FASC - Salão Vesta Viana 2024
FASC - Salão Vesta Viana 2024
Salão dos Novos 2024 - 3° lugar
Título: Maré Baixa.
Título: Sob a gaiteira, canto pro Aratu.
MEMORIAL DESCRITIVO DAS OBRAS
A proposta das duas obras se inicia na pesquisa e reflexão sobre os saberes e fazeres da mariscagem na cidade de Aracaju, e também se estende por outras regiões de Sergipe, como por exemplo nos povoados de Pontal, Terra Caída e Preguiça, localizados no município de Indiaroba.
A mariscagem é uma atividade ancestral realizada majoritariamente pelas mulheres sergipanas nas áreas de manguezal e alagadiços, em sua maior parte formada por mulheres pretas, fortes e resistentes, que exercem uma tradição carregada de riquezas, respeito com o mangue, sabedoria com as marés e colaboração entre os que compõem a comunidade pesqueira.
Para além do fazer, a própria região dos manguezais compõem fundamental função no equilíbrio dos biomas aqui presentes e na manutenção natural dos ecossistemas litorâneos
de Sergipe, essas áreas entre o rio e o mar são berçários de inúmeras espécies de mariscos e peixes, que oferecem para essas famílias o alimento e o sustento, as mulheres dedicam uma vida inteira a viver do mangue, sempre atentas aos horários das marés.
1. Maré baixa. (Obra Premiada em 3° Lugar no Salão)
A primeira obra retrata uma mulher negra marisqueira dentro do rio, nas mãos um caldeirão com alguns poucos mariscos, entre eles o sirí, o camarão e o aratu, em uma cena externa, onde há a presença do manguezal ao fundo, um dia de sol e céu limpo com detalhes para as garças que estão em voo e também no mangue.
A obra apresenta uma narrativa ligada ao olhar do esforço, resistência e as dificuldades enfrentadas na rotina dessas mulheres para conseguir capturar o seu alimento no mangue e depois prepará-lo para a comercialização, o mercado da venda do marisco é exigente.
O trabalho das marisqueiras é árduo e com condições por vezes precárias, elas seguem o seu fazer que foi passado de geração a geração, sustentam suas famílias, muitas sem marido, e sem apoio por parte da gestão dos municípios.
Lidar com os perigos e adversidades do mangue, requer coragem e sabedoria, a qual somente elas se encarregam, os homens preferem a pesca no barco. Elas saem para a pesca quando as águas baixam e a lama fica exposta, tem o momento certo para tudo, algumas se guiam pela lua, outras só de olhar a maré. Detém um conhecimento ancestral sobre todo o entorno dessas águas salobras cheias de vida, e desenvolvem uma relação sensível com os seres do mangue. O artista desenvolve um diálogo com o suporte de aplicação da pintura, onde se aproveita dos elementos, formas e palavras já contidas no papel para uma comunicação direta com a obra, pintada em tintas acrílicas.
2. Sobre a gaiteira, canto pro Aratu.
Na segunda obra o artista apresenta uma cena interna do mangue, retratando a marisqueira sobre as gaiteiras ou bagas, nome dado às raízes que saem da lama e emergem da superfície, se entrelaçando e criando um ambiente único, cheio de vida. Até chegar onde ela está, existe todo um processo, caminhar na lama têm seus riscos, a pintura revela o momento em que a marisqueira está sob as gaiteiras, com sua vara e isca, quando escolhe o lugar, fica imóvel para não assustar o aratu, o principal marisco de sua jornada, animal rápido e desconfiado. A pesca do aratu é atividade majoritariamente exercida pelas mulheres, e com seus saberes, algumas delas cantam para os aratus e eles saem das tocas, essas cantigas encantam os bichos que mordem a isca e de forma rápida elas puxam a vara e capturam o marisco, a obra foi pensada nesse contexto da relação de respeito, conhecimento e a mística por trás dessa relação entre o mangue, a mulher e o aratu. Geralmente ficam afastadas umas das outras, permanecendo horas sozinhas para mariscar e voltar com o balde cheio. Na obra o artista também cria um diálogo da pintura com o suporte, onde um permeia o outro de forma equilibrada e sensível, aproveitando palavras, formas e propondo questionamentos.
Lei Paulo Gustavo, Painel de Graffiti "Sonhos Gigantes" 2024
"Sonhos gigantes'' é um painel de grafitti de criação autoral que apresenta através da pintura no muro uma proposta de reflexão e questionamento sobre o reconhecimento da história do território Sergipano e do corpo negro em desenvolvimento dentro do cenário suburbano de Aracaju. Com uma estética lúdica e uma criação com elementos afrodiaspóricos, o painel propõe ao público uma experiência de imersão na arte.
Festival de Artes de São Cristóvão 2023
MEMORIAL DESCRITIVO DO CARTAZ
A construção da arte se inicia em uma observação e pesquisa da iconografia negra de São Cristóvão e sua pluralidade de influências, somado a outras culturas que constroem o social e a estética da cidade, passando pelo fazer da pesca, arquitetura das igrejas, geografia, folclore e movimentos culturais.
O processo foi iniciado na parte prática com esboços em papel e pintura em aquarela afim de imergir no tema e na proposta que eu gostaria de inscrever. Aliado a pesquisa, leituras, reportagens e discussões, fui aprofundando. Em seguida, passei a arte do papel para o Tablet e de forma digital o processo se deu novamente, aqui, tudo foi se construindo, tomando forma e acabamento até a sua finalização.
Para a parte visual pensei em criar um cartaz com referência ao estilo da Xilogravura, sendo ela uma técnica que atravessa gerações e de forte influência na arte Sergipana. Associada com linhas geométricas que funcionam como uma moldura de toda a obra.
Nas extremidades, utilizei um desenho que está presente nos biscoitos “Bricelets”, das Freiras Beneditinas, com seu modo particular de ser feito, de origem Suíça, mas que aqui ganha esse visual. Uma herança histórica e que hoje torna-se fonte de renda e contribui para a identidade gastronômica da cidade.
Utilizei a logomarca do festival para unir-se a identidade da minha arte, junto aos letreiros na parte inferior e superior que apresentam acima a edição 38 do festival,
e abaixo o nome do festival. Uma fusão da estética da marca FASC somado a estilo da Xilogravura que trago na criação. Foi adicionado um elemento gráfico na escrita propondo uma comunicação com a identidade visual desse ano de 2023.
A escolha das igrejas para compor a arte foram feitas a partir de estudos sobre a história das construções delas em São Cristóvão. Numa época onde existiam igrejas de pessoas brancas, pardas, e depois de muito tempo foi possível a construção de igrejas para pessoas pretas. A Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que fica à direita na arte, é uma construção que tem um valor histórico gigante, sendo construída pela Irmandade dos Homens Pretos, uma organização coletiva que tinha o objetivo de preservar, manter ativa a cultura e os saberes do povo preto naquela época, e também executavam algumas obras. A igreja fica fora do eixo central turístico e merece atenção quando falamos da história da cidade, da luta e resistência do povo negro. Carrega em sua composição elementos da diáspora como o arco e flecha, a cobra, e arquétipos que fazem referência à cultura afrodescendente que está presente na identidade do povo de São Cristóvão.
A Igreja de Nossa Senhora do Amparo dos Homens Pardos, que fica à esquerda na arte, também é de grande importância na história do povo preto, uma das igrejas mais antigas da cidade, com sua arquitetura que traz elementos do neoclássico, construída pela Irmandade dos Homens Pardos. Essa igreja torna-se um símbolo de resistência e trabalho coletivo de um povo que foi excluído e oprimido. Posicionadas nas laterais dos personagens, as igrejas trazem uma continuidade da composição horizontal, estando em destaque dentro da zona preta que atravessa toda a arte.
São Cristóvão é cercada por uma importante região de mangues e apicuns, sendo essa uma das principais características de sua geografia, as Raízes de Mangue guardam berçários de inúmeras espécies de animais e mariscos, servindo de alimento e sustento para muitas famílias ribeirinhas que dependem da preservação e conservação desse bioma. Posicionadas na parte inferior lateral, elas sustentam toda a zona preta que atravessa a arte. Como na natureza, partem da terra para cima com suas raízes expostas.
Não poderiam deixar de estarem presentes, a Lua, que influencia nos ciclos das marés e junto das Estrelas iluminam a noite como um farol, e o Sol, que através dos seus raios traz vida para as águas e esquenta o chão de pedra da cidade mãe de Sergipe. Todas as manifestações acontecem sob esses astros que protagonizam no céu um ponto de força e mística no dia a dia de São Cristóvão.
Os portões são elementos das construções que trazem junto à estrutura toda influência de um tempo, marcando a época e inspirando o olhar por seus detalhes, curvas e expressividade. Posicionado na parte superior trazendo um plano de fundo para os personagens, pois é na frente dos portões das casas, prédios históricos e igrejas que todas essas manifestações acontecem.
A composição dos personagens foi pensada de forma minuciosa com pesquisa e estudo, buscando extrair de forma múltipla a abundância presente nos movimentos culturais da cidade. Na minha ótica todos os personagens culturais e público poderiam se misturar como acontece no festival, e assim comecei a construção dessa etapa.
A Marisqueira, figura que está na base da composição do cartaz representando as mulheres da comunidade pesqueira de São Cristóvão. A manutenção desse ofício evidencia a importância delas na formação da identidade cultural do município, partindo desse olhar sua presença se faz essencial na arte.
Além da marisqueira, escolhi trazer outros personagens importantes para cultura, entre eles, a Caceteira do Mestre Rindú tocando chocalho, tradição existente há mais 160 anos.
O Tocador de Zabumba foi o escolhido para representar o Samba de Coco da Ilha, tradição do povoado de Ilha Grande, liderado pelas Mestras Madá e Adelaide.
No centro, a Menina do Reisado, dançando, trazendo as cores para a criação
com sua vestimenta alegre e as fitas coloridas que atravessam os personagens e o cenário, propondo movimento para a arte.
Somando a composição, na parte superior, A Chegança, representada pelo Padre/Vigário, movimento presente na história de São Cristóvão, herança do período da colonização portuguesa.
Nas laterais escolhi retratar o público, a grande atração do Festival, representado por duas mulheres de gerações diferentes que aparecem alegres vivenciando a experiência do Festival de Artes de São Cristóvão. Finalizando a estrutura que apresenta a parte principal do cartaz, que são as manifestações culturais e as pessoas que fazem do FASC um dos maiores festivais do país.
Alef Freire Santos