“Se é certo que o desenvolvimento de tecnologias eficazes nos permite viajar de um lugar para outro, que as comodidades tornaram fácil a nossa movimentação pelo planeta, também é certo que essas facilidades são acompanhadas por uma perda de sentido dos nossos deslocamentos”. Ailton Krenak
Ao afirmar isso em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo, Krenak discorre sobre a questão do deslocamento, mas permite, ao mesmo tempo, a reflexão acerca da perda de sentido das outras atividades que se tornaram corriqueiras devido à frequência com que foram mencionadas – como a preservação ambiental.
“Preservação”, “sustentabilidade”, “conservação” ... As palavras relacionadas à manutenção do meio ambiente são comuns no repertório cotidiano, visto a urgente necessidade de proteção deste e a valoração positiva dada às instituições vinculadas à causa citada. Nesse sentido, “ser sustentável” não só garante a adequação às causas vigentes, mas também consagra prestígio às organizações. Apenas as palavras e o marketing vinculados à sustentabilidade, contudo, não garantem que a teoria seja praticada.
As ações devem ser modeladas pelo significado e norteadas por preocupações sociais, políticas e culturais – sem essas, haverá esvaziamento de sentido para os atos praticados. Esse esvaziamento, contudo, faz parte da naturalização das palavras: ao se falar sobre sustentabilidade, qual o significado, qual o sentido dessa atribuído em relação à cidadania? Qual o papel do cidadão no conceito “sustentável”?
A prática da sustentabilidade urbana deve considerar, assim, o papel do cidadão e do sujeito – não pensado apenas nesse enquanto consumidor e possível reciclador dos recursos. Há uma questão de apropriação, ou seja, a sustentabilidade deve considerar os contextos existentes, as instituições que as aplicam devem examinar a quem se expõem e os espaços a que se destinam. Devido a essa reflexão é que surge a primeira edição da Revista ReSPira, que traz entrevistas e artigos baseados nessa visão, além de abordar de modo analítico o PlanClima, documento estratégico que demonstra como a cidade de São Paulo alinhará suas ações com os compromissos do Acordo de Paris.
Assim, o papel da educação ecológica, além da questão das metas estabelecidas pelo governo municipal de São Paulo – incluindo o plano acima -, é discutido durante a entrevista da vereadora Dafne Sena, da Bancada Feminista do PSOL, a qual nomeia nossa capa. Nela, a jornalista Maria de Fátima Morina indaga a política sobre os mais diversos assuntos vinculados à participação do município na preservação das práticas sustentáveis, por meio de uma visão crítica. Como modo de adicionar informações sobre o assunto, Davi apresenta uma matéria sobre a audiência pública do PlanClima. Esse assunto se desdobra na matéria sobre “Pautas ambientais na contemporaneidade”, de Livian Alves, direcionado para uma avaliação das práticas profissionais no contexto complexo de preservação.
Em outra conversa, a educomunicadora Tainah se aproxima dos estudantes para verificar os conhecimentos desses a respeito da proteção do meio ambiente. Complementando o assunto, Marcelle Matias entrevista a professora colaboradora do curso de Educomunicação da ECA - USP, Carmen Gattás, com a finalidade de ampliar e aprofundar o papel da Educação nesse assunto. Além das entrevistas, o artigo de opinião sobre Cultura e Meio Ambiente, escrito por Raquel Gattermeier, aborda o papel da cultura nesse contexto de manutenção ambiental; já o artigo crítico “Sobre as práticas não consideradas”, de Mariana Fontes, revisa alguns pontos do PlanClima, a partir de uma análise social.
Como forma de não esgotarmos o assunto, mas também não cedermos ao esvaziamento das palavras, essa primeira edição da ReSPira apresenta os tópicos pertinentes para darmos andamento a uma discussão tão ampla, a fim de discutir a cidadania enquanto um dos elementos norteadores das ações sustentáveis.
Escrito por Equipe Revista ReSPira