Sobre as práticas não consideradas
Novembro de 2021. O governador do estado de São Paulo apresenta no evento COP 26 – em Glasgow, Reino Unido – o projeto sobre a despoluição do Rio Pinheiros na cidade paulistana e do investimento de R$100 milhões para a Amazônia. Esse valor se relaciona ao interesse do governo em “exceder as fronteiras do município” para a preservação ambiental e está vinculado ao objetivo de reduzir o desmatamento amazônico e, a partir disso, evitar a falta de chuvas em São Paulo. Todo esse contexto converge para o PlanClima, documento que tem como intenção orientar as ações do governo municipal para consolidar a questão climática nas políticas públicas.
Ainda que haja intenções favoráveis, o plano acima considera ações dos cidadãos sem considerar, muitas vezes, a realidade da cidade que os cerca. A questão pontuada no plano como ações que devem ser tomadas pelos indivíduos conta muito pouco com as questões de acessibilidade, infraestrutura e renda da população.
O PlanClima, assim, sugere que os consumidores evitem plásticos ao comprar algo novo e separem o lixo reciclável do não reciclável. Ainda que a cidade ofereça a coleta seletiva, a qual está presente nos 96 distritos municipais e cobre 76% das vias públicas, há pouca ou nenhuma informação sobre a importância dessa coleta ou incentivo. Em uma cidade que não possibilita infraestrutura adequada a saneamento básico - em 2019, o Instituto Trata Brasil informou que embora o estado de São Paulo apresente cidades-modelo de saneamento, a metrópole tem modelos opostos no que diz respeito a esse assunto. Dessa forma, “evitar plástico” quando não se tem a água encanada pode parecer um problema menor.
Além disso, há uma questão pontuada pela priorização dos alimentos agroecológicos e não industrializados. Em uma região onde o custo alimentar é alto, sugerir que haja a troca de alimentos sem incentivo aos pequenos produtores e sem alcance para a população pobre é sugerir que aqueles que não podem pagar por isso sejam, de certa forma, responsabilizados ou marginalizados pelo projeto.
Já a troca para energia solar como energia prioritária é algo fora da realidade – a não ser que haja um subsídio. Em uma cidade onde há tarifa baixa renda para que pessoas consigam pagar a tarifa elétrica padrão, e onde os painéis solares são cada vez mais caros devido ao custo da inflação, ter como meta o uso de tais painéis requer um programa que considere não apenas aqueles que usam muitos equipamentos porque têm possibilidades de adquiri-los, mas também aquelas famílias que têm muitos integrantes por falta de moradia.
Há um ponto curioso, inclusive, sobre a circulação na cidade, o qual sugere que os trajetos mais curtos sejam feitos por meio de caminhadas ou ciclismo, dando prioridade ao transporte coletivo e, quando possível, adotar uma rotina de teletrabalho. O transporte a R$4,40, isso quando a integração não é considerada, atrapalha no incentivo desse projeto.
Por fim, há a sugestão para frequentar os parques e áreas verdes da cidade. Essa alternativa faz sentido nas cidades em que não há privatização das áreas – como o parque Ibirapuera, que foi privatizado e estuda possibilidade de cobrança até para os grupos que queiram se reunir para praticar aulas e treinos. Ainda, deve-se considerar não apenas a frequência das áreas, mas os trajetos, a mobilidade e a adequação dos espaços. Ainda que o PlanClima seja uma forma de preocupação com o meio ambiente – sem considerar a demagogia, claro - nota-se que há uma análise bem simplista, ou utópica, de alguns pontos, a qual, obviamente, não foi apresentada em Glasgow.
ESCRITO POR MARIANA FONTES