Cabaça não é cuia • Mulheres de Aritapera, cuia e cumatê • 2023 • vídeo • 7 minutos • artesãs: Maria Lindomar Carvalho da Silva, Maria Nazaré Mota Campos, Tereza Lopes, Maria Gracineide da Silva, Jucelina Correa da Silva • guia: César Maduro • montagem e edição de vídeo: Tide Gugliano
Esculturas orgânicas e um círculo no tempo
Minha pesquisa de mestrado aborda a diversidade das culturas autóctones da África e das Américas, centrando-se nas técnicas vernaculares de construção e nas esculturas orgânicas. Atualmente, minha jornada acadêmica me conduz pelas filosofias e processos construtivos da arquitetura e artesanato pré-coloniais, olhando para os povos do Continente Africano, para as culturas dos Povos Ameríndios e para a Filosofia Védica.
Durante o transcorrer do meu mestrado, apresentei diversos trabalhos autorais que refletem a importância da consciência ecológica e do uso de processos construtivos que priorizam materiais naturais e práticas sustentáveis. Em 2022, criei uma obra intitulada "Pepita" que exemplifica esse compromisso.
A obra "Pepita" é uma expressão do meu envolvimento com a consciência ecológica. Foi concebida utilizando uma estrutura de bambu e um revestimento de palha de buriti. Sua forma se assemelha com os "zangbetos", dispositivos religiosos utilizados na região do sudoeste africano durante festivais de culto aos ancestrais. Os zangbetos são feitos com o propósito de receber o espírito do ancestral, convidando-o a trazer bênçãos e ensinamentos à comunidade.
Essa abordagem eco consciente não apenas informa meu trabalho, mas também reflete meu compromisso em preservar o ambiente natural e honrar as tradições culturais que valorizam a conexão entre humanidade, espiritualidade e natureza.
Na série ‘Incorpóreo’ (2018) apresentei sistemas de escrita através de símbolos gráficos utilizados por povos antigos. Esses símbolos foram estampados em cabaças. Elemento de extrema importância para culturas ancestrais, a cabaça é hermética e encerrada em si mesma, remetendo ao início da vida. Cada cabaça foi tratada com pigmentação natural, através de uma técnica indígena tradicional do norte do Brasil, o cumatê, e depois recebeu decalque em folha de ouro. A obra “I Profusão" destaca um símbolo conhecido como suástica Ashanti, que também é utilizada como símbolo monetário. Essa suástica, símbolo de prosperidade e abundância, expressa poder, dinheiro, riqueza e integridade. Através desse símbolo, busquei comunicar a importância do grafismo como forma de comunicação visual, ousando sugerir uma pretensa universalidade simbólica ancestral. Dessa maneira, enfatizo a riqueza e a capacidade de expressão que os símbolos gráficos podem conter.
A Viagem de Campo: Cabaça não é Cuia – Mulheres de Aritapera, Cuia e Cumatê
Uma experiência fundamental da minha pesquisa foi a viagem de campo que me levou ao município de Aritapera, no Pará, Brasil. Foi na vila Cabeça D'onça que tive o privilégio de interagir com as mulheres artesãs que se destacam na manufatura de cuias tingidas com cumatê, uma técnica indígena tradicional do norte do país. O resultado dessa exploração é o vídeo documental "Cabaça não é Cuia - Mulheres de Aritapera, Cuia e Cumatê", uma obra de arte audiovisual que mergulha na técnica, cultura e ambiente dessas mulheres notáveis.
O vídeo de 7 minutos, montado por Tide Gugliano, é um registro documental que captura de forma sensível a sabedoria transmitida de geração em geração, preservando a técnica do cumatê e a tradição das cuias pintadas. As mulheres artesãs não apenas compartilham seu conhecimento, mas também sua história e a importância cultural dessas criações. O vídeo lança luz sobre a técnica e a cultura que são parte indissociável do Brasil e da riqueza do povo amazônico.
Mônica Ventura nasceu em 1985 em São Paulo, onde vive e trabalha.
Artista visual e designer com bacharelado em Desenho Industrial pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) – São Paulo. Mestranda em Poéticas Visuais (PPGAV) pela ECA-USP – São Paulo.
Ventura atualmente pesquisa filosofias e processos construtivos de arquitetura e artesanato pré-coloniais (Continente Africano – Povos Ameríndios – Filosofia Védica). Suas obras falam sobre o feminino e a racialidade em narrativas que buscam compreender a complexidade psicossocial da mulher afrodescendente inserida em diferentes contextos. Mulher negra, entoa sua memória corporal friccionando-a em sua ancestralidade a partir de histórias de sua vida e pesquisas. Em suas obras há um interesse especial pela cosmologia e cosmogonia afro-ameríndia para além do uso dos seus objetos, símbolos e rituais.
Pepita • 2022 • instalação • bambu, palha e contas • 160 × 200 cm
I Profusão, Série Incorpóreo • 2018 • objeto • cumatê, folha de ouro sobre cabaça • 20 × 40 cm