Educomunicação na agenda socioambiental: entrevista com Carmen Gattás
Para que a sociedade esteja mais atenta aos impactos ambientais e, consequentemente, mais próxima de se engajar na agenda socioambiental, é preciso, primeiro, que mais pessoas se vejam e se reconheçam dentro do problema. É o que diz a Professora Doutora Carmen Lúcia Melges Elias Gattás, colaboradora no Curso de Licenciatura em Educomunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).
Doutora em Ciências da Comunicação (ECA-USP), pesquisadora no Núcleo de Comunicação e Educação (NCE-USP) e sócia-fundadora da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom), Carmen Gattás, nossa entrevistada, fala sobre as dinâmicas advindas do encontro da educomunicação com a pauta socioambiental, a fim de melhorar as relações entre os sujeitos e as questões ambientais, empoderar as comunidades educacionais e construir novas possibilidades de mundo.
1 - Muitas pessoas desconhecem o termo Educomunicação. Como você conceitua esse campo?
O termo Educomunicação ficou durante um tempo muito desconhecido mesmo. Até hoje, quando falamos, as pessoas perguntam “o que é isso?”. Mas a Educomunicação é um campo de estudo e prática que vai dialogar entre as áreas da comunicação e da educação. A Educomunicação se baseia em toda a comunicação popular do Paulo Freire. Também se baseia na educação midiática, diferentemente do Paulo Freire (que na época dele não existia).
Os processos da Educomunicação vão se dar na gestão democrática da mídia e na produção de conteúdos educativos que usam diversos meios, como rádio, podcast, vídeo, fotografia e outras. Quando essas mídias são utilizadas no contexto da sala de aula, o estudante se reconhece na sua própria pesquisa, ele sente entusiasmo em se ver, em ouvir sua própria voz que surge por meio do rádio ou por ver sua escrita no jornal. Ao se reconhecer, o estudante quer produzir cada vez melhor. E, assim, cada vez mais ele estuda. Enquanto produção educativa, a Educomunicação é muito importante.
O desenvolvimento desses processos tem se dado de diversas formas! Porque a Educomunicação é muito ampla e pode ser trabalhada de forma transversal em vários ambientes e perspectivas diferentes, mas sempre pensando em fazer o uso democrático e participativo. Essa é a essência da Educomunicação.
Inclusive, eu gostaria muito de agradecer a participação que eu tive a partir do “Programa Nas Ondas do Rádio”, espaço que tive conhecimento do conceito educomunicação e que participei como articuladora.
2 - Como surge o encontro da Educomunicação com a pauta sobre Meio Ambiente e quais são as conexões entre o conceito e o tema?
É preciso dizer, primeiramente, que o conceito ‘educomunicação’ não era denominado dessa forma. Era chamado de educação popular, comunicação alternativa ou de mobilização pela democratização da comunicação. Até que chegou a interface comunicação e educação! Dessa interface, surgiu o termo ‘educomunicação’, que já era utilizado por Mário Kaplún (1923-1998), que foi um comunicador popular e radialista. Além disso, a UNESCO começou a usar o termo educomunicação desde 1980, para indicar a leitura crítica dos meios. Também não podemos desprezar que desde 1970, a educomunicação já era usada por professores, principalmente por professores de Geografia, como o professor Ismar Soares: ele utilizou muito nas aulas dele, no Colégio São Luís, em que ele deu aula por anos.
Além de Ismar Soares, outros defensores do meio ambiente utilizavam o termo na defesa das causas indígenas – sendo comunicada através de rádios comunitárias, de vídeos, do teatro, da música, etc. – e também para formação de grupos de defesa.
Quando nós começamos a fazer a divulgação do conceito, sabíamos que uma prática educomunicativa ideal seria uma prática que revolucionasse as relações de comunicação em toda uma escola. Então os professores e eu igualmente, utilizávamos essa prática educomunicativa pensando uma revolução, em mudar o mundo (risos). A questão nunca foi dominar a “técnica”, somente para produzir comunicação. A educomunicação utiliza uma comunicação dialógica, participativa, onde a técnica entra como um meio para que possamos integrar mais pessoas e que elas possam ter mais contato com uma ideia.
O conceito ‘Educomunicação Socioambiental’ passou a ser consolidado aqui no Brasil quando o Ministério do Meio Ambiente pôs o termo nas diretrizes para a Estratégia Nacional de Comunicação e Educação Ambiental (Encea). Com isso, foi criado o sub programa de educomunicação socioambiental com ações que eram dirigidas especialmente à juventude. Nesse período, o professor Marcos Sorrentino fazia parte do Ministério do Meio Ambiente e ele ajudou muito a colocar, no interior das questões ambientais, a prática educomunicativa.
Esse instrumento vai enfatizar que a educação ambiental necessita da democratização dos meios de comunicação de massa. E que precisa, também, de um comprometimento com os interesses de todos os setores da sociedade. Então, a educomunicação socioambiental passa a fazer parte do Programa Nacional de Educação Ambiental (PRONEA).
Por fim, a Educomunicação Socioambiental vai referir-se a um conjunto de ações e valores que são desenvolvidos no âmbito da comunicação ambiental. E quanto a isso, nós temos a Lei número 9.795 de 27 de abril de 1999, que institui a Política Nacional de Educação Ambiental.
3 - A Educação Ambiental é garantida por lei, através da Política Nacional de Educação Ambiental. Mas no dia-a-dia, o que você enxerga enquanto desafios no processo de implementação e desenvolvimento da educação ambiental nas escolas e em currículos das instituições de ensino?
Fazendo uso da educomunicação socioambiental, eu acredito que trabalhar de uma forma transversal, transdisciplinar, em todas as disciplinas, é possível mudar a forma de enxergar, até mesmo, as novas profissões que chegam até nós [...]. Pode-se pensar, em qualquer uma das disciplinas da escola, nas novidades que têm sido apresentadas [pela educomunicação], mas claro, não é garantia de que se torne realmente uma prática. Porque existe toda uma questão política, não permitindo que essas novas perspectivas, esses novos meios cheguem até nós de uma forma efetiva.
Mudar essas relações é mudar todo o contexto que a gente vive. Pensar em não usar mais combustíveis fósseis, para que a gente não destrua a nossa terra, enfim, é pensar em mudanças profundas. Aqueles que estão envolvidos no ganho das ações atuais, que utilizam os combustíveis fósseis, não têm interesse em mudanças. Acontece que é possível, sim, formar dentro das escolas pessoas mais envolvidas com as questões ambientais, para a proteção do nosso meio ambiente. A educomunicação socioambiental, utiliza os meios de comunicação para divulgar novas formas de se viver, sem que a gente destrua, sem destruir culturas, coisas importantes e que nos trazem possibilidades de vida.
E os princípios da educomunicação se aproximam muito da educação ambiental. A dialogicidade, a liberdade de expressão, a cidadania, a alteridade, comunicação, criticidade e a colaboração. É importantíssimo trabalhar esses princípios nas escolas, mostrando uma prática [de educação ambiental] possível de ser desenvolvida para agora e para as futuras gerações.
4 - Estamos vivendo momentos difíceis no Brasil, como os incêndios no Pantanal, desmatamento na Amazônia, enchentes, deslizamentos, insegurança hídrica e o aumento das desigualdades sociais. Como a educomunicação pode agregar com o interesse social pelas causas ambientais ou, até mesmo, na própria educação ambiental?
Quando as mídias, de forma geral, abordam as causas ambientais, falam de uma forma muito simplificada. Ou melhor: não falam de forma que as pessoas consigam se ver dentro do problema. Essa maneira reducionista de trabalhar as causas ambientais, além de diminuir a proporção do problema, deixam de pensar no envolvimento que as pessoas deveriam ter com esse assunto. Então elas não se sentem pertencentes.
Já o contrário, a Educomunicação vai trabalhar de forma midiática com o objetivo de que as pessoas se sintam incluídas no processo. Na medida em que a Educomunicação leva uma pessoa a produzir sua própria mídia, dando voz para ela relatar aquilo que faz parte do ambiente dela – relacionando aos impactos ambientais –, essa pessoa tem a capacidade de julgar e de se reconhecer nesses problemas. Essa pessoa teve que produzir, vivenciar e olhar criticamente.
Pensando em formas de agregar o interesse das pessoas pelas causas ambientais, a Educomunicação, nesse sentido, traz essa possibilidade a partir do olhar crítico para a própria realidade – dando voz a sujeitos e grupos, fazendo com produzam através de sua percepção. Ao produzir, você se identifica e pesquisa mais sobre aquilo que você fala. Acredito que representar nossas perspectivas, faz com que a gente se engaje e participe mais na defesa das causas.
5- As palavras memória e tradição são avistadas constantemente quando falamos ou pesquisamos sobre preservação. Poderia dizer como essas dimensões são importantes e como trabalhá-las, para refletir e agir em relação aos impactos ambientais em uma cidade como São Paulo – cidade que lida constantemente com as pressões da urbanização?
A memória se dá em diversas formas. Mas como registrar a memória de uma cidade? Uma prática bacana, por exemplo, é a partir de fotografias: resgatando o registro de um mesmo espaço em épocas diferentes – comparando a diferença da paisagem entre o tempo passado e o atual.
É interessante porque você percebe a diferença do ambiente e as mudanças no decorrer do tempo. E assim, a história de um local vem à tona. O que aconteceu? Por que houve essa mudança? Quais foram as escolhas? Foi uma questão ambiental? Quais são os fatos que levaram a essa nova paisagem? Isso é memória. É um resgate importante para discutir criticamente aquilo que a gente escolhe para nossa cidade enquanto caminho.
Hoje, sabemos que existe a possibilidade de participar de reuniões e decisões para aquilo que vai ser feito em determinados locais. Resgatar memórias, pesquisar e saber das propostas governamentais, permite nossa intervenção, estudo e avaliar quais seriam as melhores propostas para o agora e para o nosso meio ambiente.
Além disso, muitas vezes as mudanças no ambiente impactam negativamente os indígenas, existe todo um prejuízo psíquico e corporal. Por exemplo, em uma aldeia em que o território é reduzido e com águas contaminadas, não permite que esse grupo plante, colha o seu próprio alimento e não possibilita, dessa forma, a prática das tradições, que estão envolvidas com a própria preservação das florestas. Muda-se todo o contexto e a vida dessas comunidades.
ESCRITO POR Erika Novais, Marcelle Matias e Vitor Braz