Entre o Dever e a Conveniência: Os Dilemas Éticos na Jornada Jurídica Moderna


Publicado em: 10-27-2025



A carreira jurídica é, por natureza, um campo fértil de dilemas morais. Todos os dias, advogados, juízes, promotores e defensores se deparam com situações em que o dever de buscar a justiça colide com interesses pessoais, institucionais ou econômicos. Essa tensão constante transforma a ética em um dos pilares mais importantes — e mais desafiadores — da atuação no mundo jurídico.


A linha entre o que é justo e o que é conveniente é, muitas vezes, tênue. O profissional do direito, ao ser confrontado com pressões externas, precisa lembrar que sua verdadeira lealdade deve ser para com a justiça, e não para com o lucro, o poder ou a influência. O advogado ético é aquele que escolhe o caminho mais difícil quando o mais fácil compromete seus princípios.


O Valor da Ética na Formação do Jurista


A ética é o elemento que dá sentido à prática jurídica. Não basta dominar as leis e os códigos; é preciso compreender o propósito moral que sustenta o sistema de justiça. Desde os bancos da faculdade, o futuro jurista deve ser educado não apenas para interpretar normas, mas para discernir entre o que é legal e o que é moralmente correto.


Na prática, isso significa que cada decisão tomada pelo profissional tem um impacto social. Um advogado ético contribui para a credibilidade do direito e fortalece a confiança da população nas instituições. Já aquele que se deixa guiar por interesses escusos mina a essência da profissão e transforma a advocacia em mero instrumento de conveniência.


A Tentação do Poder e do Lucro


O sucesso na advocacia, muitas vezes, é medido por conquistas materiais — cargos, honorários, influência. No entanto, essa visão pode levar o profissional a esquecer o verdadeiro propósito de sua atuação: promover a justiça. Quando o poder e o lucro se tornam os principais objetivos, a ética é relegada a segundo plano, e a integridade da profissão corre perigo.


A tentação do ganho fácil é uma das maiores ameaças à moralidade jurídica. O advogado que aceita subornos, manipula informações ou se envolve em acordos antiéticos pode até obter vantagens momentâneas, mas inevitavelmente perde sua reputação. A confiança é o bem mais precioso da carreira jurídica — e uma vez quebrada, é quase impossível de recuperar.


O Advogado e a Responsabilidade Moral com o Cliente


Defender o cliente é dever do advogado, mas fazê-lo de forma ética é o que o diferencia como profissional. O advogado não pode ser conivente com a mentira, nem utilizar artifícios ilegais para alcançar vitórias. Sua missão é buscar o melhor resultado dentro dos limites da lei e da moral, preservando tanto a dignidade do cliente quanto a do sistema de justiça.


A honestidade na relação com o cliente é essencial. O advogado ético é transparente quanto às chances de sucesso, aos riscos e aos custos envolvidos. Ele não cria ilusões nem promete resultados impossíveis, pois sabe que a confiança nasce da verdade e não da manipulação. Em última instância, o advogado deve ser um conselheiro de justiça, e não um simples executor de vontades.


O Papel da Imparcialidade no Sistema Jurídico


A imparcialidade é um valor inegociável dentro da carreira jurídica. Juízes, promotores e advogados precisam agir sem favoritismos, deixando de lado preferências pessoais, ideológicas ou econômicas. Um julgamento justo depende da capacidade de todos os envolvidos de separar emoção e razão, interesse e dever.


No entanto, na prática, a imparcialidade é constantemente testada. Relações políticas, pressões de grupos poderosos ou até a influência da mídia podem afetar decisões e condutas. O profissional ético é aquele que, mesmo sob pressão, permanece fiel à justiça. Ele entende que sua maior responsabilidade é com a verdade e com o bem coletivo, não com os interesses que o cercam.


A Influência da Tecnologia e os Desafios Éticos Digitais


O avanço da tecnologia trouxe novas possibilidades para a advocacia, mas também novos dilemas éticos. O acesso rápido à informação, o uso de inteligência artificial e a exposição nas redes sociais exigem que o advogado moderno adote uma postura ainda mais responsável. O sigilo profissional, por exemplo, torna-se mais vulnerável em um mundo conectado, e qualquer descuido pode causar danos irreparáveis.


Além disso, a forma como o advogado se apresenta online também é uma questão ética. O marketing jurídico deve ser feito com sobriedade e respeito aos limites impostos pelo Código de Ética da OAB. A autopromoção exagerada, a divulgação de processos e a exposição de clientes violam a integridade da profissão. No ambiente digital, a ética continua sendo o maior distintivo entre o profissional confiável e o oportunista.


A Consciência Ética Como Guia Pessoal


Nenhum código ou regulamento é capaz de prever todas as situações que um profissional do direito enfrentará. Por isso, a consciência ética individual é o verdadeiro farol da advocacia. O advogado deve cultivar valores como honestidade, lealdade e responsabilidade, permitindo que sua moral oriente suas decisões mesmo quando não há regras explícitas a seguir.


A consciência ética se manifesta nas pequenas atitudes — em não se deixar corromper, em respeitar prazos, em tratar todos com dignidade. O profissional que age com retidão, mesmo quando ninguém está observando, demonstra a essência da integridade. Afinal, a ética não é uma estratégia de imagem, mas um compromisso interior com a justiça e a verdade.


Justiça Social e o Papel Transformador do Advogado


O advogado ético não atua apenas em defesa de clientes individuais, mas também como agente de transformação social. Sua missão é contribuir para uma sociedade mais justa, inclusiva e equilibrada. Isso significa lutar contra a desigualdade, defender os direitos humanos e garantir que a lei seja um instrumento de proteção, não de opressão.


A advocacia ética é um exercício de empatia. O profissional que compreende o impacto social de seu trabalho enxerga além do processo judicial — ele vê pessoas, histórias e causas que merecem respeito. Quando o advogado usa o direito como ferramenta de justiça social, ele reafirma a nobreza de sua profissão e devolve esperança àqueles que mais precisam.


Ética, o Caminho da Verdadeira Justiça


A carreira jurídica é um terreno onde o poder e o interesse convivem lado a lado com o ideal de justiça. Manter-se ético nesse ambiente é um desafio diário, mas também é o que distingue os verdadeiros profissionais dos que apenas exercem uma função. A ética não é um obstáculo ao sucesso — é a base sobre a qual o verdadeiro sucesso se constrói.


No fim das contas, o advogado ou jurista que age com integridade deixa um legado que vai além das vitórias judiciais. Ele inspira confiança, fortalece a justiça e contribui para um sistema jurídico mais humano e honesto. Quando a ética guia a carreira, o direito deixa de ser apenas uma profissão e se torna uma vocação — o compromisso de servir à verdade, mesmo quando ela exige sacrifício.