Filosofia do Karatê
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PARA FUNAKOSHI, TODOS OS ITENS DO DOJO KUN ERAM IMPORTANTES. POR ISSO ELE NUMEROU CADA ÍTEM COMO SENDO O PRIMEIRO.
Se uns perguntam de que se trata, outros já o conhecem e, outros ainda, provavelmente até o dizem no Dojo, no final dos treinos. O que é realmente importante é entende-lo, praticá-lo e ensiná-lo. Genericamente trata-se de um conjunto de cinco regras, apontando cada uma delas para sentidos diferentes do comportamento do Karateka. Estas regras não se destinam apenas à regular a atitude do praticante durante o treino, mas também, durante todos os momentos da sua vida, exterior ao Dojo.
HITOTSU - REIGI O OMONZURU KOTO
(1º - RESPEITO ACIMA DE TUDO)
Sendo o karate uma modalidade que nos proporciona a aprendizagem de movimento e técnicas de grande poder e eficácia, susceptíveis de provocarem danos quando aplicadas no corpo humano, não se concebe a dispensa da etiqueta e o culto das boas maneiras, como factor regulador nos ímpetos agressivos e violentos. Não sendo assim, o karatê-dô torna-se uma prática rude e rudimentar, à semelhança do que acontece em alguns desportos de competição, com a agravante de que, neste caso, se trata de uma arte marcial, isto é, de movimentos de ataque e defesa. A confirmar os meus receios, temos a forma grosseira como a competição trata o karate. Assistir hoje a uma competição de karatê-dô, salvo raras excepções, é um espectáculo decepcionante. A falta de qualidade técnica e ética, invariavelmente de mãos dadas, começa nos competidores alastrando-se até ao público assistente, passando pelos árbitros e pelos instrutores responsáveis pelas ações em disputa. É realmente um mau espectáculo e sobretudo não dignifica a modalidade.
HITOTSU - JINKAKU KANSEI NI TSUTOMURU KOTO
(1º - ESFORÇAR-SE PARA A FORMAÇÃO DO CARÁTER)
Se o karatê-dô entendido como uma filosofia de vida, significa que as capacidades adquiridas por este método, estilo, permanecem presentes no indivíduo e não apenas quando este se encontra nas melhores condições físicas ou no pico da forma. O verdadeiro karateka encara uma doença ou uma lesão como um momento ideal para treinar e sentir o karatê-dô. É debaixo de grandes dificuldades que se desenvolvem grandes qualidades de caráter. O fundador do karatê-dô, Gichin Funakoshi ensinava: "A finalidade do karatê-dô não reside na vitória ou na derrota, mas sim, no aperfeiçoamento do caráter dos seus praticantes".
HITOTSU - MAKOTO NO MICHI O MAMORU KOTO
(1º - FIDELIDADE PARA COM O VERDADEIRO CAMINHO DA RAZÃO)
O homem do mundo atual tem revelado, não nas palavras contidas no discurso teórico-filosófico acerca das normas por que se diz reger, mas sobretudo no ato concreto da convivência social, uma enorme dificuldade em se abstrair do "parecer" e de valorizar o "ser". Curiosamente, se colocarmos esta questão a qualquer pessoa, ou em qualquer lugar, a resposta é sempre a favor do ser. No entanto, o que se verifica na prática corrente do dia a dia é a hipocrisia do "parecer". O treino de karate tem de ser um ato de sinceridade que nos torne humildes nas facilidades e corajosos nas dificuldades. Esta é a única maneira de evoluir em karatê-dô e de entender o "oss". A falta de sinceridade evidenciada pelos competidores, produto de uma instrução distorcida, aconselhada pelos próprios instrutores, desprovida dos mais elementares princípios do karatê-dô, leva, pouco a pouco, ao abandono da modalidade pelos praticantes que se sentem enganados. Por outro lado, promover e divulgar provas desportivas de karatê-dô com muita qualidade, é o mesmo que dizer às pessoas para não praticarem karatê-dô. Que nos vale exibir o cinto ou a taça do nosso desejo sem uma prática dura e rigorosa do treino? De que nos vale "parecer" se não conseguimos "ser" ? ... É para dizermos nos jornais e aos amigos que somos? ... E a nós? O que dizemos ?
HITOTSU - DORYOKU NO SEISHIN O YASHINAU KOTO
(1º - CRIAR O INTUITO DE ESFORÇO)
O treino de karatê-dô, não obstante de ser um excelente exercício físico, é sobretudo um método de educação do corpo. No entanto, devemos ter sempre presente que não é no corpo que se governa a vida. Nesse sentido assume especial relevo o desenvolvimento do espírito em apelo às capacidades evolutivas - o esforço. Esta que é a terceira das cinco máximas do karatê-dô, é a que mais frequentemente se interpõe entre o treino e o praticante. Porém, o culto do esforço não terá, no karatê-dô, o mesmo significado que no desporto em geral. Nos desportos tradicionalmente ocidentais, o esforço é uma componente do treino para aquisição da condição física e do rendimento desportivo. Isto significa que, o desportista só vale quando a sua condição física o coloca no pico da forma. No karatê-dô, o esforço tem o significado do confronto. É sob as grandes dificuldades que se revelam algumas características do indivíduo, ocultas na sua personalidade, quantas vezes sem ele mesmo as conhecer. Nas atividades desportivas procura-se o esforço para vencer o sentir antecipado da fadiga, ou de preferência que nem se faça sentir. Esta é a forma ideal do "atleta". No karatê-dô, procura-se o confronto do karateka com a fadiga. Quantas vezes são revelados métodos científicos para a aquisição da forma? Este facto é por vezes referido pelos metodólogos do desporto como errado. Eles porém, desconhecem que este é um dos princípios essenciais que caracterizam as artes marciais.
HITOTSU - KEKKI NO YU O IMASHIMURU KOTO
(1º - CONTER O ESPÍRITO DE AGRESSÃO)
Qualquer uma das três disciplinas que compõem o treino de karatê-dô: Kihon, Kata ou Kumite, nos relaciona com as cinco máximas. No entanto, o treino de Kumite confronta-nos não apenas conosco, mas também com o nosso opositor. Nesta disciplina o praticante é intérprete na encenação de uma luta pela sobrevivência, durante a qual é avaliado e educado, pela exposição do seu instinto natural genérico e cultural. A sobrevivência é talvez a motivação mais forte no ser humano, causa do empenho e dos exageros a que frequentemente assistimos na sociedade actual. Não raro, atos irreflectidos tomam o lugar da razão e do discernimento, numa clara perda de auto-controle. A história das artes marciais está cheia de referências de grandes Mestres, que nos herdaram com os seus pensamentos e atos. Um samurai do séc. XIX, era conhecido pelo rigor e exigência com que ministrava os treinos aos seus discípulos. Antes de morrer, deixou as suas armas pessoais ao seu aluno mais graduado, juntamente com um livro das suas memorias intitulado: "O melhor e mais valente samurai é aquele que ganha o combate sem ter de desembainhar o sabre". O fundador do Aikido - Mohrei Ueshiba dizia: " O melhor lutador é aquele que mata o combate à nascença." o que equivale a dizer que o combate cessa antes de ter começado. Esta filosofia de interpretar e cultivar as artes marciais, revela uma forma superior de estar em sociedade e de profundo respeito pela individualidade humana. Só assim compreendemos a razão da saudação ao dojo quando dele saímos. É o respeito pelo local onde aprendemos, pelos companheiros de treino e pelo "sensei" e também pelo nosso esforço, através do qual aprendemos a conhecermo-nos melhor.
O MESTRE FUNAKOSHI TAMBÉM CONSIDERAVA TODOS OS ITENS DO NIJU KUN IGUALMENTE IMPORTANTES. POR ISSO ELE TAMBÉM NUMEROU CADA ÍTEM COMO SENDO O PRIMEIRO.
Hitotsu - Karate-do wa rei ni hajimari, rei ni owaru koto wo wasureru na
1º - NÃO SE ESQUEÇA DE QUE O KARATÊ-DÔ COMEÇA E TERMINA COM REI
Hitotsu - Karate-do ni sente nashi
1º - NÃO EXISTE PRIMEIRO GOLPE NO KARATÊ
Hitotsu - Karate-do wa gi no tsukuke
1º - O KARATÊ PERMANECE DO LADO DA JUSTIÇA
Hitotsu - Mazo jiko wo shire, shikashite ta wo shire
1º - PRIMEIRO CONHEÇA A SI MESMO, DEPOIS CONHEÇA OS OUTROS
Hitotsu - Gi jutsu yori shin jutsu
1º - O PENSAMENTO ACIMA DA TÉCNICA
Hitotsu - Kokoro wa hannatan koto wo yosu
1º - A MENTE DEVE FICAR LIVRE
Hitotsu - Wazawai wa getai ni shozu
1º - O INFORTÚNIO RESULTA DE UM DESCUIDO
Hitotsu - Dojo no mi no Karate-do to omou na
1º - O KARATÊ VAI ALÉM DO DOJO
Hitotsu - Karate-do no shugyo wa issei de aru
1º - KARATÊ É UMA ATIVIDADE VITALÍCIA
Hitotsu - Arayoru mono wo Karate-do seyo, koko ni miyomi ari
1º - APLIQUE O SENTIDO DO KARATÊ A TODAS AS COISAS. ISSO É O QUE ELE TEM DE BELO
Hitotsu - Karate-do wa yu no gotoku, taesu netsu wo ataezareba, moto no mizu ni kaeru
1º - O KARATÊ É COMO A ÁGUA FERVENTE: SEM CALOR, RETORNA AO ESTADO TÉPIDO
Hitotsu - Katsu kangae wa motsu na, makenu kangae wa hitsuyo
1º - NÃO PENSE EM VENCER. EM VEZ DISSO, PENSE EM NÃO PERDER
Hitotsu - Sen wa kyo jutsu tenka seyo
1º - MUDE DE POSIÇÃO DE ACORDO COM O ADVERSÁRIO
Hitotsu - Tekin yo tsute tenka seyo
1º - O RESULTADO DE UMA BATALHA DEPENDE DE COMO ENCARAMOS O VAZIO E O CHEIO (A FRAQUEZA E A FORÇA)
Hitotsu - Hito no te ashi wo ken to omoe
1º - CONSIDERE AS MÃOS E OS PÉS DO ADVERSÁRIO COMO ESPADAS
Hitotsu - Danshi mon wo izureba, yaku man no teki ari
1º - AO SAIR PELO SEU PORTÃO, VOCÊ SE DEPARA COM UM MILHÃO DE INIMIGOS
Hitotsu - Kamae wa shoshisha ni, ato wa shizentai
1º - A KAMAE (POSIÇÃO DE PRONTIDÃO) É PARA OS INICIANTES; COM O TEMPO, ADOTA-SE A SHIZENTAI (POSTURA NATURAL)
Hitotsu - Kata wa tadashiku, jissen wa betsu no mono
1º - EXECUTE O KATA CORRETAMENTE; O COMBATE REAL É OUTRA QUESTÃO
Hitotsu - Chikaba no kyo jaku, karada no shin juko
1º - NÃO SE ESQUEÇA DE IMPRIMIR OU SUBTRAIR A FORÇA, DE DISTENDER OU CONTRAIR O CORPO, DE APLICAR A TÉCNICA COM RAPIDEZ OU LENTAMENTE
Hitotsu - Tsune no shinen kufu seyo
1º - MANTENHA-SE SEMPRE ATENTO, DILIGENTE E CAPAZ NA SUA BUSCA DO CAMINHO
O mestre Funakoshi se refere ao "dô" , como um princípio milenar de honra e de respeito, no desenvolvimento do auto aperfeiçoamento físico, mental e consequentemente espiritual. Tais princípios estão associados na relação do mestre com o seu discípulo. Uma relação cujos laços são mais estreitos do que os próprios vínculos de família e que transcendem a raça e a nacionalidade.
Será que sempre que nos recolhemos na posição de "seiza", voltados para o "Kamiza", (parte principal do Dojo), compreendemos e nos identificamos realmente com esses princípios de honra, respeito e etiqueta? Será que aceitamos verdadeiramente o rígido código de honra, que a partir do nosso interior, devia orientar a nossa conduta na vida?
No esforço de tornar as Artes Marciais populares e acessíveis a muita gente, estão transformando-as numa indústria, comprometendo princípios fundamentais que nunca deveriam ser comprometidos. O “ dô “ que tanto desejamos compreender e alcançar, jamais estará associado ao esporte ou forma vã de conquistas ou negócios !
É uma relação física e espiritual, entre professor e aluno, é viver em harmonia com o "EU" interior. É uma forma de fazer passar a sabedoria, a cultura e a técnica às futuras gerações. "dô" é um estado de espírito em harmonia com o universo!
O Dojo é um espaço sagrado é o lugar onde se pratica a "Via" (O Caminho). Certamente não é um mero território desportivo onde os praticantes disputam o fulgor passageiro de uma aparente vitória sobre um opositor de ocasião.
O Dojo é um espaço separado do mundo normal, onde as fronteiras devem ser humildemente aceitas e compreendidas. Um lugar orientado, uma ordem tirada do caos, para organizar a desordem exterior, de forma a favorecer a realização da ordem interior. O lado onde se posiciona o professor ou professores é chamado de "Kamiza", o lugar onde está geralmente colocado um altar dedicado aos ancestrais e onde se colocam as fotografias dos mestres já falecidos os "Daí" ou "O Sensei" é chamado "Kamidana". Teoricamente as mais altas graduações colocam-se à esquerda do Kamiza e as graduações inferiores à direita.
No Dojo, há locais que correspondem a graus, graduações e estados e onde se constrói a cada momento de estudo ou treino, a relação que une, através de Budo, o Senpai e o Kohai. Quando alguém se inicia num dojo, todos aqueles que o precederam tornam-se os seus Senpai e, aqueles que virão depois serão os seus Kohai. Isto se manterá imutável, quaisquer que sejam as idades, as classes sociais de origem ou as graduações obtidas em outro dojo.
O Senpai é aquele que ajuda o Kohai, que o estimula quando este está preguiçoso e que o aconselha. O mestre Gichin Funakoshi ensinava que a cortesia, a humildade e a reverência usados no dojo, são os mesmos atributos que se deve ter na vida diária.
A palavra OSS de origem japonesa, transformou-se num linguajar cotidiano no mundo do karatê-dô; utilizado por numerosos praticantes e de várias nacionalidades, não somente em ocasiões formais, mas também para substituir expressões de agradecimento, de encantamento, de despedida, de entendimento e de compreensão.
"OSS", transcrito foneticamente, se escreve com dois caracteres chineses: O primeiro significa literalmente, empurrar, símbolo do espírito de luta; a importância do esforço e de confrontar todos os obstáculos, rejeitar as dificuldades e avançar com uma atitude positiva e imutável. O segundo significa sofrer; dominar a coragem e o espírito de perseverança, suportar as dores e resistir aos momentos de depressão, com paciência e sem renunciar, manter sempre a moral elevada.
A primeira lição que se aprende no Karatê-Dô é a saudação, depois é praticado e sempre lembrado. Somente os que compreendem a profundidade do seu significado, podem chegar a uma grande sabedoria. O mestre Funakoshi relembrava sua importância frequentemente a seus alunos, sem a qual o Karatê-Dô deixaria de existir. Em um dos seus vinte princípios, nijukun, o karatê-dô começa com "rei" (saudação) e termina com "rei".