre intelectuais muitas vezes é reforçado é tempos de crise, ocorrendo uma união em prol de algo maior. Será que os tempos de crise vividos por períodos de conflitos marcantes, como as guerras mundiais, colocaram em contato os pensadores Walter Benjamin (nascido em 1892), Robert Musil (nascido em 1880) e Stefan Zweig (nascido em 1881)? Interessa especialmente o contato de Stefan Zweig com os dois outros escritores referidos devido ao seu contato com o contexto brasileiro e por sua obra ser revisitada no momento atual, marcado novamente por uma onda de crise.
Stefan Zweig in Brazil and his Quest in Times of Crises.
The dialogue between intellectuals is often strengthened in times of crisis, creating a bond and a quest something greater. Did the crises of the two world wars bring together thinkers Walter Benjamin (born 1892), Robert Musil (born 1880) and Stefan Zweig (born 1881)? Stefan Zweig's contact with the other two mentioned writers is especially interesting because of his involvement with Brazil and the beginning recurrance of similar crises which make it worth while to revisit his work.
O telefone: Promessa e ameaça em Walter Benjamin e Franz Kafka
por Robert Schade
O telefone se apresenta em obras de Franz Kafka (Der Verschollene) e Walter Benjamin (Berliner Kindheit um 1900) ao mesmo tempo como promessa e ameaça. Kafka, por exemplo, se interessava pessoalmente por essas questões: A sua noiva, Felice Bauer, trabalhava para a empresa Carl Lindström AG que na época produzia gramofones e parlographos. Eles discutiram novas possibilidades e desenvolvimentos técnicos. Da perspectiva do observador infantil (o jovem Walter Benjamin e Karl Rossmann, protagonista do romançe de Kafka, Der Verschollene) se percebe o estabelecimento do telefone na vida cotidiana. A materialidade do telefone que envolve uma certa mecanização e desumanização do corpo humano deixa perceber a nova experiência como um ato violento e desorientado. Através do telefone se petrificam hierarquias, ao invés de possibilitar uma comunicação dialógica.
The telephone: Promisse and threat on Walter Benjamin and Franz Kafka
The telephone presents itself in works of Franz Kafka (Der Verschollene) and Walter Benjamin (Berliner Kindheit um 1900) both as a promise and a menace. Kafka, for instance, was personally interested in technical matters: His fiancé, Felice Bauer, worked for the Carl Lindström AG, which produced phonographs and parlographs. They discussed new possibilities and technical developments. From the perspective of the young observer (the young Walter Benjamin as well as Karl Rossmann, protagonist of Kafka‘s novel Der Verschollene) one remarks the establishment of the telephone in quotidian life. The materiality of the telephone which involves a certain mechanization and dehumanization of the human body makes them perceive the new experience mainly as a violent and desorienting act. The telephone petrifies hierarchies instead of making a dialogic communication possible.
Benjamin e Kafka - Variações sobre o despertar
Resumo: Pretende-se abordar nesse texto de que modo se evidenciam, em obras de Walter Benjamin e Franz Kafka, expressões do “despertar” à realidade, a partir do “desencantamento” ou “desidolatrização” da visão geral de um universo cultural maciço desconstruído imagética e linguisticamente pela chave da temporalidade.
Kafka e o caminho para o romance da violência desde Benjamin.
por José Vicente Tavares dos Santos
Encontramos na obra de Franz Kafka a expressão da crise do indivíduo, dos limites da racionalização e das metamorfoses da injustiça e do poder disciplinar e burocrático na sociedade contemporânea. Sua obra retrata as ansiedades e a alienação do homem do século XX, imerso na grande cidade, fragmentada e inacabada. Retomar analiticamente suas formulações literárias, do início do Século XX, via nos fornecer alguns elementos morfológicos e expressivos para a análise do romance da violência contemporâneo na América Latina. Kafka produziu uma espécie de modelo do mundo social da luta simbólica em várias dimensões, desde a relação originária – a relação com o pai – até a relação com a sociedade dominante, em termos de um tipo ideal: uma máquina que produz uma incerteza e, ao mesmo tempo, opacidade e violência. Seus romances e contos expressam a injustiça da dominação, configurando o relato de um mundo deslocado no qual o anormal é o normal - a reificação do mundo - nos escritos de um “fabulador realista”. Em seus livros, é constante o confronto entre os personagens e o poder das instituições, ou das organizações, demonstrando a alienação, a impotência e a fragilidade do ser humano, identificado por sua profissão. O lugar do homem é o alheio, o hostil. Seu estilo de linguagem é marcado pelo realismo, pela crueza e pelo detalhamento com que descreve situações incomuns com uma fixação do estranhamento. Vamos analisar duas obras: O desaparecido ou Amerika (1912-1914) e a novela Na colônia penal (1914). Muda a figura do herói em relação ao romance realista do século XIX, pois há um estreitamento das possibilidades no espaço social e uma insensatez das instituições ao produzir uma ilusão de segurança. Walter Benjamin destacou a importância da obra de Edgard Allan Poe, resgatado por Charles Baudelaire. E assinala que é possível perceber alguns elementos utópicos na obra de Kafka: há alguns personagens que portam uma esperança, os loucos, os ajudantes e os estudantes; lembra, ainda, que a obra de Kafka é profética ao assinalar as distorções da existência humana; e percebe uma fixação no tempo, uma paralisação dos acontecimentos em imagens isoladas, de modo que permanece um inacabado em seus romances, um círculo sem desenlace, ou fragmentos sem fim, inconclusos. Kafka - leitor de Poe, Conan Doyle e de G.K. Chesterton – percebia nestes autores o fantástico como expressão de uma ausência de sentido do mundo. Kafka realizava uma leitura crítica do romance policial dizendo que este, ao concentrar o olhar sobre os fatos criminais extraordinários, reforça a ordem e torna invisível a criminalidade ordinária. Reaparecem, em suma, os efeitos da literatura de Kafka em quase estabelecer outras condições de possibilidade para o romance do século XX, seja para o roman noir ou para o romance da violência.