O que é Transdisciplinaridade?
O que é Transdisciplinaridade?
A transdisciplinaridade é, acima de tudo, uma forma de compreender o mundo. Embora suas raízes residam na intuição de tradições e filosofias milenares, ela se consolida hoje como uma abordagem sistemática e rigorosa para a integração do saber. Mais que um conceito, a transdisciplinaridade é um sistema aberto de construção de conhecimento. Ela sistematiza o que a história e a tradição sempre souberam: o conhecimento só atinge seu pleno potencial quando integrado. No ambiente acadêmico, essa abordagem funciona como uma ferramenta de síntese unificada, essencial para lidar com a complexidade das especialidades contemporâneas.
A proposta é superar a visão de áreas estanques, para abraçar um conhecimento naturalmente integrado e prático. Mas como reunir saberes de origens diversas para uma ação coordenada e consciente sobre o mundo? Responder a esse desafio é a essência do pensamento transdisciplinar.
Entendemos que as fronteiras entre as áreas do conhecimento são meros artifícios metodológicos; na realidade prática, o saber é indivisível. O desafio que nos move — e que define o pensamento transdisciplinar — é a capacidade de articular bases distintas para agir com precisão e profundidade sobre a complexidade da realidade humana.
A transdisciplinaridade utiliza um recurso cognitivo para a compreensão e a operação da complexidade do fenômeno humano, pela lógica do Terceiro Incluído (Nicolescu, 1999), em que as variáveis não podem ser tratadas como mecanismos (lógica binária) ou sistemas vivos biológicos (lógica de feedback), e ainda é mal compreendida tanto no Brasil quanto internacionalmente. É confundida frequentemente com a interdisciplinaridade, na forma restrita das interações entre disciplinas, sem levar em conta o além e através dessas disciplinas para formar uma unidade de compreensão como teoria e prática, que vai além da mera articulação de informações. Neste sentido, cabe lembrar a diferenciação entre disciplinaridade, multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Enquanto os prefixos multi- ou pluri- dizem respeito “ao estudo de um objeto de uma mesma e única disciplina por várias disciplinas ao mesmo tempo” (Nicolescu, 1999, p.50), ou à transferência de métodos de uma disciplina à outra (que seria interdisciplinaridade, na terminologia de Nicolescu, e que ambas operam num mesmo nível de realidade), a transdisciplinaridade “se interessa pela dinâmica gerada pela ação de vários níveis de realidade ao mesmo tempo.” (idem, p.52)
Histórico da Transdisciplinaridade como metodologia de Pesquisa
O I Fórum de Ciência e Cultura da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 1986, em Veneza, foi o marco inicial da consolidação da concepção transdisciplinar. Participantes desses fóruns, de várias formações e partes do mundo, produziram Declarações que serviram de encaminhamentos para ações posteriores. As origens formais da transdisciplinaridade remetem à Declaração de Veneza da UNESCO, da qual em 1986 foram signatários o físico romeno Basarab Nicolescu e o matemático Ubiratan D’Ambrosio, representante da UNICAMP (na época, pró-reitor de Desenvolvimento Universitário na mesma universidade) e o único brasileiro a assiná-la.
Nicolescu fundou em 1987 o CIRET (Centre International de Recherches et études transdisciplinaires), uma organização não governamental parisiense para estudos e pesquisas transdisciplinares internacionais.
O Manifesto of Transdisciplinarity foi publicado em 2002 – tradução do manifesto originalmente publicado em francês por Basarab Nicolescu em 1996. Como resume Carlos Alberto Pereira Silva (2007), “O Manifesto da Transdisciplinaridade, ao estabelecer uma profunda crítica ao processo de fragmentação do conhecimento, sugere abordagens alicerçadas na compreensão das múltiplas dimensões da realidade”.
Realizado em Brasília com o objetivo de promover uma visão transdisciplinar e holística, o I Congresso Holístico Internacional de 1987 impressionou o então governador do DF, José Aparecido, que incentivou iniciativas conexas. Desde então, no Brasil surgiu um movimento transdisciplinar paralelo ao de Nicolescu, liderado por Pierre Weil, Ubiratan D’Ambrosio (UNICAMP) e Roberto Crema. Esses foram autores em 1993 do livro Rumo à Nova Transdisciplinaridade, que estabeleceu quatro grandes disciplinas ou formas epistêmicas relacionadas às quatro funções junguianas, numa combinação de duas funções por cada disciplina.
No Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade de 1994, foi adotada a Carta da Transdisciplinaridade. Embora o documento trate apenas em parte e implicitamente dos três axiomas de Nicolescu e das quatro formas epistêmicas de Weil, D´Ambrosio e Crema, foi um marco histórico em termos de princípios fundamentais.
Para consolidar todas as informações históricas de fóruns internacionais conexos à transdisciplinaridade de 1986 a 1994, a Universidade de Brasília publicou em português, com organização de Ubiratan D’Ambrosio, as Declarações dos Fóruns de Ciência e Cultura da UNESCO (Veneza, Vancouver e Belém) e a Carta da Transdisciplinaridade.
Além dos movimentos na França e no Brasil, há ainda um terceiro na Suíça, conhecido como Zurich. Diante disso, a base conceitual-metodológica, tal como conhecemos, pode ser dividida em três taxonomias, conforme o entendimento da Profa. Dra. Sue L. T. Mcgregor, membro sênior do CIRET:
— Nicolescu (metodologia);
— Zurich (foco na ciência); e
— Brasil (conhecimento aplicado).
Nessa linha, Nicolescu é mais filosófico, Zurich promove o diálogo entre acadêmicos e não acadêmicos, enquanto a transdisciplinaridade holística brasileira é a mais pragmática, por integrar abordagens terapêuticas e organizacionais. De algum modo, podemos dizer que se trata de concepções complementares.
Em 1998, 40 pesquisadores oriundos da Escola do Futuro da Universidade de São Paulo, formaram o CETRANS (Centro de Educação Transdisciplinar). Assim, o Brasil fomentou 20 anos de pesquisas teóricas e importantes contribuições para o campo educacional transdisciplinar em nível de congressos nacionais e mundiais. Duas editoras foram muito ativas neste período: Triom e Polar Editorial, que publicaram uma lista exaustiva de pensadores transdisciplinares nacionais e internacionais, presentes e passados, pois vários livros contemplaram o diálogo entre a ciência e a tradição: desde a tradição alquímica até a cosmogonia indígena. Vários membros e fundadores do CETRANS, criado em 1998 e extinto em 2023, continuam ativos e estão participando da iniciativa do NUTRANS.
Especialmente em função de diversas e urgentes demandas acadêmicas e sociais, o diálogo num mundo multipolar que precisa ir além da lógica binária se torna indispensável.