No ano de 2016, a ocupação das escolas foi uma realidade vivenciada por estudantes de todo Brasil. O movimento foi apelidado de “primavera secundarista”, que buscou reivindicar direitos e se opor às propostas governamentais, como a reestruturação do ensino com o fechamento de unidades escolares, congelamento de gastos públicos durante 20 anos (dentre eles, a Educação) por uma Emenda Constitucional, mudança da oferta do Ensino Médio pela Medida Provisória 746/2016 e criação da chamada “Escola sem Partido”, que teriam como consequência a restrição do ensino, a ocultação de perspectivas/idealizações de pensamentos que poderiam mudar a realidade dos indivíduos e a formação de estudantes com somente objetivos técnicos.
O movimento escolar ocorrido reproduziu um reflexo dos conflitos sociais, onde a escola acaba por sua vez em produzir e reproduzir as relações sociais existentes, trazendo uma homogeneização social e cultural da sociedade dominada pela classe dominante, e de certa forma essa cultura se enraíza sobre as divisões sociais causando sua fragmentação, e essas diferenças culturais levam a desigualdades sociais. Portanto, a escola produz e reproduz as formas de existir de acordo com a classe dominante impõe, causando assim as desigualdades escolares, que por consequência, vai causar a desigualdade social. As organizações escolares têm grande contribuição neste circuito de desigualdade que se repete.
Para PETITAT (1994) a produção e reprodução são dois aspectos inextricavelmente ligados, nesse sentido é possível perceber que embora a escola reproduza dependência, há também a produção, permitindo a possibilidade de independência. Ainda segundo o autor, seu livro não busca formular uma nova teoria para a educação, e sim, criticar as teorias sociológicas que concebem a escola como sendo produtora (busca a boa relação e homogeneidade) ou reprodutora social (reproduz as relações de classes e de dominação), e nunca como ambos. E para ele é imprescindível essa relação, sendo a escola contribuinte tanto para a dependência como para a independência do ser humano, criticando assim as concepções funcionalistas e conflitualistas da educação.
Com base nesta perspectiva, podemos observar que as ocupações escolares trouxeram à tona o modelo de escola pública que reproduz desigualdades, onde o estado impõe medidas e condições a fim de benefícios próprios, bem como, benesses que favorecem, no presente ou no futuro, grupos que habitam uma posição dominante, fazendo com que haja uma reprodução de seus interesses. De fato, as reproduções das desigualdades são nítidas no documentário BORA... (2019), pois a classe dominante se impõe sobre a classe dominada com medidas de violências tomadas pelas autoridades locais contra os estudantes. Segundo CARVALHO (2018), as ocupações escolares afetaram decisiva e momentaneamente as relações de poder, retiraram a escola do controle dos governos, e as colocam sob o comando dos estudantes.
É importante salientar que durante o documentário sobre a ocupação alguns pontos essenciais foram observados.
1. Cuidado com a escola: Os alunos mobilizaram frentes de trabalho para realizar pequenos reparos e pintura na escola.
2. Protagonismo: O espaço escolar passou a ter um papel focado em compartilhar conhecimentos (que muitas das vezes não são discutidos em sala de aula e nem estão nas grades curriculares), e também na criação e realização de atividades culturais e oficinas.
3. Autogestão: Através das assembleias os estudantes conseguiram ter voz ativa nas decisões escolares, fomentando a gestão democrática e possibilitando uma maior interação desses alunos a questões relacionadas a gestão da escola. E onde também discutiam os rumos do movimento.
4. Currículo integrado: Os alunos passaram a ter um aprendizado integrado e diversificado que conectou múltiplas áreas do conhecimento.
5. Cuidado com a alimentação: Através arrecadação de alimentos com a comunidade, os alunos se organizaram para preparar as refeições e a limpeza dos utensílios e da cozinha.
Essas mobilizações evidenciaram uma preocupação dos estudantes com a participação, cidadania, o conceito político da educação, e a utilização dos espaços públicos, propiciando o desenvolvimento da consciência do ´´ser cidadão`` no sentido de uso da coisa pública, como também um recurso importante para o desenvolvimento das atividades do movimento, (GOHN, 2012 p. 25).
Desta forma, as ocupações exemplificam a posição do autor (PETITAT, 1994), já que os estudantes que “deveriam” reproduzir esses mesmos modelos, acabaram produzindo novos valores, inibindo então, a chamada dependência do povo em relação a suas “autoridades”, possibilitando uma reprodução de lutas sociais e insatisfações contra as imposições, e além disso com a ocupação houve um maior interesse dos alunos sobre pautas da importância do papel da mulher e movimento negro (os quais não são debatidos na grade escolar), que além de proporcionar um melhor entendimento sobre esses temas também acarretou em um maior entrosamento entre os alunos.
No ano de 2019 foi lançado o filme "Espero tua (re)volta", dirigido por Eliza Capai. Foi inspirado na marcha estudantil desde 2013 até a eleição do presidente Jair Bolsonaro em 2018. A narrativa é dividida entre três jovens, esses adolescentes trazem no filme a perspectiva de sua geração, deixando explícito os conflitos do movimento e a sua complexidade.
Letra da música
O Trono do Estudar
Ninguém tira o trono do estudar
Ninguém é o dono do que a vida dá
Ninguém tira o trono do estudar
Ninguém é o dono do que a vida dá
E nem me colocando numa jaula
Porque sala de aula essa jaula vai virar
E nem me colocando numa jaula
Porque sala de aula essa jaula vai virar
A vida deu os muitos anos da estrutura
Do humano à procura do que Deus não respondeu
Deu a história, a ciência, arquitetura
Deu a arte, deu a cura e a cultura pra quem leu
Depois de tudo até chegar neste momento me negar
Conhecimento é me negar o que é meu
Não venha agora fazer furo em meu futuro
Me trancar num quarto escuro e fingir que me esqueceu
Vocês vão ter que acostumar.
Ninguém tira o trono do estudar
Ninguém é o dono do que a vida dá
Ninguém tira o trono do estudar
Ninguém é o dono do que a vida dá
E nem me colocando numa jaula
Porque sala de aula essa jaula vai virar
E nem me colocando numa jaula
Porque sala de aula essa jaula vai virar
E tem que honrar e se orgulhar do trono mesmo
E perder o sono mesmo pra lutar pelo o que é seu
Que neste trono todo ser humano é rei,
Seja preto, branco, gay, rico, pobre, santo, ateu
Pra ter escolha, tem que ter escola
Ninguém quer esmola, e isso ninguém pode negar
Nem a lei, nem estado, nem turista, nem palácio,
Nem artista, nem polícia militar
Vocês vão ter que engolir e se entregar
Ninguém tira o trono do estudar.
Referências Bibliográficas