A capacidade de identificar concepções, temas, campos e períodos históricos da Filosofia;
A capacidade de reconhecer e/ou caracterizar as principais correntes filosóficas que influenciaram o Serviço Social;
A capacidade de compreender a influência dessas correntes nas formulações teórico-metodológicas e nas práticas interventivas no Serviço Social;
A capacidade de evidenciar postura reflexiva e crítica diante dos fenômenos e acontecimentos cotidianos à luz dos conceitos filosóficos;
COMPETÊNCIA DCN: I. compreensão do significado social da profissão e de seu desenvolvimento sócio-histórico, nos cenários internacional e nacional, desvelando as possibilidades de ação contidas na realidade;
COMPETÊNCIA ENADE: XI. Articular o saber acadêmico ao exercício profissional para contribuir com a mobilização de sujeitos individuais e coletivos na perspectiva da emancipação humana.
Muitos materiais produzidos referem o Materialismo Dialético como referencial e o Materialista Histórico como método para a compreensão da estrutura, das relações, dos sujeitos e dos acontecimentos. Contudo, são poucos os textos que, realmente, são resultado de uma análise materialista histórica. A maioria dessas produções se limita a informar que totalidade, historicidade e contradição são suas categorias de análise. Aqui, veremos que um processo de análise materialista histórica requer que se atenda a quatro exigências básicas, a três cuidados fundamentais e operacionalize seis categorias de análise.
Para compreender essa estrutura e os indivíduos, os fenômenos e objetos que a compõem, o Materialismo Histórico faz algumas exigências:
Objetividade da análise. A prioridade é o estudo da essência objetiva do fenômeno. Para isso, estuda-se todas as conexões, elementos e aspectos que o compõem. A análise materialista histórica deve mostrar um quadro objetivo das tendências de desenvolvimento e das forças que determinam um fenômeno. No exemplo da surra, significa mostrar as forças e as tendências (possibilidades) de desenvolvimento tendo como base a essência, as causas, a forma e a realidade objetivas da surra. A vontade, desejos, esperanças e sentimentos subjetivos serão vistos como produtos, como resultados, como aparência dessa realidade objetiva profunda que determinou a surra. Logo, não entram como elementos que poderiam ser a causa de possíveis desenvolvimentos. Isso significa que, por exemplo, se o pai dissesse: “Sei que a surra não vai se repetir”; essa afirmação teria que ser vista como elemento da aparência. As condições reais dela se realizar (essência), constituirão os argumentos para a análise materialista histórica objetiva mostrar se essa afirmação apresenta-se como uma possibilidade ou não.
Toda a manifestação subjetiva, para o Materialismo Histórico, é produto da realidade material objetiva da sociedade. Logo, a essência e a forma dos fenômenos não podem ser procurados nela.
Análise completa dos elementos e processos que integram os fenômenos. Equivale a clarificar as propriedades, conexões e qualidades de cada elemento e processo. Para visualizar essas propriedades, conexões e qualidades, é necessário descobrir:
O que é individual, particular e geral;
A essência e a aparência, as causas e os efeitos;
O conteúdo e a forma;
A realidade e as possibilidades;
Se é uma necessidade ou se se trata de mera casualidade.
Procurar as causas e os motivos. Essas nunca serão produto exclusivo da vontade pessoal dos indivíduos envolvidos. Logo, ninguém poderá ser responsabilizado individualmente por nada. A causa, que sempre é objetiva e estrutural, indicará a natureza do fenômeno em questão.
Análise historicamente concreta dos fenômenos e processos sociais. Ou seja, considerar o espaço (o lugar), o período e a duração (tempo) do fenômeno. Articular o fenômeno com a história pessoal e a história social dos indivíduos envolvidos.
Além das exigências, é importante sinalizar alguns cuidados fundamentais:
1ª - Consciência metódica que considera as categorias e exigências acima. Logo, vai além da percepção sensível dos fenômenos;
2ª - Trânsito entre o individual e o geral e vice-versa para compreender a unidade dialética do fenômeno. Sem esse trânsito, é impossível identificar a interação dialética entre a estrutura, superestrutura e o cotidiano dos sujeitos históricos;
3ª - Análise da totalidade e de suas partes. Essa análise compreende tanto o movimento diacrônico (através do tempo, da história) quanto o sincrônico (interação dos elementos num determinado momento histórico).
Abordarei as categorias, exigências e cuidados, porque a intenção não é me limitar à compreensão teórico filosófica do Materialismo Histórico, mas articular conhecimentos que possibilitem transformar o mundo, como queria Marx. E, para que essa transformação se torne possível, preciso, além de compreender a visão Materialista Dialética de mundo e a compreensão Materialista Histórica da sociedade capitalista, necessito “instrumentalizar-me” para intervir nessa realidade. Para isso, preciso descobrir categorias, exigências e cuidados importantes para uma intervenção baseada nesse materialismo. Richardson apresenta-os de forma clara e didática. Logo, será minha principal referência nesta aula (RICHARDSON, 1999. 334p.).
Categorias articulam os conceitos básicos que refletem os aspectos essenciais e as relações dos objetos e fenômenos. No Materialismo Histórico, as categorias têm duas funções básicas: interpretar o real e indicar uma estratégia política. Nesse sentido, são instrumentos metodológicos para analisar os fenômenos da natureza e da sociedade. Não é necessário usar todas elas, pois todas estão relacionadas entre si. Cada categoria sinaliza particularidades e peculiaridades de diferentes aspectos. Logo, o importante não é usar todas, mas “ir a fundo” em cada uma delas. Pode-se compreender um fenômeno com apenas uma categoria, e claro que não abrangerá todos os aspectos.
Individual – particular – geral. Nada na sociedade ou na natureza é igual. Igualmente, não há nenhum objeto ou fenômeno que não tenha traços em comum com outros. Por exemplo, todas as folhas de plantas são diferentes, mas todas têm traços em comum. Assim, o individual e o geral estão ligados. Um não existe sem o outro. Essa categoria contribui na compreensão da natureza, do mundo e da sociedade como uma unidade.
Exemplificando:
Em termos sociais, essa categoria possibilita verificar a abrangência, a interconexão essencial de cada fenômeno e objeto.
Causa – motivo – efeito. Literalmente, causa é aquilo que produz um fenômeno. Efeito é o resultado da ação da causa, ou seja, o fenômeno produzido. Exemplo: no capitalismo, a apropriação privada dos meios de produção é a principal causa da exploração do assalariado e do desemprego. Causa não pode ser confundida com motivos. Esses são impulsos imediatamente anteriores aos efeitos. São impulsos que precipitam o efeito, mas não são sua causa. Exemplo: os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 foram os motivos para a invasão do Afeganistão, contudo as causas estão ligadas ao monopólio do petróleo.
A causalidade sempre é objetiva, inerente à realidade e revelada ao ser humano pela prática ou pelo conhecimento. A descoberta da causa é necessária para a clarificação da natureza de um fenômeno. Por exemplo, um pai ou uma mãe espanca um filho (fenômeno), o que gera dor, sofrimento, angústia, ódio, internação hospitalar, ausência nos estudos (efeitos). A violência aconteceu porque o filho não diminuiu o volume do videogame quando um dos pais fez um pedido nesse sentido, pois queria assistir ao noticiário.
Verificando a existência de outros motivos, percebeu-se que o filho deixará de ir à aula naquele dia e vinha apresentando baixo rendimento. Além disso, havia queixas da mãe de que o filho não obedecia mais. À primeira vista, a natureza dessa violência é doméstica e física. No entanto, sua natureza será indicada pela causa que ainda precisa ser descoberta. Para o Materialismo Histórico, a causa sempre está na estrutura objetiva, na matéria, portanto, não aparente. Nesse caso, para descobri-la precisou-se verificar qual é a estrutura familiar, cultural, econômica e política que esta família integra. Percebeu-se que se trata de uma família de operários. O pai e a mãe realizam um trabalho extremamente repetitivo durante o ano todo. O que ganham não dá para pagar todas as contas. Assim, além de biscates aos finais de semana, costumam “vender” as férias para cobrir o custo de vida. Isso faz com que não consigam “sair” aos finais de semana, nem viajar nas férias. Além do mais, suas férias coincidem com as férias escolares e, como moram em conjunto habitacional sem espaços privativos, o “barulho” das crianças inviabiliza descansos ou momentos pessoais. Em termos de trajetória familiar, verificou-se que tanto o pai quanto a mãe são oriundos de famílias rígidas que tinham a surra como recurso “normal” no processo educativo.
A partir desses dados estruturais, pode-se perceber que a natureza da violência é econômica-cultural. Ela expressa-se sob a forma de violência física doméstica.
Necessidade – casualidade. Essa categoria possibilita verificar se o acontecido (o fenômeno) foi mera casualidade ou se, dentro das circunstâncias, era o que “tinha que acontecer”. Necessidade é o que deve acontecer em determinadas condições. Isto é, seria quase que uma “anormalidade” não acontecer o que aconteceu. Voltando ao exemplo da violência contra o filho, naquelas circunstâncias, “era necessário” acontecer aquela violência. Declarar sua necessidade não significa concordar com ela ou justificá-la, mas reconhecê-la como produto daquelas condições. Possivelmente, se esses pais vivessem em contexto e condições menos violentas e opressoras, essa violência não teria acontecido. Tal percepção evita a culpabilização moral do indivíduo que praticou a violência, pois entende que a violência ou a não violência não dependem apenas da vontade pessoal. Percebe-se a violência como produto de um processo histórico-material. Nesse caso, a violência é vista como necessidade porque a materialidade contextual reúne todas as condições necessárias para a erupção de processos violentos.
Em tal contexto, não haver violência nas relações pessoais familiares seria uma casualidade. Casualidade expressa os fenômenos que acontecem quando o contexto histórico material reúne todas as condições para que o contrário do ocorrido aconteça. Voltando ao exemplo anterior, no contexto da violência familiar, cultural, econômica e habitacional, seria uma casualidade não haver violência doméstica.
Essência – aparência. A essência está oculta sob a superfície das aparências, é a parte mais profunda da realidade objetiva. Seus elementos compõem a estrutura social, cultural, econômica e política da realidade.
A aparência é uma manifestação da essência, é a parte superficial e mutável do fenômeno. Aparência é aquilo que é possível perceber e refletir sem os elementos estruturais.
No exemplo acima, na superfície, a aparência é violência física. Contudo, essa é uma forma mutável de se manifestar uma violência social, econômica e cultural estruturais (essência) que “não possibilitam” formas de interação não violentas. Ou seja, a essência é a causa da aparência.
Conteúdo – forma. O conteúdo é o conjunto de interações, mudanças, características e elementos que compõem a essência e a aparência do fenômeno. No exemplo da violência doméstica, o conteúdo compreende a violência familiar que os pais sofreram, a exploração deles no trabalho, o trabalho repetitivo e degradante, o salário baixo, a habitação sem privacidade, a surra, a não obediência do filho.
A forma é o sistema relativamente estável de relações entre os elementos que compõem um objeto ou fenômeno. Em outras palavras, compreende o conjunto de interconexões dos diferentes elementos entre si e com totalidade social, econômica, política e cultural. A forma diz respeito a como os elementos se ligam para produzir o fenômeno em questão. Por exemplo, eu posso ter um amontoado de peças, mas dependendo da forma como as disponho, elas podem tornar-se um automóvel.
Vê-se, assim, que para o Materialismo Histórico, um paradigma que por excelência procura clarificar as relações entre os elementos e os fenômenos, a forma é mais importante que o conteúdo em si. O sentido de um fenômeno não está no conteúdo em si, mas na sua forma. No exemplo, a forma compreende a explicação das conexões entre os elementos da essência e da aparência. É essa forma que explicitará o sentido/significado dessa violência.
Possibilidade – realidade. A realidade é aquilo que já aconteceu. É o que já se materializou. No exemplo, compreende tudo o que já aconteceu e que tem conexões com o fenômeno em questão, a surra.
A possibilidade é aquilo que ainda não aconteceu, mas que poderá acontecer, considerando o conjunto de condições que compõem a realidade. Isso significa que só posso visualizar uma possibilidade se, na realidade, encontro elementos e inter-relações que poderão compôr a causa dessa possibilidade. No exemplo, poderíamos dizer que existe a possibilidade de a surra não se repetir se, a partir daquela realidade familiar, pudéssemos indicar elementos e inter-relações que tornariam isso uma realidade.
ANDERSON, Perry. Considerações sobre o marxismo ocidental nas trilhas do materialismo histórico. São Paulo: Boitempo, 2004, 239p.
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 2002.
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 13.ed. 6a. reimp. São Paulo: Ática, 2006.
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia – história e grandes temas. 16.ed. São Paulo: Saraiva, 2006.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 6.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
RICHARDSON, Roberto Jarry. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3.ed. São Paulo: Atlas, 1999. 334p.
Coordenação e Revisão Pedagógica: Claudiane Ramos Furtado
Design Instrucional: Gabriela Rossa
Diagramação: Marcelo Ferreira
Ilustrações: Rogério Lopes
Revisão ortográfica: Ane Arduim