Dentro e fora dos campos, durante toda temporada, profissionais de psicologia acompanham a rotina de atletas profissionais e comissões técnicas em clubes de futebol
Na Copa do Mundo de 2022, frases de autoajuda eram estampadas nas paredes do hotel da seleção brasileira no Catar, país sede da competição. Afirmações como “mentalmente forte” e “se preparar bem para merecer vencer” decoravam os arredores dos atletas e seu retorno para o alojamento, eles que, muitas vezes, retornavam das partidas cansados fisicamente e mentalmente. Diferente de seleções como França e Alemanha, o único apoio psicológico que a seleção brasileira possuía, na época, eram as frases motivacionais nas paredes, indo na contramão das seleções que contavam com psicólogos acompanhando a delegação. Hoje, o time conta com uma psicóloga, mas as dificuldades dos atletas com a saúde mental datam de muito tempo.
A rotina cansativa de treinos, competições e viagens, somadas às expectativas da família, da mídia e a pressão da torcida são alguns dos desafios que os atletas de times de futebol enfrentam ao longo da carreira. Essas questões podem enfraquecer a mente dos jogadores, por isso, existe a necessidade do acompanhamento com uma equipe multidisciplinar que trabalhe a parte física, técnica, mental e emocional, visando o equilíbrio das diferentes demandas desses atletas. Porém, não são todos os clubes de futebol brasileiros que prezam pelo cuidado com a saúde mental.
Ainda há uma compreensão equivocada da atuação do psicólogo como sendo somente no contexto de clínica terapêutica e com escuta individual. Porém, no contexto esportivo, essa atuação possui algumas particularidades. Por exemplo, o ambiente de trabalho do psicólogo do esporte é no local em que o atleta está porque ele acompanha a rotina de treinos e competições. Além disso, existe a preocupação com a saúde mental, o bem-estar físico, a performance e o rendimento desse atleta. O profissional de psicologia do esporte realiza um trabalho focado no desenvolvimento de habilidades (cognitivas, psicológicas e socioemocionais) que melhorem o rendimento dos atletas, seja em esportes coletivos ou individuais. De acordo com Vanessa Backes, psicóloga do esporte no Clube de Regatas do Flamengo, o acompanhamento psicológico dos atletas é muito importante em razão do contexto em que eles estão inseridos e da rotina de alto rendimento.
Em modalidades coletivas, como o futebol, o psicólogo esportivo precisa estar atento, tanto às necessidades do time, como também de cada atleta individualmente. Ainda é necessário o alinhamento e um diálogo constante com a comissão técnica e demais profissionais envolvidos (como fisioterapeuta, nutricionista, entre outros). De acordo com a tabela do Campeonato Brasileiro de 2024, há vinte times de futebol na série A do masculino e dezesseis na série A1 do feminino. Porém, um levantamento de 2024 observou que, na série A do masculino, 35% dos clubes ainda não possuem um psicólogo do esporte na comissão técnica, enquanto na série A1 do feminino, de dezesseis times, treze possuem apoio psicológico disponível.
O Brasil é referência mundial no futebol e essa modalidade é a mais popular no país. Por isso, o jejum de títulos mundiais e a não classificação da seleção brasileira de futebol masculina para as Olimpíadas de 2024 deixam um gosto amargo e provocam uma reflexão: como atletas profissionais de alto rendimento seriam capazes de lidar com os altos e baixos da carreira sem o auxílio de um profissional de psicologia?
Após um intervalo de dez anos (2014-2024) sem um profissional de psicologia, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) contratou uma psicóloga do esporte para integrar a comissão técnica da seleção masculina. Marisa Santiago faz parte da reestruturação promovida pela CBF após a contratação do técnico Dorival Júnior. Atualmente, tanto o time masculino quanto o feminino possuem psicólogo, as meninas do Brasil contam com os serviços de Luciana Angelo.
Apesar da presença dos profissionais no dia a dia, há declarações que divergem quando o assunto é a psicologia no esporte. Endrick, jogador do Palmeiras e componente da seleção brasileira, afirmou, em entrevista à Revista Placar, que seu psicólogo é “Deus e a família” e que não entende a necessidade de profissionais o auxiliando. Enquanto Richarlison, atacante do Tottenham com diversas convocações para seleção brasileira, afirmou em entrevistas que a terapia salvou a sua vida após crises decorrentes de críticas ao seu desempenho em campo e problemas pessoais.
A atleta Mariza Nascimento, zagueira do Corinthians que atuou pela seleção brasileira em categorias de base e no time principal, afirmou que a psicologia mudou a sua forma de lidar com a cobrança em relação aos resultados de treinos e jogos. Em conversa com nossa equipe, Mariza foi categórica ao declarar que “cinquenta por cento do atleta, na minha opinião, é saúde mental” e que a psicologia mudou sua vida. Ela contou como foi a experiência dos primeiros dois anos no Corinthians e o diferencial de ter o acompanhamento psicológico no cotidiano, especialmente, no preparo para a Libertadores, competição mais importante para os clubes sulamericanos.
A triste memória coletiva do 7x1
A Copa do Mundo de 2014 foi sediada no Brasil. O dia da disputa da seminifinal entre Brasil e Alemanha se tornou histórica, uma lembrança amarga pelo resultado final da partida: 7x1 para a seleção alemã. O acontecimento completou dez anos no dia 8 de julho e é lembrado com um sentimento negativo, até traumático, no psicológico dos milhões de brasileiros que assistiram ao confronto na televisão. A frase “Gol da Alemanha”, repetida sete vezes por Galvão Bueno, assombrou os espectadores que torciam para o Brasil. Hoje, uma década depois, a frase “Gol da Alemanha” é dita em tom de piada, mas, ainda assim, o evento deixou sequelas em muitos brasileiros, principalmente, nos que estavam em campo na disputa.
Na época, o elenco contava com Neymar como sua estrela e peça-chave para as vitórias da seleção. Quando o atleta se lesionou na partida contra a Colômbia e desfalcou o time pelo resto da campanha, o sonho do hexacampeonato parecia perdido. A seleção, antes confiante, agora estava instável, receosa, e os sentimentos que deveriam ser extra-campo se refletiram nas disputas. Após a goleada, David Luiz, atual jogador do Flamengo e, na época, parte da seleção brasileira, viralizou ao chorar pelo peso da derrota, pela pressão de ser titular do Brasil e, principalmente, pela decepção com a eliminação. As reações do público com a demonstração de emoção do jogador não foram positivas, o atleta recebeu críticas por chorar e foi chamado de “fraco”.
Fernanda Rodrigues, psicóloga esportiva que atua na base do Bangu Atlético Clube, acredita que, dentro do futebol masculino, há uma resistência contra a demonstração de sentimentos em público. "Os meninos, na fase inicial, chegam um pouco mais tensos, com uma mentalidade de 'eu não sou doido', 'eu não preciso disso' e 'eu não posso chorar, isso não é coisa de futebol'. A profissional ainda relata que, com mulheres, há mais receptividade ao acompanhamento psicológico. Apesar da desconfiança inicial, a resistência dos atletas homens se dissipa conforme a evolução do tratamento, ao poucos "as emoções vão sendo trabalhadas com mais tranquilidade".
O estigma relacionado ao tratamento psicológico está presente no ambiente futebolístico. Declarações como as de Endrick e Tite, ex-técnico da Seleção Brasileira, que afirmou ser desnecessária a presença de um psicólogo acompanhando o elenco, são comuns dentro do mundo do esporte. Mas, este cenário tem mudado ao longo dos anos.
“Eu acho que existe sim um preconceito, mas ele já foi maior e hoje em dia está sendo quebrado. Os clubes e os próprios atletas começaram a perceber que não é ‘feio’, é uma forma de treinamento. Ajuda a gente a performar em alto nível, entender a si mesmo melhor, lidar com as cobranças e as críticas, ajuda a ter uma constância melhor também. As pessoas estão olhando com mais carinho para essa área. Mas acho que ainda existe o preconceito porque as pessoas têm medo do que os outros vão falar" refletiu Mariza, atleta de alto rendimento.
O relato da jogadora está de acordo com o constatado por Fernanda. A psicóloga enxerga esse movimento de quebra de preconceitos como algo que ultrapassa a bolha dos atletas e que se reflete, também, nos fãs do esporte.
Base forte
O acompanhamento psicológico, mesmo quando iniciado tardiamente, traz diversos benefícios para a carreira de um atleta. Porém, aquele com início ainda na infância, pode dar um maior controle ao atleta sobre as suas emoções. Diversos clubes disponibilizam um psicólogo do esporte para cuidar dos atletas da base, e um deles é o Fluminense. Maria Clara Simões é estudante de psicologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e estagiária de psicologia do esporte no clube tricolor. Para a estudante, o esporte auxilia na construção do senso de equipe, competitividade e desenvolvimento motor. “Quando aliado a um trabalho psicológico, o atleta também aprenderá a lidar com suas emoções, reconhecer o que sente e como usar isso ao seu favor", afirmou Maria Clara.
O interesse em atuar na área de psicologia do esporte segue numa crescente, a possibilidade de unir esporte e psicologia chama a atenção de muitos estudantes. Maria Clara conta como surgiu o interesse: "O esporte sempre foi uma paixão minha, quando percebi que poderia unir com a psicologia, fiquei muito curiosa para entrar nesse mundo. Na mesma época que comecei a graduação, algumas psicólogas do esporte, como a Carla di Pierro (psicóloga do Comitê Olímpico Brasileiro) e a Emily Gonçalves (psicóloga do Fluminense) começaram a aparecer mais na mídia, o que foi me instigando mais ainda a conhecer sobre a área".
Para evitar que os clubes negligenciem o cuidado com a saúde mental de atletas, seja por motivos financeiros (por exemplo, a contenção de gastos) ou pela resistência dos estigmas no mundo do futebol, surgem medidas legais. O projeto de lei nº 13/2012, propõe que se torne obrigatório, por parte de todos os clubes profissionais, o oferecimento de assistência psicológica continuada para seus atletas. O PL aprovado é uma alteração da lei nº 9.615/1998, apelidada de Lei Pelé, que garante direitos desportivos aos jogadores e já obriga que clubes garantam assistência psicológica a atletas em formação.
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