AYKO AYOBINAN
Jovem oriundo da Baixada Fluminense, Ogan do Ilê Omiojuarô, produtor cultural, musicista e estudante de Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sua trajetória articula cultura, educação, territorialidade e ancestralidade, desenvolvendo iniciativas voltadas ao fortalecimento das culturas afro-brasileiras, da formação comunitária e da valorização dos saberes ancestrais como instrumentos de transformação social.
21/07/2026 | 09h34
Atualização: 23/07/2026 | 08h07
A educação não começa e nem termina nos muros das escolas. Ela nasce da experiência humana, das relações construídas no cotidiano, das histórias compartilhadas, dos saberes transmitidos entre gerações e das formas que cada comunidade encontra para compreender e transformar o mundo. A Pedagogia do Território Vivo nasce dessa compreensão: o território não é apenas um espaço físico delimitado por mapas, mas um organismo social onde memórias, afetos, conflitos, conhecimentos e identidades são constantemente produzidos.
Essa perspectiva parte também de uma experiência vivida. Ela nasce do olhar de quem cresceu atravessado por um território onde o terreiro, a cultura popular, as manifestações comunitárias e as relações de vizinhança fizeram parte da formação humana. Antes de compreender os conceitos acadêmicos de cidadania, educação popular, saúde coletiva, direitos humanos ou relações étnico-raciais, esses conhecimentos já estavam presentes nas práticas comunitárias, nas conversas entre mais velhos, nas festas, nas rodas de samba, nos encontros culturais e nos ensinamentos transmitidos pela ancestralidade.
Nesse sentido, o terreiro ocupa um lugar fundamental como espaço educativo e civilizatório. Muito além de uma dimensão religiosa, os terreiros de candomblé historicamente constituíram territórios de preservação da memória africana, produção de conhecimento, cuidado coletivo e resistência política diante das violências impostas pelo racismo estrutural e pelo racismo religioso. Nesses espaços, aprende-se pela convivência, pela oralidade, pelo exemplo e pela relação ética com a comunidade e com a natureza.
Como afirma Mãe Beata de Iemanjá, grande liderança religiosa e intelectual do candomblé brasileiro, “o terreiro é uma escola de vida”. Essa compreensão revela que a educação ancestral não está separada da realidade social; ela forma sujeitos capazes de compreender o mundo, cuidar das pessoas e atuar coletivamente sobre os desafios de seu tempo. Da mesma forma, Mãe Stella de Oxóssi defendia que os terreiros são espaços de preservação de valores civilizatórios africanos, onde a memória e o conhecimento ancestral permanecem vivos através da oralidade, da tradição e da experiência comunitária.
Essa relação entre território e educação também pode ser compreendida a partir do pensamento de Milton Santos, quando afirma que “o território usado é o chão mais a identidade”. O território é construído pelas pessoas que nele vivem, pelas relações que estabelecem e pelos sentidos que atribuem ao espaço. Assim, o território educa porque carrega histórias, símbolos, práticas e conhecimentos que formam seus habitantes. Ao mesmo tempo, as pessoas transformam o território por meio de suas ações, criando um movimento permanente de troca entre sujeito e espaço.
No subúrbio carioca, essa educação territorial se manifesta nas expressões culturais que resistiram ao tempo e ajudaram a construir a identidade desses lugares. Os Bate-Bolas, os Bailes Charme, as escolas de samba, as rodas de samba, o Jongo, os festivais de pipas, os bailes de corredor e os bailes da antiga são mais do que manifestações culturais: são formas de organização social, produção de memória e construção de pertencimento. São espaços onde crianças, jovens e adultos aprendem sobre história, estética, música, convivência, criatividade e coletividade.
Essas manifestações revelam que a cultura popular é também uma pedagogia. Uma roda de samba ensina sobre ancestralidade e oralidade; um terreiro ensina sobre cuidado, ética e comunidade; uma escola de samba ensina sobre organização coletiva e produção cultural; um baile charme ensina sobre identidade negra, autoestima e resistência; um festival de pipas ensina sobre criatividade, ocupação do espaço público e convivência comunitária. Cada prática carrega conhecimentos que muitas vezes não aparecem nos currículos formais, mas são fundamentais para a formação humana.
Essa visão dialoga profundamente com Paulo Freire, para quem “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. A educação, nessa perspectiva, acontece no encontro entre sujeitos, reconhecendo que todos possuem saberes e experiências que precisam ser valorizados. A pedagogia freireana rompe com uma educação verticalizada e propõe uma prática libertadora, baseada no diálogo, na consciência crítica e na capacidade dos indivíduos de transformarem sua realidade.
Bell Hooks amplia essa discussão ao defender uma educação como prática da liberdade, onde o processo educativo deve envolver participação, pertencimento e reconhecimento das experiências dos estudantes. Para a autora, ensinar é também criar espaços onde as pessoas possam existir plenamente, articulando conhecimento, identidade e transformação social. Essa concepção se aproxima profundamente da educação ancestral dos territórios populares, onde aprender está diretamente ligado ao viver, ao conviver e ao construir coletivamente.
A Pedagogia do Território Vivo compreende, portanto, que o território e o terreiro estabelecem uma relação de influência mútua. O terreiro é impactado pelas dinâmicas sociais, culturais e políticas do território onde está inserido; ao mesmo tempo, transforma esse território ao promover cuidado, acolhimento, formação, cultura e redes de solidariedade. Essa relação é a própria essência da comunidade: a compreensão de que ninguém se forma sozinho e que o desenvolvimento humano acontece através das relações construídas coletivamente.
Pensar uma educação territorial é reconhecer que bibliotecas comunitárias, terreiros, rodas culturais, coletivos artísticos, escolas de samba, praças e espaços populares também são lugares de produção de conhecimento. É compreender que a cidade educa, que a cultura educa e que a ancestralidade educa. Como aponta Paulo Freire, a leitura do mundo precede a leitura da palavra; antes de aprender conceitos, aprendemos a interpretar a realidade que nos cerca.
Assim, a Pedagogia do Território Vivo afirma que toda comunidade possui saberes legítimos e tecnologias sociais próprias. Ela desloca o olhar sobre os territórios populares, não observando apenas suas vulnerabilidades, mas reconhecendo suas potências, suas histórias e suas capacidades de criação. Educar, nesse sentido, é fortalecer vínculos, valorizar memórias, ampliar direitos e criar condições para que cada comunidade seja protagonista da construção do seu próprio futuro.
A educação ancestral, comunitária e territorial não substitui a educação formal; ela amplia sua compreensão. Ela nos lembra que o conhecimento também está nas ruas, nos quintais, nos terreiros, nas rodas, nas festas populares e nas experiências coletivas. É nesse encontro entre saber acadêmico, saber popular e saber ancestral que nasce uma educação verdadeiramente transformadora, capaz de construir uma sociedade mais justa, democrática e humana.