Conceito ou definição: a punção intraóssea (IO) é uma técnica utilizada para acesso vascular de emergência em situações nas quais o acesso venoso periférico não pode ser estabelecido de forma rápida e eficaz. Consiste na inserção de uma agulha especial no interior de um osso longo, mais comumente realizada na tíbia proximal (Figura 1), podendo também ser feita no rádio distal, maléolo, fêmur distal ou úmero proximal, permitindo infusão de fluidos, medicamentos e coleta de amostras laboratoriais. A medula óssea atua como um leito venoso não colapsável, sendo ideal para pacientes em estado crítico, como em paradas cardiorrespiratórias, choque ou hipovolemia grave. É um procedimento seguro, de rápida execução e que oferece resultados comparáveis ao acesso venoso central em termos de eficácia hemodinâmica. No entanto deve ser considerado um acesso temporário, devendo ser substituído por via venosa definitiva assim que possível (NAEMT, 2020; AHA, 2020).
Objetivos: executar o procedimento de punção intraóssea.
Indicação: atendimento de emergência, na impossibilidade de acesso vascular.
Contraindicação: fratura ou trauma grave no osso do sítio de punção, infecção local ou osteomielite no local da punção, tentativa recente de punção intraóssea no mesmo osso (menos de 48h), doenças ósseas que comprometem a medula (ex.: osteogênese imperfeita, osteoporose severa).
Documentos relacionados:
PHTLS, 9ª edição.
ACLS, 2020.
Material e outros recursos:
Álcool 70%.
Clorexidina degermante (para antissepsia da pele).
Luvas de procedimento.
Gaze estéril.
Seringa de 10 mL luer lock (para lavar e testar refluxo).
Agulha 40 x 1,2mm (aspiração de soro fisiológico).
Soro fisiológico 0,9% (para flush da via).
Esparadrapo 10cmx4,5m (para fixação).
Equipo multivias de duas vias (polifix - para conectar na agulha).
Pé de frango – Kit Estudante.
Bandeja (para organizar materiais).
Agulha Intraóssea 14G ou 18G.
Esqueleto.
Etapas para descrição do procedimento:
A execução do procedimento poderá acontecer com o simulador (pé de frango) posicionado sobre a bancada, maca ou estrutura apropriada, a critério do tutor e conforme os recursos disponíveis em laboratório.
ETAPAS DO PROCEDIMENTO
Higienização das mãos com técnica apropriada antes de qualquer contato com o material ou simulador.
Paramentação adequada, utilizando luvas de procedimento para preparação.
Organização do material, posicionando todos os itens em ordem de uso.
Identificação do sítio anatômico no simulador (ex.: metáfise proximal da tíbia do pé de frango).
Antissepsia do local de punção, utilizando gaze embebida com álcool 70% ou clorexidina (apenas simular).
Inserção da agulha intraóssea.
Posicionar a agulha em ângulo de 90° em relação ao osso.
Realizar movimentos de pressão e rotação contínuos até perceber a perda súbita de resistência, indicando penetração na cavidade medular.
Retirada do estilete interno, mantendo o cateter fixo.
Fixação da agulha ao simulador com gaze, esparadrapo ou sistema próprio.
Conexão da seringa com soro fisiológico para aspiração e após flush da via, confirmando a permeabilidade:
Pode retornar medula vermelha: confirma localização correta.
Pode retornar medula amarela: confirma a localização correta.
Pode não retornar nenhum fluido, sendo assim, deve-se proceder com a infusão de soro fisiológico, que, sem resistência e sem infiltração em tecidos moles, também, confirma a localização correta.
Administração simulada de medicação ou solução, conforme orientação do professor.
Descarte adequado dos materiais perfurocortantes na caixa coletora.
Remoção das luvas, higienização das mãos e reorganização do ambiente.
Anotar o horário da punção (determinar a validade de acordo com normas institucionais. Em geral, pode ficar até 12 horas de acordo com a literatura, devendo estabelecer acesso venoso imediato, quando possível e retirar o acesso intra ósseo).
Avaliar sinais de infiltração de tecidos moles, aumento do volume do membro, dor ou presença de síndrome compartimental.
JUSTIFICATIVA E RISCOS IDENTIFICADOS
A punção intraóssea é um procedimento de emergência para acesso vascular em situações críticas. Durante o treinamento, a execução em simuladores, como o pé de frango, proporciona realismo e segurança ao aluno, possibilitando o desenvolvimento da habilidade manual e da tomada de decisão sob supervisão. Riscos incluem inserção incorreta da agulha, perfuração do outro lado do osso e contaminação, que devem ser minimizados com supervisão, técnica asséptica e prática supervisionada.
SEGURANÇA DO PACIENTE, COLABORADOR, AMBIENTE
Garantir a biossegurança com uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), descartar materiais perfurocortantes corretamente para evitar acidentes, simular o procedimento com ética, respeito e foco na aprendizagem segura. O ambiente deve estar organizado, limpo e com supervisão docente contínua.
Figura 1 – Anatomia da circulação dos ossos longos e pontos de referência para inserção da agulha intraóssea na tíbia proximal
Figura 2 – Inserção da Agulha
Figura 3 – Aspiração de medula
Figura 4 – Infusão de soro fisiológico
Acesso Vascular:
Via utilizada para administração de medicamentos ou soluções diretamente na corrente sanguínea. Pode ser periférica, central ou intraóssea.
Antissepsia:
Processo de limpeza do local da punção com agentes antissépticos, como álcool 70% ou clorexidina, para reduzir o risco de infecção.
Estilete:
Componente interno da agulha intraóssea que facilita a perfuração do osso. É removido após a introdução na cavidade óssea.
Flush (lavagem):
Irrigação da via de acesso com solução fisiológica para verificar permeabilidade e garantir que não há obstruções ou infiltrações.
Metáfise Proximal da Tíbia:
Região alargada do osso da perna próxima ao joelho, sendo o local mais utilizado para a punção intraóssea por sua acessibilidade.
Perfurocortantes:
Materiais que podem perfurar ou cortar, como agulhas e lâminas. Devem ser descartados em caixas rígidas apropriadas para evitar acidentes.
Síndrome Compartimental:
Complicação grave caracterizada pelo aumento da pressão dentro de compartimentos musculares, comprometendo a circulação e podendo causar necrose tecidual. Deve ser monitorada em acessos intraósseos.
AHA – AMERICAN HEART ASSOCIATION. Suporte avançado de vida em cardiologia: ACLS – curso para profissionais de saúde. Dallas: AHA, 2020.
MAIA, I. W. A. et al. (ed.). Tratado de medicina de emergência Abramed. Barueri: Manole, 2024
NAEMT – NATIONAL ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL TECHNICIANS. PHTLS: atendimento pré-hospitalar ao traumatizado. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020.