A desenvolver a capacidade de compreensão do significado social da profissão e de seu desenvolvimento sócio-histórico, nos cenários internacional e nacional, desvelando as possibilidades de ação contidas na realidade;
A expandir a compreensão teórica, metodológica, ética e política do ser e do trabalho do assistente social na atualidade, através da desconstrução e construção da concepção da profissão;
A reconhecer especificidades do trabalho do assistente social face ao projeto ético-político vigente, além de particularidades da proposta de formação profissional a partir do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) e do Projeto Pedagógico do Curso (PPC).
O aluno, ao ingressar na vida acadêmica, vem cheio de dúvidas: é este o curso que quero? O que faz o assistente social? Onde e com quem vou trabalhar? Por que optei pelo Serviço Social? As ideias que tenho a respeito da profissão são corretas? Que saberes o assistente social deve ter?
A metodologia desta disciplina reconhece essas dúvidas e as utiliza como ponto de partida de um processo que pretende propiciar uma aproximação crítico-reflexiva sobre a profissão na atualidade, através de uma questão central e norteadora: “Como vem se constituindo a prática profissional do assistente social no Brasil na atualidade?”. Essa questão estará presente ao longo da disciplina e, ao final, o aluno deverá estar qualificado para respondê-la.
É necessário refletir sobre as diferentes concepções do que seja Serviço Social, advindas do contexto sócio-histórico em que se insere como profissão, apropriando-se de métodos de pesquisa como um instrumento para a construção de uma nova concepção do ser assistente social.
Uma pesquisa é um processo de construção do conhecimento que tem como metas principais gerar novos conhecimentos e/ou corroborar (confirmar) ou refutar (desaprovar) algum conhecimento pré-existente. É basicamente um processo de aprendizagem tanto do indivíduo que a realiza quanto da sociedade na qual se desenvolve. A pesquisa, como atividade regular, também pode ser definida como o conjunto de atividades orientadas e planejadas pela busca de um conhecimento (KERN, 2007). Para o conhecimento científico, é necessário se fazer a passagem de ruptura com o senso comum/ popular, uma vez que ele não tem argumentação teórica, método ou metodologia. É o que se chama também de conhecimento vulgar.
O conhecimento científico é transmitido por treinamento apropriado e obtido de modo racional, conduzido por meio de procedimentos científicos. Busca explicar o “por quê” e “como“ os fenômenos ocorrem para evidenciar fatos correlacionados em uma visão mais globalizante do que a relacionada com um simples fato. Tal passagem do senso comum para o conhecimento científico caracteriza-se pela adoção de alguns elementos, tais como: definição de um referencial teórico que permita uma visão de conjunto, pois ele dá sustentação ao profissional para desenvolver a sua prática, possibilitando a apreensão do todo que envolve a situação que lhe é apresentada, sem fragmentá-la.
É necessária, também, a definição de um caminho para chegar a um determinado fim ou resultado, o que se denomina de método e é maior que a metodologia.
Entenda a diferença entre Método e metodologia:
Se dá pela razão, pelo entendimento, pela problematização e exige domínio de uma ou mais teorias.
Compreende o como fazer, ou ainda, como operacionalizar o estudo ou a investigação, sendo fundamentado em um referencial teórico do método. É, na metodologia, que se definem os instrumentos, técnicas e as estratégias, que são recursos, meios para se alcançar ou obter um resultado, um produto desejado, definido. É a partir dessa operacionalização metodológica que pode ser potencializado o trabalho profissional nas diferentes áreas do conhecimento.
Já se viu que a pesquisa é um instrumento essencial no exercício de todas as profissões. É, hoje, uma exigência nos diferentes espaços profissionais e, portanto, também para o assistente social. Para que se compreenda teoricamente o que é pesquisa e como ela pode auxiliar a prática do assistente social na atualidade, é fundamental entender que ela tem contribuído para o avanço da ciência. Portanto, não há pesquisa se não houver o acionamento do espírito investigativo por parte do pesquisador/profissional.
A investigação se constitui de um estudo sistemático, metódico, que se organiza com a intenção e finalidade de buscar conhecimentos e respostas em relação a um determinado objeto, foco da investigação, com a finalidade de agregá-lo de maneira comunicável e comparável a um corpo de conhecimentos que se dispõe em uma determinada área de reflexão. O conhecimento a ser construído pela investigação vislumbra não somente a compreensão e explicação do real, mas a instrumentalização das ações profissionais. O pesquisador, em uma mesma pesquisa, poderá ter diferentes motivos para investigar, mas sempre terá um motivo central que irá impulsioná-la.
O objetivo existencial desse saber, para o Serviço Social, é democratizar, ampliar e aprofundar a sabedoria prática, com a intenção de aumentar as possibilidades de melhores decisões e intervenções na realidade social.
Portanto, o conhecimento passa a ser para o profissional um instrumento de trabalho que incide sobre o objeto de intervenção. Esse conhecimento terá a abrangência e o limite da teoria social que o norteia.
É a motivação da prática que faz com que o profissional elabore e construa novos conhecimentos. No cotidiano, a estrutura objetivada da sociedade e as questões imediatas impõem um comportamento de manipulação/exploração, investigação do que emerge, do que é aparente.
Nesse sentido, a construção do saber, tendo como horizonte um produto, pretende realizar o tríplice movimento dialético: de crítica ao objeto de estudo, de construção de um novo conhecimento e de nova síntese no plano do conhecimento e da ação, em um movimento que vai do particular para o universal e retorna ao particular em um outro patamar, traçando um movimento de espiral de relação/ ação/ conhecimento. Assim, a dialética pressupõe: tese; antítese e a síntese.
Na relação com a teoria, os conhecimentos de que o pesquisador se utiliza dizem respeito ao “problema” que aborda, ao fenômeno ao qual esse “problema” está afeto, à conjuntura e estrutura social, aos conhecimentos acumulados frente àquela temática. Portanto, diante dos problemas específicos, o profissional não tem apenas que analisar o que acontece, mas tem que formular uma crítica e tomar uma decisão por um determinado tipo de construção de alternativas como produto da investigação. O modo como o pesquisador faz isso, é o que irá determinar a relação que ele estabelece com a teoria.
Na operacionalização da pesquisa, a questão central (problema de pesquisa) dá origem à direção do estudo. Segundo Triviños (1992, p. 97) “põe em relevo as percepções dos sujeitos e, sobretudo, salienta o significado que os fenômenos têm para as pessoas”. No processo de investigação, é necessário aprofundar o conhecimento sobre aquele sujeito com o qual estamos dialogando. Portanto, a qualidade das informações coletadas pelo pesquisador é fundamental.
Entende-se que um dos aspectos fundamentais da pesquisa é o reconhecimento de seu caráter político, pois como uma construção coletiva que parte da realidade dos sujeitos, mediando processos de reflexão e desvelamento, a eles deve retornar de forma crítica e criativa (MARTINELLI, 1994). A investigação, no processo de trabalho profissional, indica a percepção de singularidades, modos e experiências de vida, pressupõe aproximação do fenômeno de maneira diversa daquelas já consagradas no meio científico, tais como: trabalhar com hipóteses, instrumentos fechados, dados estatísticos. Portanto, supõe romper com os padrões tradicionais de pesquisa, criando e construindo novas alternativas metodológicas.
Sabe-se que o acadêmico traz diferentes pré-concepções sobre a profissão de assistente social e como se dá a sua intervenção profissional. É comum pensar e expressar que ser assistente social é uma vocação, um dom, uma missão; é ser voluntária (o); trabalhar com as pessoas pobres e ser uma pessoa muito “boazinha ou fazedora do bem”. Então, como ratificar ou refutar tais concepções? Para tanto, acadêmico, proponha-se a acionar algumas estratégias e desenvolver o seu espírito investigativo (a sua vontade de descobrir, de buscar, de investigar sobre algo) a partir de algumas fontes e indicadores que lhe possibilitarão realmente compreender que profissão é essa e o que faz o assistente social.
A formação do assistente social, na atualidade, exige a apreensão de saberes que possibilitem a elaboração de instrumentos e técnicas que qualificam e implementam o exercício profissional. Nesse sentido, a pesquisa se apresenta como um importante instrumento para o processo metodológico de investigação, não só para o meio acadêmico quanto para a prática profissional.
O ato de pesquisar deve estar permanentemente atravessando a formação dos estudantes viabilizando, dessa forma, sua presença no agir cotidiano dos profissionais.
Para melhor se compreender, denomina-se pesquisa o processo desencadeado pela existência de um determinado problema, que é o elemento desencadeador do processo de pesquisa que se esboça em torno do vivido e do pensado (tempo/espaço) e que permite a busca de caminhos e alternativas para o enfrentamento da questão colocada.
É próprio do ser humano buscar soluções e caminhos para superar ou encontrar respostas para seus problemas, mesmo aqueles mais complexos. O cotidiano das pessoas lhes apresenta as mais diferentes situações e questionamentos quanto a atitudes, vestuário, alimentação, aquisições de bens, entre outros, que exigem a tomada de decisão ou fazer escolhas.
Nossa vida cotidiana é mergulhada em problemas a serem resolvidos – o que vestir? Fará calor ou frio durante o dia? Devo ir à festa? Isto é o melhor para mim? Entretanto, para todos esses problemas ou dúvidas, sem perceber usamos uma metodologia de pesquisa: temos um problema, construímos respostas hipotéticas, ou seja, aquelas possíveis alternativas para solução do problema, e buscamos a operacionalização das mesmas para ratificá-las (confirmá-las) ou refutá-las (descartá-las). Elas são denominadas de hipóteses, que se colocam como afirmações explicativas ao problema.
Para verificar a viabilidade das alternativas, é necessário encontrar uma forma de verificá-las ou descartá-las. Isso é denominado de processo metodológico. Nesse processo, elegem-se categorias teóricas principais, identificadas a partir da formulação das hipóteses construídas e que são conceituadas, isto é, são definidos os seus significados. A identificação de categorias teóricas, na investigação, permitirão ampliar a reflexão sobre o objeto da pesquisa, explicitando-o. Nesse processo, são também definidos alguns procedimentos (passos ou formas de fazer) e fontes (onde buscar a informação) para ir à realidade investigada.
Para melhor compreensão dos elementos que compõem o processo metodológico da pesquisa, apresenta-se um exemplo de como esse processo de investigação poderá se operacionalizar no exercício profissional:
Como vem se constituindo a prática profissional do assistente social no Brasil, na atualidade? Supõe-se que:
A prática profissional exija do assistente social estar sempre se atualizando a fim de executar os seus projetos sociais, dentro de um espaço político e público, com o objetivo de ampliação do mercado de trabalho.
O assistente social deva agir como articulador estabelecendo vínculo e um relacionamento de confiança entre os usuários, através de ações que objetivam garantir direitos sociais e entender a necessidade da população.
O assistente social deva atuar em dimensões interdisciplinares, buscando a integração humanitária entre as diferentes profissões do mercado de trabalho.
Competência profissional (essa categoria teórica foi identificada e evidenciada a partir da formulação das hipóteses anteriormente citadas).
Capacidade de articular, de modo eficaz e criativo, diferentes saberes, novas habilidades, atitudes e comportamentos, superando o saber-fazer para a constituição do saber ser competente.
Trabalho em grupo.
Leitura de textos.
Seminário.
Etc.
livros, filmes, entrevistas, documentos, fotos etc
Assim, visualiza-se melhor esse processo na grade abaixo:
Então: tem-se um problema de pesquisa ou investigação. Para achar uma resposta para ele, formulam-se hipóteses, que são alternativas que poderão indicar possíveis respostas, porém, para verificar a viabilidade dessas alternativas, necessita-se encontrar forma de verificá-las ou descartá-las. Denomina-se a isso de processo metodológico, em que se identifica(m) categoria(s) da prática profissional a partir da formulação das hipóteses. Procura-se, então, um conceito para a (s) categoria (s), elegendo-se indicadores da realidade que permitirão ver suas possibilidades de realização ou não, recorrendo-se a procedimentos e fontes para ir à realidade investigada.
A categoria anteriormente exemplificada (competência profissional), permitirá, através das fontes disponibilizadas ao investigador, formular uma resposta ao problema apresentado. Isto é, dizer que a prática profissional do assistente social, no Brasil, na atualidade, exige uma competência profissional que está demarcada pelo conhecimento, por habilidades como capacidade de observar, de acolher, de ter uma escuta sensível. Além disso, essa categoria também remete à condição de que o profissional deverá estar em sintonia com as novas demandas do mercado de trabalho e, para tanto, deve estar em permanente formação e com uma postura ética afinada com o projeto ético-político do Serviço Social.
Aqui vale esclarecer, de forma breve, a configuração desse projeto. Esse deve ser entendido como um processo em contínuo movimento, em que o assistente social considera a dimensão sócio-histórica, as transformações econômicas, políticas e culturais da sociedade articuladas à dimensão técnico-operativa da prática profissional, tendo a liberdade como princípio ético central.
O projeto ético-político ou projeto profissional está em permanente construção, uma vez que deve estar em sintonia com a dinâmica da sociedade, exigindo, dos assistentes sociais, atenção na identificação das demandas sociais apresentadas.
O projeto ético-político na Lei de Regulamentação da profissão (Lei 8662/ 93), no Código de Ética do assistente social e nas Diretrizes Curriculares para o ensino do Serviço Social.
O projeto profissional do Serviço Social deve ser conhecido e apreendido por todos os assistentes sociais e representado em suas práticas cotidianas, bem como seu conteúdo incorporado na formação dos acadêmicos, futuros profissionais. Retomando as reflexões sobre o processo de pesquisa, muitos questionamentos, dúvidas e problemas surgirão no dia a dia de um profissional, exigindo construir alternativas e buscar respostas, normalmente em curto espaço de tempo. Nesse sentido, afirma-se que a pesquisa configura-se como um elemento constitutivo da natureza do processo de trabalho do assistente social, e não mera tarefa que possa ou não ser realizada.
Assim, prezado acadêmico, está sendo indicado um caminho a ser seguido, pelo qual você terá possibilidade de encontrar algumas respostas àquelas dúvidas inicialmente apontadas neste subcapítulo, e que, acredita-se, lhe acompanham já há algum tempo. Talvez já tenham lhe apontado algumas respostas, mas, certamente, a partir do senso comum, ou seja, do conhecimento também chamado de vulgar, pois se fundamentam em emoções e valores do sujeito, sem uma sistematização dos dados ou informações coletadas, o que lhe impele, como futuro profissional, a buscar, através da pesquisa, respostas fundamentadas no conhecimento científico.
O conhecimento científico é obtido de modo racional e desenvolvido por meio de procedimentos científicos, procurando explicar o “por quê”, o “como” e “para que” os fenômenos ocorrem. Nesse sentido, esse conhecimento permite ao pesquisador uma reflexão, análise e compreensão contextualizadas dos fenômenos produzidos no cotidiano da sociedade atual.
BRAGAGLIA, Mônica. Pesquisa. Material didático para utilização na disciplina de Introdução ao Serviço Social, publicado no Caderno Universitário nº 80, elaborado por Scheunemann, Arno V. et. All. Canoas: ULBRA, 2003.
CONSELHO REGIONAL DE SERVIÇO SOCIAL – 10ª REGIÃO. Código de Ética. In Coletânea de Leis (revista e ampliada). Porto Alegre, 2005.
FAZENDA, Ivani (org.). Metodologia da pesquisa educacional. 5. ed. São Paulo: Cortez, 1999.
KERN, Francisco A.; SCHNORR, Ruthe C.C. Pesquisa em Serviço Social. Caderno Universitário nº 89. Canoas: ULBRA, 2003.
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MARTINELLI, Maria Lúcia. O uso de abordagens qualitativas na pesquisa em Serviço Social. Um instigante desafio. Seminário sobre metodologias qualitativas de pesquisa. PUCSP – NEPI, 1994.
______. Reflexões sobre o Serviço Social e o projeto ético-político profissional. Palestra promovida pelo Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa/ PR em 10/11/2005. Transcrição de Jussara Ayres Bourguignon, em março de 2006.
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TÜRCK, Mª da Graça M. Processo de trabalho do assistente social. Elaboração de documentação: implementação e aplicabilidade. Porto Alegre:
Coordenação e Revisão Pedagógica: Claudiane Ramos Furtado
Design Instrucional: Luiz Specht
Diagramação: Marcelo Ferreira
Ilustrações: Marcelo Germano e Luiz Specht
Revisão ortográfica: Ane Arduim