Olá o meu nome David Ribeiro, e tenho Paralisia Cerebral.
A Paralisia cerebral, é um problema que pode vir a ser desenvolvido quando somos bebés, crianças ou jovens, e pode ocorrer devido a eventos derivados, no parto, em acidentes, ou horas depois do parto. Este problema, acontece quando cérebro de um bebé, criança ou jovem não recebe oxigénio, levando à morte de algumas células importantes para algumas funções do dia a dia, e pode ter como consequência: a rigidez dos músculos, a falta de coordenação motora, (que pode ir de ligeira a muito grave), problema a nível do comportamento, baixa visão, transtornos convulsivos, e deficiência intelectual.
Embora ainda não haja cura para esta patologia, a fisioterapia, terapia ocupacional e da fala, são algumas terapias que podem ajudar a que a pessoa se sinta melhor.
Quando somos mais novos, podemos até achar graça a ter uma cadeira de rodas elétrica nas mãos, sentimento que ao longo dos anos se vai desvanecendo com o passar da idade, podemos até ficar chateados e magoados por andar de forma diferente dos outros, devido aos olhares retrógrados das pessoas mais velhas, que sem maldade, olham e por vezes podem comentar, vendo-nos “como se fossemos uns extra terrestre vindos sei lá de onde”, pensando, que por sermos portadores de um problema, somos diferentes.
Mas não, nós os utentes com paralisia cerebral, não passamos de pessoas iguais às outras. Com as mesmas obrigações, deveres, e oportunidades, como um outro cidadão sem problema algum.
Se esta mensagem for transmitida a todos os utentes com esta doença, tanto pelas famílias como a equipa técnica, que com eles trabalham, pode ser ótimo para as suas defesas, para quando uma pessoa se chegar ao pé deles e dizer coisas do gênero, “coitadinho” para que eles assim puderem responder com convicção do que estão a dizer e sem medo. Porque às vezes, as pessoas não fazem por mal, mas elas não sabem que muitas vezes ao dizerem esse tipo de coisas podem magoar.
A paralisia cerebral não pode ser vista como algo que nos enfraquece, mas sim, algo que nos fortalece, para isso quanto mais vezes falarmos do problema menos bicho-papão ele nos parece.
Bom, para começar quero que saibam que este não é o tipo de texto que mais me agrada escrever. Porquê? Porque acho que não devia ser preciso fazê-lo nunca, por nenhum portador desta doença.
Portugal é um país que por ser pequeno em tamanho, se consegue chegar a qualquer lado rapidamente, seja de norte a sul, é verdade. Mas será que assim é para pessoas com mobilidade reduzida e em cadeiras de rodas? A resposta é simples, sim e não. A resposta é um pouco confusa e pode baralhar as pessoas que lerem este texto, mas eu vou explicar.
Se cada utente do centro de paralisia cerebral representar uma cidade do nosso país, isso faz com que boa parte do país tenha pelo menos um deficiente. Será que este bocado de terra junto ao oceano atlântico está preparado para nos receber? Na minha opinião sim, mas ao mesmo tempo não.
Por um lado sim, é verdade que Portugal tem muitos centros que apoiam esta e outras patologias que afetam os seres humanos. Mas por outro lado, não, quando se trata das acessibilidades. Nós deficientes, temos de enfrentar todos os dias, no nosso dia-a-dia vários obstáculos na rua. Sejam passeios rebaixados num sítio onde podemos entrar, mas quando pretendemos sair do passeio para seguir a nossa rota, não conseguimos porque se esqueceram de rebaixar o passeio nesse local. E quando isso acontece, o que fazemos? Temos de voltar atrás e fazer novamente o nosso percurso pela estrada. Ou outro exemplo, existem vários estabelecimentos de comércio em que não podemos entrar por não terem rampa.
Outra coisa que nos incomoda são os objetos colocados no meio do passeio como os caixotes do lixo, iluminação pública e árvores. Sim, é verdade que em algum lado eles têm de estar. Mas gente, se as árvores ou postes de eletricidade ou os caixotes do lixo estiverem no meio do passeio, como passa uma cadeira? Passam na estrada? Era muito mais simples e mais fácil as pessoas em cadeira de rodas poderem circular no espaços públicos. Se isso não for possível, a solução que eu encontro é o alargamento dos passeios. Alargando os passeios ficamos todos mais felizes porque podemos agradar a todos. Ou seja, as autarquias porque podem pôr o que quiserem nos passeios, (caixotes do lixo, iluminação pública, árvores, etc.), e a nós porque com passeio mais largo podemos andar mais à vontade sem ter de estar a desviar-nos dos obstáculos.
Mas ainda há uma coisa que é muito mais grave do que isto tudo que estou para aqui a dizer. Ainda existem pessoas que não estão sensibilizadas para estas situações. Há pessoas que estacionam em cima do passeio, sem deixar espaço para uma cadeira de rodas ou um carrinho de bebé passar, não acho normal… Não sei o que dizer… Gente os passeios não são para estacionar carros, os passeios servem para passar. Se estacionarem nesses sítios o que é que fazemos? Só há uma coisa a fazer, é dar a volta pela estrada e esperar que não nos aconteça nada de mal. Porque passar pela estrada para todos os cidadãos, (e atenção estou agora a falar de todos os cidadãos, não apenas das pessoas em cadeira de rodas) é um risco que qualquer um corre, uma vez que a qualquer momento podemos ser atropelados e ficar em cadeira de rodas, ou por azar irmos desta para melhor.
De que serve um país que apoia as pessoas com paralisia cerebral ou outra doença qualquer, se depois não tem acessibilidades nas ruas para fazermos a nossa vida normal?
Estes são cuidados que as famílias e a própria pessoa com deficiência têm de enfrentar todos os dias, mas que não deviam. Todas as cidades, vilas, e aldeias do nosso país ou no mundo deviam estar sensibilizadas e preparadas para que pessoas normais, sim porque nós somos normais, pudessem fazer a sua vida normalmente como as outras pessoas que andam a pé fazem.
E já agora, por favor, não estacionem num estacionamento de deficiente, porque se já há poucos lugares reservados para esse fim, eles estão lá para pessoas que realmente precisam deles.
Bom, e desta me fico, não tenho nada mais a acrescentar, só gostava que algumas pessoas tivessem mais atenção onde deixam os carros.
Olá, hoje venho falar sobre um tema que talvez seja um dos mais importantes para as pessoas que ainda acham ou que possam vir a achar que nós, os deficientes, somos pessoas diferentes relativamente às outras crianças e jovens da nossa idade.
Nós, as pessoas com paralisia cerebral, somos iguais às outras, com os mesmos direitos e os mesmos deveres como outra pessoa qualquer, tal como já referi em textos anteriores. O direito ao ensino e à educação não passa de um direito e obrigação que temos. Podemos ter maneiras diferentes de chegar às mesmas conclusões e aprendizagens que provavelmente os outros alunos do nosso ano chegariam mais rápido, mas nós também lá chegamos mesmo que mais lentamente, mas chegamos! E até podemos ser bons ou maus alunos como um outro qualquer. Por sermos pessoas deficientes não significa que temos regalias, facilidades ou coisas do género, só porque somos portadores de uma doença qualquer à qual um dia decidiram chamar paralisia cerebral.
Quando andava na escola, do 1.º ano ao 12.º ano, tive muitas aventuras e desventuras como qualquer outra pessoa. Quando era mais pequeno fazia birras quando não queria comer, ou ficava contente quando o comer era bom, mas ficava chateado quando alguém me contrariava e dizia que tinha de comer aquilo que eu não queria, isso era a coisa que mais me chateava...
Para alguns que me conhecem, mas que não convivem diariamente comigo, são capazes de se perguntar como é que eu fazia para cortar os alimentos para comer, isto porque no meu caso a mão direita e as pernas foram as zonas mais afetadas pela paralisia cerebral. Mas a resposta é simples, apesar de não conseguir cortar os alimentos com a faca nem com outro objeto, porque para cortar preciso das duas mãos e eu só trabalho com uma, tinha de pedir ajuda a alguém que me pudesse cortar os alimentos, e a partir daí podia comer sozinho.
Na altura em que andava na escola houve muitas pessoas que foram muito importantes para a minha vida, como por exemplo os funcionários que ao longo destes anos se foram cruzando comigo e que andavam sempre atrás de mim. Por onde eu fosse eles iam, por onde eles fossem eu ia, ou até poderia ficar na escola, mas sabia que se precisasse de alguma coisa ia ter com outros funcionários com os quais me dava bem e sabia que se precisasse de alguma coisa podia sempre contar com eles na ausência das minhas verdadeiras damas de companhia. Talvez isso ajude explicar muitas coisas, como por exemplo os outros alunos da escola nunca me terem feito mal. Nunca fizeram porque sabiam que se o fizessem a brincadeira podia correr o sério risco de correr mal para o lado deles, uma vez que a pessoa responsável por mim iria proteger-me contra tudo e contra todos.
Recordo com alguma graça das minhas conversas com estas pessoas que foram e são muito importantes para mim. Na altura, quando queria contar-lhes alguma coisa que não queria que mais ninguém ouvisse era muito simples, íamos falar para casa de banho... Éramos como as meninas que na altura via a passar para a casa de banho com as amigas só porque sim, só porque lhes apetecia. Foram grandes as conversas e os assuntos importantes que discutimos sem ninguém saber. Tudo o que acontecia de bom ou de mau eles eram os primeiros a saber porque eram as primeiras pessoas que eu encontrava quando essas coisas aconteciam, ou então porque eles assistiam a muitas dessas situações na primeira fila.
Quando andava na escola estava inserido num programa específico individual, o CEI+, basicamente era um currículo específico individual que pretendia assegurar que os alunos com ou sem problemas pudessem aprender ao seu ritmo e que assentava na altura sobre o Decreto-Lei 3. De forma abreviada e rápida, o que nos era transmitido pelas professoras de educação especial era que assim que os alunos inseridos neste programa chegassem ao ensino secundário passariam a ter apenas Educação Física e Educação Moral Religiosa católica. Foi a partir daí que eu comecei a ser contra este currículo, isto porque não achava correto o que elas diziam... Por isso comecei a ser contra esta ideia, o que me valeu ser o primeiro aluno no Agrupamento de Escolas da Sertã com um programa individual específico a ter mais uma disciplina do que aquelas que me tinham transmitido que poderia ter.
As disciplinas que eu tinha eram História, Moral e Educação Física. Não, não é por acaso que pus a disciplina de História em primeiro lugar. Esta era a minha disciplina favorita. Era só a disciplina para a qual eu estudava todos os dias com felicidade e com vontade de fazer mais e melhor.
Mas esta minha jornada pelos meus últimos anos de escola não tinha sido possível sem a minha mãe, a minha família, os meus funcionários que comigo andavam e que viam o meu esforço todos os dias por estudar e por ser todos os dias um pouco melhor, e sem a minha professora de História, que sempre acreditou a mim mesmo quando a matéria parecia complicada. Se bem que para mim não parecia, porque como eu gostava tanto de aprender aquela disciplina, parecia tudo mais simples e mais fácil de aprender.
Não quero acabar este texto sem antes me dirigir a todos os alunos deficientes e sem deficiência para lhes dizer que, se as pessoas quiserem, então tudo é possível, só é preciso as pessoas quererem. Podemos cair muitas vezes, mas reerguermo-nos as vezes que forem precisas, desde que assim o queiramos.