A pintura “Funeral Trincheira” se apropria de ícones históricos brasileiros contemporâneos como as máscaras de proteção coloridas, a falta delas ou o nariz descoberto. Também existe uma “Pinturafagia”, nesse caso, pensando na obra Operários de Tarsila do Amaral, concebida em 1933. Operários foi e é um registro histórico do período de industrialização brasileira que retrata uma classe vulnerável e explorada, por isso é usado como principal referência na concepção de Funeral Trincheira. Muito pela tangência entre disputas políticas que existem entre aquele período e o agora. Obviamente até 2020 existem quase 90 anos de distância temporal e cultural, muitas coisas mudaram e isso exigiu uma adaptação dos rostos que também se modificaram ao longo de tantas transformações no Brasil. Hoje em dia Operários está no Acervo do Palácio Boa Vista, ironicamente em poder do estado, que em Funeral Trincheira é representado pelo grande “porco” vestido de uma máscara cinza e verde militar. Ele pisa na cabeça da população localizada na beira de um abismo. Essa espécie de Homem Porco indica para as pessoas que o carregam, a direção na qual devem seguir, essa direção são as covas no fim do abismo.
As trincheiras evocam uma memória de guerra que me interessa no que se faz referência a concepção do título do trabalho. No auge da contaminação por coronavírus no Brasil, os jornais e canais de notícia mostravam o procedimento adotado por alguns municípios para enterrar os mortos pelo vírus, Várias covas lado a lado, feito trincheiras, sem nenhum tipo de cuidado ou respeito pelo luto das famílias. Um dos piores momentos dos últimos anos. Ainda estamos em um momento extremamente crítico e a maior parte pessoas parecem não se importar com nada disso, ou simplesmente chegaram ao ponto de normalizar acontecimentos grotescos. A apropriação de símbolos brasileiros foram necessários para expressar essa visão do contexto. Funeral Trincheira é um grito de denúncia que escancara as problemáticas desta “distopia” onde todos nós estamos vivendo.
Acrílica e tela
95 x 160 cm
2018
Curupira ou Caipora segundo contam as histórias contadas de boca a boca, é um espírito da mata que se materializa na imagem de um humano com os cabelos laranjas feito o fogo e os pés virados as costas, para confundir lenhadores ou pessoas que atentam contra a fauna e flora. Ele é conhecido por proteger as florestas do Brasil usando diversos truques e artimanhas, em alguns lugares acredita-se que se transmuta a forma de qualquer ser vivo. Na pintura Curupira é representado como um homem grande e forte, em seu corpo pelos alaranjados bem como seu cabelo que parece estar em chamas. A feição em seu olhar é de quem tenta chegar o mais profundo no olhar do outro. Está em alguma mata escura, tendo em suas mãos a cabeça do então presidente Jair Bolsonaro. Foi pintado em 2018, momento em que nosso país começa a ser afetado por políticas genocidas e exploratórias, queimadas na floresta amazônica, poluição dos rios e praias, dentre milhares de outras coisas absurdas dos últimos 4 anos.
O processo para produzir o Herói Nacional iniciou-se através de estudos a respeito da colonização no Brasil, estava instigado a pensar movimentos de-coloniais nas artes plásticas. As obras de Tarsila, Carnaval em Madureira (1924) e Abaporu (1928) são exemplos de pinturas que afirmam e valorizam a própria cultura . Me vi diante de algo tangente ao apelo que ainda não passava de um processo, acabei sentindo a necessidade de trazer ao mundo essas questões que me orbitavam. Passei a pesquisar alguns mitos do folclore brasileiro como Boitatá, a Yara, o boto cor de rosa etc... Figuras que compõem esse rico cenário. Me interessava nessa pesquisa pensar em como se constrói a imagem de um inconsciente coletivo quando pensamos nessas divindades, a representação visual convencional. Um dos métodos utilizados para entender as diferentes manifestações de lendas pelo território brasileiro, foi entrevistar pessoas (moradores da Casa do Estudante Universitário da Ufpel), com um recorte voltado a 2 estados, Rio Grande do Sul e São Paulo, dois estados com distâncias territoriais e culturais marcadas. Isso me permitiu comparar o mesmo objeto através de olhares distintos. Nessa entrevista básica questionava sobre a figura de determinadas alegorias, principalmente o Curupira a 9 participantes voluntários individualmente, com 4 perguntas pontuais predeterminadas, incluído “qual história você conhece sobre o curupira ?” e “ Como você acha que ele é fisicamente? “. A partir dos relatos, tentei construir uma representação do protetor das matas brasileiras aproximada das formas que se repetiram entre os entrevistados, como o cabelo de fogo e o pé invertidos. Depois de analisar os dados, percebi o qual temida a entidade do curupira é independente das variações com que a história é contada. Pintar esse ser é uma tentativa de evocar suas forças nesse momento de luta, onde deveríamos estar buscando uma postura combativa aos atentados ambientais proporcionados pelo estado. Necessitamos mais do que nunca de um Curupira que arranque as cabeças dos que nos matam. De certa forma em Herói Nacional o Fantástico presente por exemplo em Noite de Ritual acaba se tornando secundário para abrir espaço a reflexão crítica da ao cenário político de 2018.
Acrílica e tela
65 x 85 cm
2019
Entre 2017 e 2022 produzi uma série de trabalhos que chamo de Noite de Ritual onde construo situações com figuras e cenas enigmáticas, trazendo do imaginário através da adição de camadas acrílicas, esses lugares e seres fantásticos de um universo onírico. Nesses momentos gosto de pensar também nas formas de representação de contrastes entre claro e escuro, buscando deixar pinceladas marcadas para evidenciar o movimento do gesto. Por serem acontecimentos noturnos os tons que compõem essas pinturas geralmente são bem rebaixados, através de rompimento dos tons e mistura entre marrons e cinzas coloridos, evitando sempre pigmentos pretos. Neste trabalho de 2019 as figuras sentadas no espaço constituem uma triangulação central na tela, através de um “quase toque” de suas mãos acima das cabeças e pela posição de suas pernas. Com o outro braço, esses dois seres humanoides seguram na altura do tórax uma espécie de sapo vermelho, com um chifre na cabeça e um cristal no topo. Além da lua no canto superior direito, o cristal é proveniente da maior parcela de luz contida na pintura. É a luz do cristal que revela os seres de rosto roxo e corpo marrom, revela a grama que estão dispostos e as 7 pedras ao redor. O ritual no nosso dia a dia pode ser interpretado de inúmeras maneiras, desde seu significado mais categórico como os ritos tradicionais de celebração e invocação, até o mais simples, como soprar canela. Noite de Ritual IV , foi pensado para que seus signos e figuras causem estranhamentos, e abram espaço à interpretações sobre diversas vias.
As primeiras pinturas dessa série foram pensadas a partir de sonhos que se repetiram em períodos da minha vida. Começaram a aparecer no ano seguinte em que me formei no ensino médio e estava prestando vestibulares. Eram sempre muito lúcidos, estava em lugares escuros no meia a matas, ia me aproximando de uma fogueira com chama extremamente brilhante, dificultado manter os olhos abertos, em volta várias silhuetas de formas identificáveis circulando e emitindo sons parecidos chiados de tv. No sonho eu sabia que ninguém me via, entretanto sentia pavor quando percebia onde estava e sempre despertava tentanto fugir no breu. Sempre quando acordava desses sonhos achava tudo muito cômico, entendendo que era meu inconsciente afetado pelas séries de bruxaria que adorava maratonar misturadas aos meus medos e tensões pré vestibulares. Trazer para o material essas imagens foi importante não só para me libertar das questões com a repetição desses sonhos como também servir de inspiração para os desdobramentos que ocorreram nos anos seguintes.
Gosto de pensar em minhas pinturas como uma forma de me aproximar do outro, de entender como e onde afeta cada pessoa. Nesse sentido as críticas e relatos que chegam aos meus ouvidos pelo trabalho é o que mais me interessa depois de “finalizar” uma pintura. Quando me perguntam coisas do tipo “o que significa ?”, “quem são essas figuras?” ou “o que estão fazendo ?” Procuro devolver a mesma pergunta. Algumas pessoas se sentem insatisfeitas e tentam buscar informações como se ali estivesse uma história linear de começo, início e fim, o que não é sustentável já que tudo que o espectador precisa para criar uma relação está implícito no trabalho. Não existe um caminho certo pré estabelecido, todos os caminhos são "certos" e quanto mais atravessado pela vivência de quem o percebe mais sentido e profundidade o trabalho consegue sustentar.