Nota de repúdio | "Megaoperação" no Rio de Janeiro (RJ), a mais letal e violenta do Brasil
O Grupo de Estudos e Pesquisa em Antropologia da Morte (GEAM), dos Mortos e do Morrer manifesta seu veemente repúdio à “megaoperação” realizada no Rio de Janeiro no dia 28 de outubro de 2025, resultando na morte de mais de 130 pessoas. A “operação” se configura como a mais letal da história recente do país, superando a chacina do Jacarezinho (2021) e o massacre de Carandiru (1992).
O episódio evidencia, mais uma vez, a consolidação de uma política de segurança pública baseada na letalidade e na lógica do extermínio, direcionada, sobretudo, contra as populações negras e periféricas. Sob a retórica da manutenção da ordem, do combate ao crime organizado e da guerra às drogas, o Estado brasileiro perpetua uma necropolítica institucional, na qual a produção da morte é um instrumento de governo e de controle social.
A “ação”, marcada por uso desproporcional da força e violência generalizada, demonstra a barbárie e a persistência de um modelo militarizado de atuação policial que transforma comunidades em espaços de exceção, nos quais direitos fundamentais são sistematicamente e sumariamente violados. Essa política de segurança institucionaliza o medo e legitima a morte como prática de gestão das populações marginalizadas.
Tais práticas não devem ser naturalizadas nem interpretadas como pontuais, mas como parte de um projeto necro-político-histórico de Estado que seleciona quais vidas são consideradas legítimas e quais podem ser eliminadas, alvejadas, massacradas e violentadas. Trata-se, portanto, de uma violência de Estado que se reproduz no cotidiano das periferias urbanas e que deve ser reconhecida como expressão extrema das desigualdades raciais e sociais que estruturam o país.
Diante do exposto, o Grupo de Estudos e Pesquisa em Antropologia da Morte (GEAM) defende a urgente reformulação das políticas de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro e do Brasil, que devem ser orientadas por princípios de direitos humanos, justiça social e garantia da vida. É imprescindível que haja investigação rigorosa por parte dos órgãos competentes, perícia ética e responsabilização dos agentes e autoridades envolvidas, bem como o compromisso com a desinstitucionalização de práticas letais e discriminatórias contra a população.
Manifestamos nossa solidariedade às famílias, amigos/as das vítimas e a todos/as os/as moradores/as das comunidades do Complexo do Alemão e Complexo da Penha que vivenciaram a brutal chacina e intervenção violenta do Estado numa data que ficará marcada para sempre na história do país.
Belém-PA, 30 de outubro de 2025.