Cultura e meio ambiente
Sabemos que a cultura tem poder de movimentar e tocar as pessoas em um nível que está além da racionalidade e da lógica. Através da cultura - dos sistemas de crenças, histórias, contos e mitos, da pintura, do teatro, da dança e de muitas outras formas de manifestação cultural e artística - podemos encontrar epistemologias que tem o poder de representar questões vitais à vida humana e sua relação com a natureza.
A cultura pode permear a vida social como um grande sistema de legitimação, tornando visíveis e dando destaque para muitas questões e fatores de importância social e política. É um meio amplo de comunicação e enorme sistema de saberes e veiculação e disseminação dos mesmos.
Nossa forma de conhecer e enxergar o mundo e nossa maneira de trazer maior ou menor importância a certas coisas que nos rodeiam tem a ver com nossa cultura. E conhecer o mundo de determinada maneira diz respeito ao que se concebe como epistemologia. Basicamente, sua epistemologia, ou a epistemologia na qual você se apoia e da qual se nutre - a maneira como você conhece o mundo - faz parte de sua cultura.
Daí que, em vista de rever nossa relação com a natureza e de direcionar nosso olhar e nossas ações para a crise climática que se escancara diante de nós, precisamos nos voltar para epistemologias que coloquem a natureza em papel de importância e sacralidade. Um exemplo disso são as epistemologias indígenas e africanas. Além disso, para enfrentar essa crise, precisamos nos apoiar não somente em políticas públicas direcionadas à conservação do meio ambiente, mas em políticas integradas que se pautam no acesso à cultura. Mas por quê? O que a cultura tem a ver com preservação ambiental? Explico.
Primeiro, uso aqui o termo políticas integradas porque, atrelados ao acesso à cultura devem ser considerados também o direito à cidade e ao lazer, pois estes são essencialmente relacionados. Ambos os três devem andar de mãos dadas - e devem estar presentes no pensamento daqueles que gestam nossas cidades.
Direito à cidade é também direito à cultura. E direito à cidade é também direito a uma cidade pensada e organizada levando em consideração a preservação ambiental e a relação saudável entre cidadãos e natureza. Por isso a cultura tem tanta importância (!): porque também pode estar relacionada a e atuando na formação de cidadãos conscientes de seu papel social a respeito da preservação ambiental e da crise climática. Acredito também que as culturas e epistemologias que valorizam a natureza assumem papel de extrema importância na conscientização da população acerca da importância dessa questão. Na cultura e mitologia africana Iorubá, por exemplo, a natureza é sagrada e considerada quase como um templo em si mesma. Para cada espaço sagrado da natureza, seja ele uma cachoeira, uma mata ou o próprio oceano, existe uma divindade diferente associada, cada qual possuindo papel fundamental na cosmovisão do povo Iorubá, ou seja, na sua forma de entender o mundo e o universo.
Se cada um desses espaços da natureza é intimamente associado a uma divindade sagrada, respeitada e reverenciada, consequentemente a natureza deve ser portanto também sagrada, respeitada e reverenciada.
A cachoeira, a chuva, o oceano e as matas são sagrados. E cada um desses espaços representa então uma força sem a qual o mundo estaria em desequilíbrio. Se pudéssemos também pensar desta forma, o mundo estaria certamente muito diferente.Portanto, promover visibilidade, legitimidade e acesso a este tipo de visão através da cultura e do acesso à cultura pode ser essencial para uma mudança de paradigmas em nossa sociedade.
Gostaria de lembrar aqui, no entanto, que acesso à cultura não diz respeito apenas a possibilidade dos cidadãos de irem e virem dos espaços destinados à cultura e lazer em suas cidades. Não se trata apenas de construir espaços ou escrever projetos de mil páginas não realizados. Mas diz respeito também, e principalmente, ao desenvolvimento de políticas públicas que promovam uma programação cultural, ou um fazer arte na cidade que sejam mais abundantes e com vias práticas de acontecer e serem acessadas. Mas como? Vou apenas pincelar aqui algumas ideias:
O incentivo à arte, ao fazer e ver artes - e a abertura de editais públicos culturais pode ser um caminho para isso por exemplo - que tragam à tona e incentivem a população a pensar no meio ambiente; a criação de espaços para debater as questões do clima e para trazer visibilidade às epistemologias que valorizam a natureza… podem ser caminhos férteis para o desabrochar de uma nova consciência social. Por último mas, não menos importante, digo que precisamos fazer nascer urgentemente uma cultura de respeito e consideração aos povos originários que, por sua vez também, entendem a natureza como parte integrante e essencial de suas vidas.
PlanClima
A respeito da crise climática, o governo de São Paulo demonstrou interesse pela questão ao desenvolver o PlanClima2020 - plano de ação climática que consiste em um projeto descrevendo objetivos e ações para mitigar os efeitos da crise na cidade de São Paulo. Contudo, é preciso mais do que um projeto formal de muitas páginas para enfrentar de fato esta questão. É preciso que haja ações concretas e efetivas; e reitero que a cultura, sendo foco de políticas públicas e projetos atrelados ao acesso e direito à cidade, seja um meio de comunicar e afetar as pessoas. Conscientizando-as, assim, não só a respeito do PlanClima e sua importância em si mas de toda a complexidade da questão ambiental mundialmente. É preciso urgentemente reaver nossa relação com a natureza, com o mundo e com a vida.
Escrito por Raquel Gattermeier