O início
Tudo começou em 2008, quando iniciei a graduação em psicologia. Mas para contar sobre isso, vale antes dizer que eu já quis ser bióloga, veterinária e médica. Profissões estas que passavam constantemente pela minha cabeça durante minha fase de ensino médio, até que conheci um psicólogo contratado pela escola, com o objetivo de nos ajudar com orientação vocacional, pois acredite se quiser, a diretora da escola achou que minha sala (terceiro ano) estava muito "apática" sic. Uma visão interessante, de quem encontra o que não espera, 11 alunos e todos focados em passar no vestibular.
Mesmo pensando em medicina, minha ideia era me especializar em psiquiatria, amava a ideia de entender como a mente das pessoas funcionam ou ainda, talvez, me tornar uma neurocirurgiã, inspirada por filmes e séries norte-americanas. Então, tive esse privilégio de ter um psicólogo escolar no E.M. e entender mais e melhor as diferenças entre medicina e psicologia. Me lembro bem de ler constantemente uma revista chamada Superinteressante (não sei se ainda é ativa), e foi lá que li meus primeiros achados sobre Freud, Charcot e descobri o que era a "Cura pela fala" ou também conhecida por "limpeza de chaminé" de um dos casos mais famosos de Breuer e Freud, o caso de Anna O.
Me lembro nitidamente, como se fosse ontem. Eu lendo em meu quarto, sentada em minha cama, e naquele instante tive a sensação que hoje sei que se chama Flow (conceito da psicologia positiva). Foi como se eu tivesse sido teletransportada para uma outra dimensão, onde tempo e espaço desapareceram e eu fiquei totalmente imersa naquela experiência da leitura, imaginando o caso, as cenas, como era ser um psicólogo, como era entender e estudar o funcionamento da mente das pessoas, através do contato com as próprias pessoas e não através de peças anatômicas, e então, quando "me teletransportei" de volta para a realidade, entendi que muito provavelmente eu queria ser psicóloga e não veterinária, ou médica ou qualquer outra coisa.
Assim foi, em 2008 entrei na Universidade, no curso de psicologia. Curioso dizer que não tive em momento algum, dúvida sobre o que estava fazendo ali, algumas pessoas me perguntavam se eu tinha certeza sobre p curso que escolhi, se foi fácil eu me decidir e etc. Hoje entendo ser uma dúvida bastante pertinente entre os ingressantes na graduação, mas na época, confesso que achava uma pergunta estranha, tamanha era minha certeza. Ao mesmo tempo, preciso ser honesta em dizer já tive dúvidas sim, mas elas vieram após a conclusão do curso, durante a minha jornada no mercado de trabalho.
Aqui cabe um parênteses na história. Sou do interior e na época não existia faculdade na minha cidade, a única que havia era uma faculdade de um único curso - direito. Então decidi que já que teria que sair da cidade, queria sair para uma cidade grande e escolhi São Paulo, a grande capital, que eu conhecia apenas pelas excursões realizadas com o colégio, ou seja, eu não sabia absolutamente nada sobre São Paulo e achava linda, claro, eu tinha só um mero retrato (muito embelezado) na minha memória.
Decidido isso, fui comunicar meus pais. Minha mãe pouco opinou, acho que para ela o mais importante era que eu estudasse "para ser alguém na vida" (como costumava dizer), apesar de não gostar muito da ideia de eu sair de casa e ir pra onde ela não teria coragem de ir dirigindo me visitar (ela sempre teve pavor em dirigir em São Paulo - mas hoje em dia é um medo superado). Já meu pai, tentou me chantagear me oferecendo uma casa em troca da faculdade, quem sabe eu aceitasse e ficasse por ali mesmo, e dessa parte da minha história, eu também me lembro muito bem, como se fosse ontem. Sentados a mesa da cozinha, meu pai me fazendo essa proposta e eu lhe fazendo a minha contra proposta: - "Parece bem interessante, mas pai, o que eu farei com um terreno ou uma casa, sem uma profissão? Venderei picolé na rua? Eu ainda prefiro a faculdade, assim me formo e trabalho na área que eu desejar e compro a minha casa!"
Por favor, me entendam, nada contra quem vende picolé, seja em carrinhos, na praia ou sorveterias. Foi apenas uma fala ilustrativa de uma adolescente que valorizada mais uma graduação e o processo de ser, do que o ter proposto naquele momento.
E bem, aquela adolescente sabia do que estava falando. Pois me formei, trabalhei, ganhei meu dinheiro e comprei minha casa. Foi em uma sessão de terapia, que me dei conta, que eu já cumpri com a minha proposta daquele dia (mas deixa isso pra uma outra ocasião).
Nos primeiros anos de psicologia, tudo era lindo e abstrato. Haviam muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, novos saberes, conhecimentos e também uma cidade enorme para ser desbravada, juntamente com uma cultura e pessoas tão diferentes de mim.