109a, arquivo • 2023 • acrílica sobre lona • 103 × 67 cm (lona de 122 × 80 cm)
109a, galões • 2023 • acrílica sobre lona • 103 × 67 cm (lona de 122 × 80 cm)
109a, mesa • 2023 • acrílica sobre lona • 103 × 67 cm (lona de 122 × 80 cm)
109a, chão • 2023 • acrílica sobre lona • 103 × 67 cm (lona de 122 × 80 cm)
109a, corredor • 2023 • acrílica sobre lona • 103 × 67 cm (lona de 122 × 80 cm)
109a, banheiro • 2023 • acrílica sobre lona • 103 × 67 cm (lona de 122 × 80 cm)
As pinturas da série “109a” integram a dissertação de mestrado intitulada Processos negativos em pintura e desenho, orientada pelo professor Geraldo de Souza Dias Filho. Nela, recortes e apagamentos são objeto de pesquisa, e ora são considerados como ações concretas do processo pictórico ora são assunto de reflexões teóricas e históricas. No primeiro caso, enumeram-se ações como remover a tinta com um pano, recobrir áreas de cor mais saturada com camadas de tinta em baixa opacidade e até mesmo recortar a pintura com uma tesoura. A alternância entre processos positivos e negativos (aplicar e remover a tinta, acentuar e rebaixar as cores, dividir ou associar os elementos figurativos) é deliberadamente adotada como fundamento poético das obras, pelas quais se busca formalizar a tensão de composições espaciais parcialmente fragmentadas em seu espaço e “lavadas” em suas cores. A análise histórica dos recortes remonta ao contexto do impressionismo, em que a fotografia em seus primórdios e o fenômeno do japonismo na Europa são contemporâneos das primeiras pinturas que exibiam recortes arrojados das figurações e de sua definição espacial, questão problematizada na dissertação pela reversão da concepção tradicional de que a fotografia e o japonismo teriam “ensinado” a pintura a fragmentar o seu espaço. Na análise dos apagamentos, o período do impressionismo e do pós-impressionismo também é uma referência histórica, pela menção a pintores que realizaram o emprego acentuado da tinta preta ou da branca em algumas de suas obras.
A instrumentalização da fotografia na execução dos esboços das pinturas e a predominância da tinta branca em camadas sobrepostas definem o processo das obras da série “109a”. Trata-se de seis retratos de ambientes da sede da Editora da Universidade de São Paulo, onde trabalho, localizada na Rua da Praça do Relógio, n. 109a. A fotografia foi uma ferramenta para o retrato do ambiente, possibilitando o recorte aproximado exibido em 109a, chão e 109a, arquivo assim como a fragmentação através da vertical predominante observada em 109a, galões. No trabalho cromático, a alternância de camadas escuras e claras que caracterizaram o processo é evidenciada nas bordas das pinturas. O rebaixamento final das cores e o recorte do espaço dessublimam o retrato do local de trabalho, formalizando o olhar “gasto” do espaço frequentado diariamente.
Ao longo da pesquisa, diferentes níveis de radicalidade na aplicação dos recortes e dos apagamentos foram praticados. Na série exibida, a intenção de não perder a referência figurativa do ambiente retratado tornou essas ações mais contidas. Mesmo assim, a ideia de experimentar “faltas” nas definições espaciais e cromáticas orientou a execução dessas pinturas – por vezes, faltam referências figurativas para compreender a que se referem os retratos ou identificar a distinção entre figura e fundo, ou ainda faltam contrastes entre as cores. Para refletir sobre essa contraposição à “completude” das imagens, recorreu-se na dissertação ao termo informe, o qual já foi assunto de escritos de Georges Bataille, Julia Kristeva, Georges Didi-Huberman, Yve-Alain Bois, Rosalind Krauss e até mesmo Paul Valéry. Segundo esse último, o informe resultaria da prática do desenhista que se dispõe a observar e retratar um objeto com a visão depurada do hábito, proposta que encontra ressonância na prática pictórica que parte de fotografias com o intuito de obter maior objetividade. Já para Bois e Krauss, o informe é uma ferramenta para questionar fundamentos consagrados do modernismo, o que torna suas considerações sobre o informe abrangentes. Um de seus fundamentos – a entropia – pode ser relacionado à falta de completude abordada na pesquisa. Os dois autores contestam o ideal de plenitude formal e semântica da obra de arte como uma unidade coesa, regulada pelos parâmetros de “boa forma” postulados pela Gestalt.
Carolina Sucheuski é mestranda em poéticas visuais na Escola de Comunicações e Artes da USP, com pesquisa voltada para a prática de pintura e desenho. É bacharel em editoração pela ECA e especialista em pintura contemporânea pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Trabalha com design gráfico na Editora da USP e suas capas de livros já foram reconhecidas pelo Prêmio Jabuti, pela Bienal Brasileira de Design Gráfico e pela Associação Brasileira das Editoras Universitárias.
Portfólio: carolinasucheuski.com • contato: carol.heuski@gmail.com