Compreensão do significado social da profissão e de seu desenvolvimento sócio-histórico, nos cenários internacional e nacional, desvelando as possibilidades de ação contidas na realidade;
Identificação das demandas presentes na sociedade, visando a formular respostas profissionais para o enfrentamento da questão social;
Articular o saber acadêmico ao exercício profissional para contribuir com a mobilização de sujeitos individuais e coletivos na perspectiva da emancipação humana.
O presente capítulo permite-nos refletir sobre os fundamentos da vida em sociedade, da vida cotidiana através do trabalho e o significado das bases em que se estrutura tal sociedade. O cotidiano é visto como espaço de representação e organização da vida social através de ações, conscientes ou não, que influenciarão na reprodução social do ser humano enquanto ser particular e também coletivamente.
A vida cotidiana representa o conjunto das ações do ser humano no seu dia a dia, através de atos e ações estabelecidos nas relações sociais. É o ser humano em sintonia com a vida. Kosik (1995, p. 79) esclarece que: “Todo modo de existência humana ou de existir no mundo possui sua própria cotidianidade”. Nossa vida é marcada por atos estabelecidos através das criações humanas. Muitas vezes, esses atos, que fazem parte de nosso cotidiano, não são conscientes, mas repetitivos, automáticos, sem que venhamos a nos questionar ou perceber que estão inseridos em nosso modo de ser. Vejamos alguns exemplos que estão incorporados em nosso dia a dia:
Escovar os dentes faz parte de nosso cotidiano. Sabemos que é uma ação importante por causa de nossa saúde, e essa ideia está incorporada em nossas vidas de uma forma automática, sem que tenhamos de estar pensando sempre na sua finalidade e funcionalidade. Muitas pessoas dirigem seus carros para se deslocar de um lugar a outro, e muitas vezes esse ato é realizado de forma automática. Sabemos que desejamos chegar a algum lugar, mas não temos, por exemplo, de estar pensando em todos os movimentos que o carro faz para que isso ocorra. Ir ao trabalho ou atravessar as ruas também são atitudes que realizamos constantemente.
Percebe-se, então, que a cotidianidade é a vida comum de todos na sociedade em que se convive. Para melhor compreendermos como o cotidiano que envolve o ser humano se estabelece.
O cotidiano representa, de forma organizada, toda ação consciente ou não do ser humano, que vai possibilitar a reprodução social.
Para ocorrer a reprodução social, o sujeito terá de encontrar possibilidades de realizar-se e, consequentemente, reproduzir-se socialmente enquanto ser particular. Uma criança, quando nasce, estabelece uma relação direta com seus pais, destes necessitando de cuidados para sua sobrevivência. São os atos repetidos de tais cuidados que darão à criança as habilidades para seu desenvolvimento. Nesse processo, tanto a criança como os pais constituirão um cotidiano marcado por atenções materiais, cuidados de higiene e alimentação e muito amor. Todavia, quando essa criança atingir sua vida adulta e sua autonomia, deverá estabelecer-se um novo cotidiano.
Como vemos, os seres humanos estão integrados em um contexto social, e suas ações irão possibilitar a reprodução das relações sociais estabelecidas por cada indivíduo. E, assim, vai-se constituindo a história da sociedade. O ser humano, ao nascer, insere-se em uma sociedade que lhe é revelada pronta, constituída. Sua sobrevivência dependerá da forma como se apropriará de recursos que lhe serão garantidos ou não para poder crescer ou encontrar a morte. Devemos ter claro que esses elementos de sobrevivência humana estão inseridos em um cotidiano de vida organizado no meio onde o sujeito nasceu – o contexto familiar, por exemplo. É, portanto, somente após receber os cuidados inerentes ao seu desenvolvimento que o sujeito poderá crescer e lutar, e, após emancipado, atingir a vida adulta, garantindo por si mesmo sua manutenção.
Do contrário, fenecerá. Heller (1994, p. 23) afirma: “ou o homem se apropria de sua vida cotidiana, que se lhe dá acabada, desde o seu nascimento, ou estará determinado a morrer”.
Para podermos ampliar nossas reflexões, imaginemos o quadro da desigualdade social que envolve muitas pessoas, as quais, ao nascerem em um mundo bastante perverso, se encontram condicionadas a uma situação de extrema falta de perspectivas com relação a padrões mínimos de sobrevivência. Essas pessoas, portanto, encontram-se privadas de ter um teto, de alimentação, saúde, lazer, entre outras carências que o mundo do trabalho deveria suprir com vistas a tornar o ser humano feliz.
A população de rua, por exemplo, deve apropriar-se de estratégias de sobrevivência em seu cotidiano, ou estará fadada à morte física. Para a maioria, a integridade pessoal encontra-se constantemente em risco.
Como vemos, em qualquer situação que o ser humano esteja inserido, ele deverá necessariamente desenvolver disposições para sobreviver. Parafraseando Heller (1994, p. 36), o homem terá de cultivar faculdades e disposições que são necessárias para se afirmar, enquanto pessoa, neste mundo que lhe é dado, desde o aprendizado da comunicação com as pessoas que o cercam até as estratégias e os mecanismos de sobrevivência. Para ocorrer a reprodução social, o indivíduo terá de encontrar possibilidades de também realizar-se e, consequentemente, reproduzir-se socialmente enquanto ser particular, uma vez que não nasce pronto e, para sobreviver, necessita construir-se a si mesmo.
A sobrevivência só se estabelece à medida que o ser humano realiza trocas e vínculos que irão engrandecer seu contínuo desempenho humano. A mediação realizada pelo Serviço Social objetiva realizar ações e operacionalizações que deverão garantir a transformação na vida humana, a qual possui características fundamentadas em valores éticos. Essa ação mediadora promoverá a vida em sociedade abrindo espaços no sentido de estabelecer recursos sociais e de esclarecimento de direitos, no comprometimento do Estado com vistas a garantir uma qualidade de vida em sociedade de forma ampla. Nesse sentido, a vida cotidiana é marcada pela construção social de atitudes produzidas pelo próprio ser humano, que, através do trabalho, promove a transformação da natureza. Temos claro então, que esse cotidiano deverá ser constituído por ações criadoras no sentido de estabelecer disposições e garantias a uma qualidade de vida para todos através do trabalho.
Toda ação do ser humano no processo de transformação da natureza é uma relação de trabalho, na qual o ser humano visa controlar e superar a natureza bruta. Nas palavras de Antunes (1999, p. 123), o trabalho, estabelecido em um cotidiano, significa “momento fundante de realização do ser social, condição para a sua existência; é o ponto de partida para a humanização do ser social e o motor decisivo do processo de humanização do homem”. Encontramos, então, na condição humana, a possibilidade de desempenhar, através da criatividade, uma força transformadora de algo em alguma coisa que lhe seja útil e apreciável, e que leve ao bem-estar, objetivo e subjetivo, da humanidade.
Marx (1980, p. 202) tece a seguinte consideração sobre o trabalho: “Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza”. O trabalho é o que impulsiona o ser humano na transformação e regulação da natureza. É o que lhe garante o desenvolvimento de habilidades, exigindo esforço, planejamento e dedicação. Temos no trabalho a organização dos fundamentos da vida social.
O trabalho, então, é uma maneira criativa de manifestação humana nas mais diversas formas estabelecidas em um cotidiano. O sentido que damos ao trabalho está diretamente relacionado com o meio e a intenção que nos move a ele, no sentido de obter um resultado que deverá trazer satisfação das necessidades humanas, fundamentando assim a vida social.
Para Wünsch (2001, p. 98), o trabalho é “uma categoria central, na compreensão da relação homem com o seu meio, de reconhecida historicidade e atualidade, na medida em que este é insubstituível, por ser potencialmente criativo e pela satisfação das necessidades humanas”. O trabalho, enquanto categoria de análise, é considerado uma condição primordial de transformação da natureza em possibilidade de recursos para o bem-estar dessa mesma humanidade.
Segundo Iamamoto (2001, p. 61), trabalho é elemento constitutivo do ser social. Dispõe, portanto, de uma utilidade na vida das pessoas. O trabalho é apenas um meio, que traz valor proporcionalmente ao resultado que obtém ou a que visa.
Torna-se importante entendermos a importância que a categoria valor representa na vida humana, pois valor é tudo que faz parte da vida do ser humano, tudo que possui significado. Está constituído de valor “tudo aquilo que faz parte do ser genérico e contribui, direta ou imediatamente, para a explicação desse ser genérico” (HELLER, 1989, p. 04).
Para compreendermos os fundamentos da vida social através do trabalho, é preciso que se perceba o ser humano em conexão com a história e ver, na caminhada humana, o desenvolvimento do trabalho como sendo a base fundante da vida social, pois sabemos que o ser humano interage na construção dos fatos históricos, em processo contínuo. É através do trabalho que o ser humano vai se aprimorando, elemento importante para o refinamento da vida humana no contato da natureza.
A vida humana torna-se desumana quando o trabalho é corrompido e não traz sentido ao fim a que ele, “trabalho”, se destina, ou seja, a evolução do ser humano na Terra através da transformação da natureza na sua forma bruta. Nas mais distintas formas de relações sociais do ser humano, a atividade humana através do trabalho distingue-se na sua existência individual e social.
Marx (1993), em seus apontamentos, infere que o processo de humanização do homem e da mulher se dá na constituição das suas experiências através do trabalho em sociedade, o que lhes fundamenta a existência social. Percebemos o quanto o ser humano e a natureza estão implicados entre si, colocando a humanidade na condição vital de dependência da natureza para a sua sobrevivência.
A sociedade em que vivemos é o resultado do que o ser humano constrói enquanto ser social. Nessa sequência de pensamento, percebemos o quanto é paradoxal constatarmos que, muitas vezes, o resultado desse movimento realizado pelo ser humano, quando inserido no trabalho em sociedade, é não obtermos como resultado desse processo de trabalho a contrapartida dos recursos sociais que garantam para todos a dignidade e a sobrevivência humana e também a manutenção da própria natureza de que se apropria o ser humano.
A sociedade capitalista é contraditória, pois poucos usufruem as suas facilidades. Muitos ficam à margem. O trabalho tem que ser visto como espaço de realização, de promoção da humanidade do sujeito, a este propiciando as condições favoráveis de equilíbrio físico e mental. Lamentavelmente, o que ocorre, porém, é um processo de aniquilamento de muitas pessoas nessa mesma sociedade.
Nesse sentido, o trabalho, quando deixa de se constituir em realização, torna-se objeto de dor e sofrimento, mudando totalmente o seu significado. Parafraseando Wünsch (2001, p. 106), dir-se-ia: “o processo que se estabelece no binômio ‘saúde-doença do trabalhador’ é construído de diversas formas, e seu motivo de existir está relacionado ao contexto das relações sociais, engajadas com as formas de existência da população, de modo geral”.
A realidade, então, revela-se contraditória quando constatamos viver em uma sociedade que apresenta um movimento dialético visto através do trabalho e do desemprego, da riqueza e da miséria, da inclusão e da exclusão social.
Esse movimento dialético é percebido de forma objetiva quando vemos índices de violência, miséria e fome; e, de forma subjetiva, através do sentimento de não pertencimento social e do estar-se alijado dos recursos que a sociedade constrói para alguns, não atingindo a finalidade de crescimento do indivíduo na sociedade mais ampla. Temos, na grande maioria das vezes, o binômio doença-trabalho relacionado diretamente à vida das pessoas.
A sociedade contemporânea está fundamentada em relações sociais contraditórias que se estabelecem de forma direta na relação capital sobre o trabalho. Constatamos seres humanos sendo explorados e muitos outros vivendo em condições de escravidão, enquanto outras pessoas usufruem uma boa qualidade de vida. Existem também aqueles que, durante muito tempo de suas vidas, venderam sua força de trabalho e agora se encontram doentes ou envelhecidos, sem mais ter a possibilidade de vender sua força física. Nessa mesma sociedade, tais pessoas possuem como destino o abandono.
A exploração comumente atinge grandes proporções, colocando a pessoa necessitada em uma situação constrangedora e de subalternidade. Cria também uma consciência alienada, e o sujeito, sem dinheiro no bolso, tenta sobreviver de forma degradante.
Essa condição de pobreza faz com que muitas pessoas organizem suas vidas na sociedade das mais diversas formas. Uma delas é a saída do campo, das pequenas cidades interioranas em busca de novas frentes de trabalho na capital, principalmente quando se esgotam todas as possibilidades de crescimento pessoal, pois “o crescimento do capital e o aumento do proletariado são resultados contraditórios do mesmo processo” (MARX, 1974, p. 103).
As perdas relacionadas à ruptura de vínculos, com a saída do campo, são, geralmente, irreparáveis. A procura itinerante do trabalho para a sobrevivência torna-se muitas vezes a única alternativa de vida para as pessoas que procuram uma atividade profissional.
Portanto, o processo pelo qual o ser humano busca encontrar qualidade de vida através do trabalho passa por uma trama de relações no enfrentamento das adversidades da vida, na busca da superação desses entraves, no sentido de se garantir, em sociedade, a conquista da liberdade, da autonomia das pessoas, oportunizando crescimento social. A vida em sociedade deverá estar marcada por uma relação de igualdade de direitos para todos. Devemos perceber o outro através do respeito humano. É essa uma das formas de se construir cidadania e se estabelecer a liberdade e a paz entre os povos. Nesse sentido, o trabalho é categoria central que tem por finalidade promover a humanização da natureza e da vida em sociedade.
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