conto (texto e audio)
“Rápido! Tens de ser mais rápido.” Era o meu mantra naquele momento. Entre passadas largas e saltos, qual canguru, desci a escadaria tão rápido que nem me apercebi da violência com que abri a porta da cave. O estrondo que fez ao bater na parede deve ter sido escutado por todo o assustado pessoal daquele hospital privado. “Caramba, está mesmo ali.”
A maldita engenhoca estava no chão, diante de mim. Em forma de cubo e vermelha, tal e qual como nas notas que o comandante mostrou ao pessoal. Reporto pelo auricular ao líder da equipa, que estou na cave e que a encontrei. Entre tantas vozes na ligação, ouço agora a do comandante a dizer para todos se retirarem. Ao retirar a tampa da caixa, vejo 04:57 a brilhar num mostrador digital e ouço o tique-taque. Menos de 5 minutos nos separam ali, da glória do céu ao fogo do inferno. Literalmente!
Tique-taque... 04:33. No meu ouvido, o comandante encoraja-me e diz para manter a calma, que ainda há tempo.
Tique-taque... 04:21, naquele LCD que parecia acelerar a preciosidade do tempo. Respiro fundo e penso. “Não consigo. Quero lá saber!” Pego no telemóvel, percorro a lista dos contactos e ligo à Ana Catarina. A chamada foi rápida, mais do que ela levou a atender-me. Sei que lhe disse, carinhosamente, tudo o que não lhe havia dito há muito tempo. Sai-me, de rajada, o quanto a amo e ainda a convido para jantar. Ela tentava dizer algo, mas voz nem parecia a dela. Desculpo-me em não lhe dar a oportunidade de falar, por não ter tempo, e desligo.
Tique-taque... 02:05. Abro o saco das ferramentas enquanto nos meus pensamentos me debato. "Não posso falhar... Se a maldita bomba rebenta, não só tudo ficará reduzido a escombros, como o imenso pessoal e os pacientes, morrem de imediato.” Ocorre-me também que não veria mais a Ana Catarina.
Tique-taque... 01:17. Com a mão esquerda, percorro o dispositivo detonador ligado ao relógio e convenço-me da certeza de qual fio cortar. Respiro fundo.
Tique-taque... 00:38. Com a mão direita, pego no alicate de corte e, pela primeira vez, sinto a pressão da realidade daquele momento.
Tique-taque... 00:15. Aperto-o com vigor.
Tique-taque. Tiiiique... taaaque... o relógio parou aos 00:07. Expiro de grande alívio num silêncio que é interrompido pela felicitação do comandante e de outras vozes que se juntam.
Contudo, é ao olhar para o telemóvel que percebo a minha estupidez. “Xiii... mas que grande bronca. Não acredito... enganei-me a fazer a chamada e fui dizer aquilo tudo à Ana... a Ana Carocha. Logo a ela... merda!”
Imagem gerada por IA (via Adobe Express)
Imagine que é um especialista em armadilhas, e tem de desmontar uma bomba relógio, dentro de cinco minutos. Para tanto deve cortar um dos fios elétricos da engenhoca. Mas qual? Se cometer um erro, o inevitável sucederá: a bomba explode, e o edifício ficará reduzido a pó. Em jogo, estão a sua vida, a do pessoal médico e a dos doentes de um hospital urbano. (1ª pessoa - 200 palavras)