II Colóquio Nacional
O Pensamento de Álvaro Vieira Pinto
II Colóquio Nacional
O Pensamento de Álvaro Vieira Pinto
Honrar um pensador não é elogiá-lo, nem mesmo interpretá-lo, mas discutir sua obra, mantendo-o, dessa forma vivo e demonstrando em ato que ele desafia o tempo e mantém sua relevância (Castoriadis, 1985, p. 7)
Álvaro Vieira Pinto (1909 - 1987) é uma dessas figuras cujo legado vai sendo construído em dois movimentos ao longo da história, em tempos bem distintos. Num primeiro momento é o movimento do próprio autor ao longo de sua vida e sua produção de conhecimentos. Num segundo momento é o movimento de resgate e reescrita do papel do filósofo em nosso país. Ambos movimentos foram muito dinâmicos no que se refere a Vieira Pinto. Viveu uma interessante interação com a tradição filosófica, tendo escrito, por exemplo, sobre Platão. E promoveu uma expansão de sua produção e ocupação pública de espaços onde pôde fazer interagir suas ideias com diferentes públicos até o golpe de estado de 1964. Com o fim do ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros e exilado, viveu experiências desafiadoras na Iuguslávia e, sobretudo, no Chile, sem parar de pesquisar e publicar. De volta ao Brasil, experimentou o cerceamento a sua voz pelo regime de exceção, mas continuou atuando na tradução de obras e na escrita, mesmo sem ter tido algumas de suas obras publicadas. Conhecer Álvaro Vieria Pinto – AVP – por meio dos que escreveram sobre ele é, portanto, uma tarefa que merece cuidado, dado que, se por um lado, ao findar a vida, encerra sua produção, talvez ainda não tenhamos encerrado o resgate de seus escritos inéditos. Esse trabalho tem sido uma obra coletiva, dado que as interdições, por vezes construídas ao longo do tempo, só permitiram que sua obra fosse mais plenamente conhecida na primeira década deste século.Tendo falecido em 1987, análises feitas sobre seu pensamento antes do novo século ignoraram, por exemplo, os dois tomos de O Conceito de Tecnologia (2005) e as mais de 400 páginas de A Sociologia dos Países Subdesenvolvidos (2008). Pudemos ser agraciados com essas publicações 20 anos depois de sua morte. E, talvez, ainda se encontre mais inéditos que nos revelarão outros elementos do seu pensamento. Há um interessante relato feito pelo pesquisador sobre idas e vindas na pesquisa a respeito da vida e obra de Álvaro Vieira Pinto.
Além de seu conhecimento filosófico propriamente dito, reconhecido por diferentes pesquisadores, outras áreas do conhecimento tiveram contribuição qualificada de AVP como a demografia, à qual se dedicou no exílio no Chile; a educação, que é tema importante e recorrente em sua obra; a ciência, tecnologia e metodologia científica; sociologia, desenvolvimento, nacionalismo, terceiro mundo e cibernética.
Ainda que parte da academia, especificamente a comunidade de pesquisa filosófica nos programas de pós-graduação em filosofia nas universidades brasileiras ignorem o pensamento de AVP como é comum acontecer com pensadores/as brasileiros/as, suas ideias encontraram outros caminhos de difusão e interação. Num processo recente de busca incipiente pela internet, facilmente foram encontrados mais de 40 (quarenta) publicações diretamente tratando do pensamento de AVP entre teses de doutorado, dissertações de mestrado, livros e, sobretudo, artigos. Em geral, tais publicações são oriundas de autores e autoras que atuam em diferentes campos do conhecimento: educação, ciências sociais em geral, tecnologia e, algo residual, em filosofia. Há, ainda, algumas dezenas de publicações que se referem indiretamente a AVP ao tratar de temas como desenvolvimentismo, tecnologia, educação, história do Brasil. Um eixo importante de citações está nas referências ao ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros (criado em 14 de julho de 1955 e extinto pela ditadura em abril de 1964) no qual AVP trabalhou e do qual foi dirigente.
Nossa perspectiva é fazer uma apresentação particular do filósofo AVP contribuindo para compreendê-lo como um de nossos principais filósofos brasileiros do século XX e que seu pensamento é pertinente e atual para alguns dos desafios colocados para a sociedade brasileira nestas primeiras décadas do século XXI. Apresentaremos basicamente algumas notas sobre a recepção de seu pensamento e outras sobre algumas de suas contribuições no campo educacional. (De Pedro Gontijo).