Intermitência • 2023 • performance • materiais: barbotina, banco de madeira e potes de vidro. • duração: 1h30min • fotografias de Bruno Makia
Um Curió-Curú se encantou pelos rios • 2023 • cerâmica, corante e esmalte • 25 × 25 × 25cm • fotografia de Bruno Makia
Os Curió-Curús se enamoraram pelos rios • 2023 • cerâmica e corante • 2 peças 20 × 33 × 16cm (conjunto) • fotografia de Bruno Makia
Um Curió-Curú se vestiu de rio • 2023 • cerâmica, esmalte e corante • 25 × 25 × 13 cm • fotografia de Bruno Makia
Os Curió-Curús aprenderam a ler mapas • 2023 • cerâmica e corante • 5 peças • fotografia de Bruno Makia
Fábula de rios nesta grande cidade: quando ver é encontrar sentidos avessos.
A conta-gotas, pensamentos sobre as águas na cidade grande escorrem pelo meio fio. Lugar que, outrora, foi aldeia e depois vilarejo, tornou-se imensidão de pessoas cabisbaixas, cansadas, apressadas ou esmagadas. Multidões alargaram os caminhos, enquanto os ensimesmados passaram a dedicar horas às viagens lentas entre ponto de partida e retorno, esquecendo-se de seus sonhos e desatinos. Em dias de frio e de chuva, a vista embaçada pelas janelas de ônibus e carros confundem medo com encanto diante das livres manifestações de velozes corpos d'águas em canaletas e ladeiras. A intuição esfolada pelos caminhos de asfalto tenta decifrar qualquer forma de vida abaixo da sólida casca cinza.
Na cidade em que vivo, aprendi a buscar tudo aquilo que se tornou invisível. Nas várzeas desses campos de Piratininga, em que peixe não mais secam e os rios transformados em ausências, sustentam-se nortes sem sentidos. Lembro-me que há algumas décadas, havia uma certa promessa prosperidade; entretanto, aquela desejosa vida se fez em problemas, em “nossos problemas”. Ainda que problema, ainda que coletivo, de uma escolha não tão nossa, o desejo de futuro do passado concretizou-se em um pesaroso testamento de herança de um progresso sem futuros.
Certa vez, nesta cidade, tive um encontro trôpego com um certo Bernardo, um guardador de águas imaginado pelo poeta mato-grossense Manoel de Barros. Pedi uma porção de rio — rio para olhar, rio para me sentar à marge, rio para pousar o olhar. Mas aquele Bernardo “faz encurtamento de águas”. Tão certo de sua profissão o moço não sabia fabular e nunca poderia se pôr a navegar, pois em seu trabalho “apanha um pouco de rio com as mãos e espreme nos vidros até que as águas se ajoelhem.”
Onde estão os rios, Bernardo?
É preciso perseguir as águas, porque rio é promessa. Rio é ente e futuro. Rio sempre esteve, e sempre estará à espera. Na cidade que vivo, assim como em muitas, nenhum rio me foi permitido. Se alguns puderam se banhar, fui das crianças que herdou a falta como tantas da minha geração. Ainda que tenhamos todos os rios aos nossos pés e não sabíamos como enxergá-los:
Não os sabia, Bernardo! Não brincamos com as águas, você as espremeu todas de baixo do chão!
Frequentemente passava pelo Ipiranga, pelo Jussara, Tamanduateí, Tietê, Pinheiros e sequer os chamava de rio, era tanta desconfiança que me escapava um: “Que coisa fedida!”. Decerto queria perceber aquelas águas como rios, mas não os escutava sequer os sonhava como rios. Porque as águas nesta cidade tem qualidades estranhas, são percebidas como poluídas, escondidas, retificadas, ocultadas, xingadas, malvistas, rebaixadas, ignoradas e até culpadas pelos acontecimentos na geografia desta cidade. Aquela ideia empestada de vida futura, do passado próximo, deveria se concretizar no sábado vindouro. Aquilo que seria promessa; era blefe e mentira. Canalhas! Viemos ao mundo quando tudo já se acabou. O hoje já é ensaio para o fim.
Se nem mesmo o sonho de rio se realizar, qualquer futuro jamais será presente. Vivemos numa projeção de tempo de deixar de ser, e o único destino é desaparecer. Para adiar o que nos é destino, produzo teimosia e revolta, ainda que em silêncio. Olho o avesso só para encontrar os rios, invento palavras para me comunicar com eles, torço a argila, uso linhas azuis e douradas, bordo nomes e crio situações coletivas. Quiçá, encontro algum aqui, bem debaixo dos meus próprios pés.
Maíra Vaz Valente (São Bernardo do Campo, 1981) é artista, pesquisadora e educadora. Em sua produção aborda questões políticas das relações socioambientais por meio de objetos, ações, situações e proposições de caráter relacional. Atualmente integra o programa PPGAV na linha Poéticas Visuais com orientação do artista e prof. Dr. Hugo Fortes. É licenciada em Artes Visuais (2004-2009) no CAP-USP com especialização em Estudos Brasileiros (2016-2018) na Escola na Sociologia e Politica (FESPSP)
Subterrânea • 2023 • cerâmica, esmalte, vermiculita e barbante de algodão • 2,0 × 2,0 m • fotografias de Bruno Makia