Gilberto Salvador
Pode nos contar um pouco de como você entrou na vida acadêmica?
Desde os tempos de colégio eu gostava das matérias que envolviam ciências. Durante esse período, também foi crescendo em mim uma relação de apreciação e paixão pela natureza. Era inerente que me voltaria à biologia, a qual cursei na PUC Minas. Nos primeiros anos de graduação, aquele gosto dos tempos de colégio amadureceu. Com o passar dos períodos e dos estágios, tive certeza de que esse era o caminho profissional que eu gostaria de seguir. No começo não foi fácil. Dificuldades com inglês e financeiras me levaram a um período de afastamento desse meio. Para contornar esses problemas, busquei um trabalho que me permitisse levar concomitantemente essa paixão. E, assim, sem pressa (como todo mineiro que se preze), fiz mestrado (PUC Minas) e doutorado (UFPA). Hoje, atuo na área de ecologia e conservação de peixes neotropicais na região Amazônica e, principalmente, de Minas Gerais.
Como surgiu o interesse por ictiologia?
Essa é uma história curiosa. Quando entrei na graduação, não pensava em trabalhar com peixes. Minha meta era trabalhar ou com botânica, ou com aves. A primeira opção por influência indireta do meu pai, que sempre gostou de plantas. A segunda, por gostar de fotografia, um hobby que me acompanha até os dias atuais (é inegável que é o grupo de animais mais fotogênico). Comecei um estágio na botânica, mas não atendeu as expectativas. Logo quando sai, um grande amigo me chamou para tentar um estágio no laboratório em que ele trabalhava - a área?!?! Ictiologia. O estágio era para trabalhar com a variação temporal na ictiofauna da lagoa da Pampulha. Apesar de famosa (afinal, Oscar Niemeyer começou por lá sua carreira), recebe esgoto de uma parcela considerável de Belo Horizonte e Contagem (aproximadamente 3 milhões de habitantes). Armar redes era uma aventura, pegávamos só tilápias (80% da biomassa) e o medo de cair na água era constante. Apesar de tudo, aquilo que era para ser temporário (queria só conhecer um pouco a área), se transformou em paixão. Resultado, mestrado e doutorado com peixes, coletas em 12 estados, muitas aventuras e alguns trabalhos publicados e de extensão.
No que você está trabalhando agora?
Desde a defesa do doutorado, em meados de 2019, retornei a minha cidade natal. Porém, os vínculos com a Amazônia e com os amigos que ficaram em Belém continuam. Temos um projeto que visa estudar os efeitos da silvicultura em áreas de cerrado do Amapá sobre a ictiofauna de igarapés (em colaboração com Naraiana Benone, Calebe Maia e Luciano Montag). Também tenho alguns projetos de menor porte, como aquele que estuda a sobreposição do nicho alimentar de duas espécies de Gymnotiformes (sarapós) em riachos amazônicos (Cleo Lobato, Naraiana Benone e Luciano Montag). Porém, meu foco maior ainda está em Minas, onde passei grande parte da minha vida profissional. Estou envolvido com a avaliação das espécies ameaçadas da bacia do rio Doce e da reavaliação das áreas prioritárias para a conservação do estado de Minas Gerais. Também estou envolvido em projetos que buscam entender quais fatores são preponderantes para a desova de espécies migradoras na bacia do rio São Francisco e quais os afluentes do trecho alto da bacia são locais de desova desse grupo (Gustavo Rosa e Gilmar Santos). Outro, de cunho mais técnico, que busca gerar as relações comprimento-peso das espécies de peixes de Minas Gerais (Tiago Freitas e Tiago Pessali). Por fim, estou finalizando os artigos sobre barragens de rejeito de mineração, tema de minha tese de doutorado. Um desses capítulos foi recentemente aceito na Perspectives in Ecology and Conservation, e outros dois estão submetidos. Como continuidade a esses trabalhos, aprovamos no ano passado, um projeto que visa estudar os efeitos do desastre de Mariana sobre a fauna de peixes da bacia do rio Doce. Esse projeto foi aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) (Daniel Carvalho, Paulo Pompeu, Rafael Leitão e Carlos Bernardo Alves e Tiago Pessali).
O que você gostaria que todos soubessem?
O conhecimento científico é algo que se constrói com o tempo. Foi com esse alicerce que a humanidade chegou ao ponto onde estamos. Porém, cortes na ciência e ataques aos achados científicos podem abalar essa base. Destruí-la beneficia a poucos e joga escuridão no futuro da humanidade.
Como seria um dia perfeito para você?
No atual momento da política, o dia em que nossos “excelentíssimos” ministros da educação e do meio ambiente forem exonerados.
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