De um modo geral, nos últimos anos, meu trabalho em pintura acrílica foi se expandindo em torno desse desejo de tecer narrativas, evocar lembranças, sugerir figuras, que vão em contramão a certos dogmas e costumes relacionados a representações e imagens. Essas espécies de histórias onde existe a figuração do “sobrenatural”, de arquitetar uma situação em movimento e entregar pro mundo pra ver reverberar.Desde muito jovem fui fascinado por narrativas que abordam o fantástico, o lúdico, o surreal etc. O cinema e a literatura ligados a roteiros de ficção científica, aventura e mistério me chamam a atenção para pensar nessa capacidade criativa que temos de inventar universos inteiros a partir da imaginação.Evidentemente isso influenciou muitos de meus trabalhos. Ainda no ensino médio costumava desenhar figuras e lugares que considerava tenebrosos, como demônios ou criaturas animalescas antropomórficas, não estava interessado na figura convencional de um herói que chega em um cavalo branco combatendo o "mal" e salvando a humanidade, que determina valores morais numa perspectiva excludente.Essa carcaça criada pelas grandes instituições de estados ocidentais, legitimada pelas indústrias cinematográficas e de publicidade nunca de fato me vestiu, num sentido ideológico, embora inevitavelmente esteja presente em múltiplos campos que me permeiam. É tentando traçar um caminho de quebra com esses paradigmas que chego nas criaturas fantásticas, as que causam medo ou incômodo, por ser o que a maioria das pessoas tem como representação do visual do mal.Pela pintura, construo situações com figuras e cenas enigmáticas, trazendo do imaginário através da adição de camadas acrílicas, esses lugares e seres fantásticos de um universo onírico.