Primórdios
Em meados de 1973, em Ponta Delgada, por ocasião de uma audição do novo disco do Zeca Afonso, o João Medina, terceirense prestando serviço militar em S. Miguel, o João Bernardo e o Eduardo Pontes lembraram-se de criar um cineclube que juntasse não só os que estavam politicamente envolvidos, embora pela calada, mas também os admiradores da 7ª arte. Esta ideia veio no seguimento de, um ano antes, o João Medina, também aquando do serviço militar na Cidade do Porto, ter frequentado o Cineclube do Porto e acalentado a ideia de se criar uma associação do género em Angra do Heroísmo.
No ano seguinte, em 1974, numa série de reuniões na sede do jornal O Trabalhador, na Rua de São João, em Angra do Heroísmo, essa ideia foi reforçada pelos presentes, incluindo o poeta José Henrique Santos Barros, e passou-se logo à ação, contatando o Cineclube do Porto, cujos membros forneceram uma cópia dos seus estatutos e vários textos de apoio dos filmes que já tinham exibido, para servir de modelo ao que se poderia fazer.
Contudo, foi somente em 1976, num convívio onde estava o Marcelo Bettencourt Lima, o qual era igualmente amante de cinema, que se sedimentou a ideia e se iniciaram os contatos com a Fanfarra Operária Gago Coutinho e Sacadura Cabral, na pessoa dos seus dirigentes, tais como Aurélio Lobão, Luís Afonso, o homem dos filmes, e Celso Rodrigues, que se mostraram bastante entusiasmados com a ideia. Será de toda a justiça mencionar que a Fanfarra Operária foi de extrema importância para que o Cine-Clube da Ilha Terceira funcionasse.
O grupo de jovens do Chá Barrosa, um café popular na Rua Direita, em Angra do Heroísmo, composto, entre outros, por Victor Medina, Rui Rodrigues, Filipe Sancho, Mário Duarte Machado, Manuel de Meneses Martins e José Lúcio Lima, acalentaram também a ideia e manifestaram o seu apoio, porque todos eles procuravam, de igual modo, o bom cinema que fugisse ao cinema comercial, popular, que divertia, mas não tinha muita qualidade.
Apraz dizer que nesse mesmo ano nascia o Grupo de Informação Cinematográfica (GIC) que, no atrevimento da juventude dos seus membros, publicava o Boletim Cinematográfico com número zero a sair em 9 de junho de 1976, para ser gratuitamente entregue aos espectadores de cinema nas salas de exibição em Angra do Heroísmo. Digo atrevimento, porque nenhum de nós era crítico de cinema. Apenas gostávamos, e muito, de bom cinema.
O GIC era apoiado pela Casa da Cultura da Juventude e pela Fundação de Apoio aos Organismos Juvenis (FAOJ) onde funcionava, e era composto por Albano Silva, José Elmiro Dores, Rui Rodrigues, José Lúcio Lima, Manuel Martins, entre outros, que pesquisavam na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo, atrás da Igreja da Sé, copiando os artigos publicados em revistas como a Mundial, e a Flama e em jornais como o República e outros, sobre filmes que estivessem programados para a Recreio dos Artistas, o Teatro Angrense e a Fanfarra Operária, a qual foi sempre muito colaboradora.
Como contrapartida à entrega de informação sobre os filmes relevantes, teríamos direito a ver o filme gratuitamente. Ora bem, merecíamos. A pesquisa não era assim tão simples, como pode parecer atualmente. Tínhamos de tomar notas manuscritas, ou mesmo copiar todo o artigo, para depois em casa fazermos a versão final com base, também, em outras publicações, para que depois fosse dactilografada numa folha de papel encerada.
Para que houvesse cópias, a folha encerada seria presa no tambor da policopiadora na Fundação de Apoio à Juventude (FAOJ) e acionada por uma manivela que fazia passar a tinta pelos orifícios das letras inscritas na folha encerada. Nessa época, em 1976, nem sonhávamos com fotocopiadoras, nem computadores, nem, muito menos, com telemóveis para fotografar o artigo e assim evitar a trabalheira de tomar notas a caneta e papel.
Dos arquivos do José Elmiro Dores obtivemos 7 boletins com datas desde 9 de junho a 17 de outubro de 1976, sendo que o número zero comentava sobre os filmes “Jerry, Ama Seca de Frank Tashlin com Jerry Lewis e o “American Graffiti, Nova Geração” de George Lucas. Do número zero extraímos o seguinte texto:
EM JEITO DE APRESENTAÇÃO
O Grupo de Informação cinematográfica surge ligado à Casa da Cultura da Juventude e tem o apoio do F. A. O. J. (Delegação em Angra).
Através da recolha e seleção de textos e notas críticas sobre cinema e seus autores, propõe-se, deste modo, contribuir junto do cinéfilo angrense, com um número de dados que lhe permitam situar-se minimamente em relação à obra que vê, e, enquanto grupo interessado na prática crítica do cinema, alargar, tanto quanto possível, os limites da sua intervenção.
Esta iniciativa mereceu, além dos apoios atrás referidos, o dos responsáveis pela programação cinematográfica das três casas angrenses. E isso é já um estímulo. Estão de parabéns todos aqueles que, como nós, amam o cinema.
Número zero do Boletim Cinematográfico publicado pelo G I C a 9 de junho de 1976.
Em reuniões em casa do João Medina, em 1976, com um grupo já bem mais alargado, escrevem-se os estatutos com base nos do Cineclube do Porto, mas somente no início de 1977, não conseguimos determinar com precisão a data, os três grupos, Chá Barrosa, Caixa de Previdência e Fanfarra Operária, acordaram na versão final do que veriam a ser os Estatutos do Cine-Clube da Ilha Terceira (CCIT).
Sócios fundadores do Cine-Clube da Ilha Terceira, da esquerda para a direita: Rui Rodrigues, José Lúcio Lima, Victor Medina, Mário Duarte Machado, João Medina, Manuel Martins, Luís Afonso, Celso Rodrigues, Marcelo Bettencourt Lima e Aurélio Lobão. Fotografia de Mário Duarte Machado
Logotipo como em 1977. (desenho: Manuel Meneses Martins)
Numa reunião anterior a 30 de setembro 1977, foram designados os elementos que seriam os sócios fundadores. Foram eles: do grupo da Caixa de Previdência 3 elementos, Marcelo Bettencourt Correia de Lima, Celso José Rodrigues e João Fernandes Soares Medina; do grupo do Chá Barrosa 5 elementos, Rui Rodrigues, Victor Manuel Soares Medina, Mário Duarte da Costa Machado, Manuel de Meneses Martins e José Lúcio Gomes de Lima; e da Fanfarra Operária 2 elementos, sendo Luís Manuel Borges Afonso e Aurélio Fernandes Lobão, este sendo escolhido para primeiro presidente da direção do CCIT. A criação do logotipo ficou a cargo de Manuel de Meneses Martins que se mantém até hoje.
Conforme artigo no Diário Insular, publicado a 18 de janeiro de 1978, o “Cine-Clube da Ilha Terceira só poderá exibir para sócios, exibições essas que se farão semanalmente às segundas-feiras ou sábados, respetivamente na Recreio dos Artistas ou na Fanfarra Operária, cujas salas foram amavelmente cedidas para esse efeito, por essas coletividades culturais.
A sua fundação, por escritura no Cartório Notarial de Angra do Heroísmo, foi no dia 30 de setembro de 1977 e reuniu a sua primeira Assembleia Geral no dia 17 de novembro para eleição dos corpos gerentes para o triénio 77-78 que ficaram assim constituídos:
Mesa da Assembleia Geral:
José Guilherme Fernandes (Presidente),
Carlos Coelho (Vice-Presidente)
Gabriel Pavão (Secretário);
Conselho Fiscal:
Raul Martins (Presidente),
Luís Carlos Vasconcelos (Relator)
Fernando Rocha (Secretário);
Direção:
Aurélio Fernandes Lobão (Presidente),
Marcelo Bettencourt Correia de Lima (Vice-Presidente),
Celso José Rodrigues (Tesoureiro),
Rui Rodrigues (1º Secretário),
João Fernandes Soares Medina (2º Secretário),
Luís Afonso (Vogal).
Desta Direção fará parte um representante das secções, a eleger de acordo com o art.º 28º dos Estatutos.”
Em conversa com Marcelo Bettencourt Lima, vice-presidente do CCIT, mas, na prática, presidente em exercício, o fato de o “cineclube ter vingado na Ilha Terceira deveu-se à regularidade com que exibia, a documentação que apresentava todos os sábados sobre o filme que exibia, a certeza que o espaço cinematográfico estava ali para os sócios, e isto foi, no meu ponto de vista o que facilitou em muito que o cineclube existisse durante vários anos”.
Também referiu o facto de “na altura, quando se formou o cineclube, havia uma grande dúvida, aqui na Ilha Terceira, sobre se o cineclube seria uma forma de o Partido Comunista dominar uma estrutura, em termos de intervenção política, ou através dela. Eu faço essa referência porque na generalidade dos cineclubes no país isso aconteceu na altura, como não aconteceu na Ilha Terceira. Nós sempre tivemos uma forma de funcionamento que não tinha nada a ver com a ideologia dos seus sócios, nem isso era fator que interessasse para a organização do cineclube”.
Foi pedida uma reunião com o Secretário Regional de Educação e Cultura, o dr. José Guilherme Reis Leite, e foi concedido um bom apoio, assim como também da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo e do Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis, que apoiaram o cineclube.
O transporte dos filmes de Lisboa para a Ilha Terceira era oneroso e dificultava imenso uma contínua exibição dos mesmos, devido às dificuldades e aos custos do transporte. Numa das reuniões mais importantes efetuadas na altura, além da definição de uma estratégia, fez-se a nomeação do grupo que iria negociar com a Base Aérea n.º 4 o transporte dos filmes nas aeronaves militares da Força Aérea portuguesa que faziam os voos de Lisboa para o aeroporto das Lajes.
Boletim Informativo Intervalo publicado pelo CCIT e realizada pela Secção de Documentação e Divulgação.
Esse grupo, que incluía o Luís Afonso, o homem dos filmes e das distribuidoras, reuniu-se com o capitão José Lourenço, à altura o responsável pelo já extinto Cinema Azória na Base das Lajes. Nessa reunião ficou acordado que o transporte seria feito nas aeronaves militares, e em contrapartida os filmes seriam exibidos de forma graciosa no Cinema Azória. O Rui Rodrigues seria o encarregado pela programação e um elemento do CCIT acompanharia o Luís Afonso a Lisboa para a escolha do lote de filmes a serem exibidos. É bom lembrar que os filmes eram escolhidos em lotes nas distribuidoras e não um a um, por isso num lote vinham muitos filmes comerciais que atraíam o público e entre eles alguns com mais qualidade, mas menos vendáveis, que seriam para exibição pelo CCIT, trazendo portanto vantagens mútuas quer para a Fanfarra Operária como para o Cineclube.
Depois da legalização e da primeira Assembleia Geral, houve a necessidade de iniciar o quanto antes a exibição dos filmes. Recordo uma reunião, muito acalorada, porque estavam em cima da mesa dois filmes com conteúdos fortes, sendo um deles com carga ideológica bastante exposta. Um dos filmes era “O Couraçado Potemkin” de Serguei Einsenstein, filmado em 1925 e apresentado em Portugal somente em 1974. Este filme mostra a revolta dos marinheiros do couraçado, que não queriam ser maltratados, ao ponto de os obrigarem a comer carne estragada. Esta revolta originou uma série de outras que levaram depois na Rússia à Revolução de outubro de 1917. O outro filme foi “A Nave dos Loucos” de Stanley Kramer, filmado em 1965, baseado no livro homónimo de Katherine Ann Porter. A história decorre em 1933, num paquete de luxo em viagem do México para a Alemanha, com personagens como uma aristocrata espanhola deportada como prisioneira política, pela atriz Simone Signoret, um ex-jogador de basebol e alcoólico, por Lee Marvin, e um potencial nazi dado a brutalidades, José Ferrer, que representava o holocausto que se seguiu na Segunda Guerra Mundial. Após o debate seguiu-se a votação e optou-se por “A Nave dos Loucos” porque na situação política em 1977, “O Couraçado Potemkin” seria, em sentido figurado, um tiro de canhão no recém-criado Cine-Clube da Ilha Terceira.
A exibição do primeiro filme do CCIT foi na Sociedade Filarmónica de Instrução e Recreio dos Artistas, no dia 16 de janeiro de 1978, para a qual foram convidados os responsáveis das instituições que concederam apoios, foi distribuído um desdobrável, do qual destacamos seguinte texto que achamos importante:
“Pode parecer curioso justificar o aparecimento deste Cine-Clube. Por amor à Arte? Ao Cinema? Por amor a quê? Ao associativismo? – Talvez por tudo isto e muito mais. A ideia não é recente, simplesmente materializou-se. No fundo, do entusiasmo de Julho, ao planeamento de Agosto, à organização de Setembro a Dezembro surge o Cine-Clube (no capítulo do Cinema), em Janeiro de 1978.
Agora o trabalho é de outra natureza – trata-se de, em todas as iniciativas, transmitir o máximo de informação possível, de crítica, sem pretensões de cultura erudita, tendo em vista simplesmente nesta finalidade em concreto, auxiliar o Homem, através da 7ª Arte”.
Como previsto nos estatutos, constituíram-se três secções no CCIT. A Secção de Fotografia, que reuniu pela primeira vez a 11 de dezembro de 1977, foi animada por Mário Duarte da Costa Machado e Mário Silva, e realizou duas exposições, sendo a primeira anunciada na comunicação social e apresentada no Salão de Festas da Fanfarra Operária, de 21 a 29 de outubro de 1978, reunindo trabalhos fotográficos de amadores locais. A outra secção dedicou-se ao Cinema de Animação e Curtas-Metragens, na pessoa do sócio Manuel de Meneses Martins, tendo gerado um pequeno filme de movimento de bonecos animados, e realizado, em 1979, um documentário em Super 8mm, “Danças de Entrudo”, o qual foi enviado ao Festival de Super 8 de Toronto, tendo sido projetado com o número 169 em Fatos e Documentários. Foi uma das duas produções portuguesas no festival. A Secção de Documentação e Divulgação foi a mais importante, porque preparava o Boletim Cinematográfico com o nome de Intervalo, que era fornecido aos sócios com textos sobre o filme a ser exibido, sendo produto do trabalho de Rui Rodrigues, Albano Silva, Filipe Sancho, José Elmiro Dores, Victor Medina, entre outros. O primeiro número do boletim foi distribuído aos sócios no dia 29 de dezembro de 1977. O Filipe Sancho foi eleito para a Direção como representante das secções.
Da primeira edição do Intervalo apuramos que tinha como missão a divulgação do recém-criado Cine-Clube, seus estatutos, seus objetivos e atividades. A primeira edição do boletim apresentava, em traços gerais, os propósitos educativos e formativos de um Clube que se assumia não ser, apenas, “mais uma casa de espetáculos”. Pelo contrário, seria “um Clube através do qual podemos ter acesso a cinema de qualidade, bem como a outras atividades afins ou complementares (fotografia, animação, etc.)”.
Nesta assunção de intenções torna-se claro o objetivo de tratar a 7ª Arte de forma a que “a ela possamos ter acesso, mediante a preparação de cada filme a exibir (elaboração para distribuição antecipada de: dados, críticas, fichas técnicas, etc.) de maneira a apreciarmos o Cinema nos aspectos de maior interesse social. Pretendemos pois dar a conhecer os vários aspectos do Cinema, ao examiná-lo, discuti-lo, aprendê-lo e deste modo convertê-lo num instrumento de formação e de penetração no mundo pelo caminho da imagem.”
Folha de locução do programa “Isto é Cinema” no Rádio Clube de Angra, com as anotações “R” para o Rui Rodrigues e “T” para o Tibério Cabral, ambos já falecidos.
Um dos muitos artigos publicados no suplemento Espetáculo do Jornal A União, a 22 de junho de 1979.
Claramente uma missão de educação e formação de espectadores, uma missão de criação de públicos informados e estruturados, educados a ver Cinema de uma forma crítica e sempre contextualizada – ora no que diz respeito à intenção e objetivos do realizador ora no que diz respeito às técnicas e estratégias cinematográficas. Nota-se esta noção de que sem informação prévia, e sem contextualização, o ato de ver um filme se resume à sequência narrativa da história, sem outras ilações que as meramente narrativas e interpretativas.
Conforme pesquisa efetuada pelo Rogério Sousa nos arquivos de José Elmiro Dores, que forneceu muita informação sobre as atividades do Cineclube desde o seu início até à atualidade, o CCIT “dinamizou igualmente um suplemento do jornal “A União”, intitulado “Espetáculo”, assim como um programa de rádio de 25 a 30 minutos, chamado “Isto é Cinema”, transmitido no “Rádio Clube de Angra” com a locução de Rui Rodrigues, Tibério Cabral e Maria Goreti. Tinha o apoio técnico de Macedo Garcia e a realização de Albano Silva, Filipe Sancho, José Elmiro Dores, Marina Bettencourt, Rui Rodrigues e Tibério Cabral. Foram realizadas três emissões do programa, a 19, 23 e 30 de novembro de 1979.Para comemorar o primeiro aniversário do Cine Clube, foi anunciado um ciclo de cinema de Charles Chaplin, com quatro filmes apresentados na Fanfarra e no Salão Teatro Praiense. Não foi o único, havendo outros, como o ciclo de Ingmar Bergman, com a exibição de cinco filmes.
Em conversa com o psicólogo João Lemos, soubemos que foi o primeiro funcionário do Cineclube, em 1980 e 1981, tendo estado encarregue da logística. Nesta altura, depois de ter cumprido o serviço militar, estava tirando o que lhe faltava no ensino secundário para poder entrar na faculdade em Psicologia. Uma vez que o Marcelo Bettencourt aceitara outras responsabilidades profissionais, que o impediam de acompanhar o cineclube na logística, foi necessário contratar, com descontos para a Segurança Social e tudo, o primeiro e único funcionário do Cine-Clube da Ilha Terceira. João Lemos foi esse funcionário.
Da sua entrevista registamos o seguinte: “…eram filmes que faziam as pessoas pensarem. Filmes de diferentes nacionalidades, selecionados com um critério neutro porque não havia uma tendência para optar por uma determinada linha, mas sim era abrangente que permitiam a reflexão que o cinema permite às pessoas. Foi também muito gratificante ver como o cineclube teve um papel fundamental e levou à adesão da sociedade desde jovens adolescentes, a partir dos seus 13 a 14 anos, talvez menos, até pessoas com 60 e 70 anos que frequentavam regularmente as exibições do cineclube durante aquele período”.
Em 1982, uma representação do Cine-Clube da Ilha Terceira deslocou-se ao X Encontro de Cineclubes em Torres Vedras, que se realizou de 29 de outubro a 1 de novembro, tendo sido justificada como “um passo significativo que demos, finalmente, ocuparmos o lugar que, de direito, nos cabe, dentro do movimento cine clubista português”, este texto foi retirado do relatório que a representação arquivou no CCIT. Este encontro foi o contato do Cine-Clube da Ilha Terceira não só com mais de 20 cineclubes como também com a Federação Portuguesa de Cineclubes.
Nos anos oitenta, não conseguimos por agora uma data precisa, o Filipe Sancho foi eleito Presidente da Direção do Cine-Clube da Ilha Terceira, acompanhado pelo Carlos Fragoso, Agnelo Meneses, Mena Amorim, Maria José Henriques, entre outros.
A 4 de janeiro de 1986, deparamo-nos com um artigo de Nélio Lourenço no jornal Diário Insular, com o título “Morreu o Cine-Clube” reclamando do cinema de fraca qualidade, que se projetava em Angra, e que “restava o Cine-Clube, que, de fato permitia aos cinéfilos uma agradável tarde de sábado”. Logo a seguir, escreveu “há semanas desloquei-me do Raminho a Angra com o objetivo de assistir à projeção do filme “O Leopardo”. Mas como se costuma dizer “dei com o nariz na porta”. E aliás, não fui só eu. No entanto, nenhuma explicação é dada aos sócios. E por mais incrível que pareça, o cartaz anunciando o dito filme ainda se encontra na Praça Velha”.
Depois deste artigo de um cinéfilo ressentido pela falta das exibições de filmes de qualidade pelo cineclube, em nome de muitos outros, terminamos a nossa pesquisa dos anúncios de filmes na comunicação social. Responsáveis na altura pelo cineclube justificaram esta falta com base na indisponibilidade financeira do CCIT, devido ao não pagamento das quotas pelos sócios. Numa folha de sala menciona-se que dos 1400 sócios a grande maioria não pagava a quota, e da fraca presença de espectadores nos filmes, chegando a haver quatro ou cinco, o que segundo os mesmos, poderia ter sido causado pelo início da televisão a cores.
Depois das 37 exibições de cinema pelo Cine-Clube da Ilha Terceira em 1985, que não superou os anos de 1978 e 1979 com 65 e 73 respetivamente, a atividade do cineclube diminuiu muito. Com o advento do VHS, sistemas de “Home Cinema”, e o progressivo afastamento das pessoas das salas de Cinema, a partir do final da década de 80, o Cine-Clube da Ilha Terceira viu a sua atividade ser gradualmente diminuída até deixar de fazer exibições, no início da década de 90, tendo sido oficialmente extinto no ano de 2004.
Reativação
A 20 de março de 2013, um grupo de amantes do Cinema, constituído por entusiastas e todos os sócios fundadores do antigo Cine-Clube vivos à data, em Assembleia Geral ad hoc, votaram no sentido da reativação do Cine-Clube da Ilha Terceira, resgatando desta forma uma associação de enorme importância para a história do Cinema na cidade de Angra do Heroísmo, e na ilha Terceira.
Para assinalar a reativação do Cine-Clube da Ilha Terceira, o primeiro filme exibido foi precisamente “A Nave dos Loucos”, na sala de cinema da Sociedade Filarmónica de Instrução e Recreio dos Artistas, que aconteceu a 23 de abril de 2013.
Desde a sua refundação, a atuação do CCIT desenvolveu-se em torno de cinco vetores fundamentais, a saber: o desenvolvimento de atividades no contexto de uma rigorosa contenção de custos; a determinação na realização de atividades, tanto quanto possível, regulares; o estabelecimento de parcerias; o desenvolvimento de ações junto do público escolar e a criação de novos públicos.
Desde então, o CCIT tem vindo progressivamente a aumentar a sua dinâmica, com novas atividades, iniciativas e parcerias, como parte do desenvolvimento do projeto cultural intitulado Cinema – Nova Literacia e Novos Públicos, proposto pela Direção para 2025-2027, que se orienta pelo objetivo da continuação da criação de uma nova literacia cinematográfica e de novos públicos, com especial enfoque nas camadas mais jovens, concedendo entrada livre nas suas sessões a todos os menores de 18 anos (inclusive), como medida de estimular as camadas juvenis para o cinema de qualidade.
O CCIT pretende dar continuidade ao projeto O Cinema da Minha Vida, ao projeto Cine Atlântico – Mostra de Cinema Português Contemporâneo, e à extensão do Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela Cine’Eco; assim como promover sessões de cinema extraordinárias, sessões de ciclos temáticos.
Pretende também o CCIT potenciar o projeto Lanterna Mágica, baseada no programa do Plano Nacional de Cinema, com o objetivo de facilitar o acesso dos mais novos a uma cultura cinematográfica diferente, e apoiar a Escola Básica e Secundária Tomás de Borba num projeto de divulgação cinematográfica, em articulação com o projeto Lanterna Mágica e com o Plano Nacional de Cinema, com o objetivo de criar novos públicos escolares, fomentando o gosto e o interesse pelo cinema em contexto escolar de formação.
Artigo sobre a história do Cine-Clube da Ilha Terceira: