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Inscrições selecionam 20 empreendedoras para participar de uma feira que conecta economia criativa, cultura, geração de renda e memória LBT.
A APOENA lança o Chamamento Simplificado para seleção de 20 empreendedoras Lésbicas, bissexuais e Transexuais interessadas em participar da Feira Diversidade, que será realizada no dia 22 de agosto de 2026, na Praça Chico Mendes, em Irecê (BA).
A Feira Diversidade é uma iniciativa cultural realizada pela APOENA, contemplada pelo projeto Feiras Micro Rainbow Brasil, realizado pela Micro Rainbow International Foundation, com financiamento do Potluck Fund.
A iniciativa nasce com o propósito de ampliar a visibilidade, a geração de renda e o protagonismo de mulheres lésbicas, bissexuais e transexuais por meio da economia criativa e solidária. Durante a feira, empreendedoras, artistas e público compartilharão um espaço de comercialização, convivência, expressão cultural e construção de redes.
O chamamento é destinado prioritariamente à empreendedoras Lésbicas, Bissexuais e Transexuais do Território de Identidade de Irecê, com propostas relacionadas a produtos autorais, artesanato, papelaria criativa, literatura independente, acessórios, decoração, arte impressa, moda, brechó, beleza, estética, tranças, maquiagem, cosmética artesanal, tatuagem, piercing, gastronomia, bebidas artesanais, alimentação alternativa e outros segmentos alinhados à proposta da Feira Diversidade.
Serão selecionadas 20 propostas, distribuídas entre as categorias de Produtos Autorais; Moda, Beleza e Estética; e Gastronomia e Alimentação. Parte das empreendedoras de prestação de serviços participará de um espaço coletivo preparado para receber atividades como tatuagem, piercing, estética e outros serviços.
Além de oferecer um espaço para comercialização de produtos e serviços, a Feira Diversidade busca fortalecer conexões entre empreendedoras, ampliar a circulação da economia criativa e dar visibilidade às trajetórias e aos saberes produzidos pelas mulheres LBT do território.
As informações coletadas durante as inscrições também contribuirão para o mapeamento das empreendedoras criativas Lésbicas, Bissexuais e Transexuais, realizado pela Plataforma Apoena, permitindo conhecer seus perfis, atividades, desafios e demandas. Os dados produzidos poderão orientar futuras ações de formação, articulação de redes e acesso a oportunidades.
As inscrições são gratuitas e serão realizadas por meio da Plataforma Apoena, utilizando formulário eletrônico próprio.
No momento da inscrição, as candidatas deverão preencher as informações solicitadas, apresentar dados sobre o empreendimento e enviar os documentos e registros previstos no Chamamento Simplificado.
A Feira Diversidade quer conhecer quem produz, cria, empreende e movimenta a economia criativa LBT no Território de Identidade de Irecê.
Se você é empreendedora Lésbica, Bissexual e Trans, essa chamada é para você. Inscreva sua proposta, compartilhe o chamamento e ajude a fazer circular oportunidades, renda, cultura e pertencimento.
Feira Diversidade — nossa criatividade gera renda, nossa memória constrói caminhos e, quando nos encontramos, nossa potência circula.
📅 Inscrições: 13/07 - 28/07
📋 Leia o Chamamento Simplificado:
Leia o edital
Do Mocotó ao Milho: os Sabores que Mantêm Viva a Cultura de Irecê
Quando chega o período junino, é impossível não falar de comida. A gastronomia é uma das expressões mais marcantes da cultura popular, ao reunir saberes, memórias e tradições transmitidas entre gerações. Nas festas de São João, o milho ocupa lugar de destaque, dando origem a pratos como pamonha, canjica, curau e bolo de milho, símbolos da culinária nordestina e presença garantida nas celebrações.
No entanto, quando voltamos o olhar para o território de Irecê, percebemos que a nossa cultura alimentar possui características próprias, construídas a partir da história, do modo de vida sertanejo e dos hábitos das comunidades locais. Diferentemente de outras regiões da Bahia, onde predominam preparações à base de dendê, peixe e leite de coco, a culinária local se destaca pela comida farta, pelos sabores intensos e pelas receitas que fazem parte do cotidiano das famílias.
Nesse contexto, o Mercado Municipal de Irecê — carinhosamente conhecido como Mercadão — ocupa um lugar especial na memória afetiva da população. Ali, pratos tradicionais como mocotó, sarapatel, buchada e bode representam muito mais do que opções gastronômicas: são expressões da identidade cultural do território, preservando práticas culinárias que atravessam gerações e continuam reunindo moradores e visitantes em torno da mesa.
Celebrar o São João também é valorizar os sabores que contam a história do nosso povo. Ao experimentar a culinária típica de Irecê, conhecemos um pouco mais sobre as tradições, os costumes e os modos de vida que ajudam a construir a identidade cultural da região. Entre os aromas e temperos do Mercadão, a gastronomia se revela como patrimônio vivo, capaz de conectar passado, presente e futuro por meio da memória e do afeto.
Por: Thuane Dourado
Fotografias: Rubi Santos
Entre bandeirolas e memórias: o que mantém viva a cultura popular?
Chegou aquela época do ano em que o sertão parece respirar diferente.
As ruas ganham cores, as bandeirolas dançam ao vento e, de repente, o forró volta a ocupar seu lugar de direito nas playlists, nas academias, nas rádios e nos encontros de família e amigos. Enquanto isso, o cheiro do milho cozido anuncia que junho chegou. Em cada canto, a sanfona encontra novamente seu lugar de destaque, e as comunidades se preparam para celebrar uma das manifestações culturais mais marcantes do Brasil.
Para muitos, é apenas mais uma festa do calendário.
Para mim, é um lembrete poderoso de que a cultura popular continua encontrando maneiras de permanecer viva.
E talvez seja justamente essa permanência que mais me encanta.
Vivemos em um tempo em que tudo parece acontecer muito rápido. As tecnologias transformam a forma como nos comunicamos, os hábitos mudam e as novas gerações crescem cercadas por referências que ultrapassam fronteiras. Diante disso, uma pergunta insiste em me acompanhar:
O que faz com que determinadas tradições continuem existindo?
A resposta não está apenas nas festas. Ela está nas pessoas.
Está na avó que ensina a receita do bolo de milho. No sanfoneiro que aprendeu a tocar observando o pai. Na criança que veste a roupa de quadrilha pela primeira vez. Na vizinhança que se reúne para compartilhar histórias ao redor da fogueira.
A cultura popular não sobrevive apenas porque foi registrada em documentos ou reconhecida por instituições. Ela permanece porque alguém decide continuar praticando.
Ao longo da minha trajetória como museóloga e pesquisadora, aprendi que memória não é apenas aquilo que lembramos.
Memória é aquilo que escolhemos fazer permanecer.
Quando pesquisei o Reisado Dona Vitória, na Comunidade Quilombola Baixão de Zé Preto, compreendi que a continuidade de uma manifestação cultural depende menos dos registros e mais das pessoas. O reisado continua existindo porque há quem cante, caminhe, reze, ensine e aprenda. Porque existem guardiões da memória que entendem que preservar não é guardar: é compartilhar.
Essa experiência me fez olhar para os festejos juninos com outros olhos.
Vejo muito mais do que apresentações culturais ou eventos do calendário. Vejo um patrimônio vivo. Um patrimônio que não está guardado atrás de vitrines. Não ocupa estantes. Não cabe em arquivos. Ele vive nas vozes, nos gestos, nos sabores, nos encontros e nos afetos.
É isso que chamamos de patrimônio cultural imaterial: um conjunto de saberes, celebrações, expressões e modos de fazer que ajudam uma comunidade a reconhecer a si mesma.
Mas esse reconhecimento não acontece apenas no campo das ideias.
Nos últimos anos, o Brasil tem avançado no reconhecimento das culturas populares como parte fundamental de sua identidade. Em 2023, a Lei nº 14.555 passou a reconhecer oficialmente as festas juninas como manifestação da cultura nacional. Mais do que uma homenagem simbólica, a legislação reafirma algo que as comunidades já sabem há muito tempo: os festejos juninos fazem parte da nossa história, dos nossos afetos e da forma como construímos pertencimento.
Esse movimento de valorização não parou por aí.
Recentemente, o país avançou na construção da Política Nacional para as Culturas Tradicionais e Populares, uma iniciativa que reconhece a importância de mestres e mestras da cultura, grupos, coletivos, comunidades tradicionais e manifestações transmitidas pela oralidade, como reisados, sambas, folguedos, festejos populares e tantas outras expressões que ajudam a contar a história do Brasil.
Mais do que proteger manifestações culturais, essa política parte de um entendimento essencial: as culturas populares não são apenas heranças do passado.
São formas vivas de produzir conhecimento, fortalecer identidades, gerar renda, preservar memórias e manter vínculos entre as pessoas e seus territórios.
Talvez esse seja um dos aspectos mais importantes desse reconhecimento.
Durante muito tempo, os saberes populares foram vistos como algo secundário diante das manifestações consideradas "eruditas" ou "oficiais". Hoje, o debate avança para reconhecer que os conhecimentos transmitidos entre gerações, os modos de fazer, as celebrações e as expressões culturais das comunidades também são fundamentais para a construção da nossa identidade coletiva.
Quando olhamos para os festejos juninos por essa perspectiva, percebemos que eles representam muito mais do que um momento de celebração.
Eles fazem parte de uma grande rede de práticas culturais que ajudam comunidades inteiras a preservar suas histórias, reafirmar pertencimentos e imaginar futuros possíveis.
E não apenas por causa da dança ou da música.
As festas juninas mobilizam receitas transmitidas entre gerações, práticas religiosas, expressões artísticas, modos de fazer, formas de convivência e conhecimentos construídos coletivamente ao longo do tempo.
São manifestações que contam quem somos e revelam como construímos nossa relação com o território.
Talvez seja justamente por isso que continuem tão presentes.
Elas conseguem dialogar com diferentes gerações. Mantêm elementos ancestrais, mas também incorporam novas linguagens, novos formatos de participação e novos significados.
A tradição permanece viva não porque ficou parada no tempo. Permanece porque continua sendo reinventada.
Mas essa reflexão também nos convida a olhar para os desafios do presente.
Em muitos lugares, os festejos juninos tornaram-se grandes eventos, movimentando turismo, comércio e economia. Isso não é necessariamente um problema. A cultura também gera trabalho, renda e oportunidades.
O desafio surge quando o espetáculo ocupa todo o espaço e a memória passa a ser tratada apenas como cenário.
Quando a lógica do consumo se sobrepõe à lógica do pertencimento, corremos o risco de esquecer aquilo que torna essas celebrações verdadeiramente significativas: as pessoas, os saberes e os vínculos comunitários que lhes deram origem.
Por isso, cada vez que uma tradição deixa de ser transmitida, não estamos perdendo apenas uma festa.
Estamos perdendo uma forma de compreender o mundo. E isso deveria nos preocupar.
Vivemos em uma sociedade que muitas vezes valoriza mais o novo do que aquilo que nos trouxe até aqui. Enquanto buscamos inovação, raramente perguntamos quem está cuidando dos saberes antigos. Enquanto celebramos o futuro, nem sempre reconhecemos aqueles que continuam sustentando a memória coletiva.
Talvez seja hora de inverter essa lógica. Talvez seja hora de reconhecer que tradição não é sinônimo de atraso. Tradição é continuidade.
É a capacidade que um povo possui de dialogar com o presente sem romper completamente com suas raízes.
As festas juninas continuam emocionando porque falam de pertencimento. Porque nos lembram que fazemos parte de algo maior do que nós mesmos. Porque criam pontes entre quem veio antes e quem ainda virá.
No fundo, acredito que a cultura popular permanece viva porque responde a uma necessidade humana muito antiga: a necessidade de nos reconhecermos em uma história comum.
E enquanto houver alguém disposto a contar uma história, tocar uma sanfona, ensinar um saber aprendido com os mais velhos ou reunir a família para celebrar tradições compartilhadas, a cultura continuará encontrando maneiras de existir.
Afinal, a tradição não vive nas datas. Ela vive nas pessoas.
E talvez a pergunta mais importante não seja o que mantém viva a nossa cultura.
Talvez a pergunta seja: O que cada um de nós está fazendo para que ela continue existindo?
Por: Indira Lima
Fotografias: acervo pessoal e retiradas da internet
O IMPACTO DE UMA QUADRILHA JUNINA NA
VIDA DA JUVENTUDE DE IRECÊ.
Estar professor na maior escola pública do município de Irecê me fez refletir profundamente sobre a importância da cultura e da preservação cultural na vida dos jovens periféricos da nossa cidade. Em 2022, fui contratado pela Prefeitura Municipal para ministrar aulas de Artes no Colégio Municipal Odete Nunes Dourado, atuando especialmente com os anos finais do Ensino Fundamental II. Eu já sabia que aquele espaço seria mais do que um local de trabalho: seria também um reencontro com versões anteriores de mim mesmo, afinal, eu já havia sido aluno daquela instituição.
Os primeiros desafios surgiram rapidamente. Demandas pedagógicas, questões sociais e acomplexidade do cotidiano escolar exigiam atenção constante. Mas, em meio a tudo isso, algo fez meus olhos brilharem: o São João e as quadrilhas juninas. A partir das minhas vivências pessoais e da minha formação acadêmica, especialmente no estudo da arte do corpo, encontrei nesse contexto uma possibilidade potente de atuação.
Em 2023, a Secretaria de Cultura de Irecê lançou o primeiro edital de concurso de quadrilhas juninas do território. Ali, enxerguei uma oportunidade de romper com os limites físicos da escola e colocar meus alunos no centro das produções artísticas da cidade. Mais do que uma apresentação, tratava-se de um processo de valorização da presença desses estudantes, de fortalecimento da autoestima, da autoconfiança e do senso de coletividade - além, claro, da possibilidade real de sonhar e competir em igualdade com outros grupos igualmente preparados.
A quadrilha junina, em Irecê, sempre fez parte da vida social e escolar. Mesmo com limitações e proibições ao longo do tempo, essa manifestação cultural permaneceu viva nas escolas, nas famílias, nas igrejas e nos bairros. Trata-se de uma celebração que vai além da colheita e da religiosidade: envolve jogos, teatralidade, dança, música e, sobretudo, o corpo como expressão de identidade.
Sem saber exatamente como funcionaria o concurso naquele primeiro momento, decidimos homenagear uma produção audiovisual local: o filme Zuza Mó (Kel Dourado - 2023), que narra a história de um homem de Irecê sob uma perspectiva romântica - elemento que dialogava diretamente com a estrutura narrativa da junina, tradicionalmente centrada em um casal de noivos. Assim, já no primeiro ano, buscamos valorizar não apenas a cultura popular, mas também a história e a identidade do nosso território.
Em 2024, na segunda edição do concurso, tudo mudou. Já compreendíamos a dimensão do evento e a necessidade de um olhar mais profissional. Dançar quadrilha junina deixou de ser apenas uma atividade escolar e passou a exigir um cuidado estético e conceitual mais aprofundado: figurino, maquiagem, cenário, trilha sonora - Tudo passou a ser pensado a partir de uma perspectiva de semiótica teatral.
Naquele ano, o Colégio Municipal Odete Nunes Dourado completava 45 anos de existência, um marco simbólico para uma instituição pública criada na década de 1980 com o objetivo de acolher estudantes que, historicamente, foram marginalizados e excluídos de outros espaços educacionais. Ocolégio representa resistência. É o encontro das periferias em um momento decisivo da vida: a adolescência.
Mais do que ensino formal, a escola assume um papel social fundamental ao promover atividades culturais e esportivas que garantem uma vida mais digna e ativa para jovens, em sua maioria negros e de baixa renda. Foi nesse contexto que, em 2024, conquistamos o primeiro lugar no concurso com uma quadrilhas juninas que homenageava a professora Odete, figura que dá nome à instituição. Esse resultado foi fruto de um trabalho coletivo, construído por muitas mãos - professores, estudantes, artistas e artesãos.
Já em 2025, vivenciamos um dos momentos mais marcantes da nossa trajetória. Com um olhar ainda mais sensível para a construção simbólica, escolhemos como tema a saudade, um sentimento profundamente enraizado na experiência do povo sertanejo. Saudade da chuva, do clima, da infância, da religiosidade, dos afetos.
A partir dessa ideia, construímos uma narrativa sobre migração: sobre aqueles que partem em busca de dignidade e oportunidades, e sobre aqueles que ficam, sustentando a memória, a cultura e a vida.
Trabalhamos a dor da ausência, mas também a potência do retorno. A junina tornou-se um espaço de ressignificação. Não se tratava de negar o passado, mas de reinterpretá-lo e atribuir novos sentidos às histórias familiares.
O processo de criação começava meses antes, envolvendo pesquisa musical, construção de narrativa, ensaios e desenvolvimento estético. Em 2025, celebramos não apenas o desejo de partir, mas, principalmente, a importância de permanecer e de voltar, de reconhecer o valor do lugar de origem.
Por fim, é importante destacar o papel do concurso em si. Sim, trata-se de uma competição e não há problema nisso. A rivalidade, quando saudável, estimula o comprometimento, o trabalho em equipe e o desenvolvimento coletivo. No entanto, o impacto vai muito além da disputa.
O concurso possibilita que esses jovens ocupem espaços públicos de visibilidade, sendo aplaudidos, reconhecidos e celebrados pela própria comunidade. Isso transforma a maneira como eles se enxergam. Jovens periféricos, negros e frequentemente marginalizados passam a se reconhecer como protagonistas de suas próprias histórias.
Cada detalhe importa: a valorização dos cabelos crespos, das tranças, dos diferentes tons de pele, das identidades. Há um cuidado estético que também é político. Ao subir no palco, esses estudantes não estão apenas dançando, estão afirmando sua existência, sua beleza e sua potência.
Eles saem desse processo acreditando que são capazes. Acreditando que pertencem. Acreditando que o coletivo é força.
E talvez seja exatamente isso que o público percebe: não apenas uma apresentação bem executada, mas um grupo coeso, conectado, atravessado por sentido. Um coletivo que se reconhece como tal e que, por isso, emociona.
Por: João Victor Mendes
Fotografias: acervo pessoal João Victor Mendes
Entre Contos e Identidades: a escrita de Ivania Rocha
Na semana em que celebramos o Dia da Língua Portuguesa, voltamos o olhar para as vozes femininas que escrevem, registram e eternizam as memórias do nosso território. Entre elas, destaca-se Ivania Rocha, professora, doutora e autora de importantes obras literárias que contribuem para a valorização cultural de Irecê e região. Em especial, seu mais recente livro, Caminhos e Atalhos, apresenta uma coletânea de narrativas dinâmicas e envolventes, inspiradas nas vivências, lembranças e cenas cotidianas do povo ireceense.
Mais do que entreter, a literatura cumpre um papel essencial na preservação da memória coletiva. Escrever é um gesto de resistência contra o esquecimento. Cada conto, personagem ou cenário carrega marcas de um tempo, de um território e de um modo de viver que atravessa gerações. Em um contexto onde tantas histórias do interior permanecem invisibilizadas, obras como as de Ivania Rocha tornam-se ferramentas de permanência, pertencimento e difusão cultural. A escrita transforma lembranças em patrimônio simbólico e garante que as narrativas do povo continuem ecoando para além do presente.
Com uma escrita sensível e marcante, Ivania constrói narrativas que transitam entre o lógico e o inesperado, o cotidiano e o cômico, criando uma verdadeira dança de emoções que se aproxima da própria vida. Seus personagens carregam humanidade, contradições e afetos que fazem o leitor se reconhecer nas páginas. Sua literatura valoriza o interior não como margem, mas como centro pulsante de cultura, memória e identidade.
Ler, nesse sentido, também é um ato de encontro. A leitura amplia horizontes, fortalece identidades, desperta o senso crítico e nos aproxima de diferentes formas de existir e interpretar o mundo. E talvez esteja aí a grande potência de Caminhos e Atalhos: fazer com que o leitor percorra caminhos que parecem íntimos, familiares e, ao mesmo tempo, profundamente universais.
Fica então o convite, ou melhor, a provocação: quantas histórias do nosso território ainda não conhecemos porque nunca nos permitimos lê-las? Mergulhar na escrita de Ivania Rocha é atravessar memórias, afetos e paisagens que revelam a riqueza cultural do interior baiano. Ler suas obras é também reconhecer o valor das narrativas que nascem longe dos grandes centros, mas que carregam a grandeza de um povo inteiro.
Por: Rubi Santos e Indira Lima
Fotografias: Rubi Santos
As imagens aqui compartilhadas são, ao mesmo tempo, um alerta e um chamado à consciência. Elas revelam diferentes formas de violência contra o patrimônio cultural: a destruição física de uma escultura contemporânea e a intervenção agressiva sobre sítios de arte rupestre, onde um símbolo nazista e outras pichações foram marcados sobre registros milenares da presença humana no sertão baiano, incluindo ocorrências na Serra do Uibaí, no centro-norte da Bahia. Mais do que danos materiais, são feridas abertas na memória coletiva.
A escultura do artista Jailson Paiva, ao aparecer com partes rompidas e ferragens expostas, materializa a fragilidade dos bens culturais diante do abandono, do vandalismo e, sobretudo, da ausência de pertencimento social. Uma obra pública não é apenas um objeto estético colocado no espaço urbano; ela é um mediador de memórias, identidades e afetos. Quando uma peça como essa é depredada, não se destrói apenas cimento, metal ou forma: rompe-se um elo entre a arte, a cidade e a comunidade que nela se reconhece.
A segunda imagem, somada a outras que evidenciam pichações em sítios arqueológicos da Serra do Uibaí, talvez seja ainda mais dolorosa em sua dimensão simbólica. Ver um símbolo nazista marcado sobre pinturas rupestres no sertão baiano é presenciar o encontro brutal entre a intolerância contemporânea e a ancestralidade. As pinturas rupestres são registros dos povos originários e de modos de vida que antecedem a própria ideia de Brasil. São narrativas visuais que atravessam o tempo, carregando sentidos sobre existência, território e espiritualidade.
Inserir sobre esse suporte um símbolo associado ao genocídio, ao racismo e à negação da diversidade humana produz um choque ético e histórico profundo. É uma dupla violência: contra a memória ancestral e contra os valores democráticos. O nazismo, enquanto ideologia, contradiz frontalmente o próprio sentido do patrimônio cultural, que existe para afirmar a pluralidade e a continuidade da vida humana.
Essa reflexão se torna ainda mais urgente quando atravessada pelo Abril Indígena, um período de visibilidade, luta e reafirmação dos direitos e das culturas dos povos originários. Não se trata apenas de uma data simbólica, mas de um chamado à ação. Preservar sítios arqueológicos é, também, preservar as primeiras narrativas deste território. É reconhecer que essas marcas nas pedras não são vestígios mortos, mas presenças vivas de histórias que resistem.
Diante disso, não é mais possível silenciar. Não é mais possível tratar essas memórias como algo distante ou secundário. Cada pichação, cada intervenção violenta sobre a arte rupestre, é também uma tentativa de apagamento, uma continuidade simbólica de processos históricos que marginalizaram e invisibilizaram os povos originários. Proteger esses patrimônios é, portanto, um ato de justiça histórica.
É nesse ponto que a educação patrimonial se revela não apenas importante, mas urgente. O artigo Por uma educação patrimonial emancipadora, de Henrique Furtado, reforça que a educação patrimonial deve ser compreendida como uma prática crítica e transformadora, articulada à pedagogia libertadora. Ao dialogar com o pensamento de Paulo Freire, o autor aponta que não basta “ensinar sobre o patrimônio”; é preciso construir processos educativos que gerem consciência, pertencimento e ação social.
Essa perspectiva ganha ainda mais força quando lembramos a afirmação de Freire (1982, p. 23):
“é tão impossível negar a natureza política do processo educativo quanto negar o caráter educativo do ato político”.
Essa ideia nos ajuda a compreender que o vandalismo não é um ato isolado ou apenas individual, ele também é expressão de uma falha coletiva nos processos educativos. Quando não educamos para o patrimônio, acabamos permitindo que ele seja visto como algo sem valor, disponível para destruição ou apropriação violenta.
A educação patrimonial, portanto, precisa ir além de informar: ela deve provocar. Deve fazer com que as pessoas reconheçam esses bens como parte de si mesmas. Como aponta o debate contemporâneo na área, inspirado em Freire, trata-se de superar uma educação “bancária”, aquela que apenas transmite conteúdos, e construir uma educação dialógica, crítica e participativa.
Sem esse processo, o que vemos nas imagens tende a se repetir: obras públicas depredadas, sítios arqueológicos violados e símbolos de ódio ocupando espaços que deveriam ser de memória, identidade e respeito.
Essas fotografias não são apenas registros de vandalismo. Elas são evidências de uma urgência: a necessidade de formar sujeitos que compreendam, valorizem e defendam o patrimônio cultural, especialmente aquele que guarda as raízes mais profundas da nossa existência coletiva.
Educar para o patrimônio é, no fundo, educar para o respeito.
E preservar não é apenas conservar o passado, é garantir que as histórias continuem sendo contadas. É garantir a possibilidade de futuro.
Por: Indira Lima
Fotografias: Jailson Paiva, retirada da internet e acervo digital UMBU
Quando se fala em carnaval no território de Irecê, fala-se de tradição, identidade cultural e de festas que atravessam gerações, mantendo viva uma das celebrações mais marcantes do interior do estado, a exemplo do Carnalapão, realizado na cidade de Lapão.
Com mais de 70 anos de história, o Carnalapão acontece tradicionalmente antes da data oficial do carnaval, antecipando a folia e aquecendo a economia local. Ao longo das décadas, a festa consolidou-se como um dos principais eventos populares do território de Irecê, reunindo moradores e visitantes em dias de muita animação.
Quem viveu os antigos carnavais lembra, com saudade, do bloco “Os Moiados”, que, durante anos, movimentou as ruas da cidade, fortaleceu o comércio e criou memórias afetivas que permanecem até hoje no imaginário popular. O bloco tornou-se símbolo de uma época em que a festa era marcada pela irreverência e pelo forte envolvimento da comunidade.
Atualmente, um dos grandes destaques é o Bloco das Donzelas. O que começou como uma simples resenha entre amigos, em tom de brincadeira, cresceu e ganhou proporções impressionantes. Hoje, o bloco arrasta mais de três mil pessoas, consolidando-se como uma das maiores atrações do Carnalapão e demonstrando a força da organização popular e da criatividade local.
Diferentemente do que muitos imaginam, o axé não é o único ritmo que comanda a festa. O carnaval do território caracteriza-se pela diversidade musical, abrindo espaço para diferentes estilos. Neste ano, por exemplo, a programação contou com nomes como Edson Gomes, referência do reggae nacional, e Pablo, conhecido como o Rei do Arrocha, evidenciando que a pluralidade sonora é uma das marcas da celebração.
Na data oficial do carnaval, outro evento de grande relevância na região é o Carnaval de Barra do Mendes. Com cerca de 40 anos de história, a festa também se destaca pela organização e pela capacidade de atrair foliões de diversas cidades, fortalecendo o calendário cultural do território. Ao lado dessa tradição, o Carnaval de Rua de Uibaí tem reunido um grande público nas ruas do município, com blocos animados, alegria popular e forte participação da comunidade, reforçando a importância dessa manifestação como parte viva das celebrações carnavalescas no território.
Mais do que momentos de diversão, os carnavais do território de Irecê representam desenvolvimento econômico e valorização cultural. Durante os dias de festa, o comércio local é aquecido, ambulantes ampliam sua renda e os municípios se enchem de vida, música e cores. É a cultura popular cumprindo seu papel de unir pessoas, movimentar a economia e manter viva a tradição que faz do interior baiano um celeiro de alegria e resistência cultural.
Por: Rubi Santos
Fotografias: retirada da internet Thiago Drone; Irecê Notícias e acervo pessoal
Visitar o Memorial do Sertão não é apenas entrar em um espaço expositivo, é aceitar um convite para caminhar, escutar e sentir. Ali, a cultura não está atrás de vitrines. Ela respira e pulsa. Por isso, o Memorial se apresenta como ecomuseu e museu vivo, desses que existem para evocar memória, afeto e reflexão sobre a tradição sertaneja e a vivência do homem sertanejo com a caatinga.
O espaço nasce da iniciativa do artista plástico Akarneiro e de sua família, movidos pelo desejo de retratar a vida como ela é no sertão: cíclica, inventiva e resistente. O Memorial é fruto de uma experiência vivida, de quem conhece a terra seca, a espera da chuva e a sabedoria de viver com o que a caatinga oferece.
Logo na chegada, o visitante é convidado a mergulhar no sertão antigo ao se deparar com uma pequena vila, onde cada detalhe carrega sentido: a budega, as casas que guardam o acervo permanente de Akarneiro, a igrejinha, a lojinha de souvenires e a oficina. Reinterpretada de forma cenográfica e museológica, e ambientada no modelo de arquitetura vernacular sertaneja, a mini vila apresenta uma arquitetura identitária, mais ligada à memória, à simbologia e ao pertencimento do que a um estilo acadêmico formal.
Durante o percurso, o visitante entende que ali nada é apenas cenográfico. A cacimba de água, o moinho de vento, a casa de taipa, a casa de farinha e o engenho de açúcar, expostos ao ar livre, contam histórias de trabalho, coletividade e engenho humano. São tecnologias do sertão, criadas para permanecer quando tudo parece faltar, desmistificando o ideário de um lugar pobre e escasso.
A trilha ecológica conduz o público a conhecer a flora da caatinga, ao revelar plantas resistentes e suas utilidades. No caminho, a sombra da quixabeira acolhe os visitantes para uma pausa necessária, como um gesto simbólico de cuidado, desses que o sertão ensina quando aprendemos a ouvir e observar.
O Memorial também abriga o mudário de rosa do deserto e cactos mexicanos. Nesse espaço, o olhar se amplia para além das fronteiras locais, ao permitir explorar as similaridades entre o semiárido brasileiro e outros territórios áridos do mundo. O sertão, aqui, dialoga com o mundo.
Mais do que preservar, o Memorial do Sertão provoca:
O que é desenvolvimento quando se ignora o saber tradicional?
O que podemos aprender com quem convive há séculos com a caatinga?
Esse é um espaço que educa sem impor, que ensina pela experiência. Um lugar onde cultura, arte e território caminham juntos. E só vivendo essa experiência, tão rica em detalhes, é possível compreender a dimensão desse mundo sertão.
Localizado à 14km do Terminal Rodoviário de Irecê, próximo ao povoado de Angical, o Memorial do Sertão funciona mediante agendamento prévio, realizado diretamente com o artista Akarneiro, por meio dos contatos:
WhatsApp: 74999980074.
Instagram @memorialdosertao. (Acesso no botão abaixo)
Se você busca entender o sertão para além dos estereótipos e viver a caatinga como território de vida, criação e resiliência, o Memorial do Sertão é parada obrigatória. Aqui, o sertão não é seco. É cíclico e sábio.
Texto: Indira Lima
Fotográfias: Cauê Rocha e Indira Lima
Resistências que Ecoam: Opressão Imperial e Lutas Libertárias em Transatlântico e Bolívar
Imagine cenários de caos imperial: nazistas devorando a Europa ou espanhóis escravizando a América do Sul. Transatlântico e Bolívar, duas joias da Netflix, mergulham nesses abismos, mas com um olhar afiado sobre quem resiste. A primeira, de 2023, revive Marselha de 1940-41, onde Varian Fry (Cory Michael Smith) e Mary Jayne Gold (Gillian Jacobs) montam um comitê de resgate para tirar mais de 2 mil artistas e pensadores – como Walter Benjamin e Max Ernst – das garras hitleristas. A segunda, colombiana de 2019, humaniza Simón Bolívar (Luis Gerónimo Abreu), o Libertador, em 60 episódios que traçam sua saga contra o jugo colonial espanhol, com amores intensos como Manuela Sáenz (Shany Nadan) e batalhas épicas pela independência de seis nações sul-americanas.
Semelhanças Políticas: Opressão como Irmã Gêmea da Resistência
Essas séries não são só dramas bonitinhos; elas desnudam a mecânica cruel do poder. A opressão nazista em Transatlântico espelha o colonialismo espanhol em Bolívar: ambos são máquinas de extermínio que devoram corpos e ideias periféricas. Nazistas caçam judeus, surrealistas e exilados; espanhóis escravizam indígenas, povos afros e criollos. Mas a resistência? É o pulso vivo que une as tramas. Fry e Gold operam na sombra, falsificando papéis e burlando fronteiras – uma guerrilha intelectual contra o fascismo europeu. Bolívar, por sua vez, arma exércitos populares, alia-se a llaneros e mulheres como Sáenz, virando o jogo contra a metrópole.
De colonial a decolonial, o padrão grita: impérios centrais (Berlim ou Madri) impõem hierarquias raciais e culturais, mas as margens respondem com solidariedade transnacional. Fry salva mentes "indesejadas" da Europa branca; Bolívar liberta povos racizados da América. Crítica afiada: as duas produções evitam o heroísmo eurocêntrico puro. Transatlântico dá voz a refugiados não-brancos e queer, enquanto Bolívar expõe falhas do Libertador – racismo interno, traições elites – humanizando-o sem santificá-lo. É decolonial na veia: resistência não é de salvadores brancos, mas de redes coletivas que desafiam o "civilizado" opressor.
Estilos e Impactos: Da Estética Retrô à Novela Épica
Visualmente, Transatlântico (7 episódios, 14+) evoca filmes noir dos anos 40, com romances tensos e tensão na tela – ideal pra quem curte drama histórico compacto. Bolívar (60 episódios), com cenários colombianos e espanhóis, mistura novela latina com batalhas grandiosas, perfeita pra imersão longa. Ambas brilham na Netflix Brasil: dubladas ou legendadas em PT-BR, acessíveis e viciantes.
No fim, elas cutucam o presente com urgência brutal. Em 3 de janeiro de 2026, os EUA lançaram a Operação Resolução Absoluta contra a Venezuela: explosões às 2h em Caracas (La Guaira, Baruta, El Hatillo e mais), bombardeios em bases como La Carlota e Fort Tiuna, neutralização de defesas aéreas por 150 aeronaves, captura de Nicolás Maduro e Cilia Flores por Delta Force e FBI – tudo sob ordens do presidente Trump, com pelo menos 80 mortes (incluindo 32 cubanos) e blecautes na capital. O governo chavista decretou emergência, ao denunciar sequestro e agressão soberana, enquanto Rubio fala em "fim da ação". Transatlântico e Bolívar gritam: opressão gera resistência, e a vitória brota das bordas do mundo, como Bolívar ensinou. Assista pra se armar de lições.
Por Indira Lima
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