Compreensão do significado social da profissão e de seu desenvolvimento sócio-histórico nos cenários internacional e nacional, desvelando as possibilidades de ação contidas na realidade;
Identificação das demandas presentes na sociedade, visando a formular respostas profissionais para o enfrentamento da questão social;
Articular o saber acadêmico ao exercício profissional para contribuir com a mobilização de sujeitos individuais e coletivos na perspectiva da emancipação humana.
Este capítulo tem como objetivo aprofundarmos nossas reflexões sobre o desempenho do Serviço Social e a importância de compreendermos a necessidade de aprendermos como os fundamentos da vida social vão se constituindo, bem como a forma de trabalhar solidariamente no mundo contemporâneo na construção e reconstrução de novos fundamentos.
No cenário atual, o mundo do trabalho requer dos profissionais ações articuladas conjuntas agregando elementos diversos que assegurem a consolidação da sociedade democrática. É importante, portanto, que tais ações estejam presentes nos fundamentos da vida social. Os fundamentos da vida social se estabelecem no sentido de garantir aos sujeitos espaços de pertencimento social, em que estes se sintam partícipes do processo, reconhecendo territórios e neles sendo reconhecidos.
Diante do exposto, apresentamos dois elementos que podem ser fundamentais à efetividade de um trabalho em conjunto otimizando outros diversos elementos que compõem os fundamentos da vida social aqui já trabalhados. Toda ação profissional deverá ter como finalidade o bem-estar das pessoas.
Trabalhar de forma conjunta requer dos profissionais determinados tipos de conhecimentos de áreas afins e diversas a serem colocadas a disposição nessa ação solidária. É a possibilidade de exercitarmos o trabalho em rede interativa com outras pessoas de forma solidária. Ser solidário, nesse sentido, é estar aberto para o outro, é estar disponível no processo de construção coletiva, perceber interesses comuns entre todos os atores sociais que acreditam nessa proposta metodológica. Para o assistente social, trabalhar nessa perspectiva de solidariedade requer uma capacidade de interlocução com grupos e indivíduos, habilidade fundamental no processo de construção dos fundamentos da vida comunitária.
Essa interlocução permitirá superar barreiras, estabelecer alianças, criar motivações, fortalecer grupos e indivíduos. Nessa lógica de ideias, a solidariedade será de fundamental importância, tendo como demanda social o trabalho diante das expressões da questão social. O trabalho articulado com diversos atores deverá ser tecido com os fios “solidariedade e criatividade”, que se configuram em interesses afins e solidários de uns para com outros identificados nas faltas, nas carências, nos limites e possibilidades explorados através de práticas criativas. A vontade de trabalhar de forma articulada instaura nos atores sociais o desejo de agregar conhecimentos, de ser humilde no seu saber, reconhecendo que o valor do outro nesse processo é de suma importância.
O trabalho estabelecido através da solidariedade, associado à capacidade criativa como um elemento que se estabelece através do imaginário humano de criar o novo, somando-se a um desejo de compartilhar conhecimentos e necessidades sociais no espaço onde as pessoas estão, oportuniza ações de garantia de direitos coletivos. Conforme mencionamos, para que se possam estabelecer fortes fundamentos de vida social, necessário se faz criar na vida das pessoas e no coletivo social fortes significados de existência, por mais que os recursos sociais sejam deficitários.
É o movimento de “compartilhar”, de estabelecermos coesão entre as partes envolvidas no enfrentamento dos problemas existentes diante de determinada situação, como a busca de soluções através do estabelecimento de ideias inovadoras e criativas na e para a comunidade local, pois “(...) o compartilhar traz, na sua essência, a possibilidade de ser incluído, e a inclusão no processo de Rede Interna parte de um sentimento e de um interesse comum” (TURCK, 2001, p. 30).
Para esse processo de construção de uma ação solidária de abrangência comunitária e ou institucional, Turck (2001), categoricamente, afirma que “na Rede Interna, é necessário agregar também um elemento fundamental e pertinente para a sua formação: a capacidade de comunicação entre indivíduos, os semelhantes. É a partir do processo de intercomunicação que a inclusão começa a se fazer presente” (TURCK, 2001, p. 30).
O ser humano realiza a percepção sobre si mesmo através da sua interlocução/comunicação com o outro, através de atos e gestos, sentimentos, vivências. Por meio de determinadas necessidades vividas e sentidas no cotidiano da vida em comum é que o ser humano se sente integrado em uma sociedade, e nela se situa para a sua sobrevivência. Esse coletivo se expressa também através da organização de mecanismos que assegurem o suprimento de necessidades inerentes à vida. Criamos respostas e soluções de forma criativa para encontrarmos soluções para essas mesmas necessidades comuns a todos.
A criatividade vem do ato de criação, alguém sendo motivado por algo ou alguma coisa desejada. É a possibilidade da descoberta do novo. É a produção de algo em alguma coisa que dará sentido à vida e à própria sociedade. A criatividade deve ser uma característica que marcará o processo de trabalho do profissional atuante como assistente social. Ser criativo compreende desenvolver um trabalho que nasça na investigação da própria realidade social em que o profissional e o usuário estão inseridos, ou seja, buscam-se os elementos constitutivos das demandas no próprio espaço onde a vida acontece, a comunidade, no próprio processo de trabalho estabelecido pelo assistente social no contato com a realidade, na comunidade local, na vida dos sujeitos.
A criatividade ou o ato criativo não está afeto somente a coisas materiais ou de cunho artístico. Queremos referir a criatividade das relações humanas, o ato criativo de motivar pessoas e grupos a se sentirem estimulados a criar alternativas de superação diante das necessidades sociais que enfrentam, que nascem no cotidiano das próprias relações humanas.
O assistente social pode, através de seu processo de trabalho, desempenhar essa competência teórico-metodológica, ou seja, sentir-se estimulado através da rede a motivar os usuários e outros profissionais a buscarem juntos, de forma criativa, alternativas de vida para o suprimento das necessidades básicas e não mínimas junto ao Estado, na garantia da sobrevivência humana em sociedade. Masi (2002) refere-se ao potencial humano e à capacidade criativa que poderemos explorar como elementos potencializadores do desenvolvimento e bem-estar na sociedade em rede, mesmo com o crescimento demográfico.
Por esse prisma, percebemos que o Terceiro Mundo possui uma massa pensante que poderá contribuir de forma positiva para o desempenho humano. É importante que o Estado, através das políticas sociais, mais especificamente pela educação, faça parte desse processo na vida das pessoas. Acreditamos que para os moradores de rua desenvolverem suas vidas ali, nas condições sociais em que se encontram, a eles é exigível esse desempenho criativo de montar estratégias de sobrevivência a todo instante.
Para todo desempenho humano, é fundamental o trabalho em rede, isto é, a vontade de superarmos os limites e barreiras que constantemente nos são impostos pela própria natureza. A vontade é o querer estar integrado a um universo social no qual se possa reconhecer um espaço de construção da cidadania, ou seja, é estar implicado na construção de uma “rede” que viabilize o reconhecimento dessa igual dignidade humana das pessoas que se encontram excluídas socialmente. Uma vontade que traz “o ato em potência ou a potência em ato” (SPONVILLE, 2003).
Esse ato representa também movimento (potência) de resistência perante a desigualdade social. É no coletivo dos sujeitos que interagem entre si que somaremos forças construindo e fortalecendo a rede. Nesse movimento, que é potência, mobilizaremos forças solidárias para a construção de um novo horizonte de vida. Assmann e Sung Mo (2001) convidam-nos a refletir sobre esse ato marcado pela sensibilidade solidária, que nos suscita:
[...] um desejo que articula um novo horizonte de sentido às nossas vidas, um horizonte utópico e de esperança. E esse novo horizonte utópico dá sentido à sensibilidade solidária e realimenta o nosso desejo de um mundo mais humano, acolhedor e solidário.
(ASSMANN; SUNG MO, 2001, p. 134-135)
Ao expressar esse movimento solidário, que é sentimento implicado na construção e expansão da rede, o assistente social tem a possibilidade de não se sentir impotente nem onipotente no senso de ter que dar respostas a todas as demandas, mas construir, no coletivo, soluções, potencializar recursos para o enfrentamento das desigualdades sociais e ter flexibilidade para compartilhar novos conhecimentos. No trabalho em rede, o assistente social estabelece um novo olhar sobre as demandas, ou seja, um problema individual torna-se um problema coletivo. Assim ocorrendo, necessitamos trabalhar em uma ação conjunta, solidária e participativa, exigindo diversos atores sociais para encontrarmos a solução do problema também no coletivo.
Portanto, é mister entender que a participação do usuário nesse processo é de fundamental importância, pois esse espaço de resistência:
É uma complexa rede de dominação/resistência que se condicionam e constroem as estratégias de ação profissional, considerando-se, ao mesmo tempo, as condições objetivas e os recursos e dispositivos de ação dos atores em presença.
(FALEIROS, 2002, p. 35)
Turck (2001) afirma-nos que, para trabalharmos em Rede Interna, é importante reconhecermos três elementos para o seu fortalecimento, que demanda do profissional ter a “flexibilidade para aprender, a disponibilidade para compartilhar e a qualificação para executar” (TURCK, 2001, p. 32).
Como observamos, o terceiro elemento aqui assinalado coloca em evidência para o assistente social implementar o Art. 2º, do Título II, de seu Código de Ética, que lhe assegura essa busca constante de conhecimentos para garantir esse fazer competente nos três níveis de ação a que a autora refere-se. Quando assim ocorre, o assistente social passa a demarcar a sua identidade profissional, bem como de todos os profissionais sociais que atuam de forma solidária na comunidade ou na instituição. Essa articulação de significados demarcados pelas identidades profissionais imprimirá respeito e dignidade para cada sujeito que esteja implicado na rede, como na comunidade.
Assim ocorrendo, reiteramos a necessidade de o assistente social ter a vontade de estar implicado nesse processo de articulação solidária na constituição da rede. A partir dessa articulação e organização da rede, os sujeitos se conhecem e se identificam através de alianças, estabelecem pontos em comum. A possibilidade de encontrarmos um espaço onde possamos dialogar e trocar informações fortalece os sujeitos, tanto objetivamente, através dos recursos sociais materiais propriamente ditos existentes na comunidade, como as questões inerentes ao mundo do trabalho, quanto das questões subjetivas que são identificadas como elementos que fragilizam os profissionais pelos embates desse mesmo mundo do trabalho. Como exemplos desses embates, mencionamos desejos não alcançados, frustrações, baixa autoestima, entre outros.
Acreditamos que, com esse processo, oportunizaremos um movimento concreto no sentido de se restabelecer uma relação de cidadania entre sujeitos que estão conectados uns com os outros, assim, visando garantir a defesa intransigente dos Direitos Humanos, constituindo uma sociedade mais justa e igualitária, conforme consta no Código de Ética Profissional do assistente social.
Nessa perspectiva de trabalho solidário, entendemos que tanto os profissionais como os usuários poderão buscar, em particular e em conjunto, a liberdade do movimento da autodeterminação no enfrentamento das dificuldades sociais apresentadas no cotidiano da vida particular do usuário do mundo do trabalho, através das relações, dos recursos e das informações, de forma mais rápida, transparente e agilizada.
Os assistentes sociais, de forma organizada e sistematizada, poderão participar dessa construção maior denominada de ação de trabalho solidário visando garantir os direitos sociais que formam os fundamentos da vida social, mesmo exigindo estratégias diferenciadas de realizações. Assim, nesse processo de construção maior, a proposta metodológica de trabalho “solidário” poderá contemplar uma ação que venha atingir não somente uma determinada comunidade específica, mas regiões de grande abrangência.
ASSMANN, Hugo; SUNG MO, Jung. Competência e sensibilidade solidária: educar para a esperança. 2. ed. Petrópolis: Vozes, [s.d.].
BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
FALEIROS, Vicente de Paula. Saber profissional e poder institucional. 6. ed. São Paulo: Cortez.
GUERRA, Yolanda A. D. Alguns elementos para pensar a reforma do Estado no Brasil, v. 1, 1999.
IAMAMOTO, Marilda Vilela. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. São Paulo: Cortez, 2001.
MASI, Domenico de. Criatividade e grupos criativos. Fantasia e concretude. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.
PEREIRA, Potyara. Necessidades humanas. Subsídios à crítica dos mínimos sociais. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2007.
SCHEUNEMANN, Arno V.; HOCK, Lothar Carlos (Org.). Redes de apoio na crise. São Leopoldo: Abac/EST, 2003.
SPONVILLE, André Comte. Dicionário filosófico. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
TURCK, Maria da Graça Maurer Gomes. Rede interna e rede social: o desafio permanente na teia das relações sociais. Porto Alegre: Tomo, 2001.
Coordenação e Revisão Pedagógica: Claudiane Ramos Furtado
Design Instrucional: Gabriela Rossa
Diagramação: Vinicius Ferreira
Ilustrações: Marcelo Germano
Revisão ortográfica: Igor Campos Dutra