Mauro Vilar
(Twitter | Research Gate)
Pode nos contar um pouco de como você entrou na vida acadêmica?
Em 2009 fui aprovado para o curso de Bacharelado em Ciências Biológicas na Universidade Federal Rural de Pernambuco e no curso técnico em Saneamento Ambiental pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco. Decidi "equilibrar esses pratinhos" e foi um desafio fundamental para eu chegar na área que atuo até hoje. No curso técnico fiz uma disciplina de "Saúde Pública" onde o Professor apresentou um caso emblemático em que mais de 60 pacientes dialíticos vieram a óbito após receberem uma transfusão de água contaminada com toxinas de cianobactérias no processo de hemodiálise, em uma clínica de nefrologia na cidade de Caruaru, Pernambuco. Procurei saber mais sobre essas toxinas e os organismos que as produziam, iniciei um estágio voluntário e daí começou o meu interesse pela pesquisa acadêmica.
Como surgiu o interesse por Cianobactérias tóxicas?
Após tomar conhecimento da "Tragédia da Hemodiálise" na aula de Saúde Pública (IFPE), coincidentemente, eu estava cursando na Universidade a disciplina de Sistemática de Criptógamos (2º semestre) onde as primeiras aulas se tratavam das Cianobactérias. Fiquei cada vez mais curioso e busquei um Laboratório onde eu pudesse fazer pesquisa nessa temática. Fui apresentado à Profa. Ariadne Moura; coordenadora do Laboratório de Ficologia, no Departamento de Botânica da UFRPE. Apesar de não ser um Laboratório para pesquisa em Cianotoxinas, lá pude começar pela base, aprendendo não apenas sobre Cianobactérias, mas sobre algas eucarióticas. Iniciei minha pesquisa em Ecologia do Fitoplâncton. Aprendi a identificar e quantificar esses organismos, e tive meus primeiros contatos com a Ecologia; estudos em Limnologia de Lagos e Reservatórios, mas todos sempre com registros de florações (ou blooms) de cianobactérias, o que não me afastava do grupo de meu interesse. Permaneci no laboratório até a minha defesa de TCC, o qual busquei uma coorientadora especialista em Ecotoxicologia (Profa. Cristiane Castro) para já poder me direcionar dentro da área que eu me interessava: Cianobactérias Tóxicas. Defendi meu TCC em Ecotoxicologia de Cianobactérias, avaliando os efeitos de florações tóxicas no zooplâncton de água doce, publiquei meu primeiro artigo e finalizei assim as minhas atividades no LABFIC.
Em 2013 tentei a seleção do Mestrado em Ecologia na mesma Universidade e fui aprovado em primeiro lugar. Eu estava obstinado em trabalhar com Cianotoxinas e para isso busquei a orientação do Prof. Renato Molica (UFAPE-Garanhuns, PE) que era parte do legado da Profa. Sandra Azevedo (Maior nome em cianobactérias tóxicas no País). Molica me apresentou a Ecofisiologia e desenvolvi a minha dissertação avaliando os efeitos da dinâmica CO2/pH na água no crescimento e produção de toxinas por uma cianobactéria invasora (Raphidiopsis raciborskii). Saí um pouco da vivência de campo e imergi no trabalho de Laboratório, aprofundando meu conhecimento sobre técnicas analíticas para identificação e quantificação de cianotoxinas; isolamento e cultivo de cianobactérias e análises físico-químicas da água as quais foram fundamentais para a minha primeira experiência profissional como Biólogo, trabalhando com purificação de cianotoxinas, e finalmente continuar a minha jornada acadêmica, vindo ao Rio de Janeiro para ingressar no Doutorado (2016) sob orientação da Profa. Sandra Azevedo, e continuar contribuindo e aprendendo até hoje no grupo, agora como pesquisador de Pós-doutorado.
No que você está trabalhando agora?
Felizmente continuo trabalhando na mesma área, atualmente no 2º Pós-doutorado, me aventurando por uma nova linha de pesquisa (Toxicologia Ambiental) mais voltada para os impactos de florações tóxicas na saúde humana; avaliação de risco.
O que você gostaria que todos soubessem?
Isso é uma pergunta muito ampla, mas pensando na carreira acadêmica eu diria que tentem descobrir o quanto antes a sua área de afinidade na Biologia. Não significa se colocar em uma caixinha, mas em uma caixa que tem espaço para caber muitas outras disciplinas que "conversem" com a sua linha de pesquisa. Multidisciplinaridade é fundamental. Além disso, nem sempre você estará entusiasmado e tudo bem. Permita-se parar quando necessário, conheça os seus direitos, limites e tente ao máximo manter a saúde mental e pelo menos o mínimo de inteligência emocional. Feito isso, mergulhe fundo nos seus objetivos, com disciplina e determinação. Mesmo que [infelizmente] as oportunidades não sejam iguais para todos, tente ao máximo criar a sua oportunidade; identificar os nichos onde você pode ser aproveitad@.
Como seria um dia perfeito para você?
Um dia onde todos sejam respeitados e valorizados, independente de cor, raça, sexualidade, gênero ou qualquer característica que nos diferencia uns dos outros.