Em um ano simbólico para a comemoração da longeva relação acadêmica entre França e Brasil, o I Seminário de Cooperação Internacional em Arqueologia: França-Brasil no Nordeste reuniu e destacou pesquisas, pesquisadoras e pesquisadores que, ao longo dos últimos 60 anos, contribuíram para a ciência arqueológica, realizando pesquisas no Brasil, diretamente ligadas à parceria com o governo francês e sua embaixada no Brasil. O seminário trouxe em seu escopo os resultados das pesquisas realizadas a partir de financiamentos bilaterais e de intercâmbios de pesquisadores, assim como o planejamento sobre a parceria Brasil-França na Arqueologia para os próximos anos.
Nos dias 4 e 5 de dezembro de 2025, o evento foi integralmente gravado e está disponível no YouTube, conforme os links de cada momento individual.
Abertura
00:00:00 Introdução
00:03:45 Elsa Sobral Noura (Consulado Geral da França no Recife)
00:09:13 Edna Maria Goulart Joazeiro (Assessora Internacional, Universidade Federal do Piauí)
00:12:51 Edmilson Miranda (Vice-Reitor, Universidade Federal do Piauí)
00:16:12 Ângelo Alves Corrêa (Coordenador do Curso de Arqueologia, Universidade Federal do Piauí)
00:19:36 Grégoire van Havre (Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia, Universidade Federal do Piauí)
Arqueologias Brasil/França: 80 anos de entrelaçamentos institucionais e pessoais
Prof. Dr. Antoine Lourdeau (Museum d'Histoire Naturelle, Paris)
Entre percursos pessoais e dinâmicas institucionais, a arqueologia foi e continua sendo um campo de pesquisa privilegiado para tecer e desenvolver vínculos acadêmicos entre Brasil e França. Essa fala abordará os diferentes aspectos da gênese e do histórico desses ricos intercâmbios, que se tornaram particularmente profícuos no âmbito das chamadas “Missões franco-brasileiras”. Foram notáveis as contribuições desses programas de pesquisa para grandes problemáticas arqueológicas e as configurações acadêmicas atuais. Partindo dessa herança e da experiência própria do palestrante, nos debruçaremos sobre os desafios futuros desses programas e o surgimento de outras formas de cooperação.
Mesa Redonda: Políticas e ações de cooperação internacional em arqueologia
Arqueologia na Antártica: Potenciais e Desafios de Pesquisar um Território Internacional
00:00:00 Apresentação
00:02:05 Andrés Zarankin (Universidade Federal de Minas Gerais)
00:23:00 Fernanda Codevilla Soares (Universidade Federal do Piauí)
00:44:50 Ana Karolina de Amorim Santos (Universidade Federal do Piauí)
00:56:10 Perguntas
Mesa Redonda: Intercâmbios discentes a França
00:00:00 Apresentação
00:03:25 Claudia Minervina Souza Cunha (Universidade Federal do Piauí)
00:27:30 Marcos Paulo Ramos de Melo (Pontíficia Universidade Católia - Goiás)
00:48:15 Maria Iara da Silva Mourão (Universidade de São Paulo)
01:05:40 Jade Paiva Lima (Universidade Federal de Pernambuco)
01:38:25 Marcos Cesar Pereira Santos (Universidade Federal do Oeste do Pará)
Sessão: Experiências de cooperação internacional em arqueologia
Parte I
00:00:00 Apresentação
00:03:25 Anne Passos (Universidade Federal de Pernambuco)
00:18:40 João Vinícius Back (Universidade do Minho)
00:38:18 Amanda Almeida Cardoso (Universidade Federal do Maranhão)
00:54:21 Christine Hatté (Université Paris-Sarclay)
01:03:54 Amanda Viveiros (Universidade de São Paulo)
01:19:01 Eduardo Herrera Malatesta (Leiden Universiteit)
01:32:54 Maria Conceição Soares Meneses Lage (Universidade Federal do Piauí)
Parte II
00:00:00 Apresentação
00:01:03 Isaac Melo (Universidade Federal de Pernambuco)
00:20:45 Isabelle Barreto & Alexya Vitória dos Santos (Universidade Estadual da Bahia)
00:27:50 Jôuldes Matos Duarte (Universidade Federal de Pernambuco)
00:37:05 Juliana Betarello (Universidade Federal de Sergipe)
00:52:15 Tiago Tomé (Universidade Federal de Minas Gerais)
01:08:00 Lucas Bonald (Universidade Estadual do Amazonas)
01:24:45 Yan Ferreira Dias (Universidade Federal do Piauí)
01:37:50 Juliana Machado (Universidade Federal do Vale do São Francisco)
01:58:44 Ana Luzia Pinheiro de Freitas (Universidade Federal do Piauí)
02:12:40 Phil Riris (Bournemouth University)
A colaboração franco-brasileira em arqueologia teve início há mais de meio século. Ela acompanhou naturalmente as transformações próprias de cada um dos dois países, em função de suas prioridades científicas, de suas políticas culturais e de seus compromissos com a proteção do patrimônio, tanto nacional quanto internacional. A França ocupa, nesse sentido, uma posição singular — por vezes até única — no cenário mundial: a de um país que concebe a cooperação científica em arqueologia e no campo patrimonial como um trabalho conjunto, baseado na co-construção e na responsabilidade compartilhada. Ao longo de meio século, as formas dessa relação evoluíram. O que antes se caracterizava como uma cooperação — frequentemente estruturada em torno de assistências técnicas — transformou-se em uma verdadeira colaboração, fundada na reciprocidade e na complementaridade das competências. As sucessivas missões tiveram, em sua maioria, um papel de formação e de transmissão dentro de seus respectivos campos disciplinares, contribuindo assim para estabelecer um diálogo científico duradouro. Cada responsável de missão é reconhecido como especialista em sua área, e sua presença em campo se insere em uma lógica de compartilhamento de saberes e de co-desenvolvimento da pesquisa. Hoje, a dinâmica vai ainda mais longe: a colaboração tende a se estruturar em torno de programas de pesquisa comuns, integrando plenamente as equipes dos dois países em uma mesma abordagem científica. Mas, para que essa ambição possa se concretizar, é necessário que a França disponha dos meios adequados e duradouros. Os países parceiros nos acolhem com entusiasmo; cabe agora à França dotar-se dos meios para corresponder a esse entusiasmo, à altura de sua tradição e de seus compromissos internacionais.
Este relato aborda experiências arqueológicas internacionais vivenciadas em três países: Peru, Irlanda e Alemanha. A primeira foi um estágio no Peru (abril a junho de 2018), no Santuário Arqueológico de Pachacamac, em Lima. Essa foi minha primeira experiência prática de escavação fora da universidade. Ali escavamos em diversos pontos e a quantidade e diversidade do material encontrado foram marcantes. Encontramos cerâmicas de diversos tamanhos, agulhas, ossos, conchas, miçangas e restos de animais bem preservados pelo deserto. Em seguida, na Irlanda (junho a julho de 2018), participei de um campo-escola do IRF (Institute for Field Research) na Ilha Spike. O local, que já abrigou um monastério, é hoje dominado pelo Fort Mitchel, um forte militar e antiga prisão. A escavação focou nas celas e no cemitério externo, proporcionando prática em bioarqueologia de campo e laboratório. No cemitério, foram encontrados esqueletos que haviam passado por autópsia, um indivíduo que morreu devido a uma explosão e outro com vestígios de tuberculose. Além do desafio físico da escavação, que exigia trabalho com picaretas, o programa também exigia um pequeno estudo sobre um documento histórico. Escolhi analisar a dieta dos prisioneiros, o que representou o desafio adicional de redigir a pesquisa em inglês. Por fim, na Alemanha (setembro de 2020 a fevereiro de 2021), trabalhei por seis meses para o Escritório Estadual de Arqueologia de Sachsen-Anhalt, em Halle. Acompanhei uma escavação completa em um sítio com diversos contextos históricos, incluindo registros de igreja, tavernas e um prédio barroco. Minha função principal era desenhar as camadas estratigráficas e documentar as feições arqueológicas. Os maiores desafios foram realizar a documentação técnica em alemão e lidar com o frio, que dificultava a escrita e o desenho.
Em 2018, realizei minha primeira experiência internacional de formação, por meio de um estágio de dois meses no Santuário Arqueológico de Pachacámac, em Lima, Peru. A oportunidade marcou o início de um aprendizado prático em um contexto arqueológico distinto, tanto pelas especificidades ambientais quanto pelas metodologias empregadas. Durante o estágio, participei de atividades de escavação, pesquisa e apoio museológico, em contato direto com profissionais e estudantes de diferentes origens. A imersão em outro idioma, nas rotinas de campo e nas dinâmicas institucionais do museu contribuiu para ampliar minha compreensão sobre as múltiplas formas de fazer arqueologia e sobre os desafios de preservação e comunicação do patrimônio em outro contexto. Essa experiência foi muito importante para minha formação, mas também me forneceu experiências pessoais que carrego na minha memória com bastante carinho como: a comunicação em outro idioma com pessoas diferentes, lidar com dinheiro em outro país, experimentar das diferentes comidas e bebidas, expressões culturais, lugares e músicas diversas, um universo cultural que antes me era estranho.
A experiência de residência acadêmica nos Países Baixos (Leiden University), ao longo de um ano e dois meses, foi resultado de uma bolsa de doutorado concedida pelo governo brasileiro (CAPES/Print-PDSE), vinculada ao desenvolvimento da tese "Etnoarchaeogaming: o desenvolvimento e a aplicação de jogos que conectam Arqueologia, Patrimônio e Almas", defendida no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Este resumo, contudo, propõe-se a discutir não o produto final da pesquisa, mas as vivências formativas e os desafios que compuseram esse percurso internacional. A obtenção da bolsa exigiu atravessar uma extensa burocracia, evidenciando os entraves que ainda permeiam a internacionalização da pesquisa brasileira. Já na Europa, o primeiro grande obstáculo foi a crise de moradia que afeta diversos países do continente, o que demandou resiliência e adaptação. Paralelamente, a defasagem do valor da bolsa, sem reajuste há mais de uma década, impôs uma rigorosa gestão financeira. Contudo, esses desafios foram amplamente compensados por um ambiente acadêmico inspirador. A estrutura universitária da Universidade de Leiden revelou-se exemplar: prédios modernos, tecnologia de ponta em laboratórios e salas de aula, processos administrativos ágeis e funcionais, e uma rotina de intensa vida intelectual, com palestras, seminários e workshops semanais abertos à comunidade acadêmica. A convivência multicultural e o contato direto com pesquisadores internacionais ampliaram horizontes epistemológicos e fortaleceram a construção de um olhar crítico de pesquisa acadêmica. O acompanhamento de um orientador altamente qualificado e acolhedor consolidou uma parceria produtiva e enriquecedora. Assim, a vivência acadêmica nos Países Baixos constituiu uma experiência exemplar de superação e aprendizado, destacando o papel fundamental da cooperação científica internacional na formação de pesquisadores e na consolidação de uma ciência global e colaborativa.
Nesse trabalho apresento as experiências vivenciadas durante a campanha de escavação da Villa Romana da Casa da Medusa e da Necrópole Tardo-Antiga da Quinta da Cerca, dois sítios arqueológicos situados no Concelho de Alter do Chão, antiga Abelterium, na região do Alentejo, em Portugal. Abelterium era o nome da antiga cidade romana localizada a poucos metros da Via XIV, que conectava Olisipo (Lisboa) a Mérida (capital da Lusitânia). Ambos os sítios integram o conjunto da Estação Arqueológica de Alter do Chão Ferragial d’El-Rei. A Villa Romana foi identificada em 1954, durante as obras de desaterro de um campo de futebol, ocasião em que foram reveladas as primeiras estruturas de uma habitação romana, incluindo compartimentos residenciais, instalações termais e uma necrópole associada. Já a Necrópole Tardo-Antiga da Quinta da Cerca foi descoberta mais recentemente, durante as obras de construção de blocos habitacionais, localizando-se a uma distância maior em relação à Villa Romana. O elemento mais notável desses sítios arqueológicos é o mosaico figurativo descoberto em 2007, considerado único na Península Ibérica. A composição representa Alexandre, o Grande, na Batalha de Hidaspes, episódio emblemático de sua campanha militar na Índia. Entre as figuras que compõem a cena, destaca-se o escudo circular empunhado por Alexandre na mão esquerda, decorado com a imagem da Górgona Medusa. A campanha de escavação da qual participei foi realizada durante parte do mês de julho de 2018, integrando uma equipe internacional de pesquisa. Embora se trate de um contexto arqueológico distinto dos que encontramos no Brasil, essa experiência teve grande relevância na minha formação acadêmica e profissional, pois marcou a primeira oportunidade de atuação direta em um contexto funerário, área que, posteriormente, viria a se consolidar como meu principal campo de investigação científica durante a graduação e o mestrado.
O presente trabalho versa sobre a experiência de pesquisa e vivência durante o Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE), fomentado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A pesquisa de doutorado em curso, intitulada Tecnologia lítica na bacia do São Francisco: uma análise das indústrias líticas a céu aberto a partir de uma perspectiva regional, explora a temática dos sítios líticos identificados em superfície na região Nordeste do Brasil. Ao propor um estudo que aborde essa temática, é indiscutível que o aporte teórico e metodológico empregado nas investigações sobre as indústrias líticas no Brasil é amplamente embasado nas contribuições de renomados pesquisadores franceses. Nesse contexto, a pesquisa em desenvolvimento está sendo realizada em colaboração com o Musée de l’Homme, em Paris, durante o período do doutorado sanduíche. A escolha da instituição justifica-se pelo fato de que o Muséum National d’Histoire Naturelle (MNHN) se destaca como um centro de referência internacionalmente reconhecido nos estudos sobre pré-história, especialmente na área de tecnologia lítica, que constitui o foco principal da pesquisa descrita neste plano de trabalho. A instituição possui uma tradição na formação de pesquisadores e na realização de investigações científicas na área da pré-história, sendo amplamente reconhecida como uma instituição de excelência no campo. O estudo teórico-metodológico em desenvolvimento, que combina a análise de coleções de referência mantidas pela instituição, tem sido fundamental para aprofundar o entendimento sobre as produções culturais de populações de diversas regiões do mundo, ampliando o conhecimento sobre as evoluções tecnológicas. A experiência tem contribuído substancialmente para o avanço da pesquisa de doutoramento em curso, bem como para a formação pessoal e acadêmica da pesquisadora.
Cette communication explore les dynamiques de coopération franco-brésilienne à l’interface entre sciences archéologiques et sciences de la Terre. À travers le projet ANR SESAME, qui articule archives paléoclimatiques, paléoenvironnementales et données archéologiques, se dessinent de nouvelles approches interdisciplinaires pour comprendre les interactions sociétés-milieux. La création récente de l’IRP SARAVA et la mission océanographique AMARYLLIS-AMAGAS enrichissent encore ce cadre en apportant des données clés sur la variabilité climatique et les processus environnementaux du bassin amazonien et du Sud-Atlantique. L’ensemble met en évidence comment ces collaborations renforcent l’articulation entre géosciences, histoire environnementale et archéologie.
Mi trayectoria en arqueología está marcada por la búsqueda de un equilibrio entre pertenencia y desarraigo. Formado en Venezuela, llegué a Europa para cursar un doctorado en un proyecto internacional que, si bien fue enriquecedor, me llevó a trabajar en contextos muy alejados de mi región. Esta experiencia reveló una tensión constante entre los temas que considero esenciales para la arqueología latinoamericana y las agendas científicas dominantes en Europa. A lo largo de los años, para desenvolverme en el ámbito académico europeo, he buscado integrar metodologías innovadoras y relevantes para este contexto, como la cuantificación de la incertidumbre en los datos arqueológicos, un tema central de mi proyecto Marie Skłodowska-Curie. Sin embargo, el deseo de reconectar con la arqueología venezolana y los debates que dan forma al continente permaneció latente. La reciente concesión de una beca Alexander von Humboldt representa finalmente la posibilidad de retomar esta conexión y contribuir a un diálogo más equilibrado entre Europa y Latinoamérica. En esta presentación, propongo una reflexión personal sobre los retos y las oportunidades de la cooperación internacional en arqueología, basada en mi propia experiencia como investigador latinoamericano expatriado. Sostengo que, mientras no existan plataformas estables para la enseñanza y la investigación, como centros de arqueología latinoamericana en universidades europeas, será difícil practicar, desde Europa, una arqueología verdaderamente comprometida con las realidades y las voces de nuestro continente.
O presente trabalho pretende apresentar a experiência vivenciada durante a realização de um Estágio de Doutorado Sanduíche (PDSE/CAPES) no Centro de Humanidades (CHAM) da Universidade Nova de Lisboa, Portugal, entre maio e outubro de 2024. A pesquisa tese desenvolvida voltada a Arqueologia da Paisagem dos engenhos de açúcar em Igarassu, Pernambuco. O intercâmbio buscou um diálogo com o conhecimento acadêmico português, no âmbito dos estudos sobre o Mundo Atlântico a expansão ibérica e, mais especificamente, da chamada Arqueologia do Açúcar. Parte importante do trabalho foi a oportunidade de pesquisa em arquivos, na busca por documentação cartográfica e manuscrita pertinente para o estudo, efetuada em acervos como a Torre do Tombo e a Sociedade de Geografia de Lisboa. Em termos de prática arqueológica, a experiência proporcionou a participação em escavações em Lourinhã (olaria produtora de formas de pão de açúcar) e um contextos urbanos complexos de Almada. Além disso, houve a possibilidade participação um curso de verão ("Animalia") que impulsionaram reflexões sobre a agência animal nas paisagens coloniais, além de oportunidade de ministrar uma aula para alunos de graduação da universidade anfitriã, apresentando um pouco sobre a Arqueologia Histórica desenvolvida no Brasil. A pesquisa desenvolvida no doutorado sanduíche permitiu uma aproximação com tradições diferentes em pesquisa arqueológica, trazendo um melhor aprendizado de diferentes metodologias de escavação, além da possibilidade de indicações de bibliografia que não circulam tanto na academia brasileira. Além disso, a possibilidade em pesquisa arquivista, a interação cultural e o contato com diferentes profissionais ajudam no enriquecimento pessoal como pesquisador.
O relato apresenta as experiências das alunas Isabelle Barreto Gimenez Grazeffi e Alexya Vitória dos Santos Silva Sertão, acompanhadas da Dra. Jéssica Rafaella de Oliveira, que possibilitou o estágio em Alter do Chão, Portugal, com foco em atividades de campo e práticas laboratoriais. O projeto foi financiado pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) em parceria com a Prefeitura de Alter do Chão, sob coordenação do arqueólogo Jorge Antônio, responsável por pesquisas no sítio Casa da Medusa. A Villa Romana Abelterium, onde se localiza o sítio, é um dos mais importantes de Portugal. Destaca-se o mosaico de Alexandre, o Grande, que retrata a batalha contra o rei Poro, às margens do rio Hidaspes. A denominação “Casa da Medusa” vem do escudo de Alexandre, que traz a imagem da Górgona como símbolo protetor. As termas e necrópoles do local, datadas da Antiguidade Tardia, são fundamentais para o estudo da ocupação romana no país. As escavações ocorrem durante o verão europeu, reunindo equipes internacionais de arqueólogos, historiadores e antropólogos. O convívio multicultural proporcionou trocas de saberes e ampliou nossa visão sobre diferentes práticas arqueológicas. O acolhimento dos moradores e o contato com a cultura local – culinária, paisagens e tradições equestres – enriqueceram ainda mais a experiência. Nos momentos de lazer, exploramos a vila, seus museus e sua arquitetura, compreendendo o contexto histórico e cultural que envolve a Casa da Medusa. Essa vivência mostrou que a Arqueologia vai além das escavações, envolvendo o diálogo com pessoas, lugares e tradições que dão vida ao patrimônio estudado. A participação como voluntárias foi essencial para nossa formação, permitindo o aprendizado de novas metodologias e a valorização da Arqueologia como ciência global. A experiência em Portugal consolidou nosso crescimento acadêmico e pessoal, reforçando a importância da cooperação internacional para a formação profissional.
Esta comunicação apresenta reflexões críticas sobre contrastes epistemológicos observados em distintas experiências formativas e profissionais relacionadas à arqueologia, a partir de uma pesquisa autoetnográfica desenvolvida por um pesquisador brasileiro de pós-graduação em uma instituição portuguesa. Nesse sentido, são o Mestrado em Arqueologia na Universidade do Minho (UM), a mobilidade como pesquisador visitante no Laboratório HERCULES da Universidade de Évora (UÉvora), a atuação como bolsista da janela portuguesa do projeto Cultur-Monts (Interreg Sudoe/União Europeia, Lab2PT/UM) e a participação em um curso sobre Arqueologia Brasileira organizado pela Universidade de Coimbra (UCoimbra). Complementam a análise as experiências de campo em Braga (escavação) e em Terras de Bouro (prospecção), bem como a trajetória anterior enquanto discente e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A partir desse percurso, propõe-se uma abordagem crítica sobre diferenças significativas – intra e interinstitucionais – relacionadas às práticas arqueológicas, observadas nas experiências em ambos os países lusófonos, incluindo variações epistemológicas em termos de métodos, práxis pedagógicas, tradições teóricas e estruturas de pesquisa, buscando contribuir para o debate contemporâneo sobre a pluralidade da(s) arqueologia(s) lusófona(s).
A experiência de doutorado sanduíche pelo PDSE-CAPES, entre 2022 e 2023, nas universidades de Buffalo (Nova York) e Emory (Atlanta, Geórgia) proporcionou uma imersão em ambientes multiculturais e em modos de produção científica que articulam as Ciências Socias, Biológicas e Tecnológicas. No Laboratório de Biologia Evolutiva do Dr. Gökcumen, em Buffalo, a diversidade de nacionalidades — sobretudo de estudantes indianos, chineses, europeus e latino-americanos — revelou-se um componente formativo essencial: mais do que um espaço de pesquisa, o laboratório funcionava como um mosaico de experiências humanas, epistemológicas e linguísticas. A rotina combinava pesquisa bibliográfica, treinamento em bioinformática, discussões teóricas sobre Genômica Humana e o aprendizado das dinâmicas acadêmicas e da administração pública norte-americanas, como a seleção aberta de professores, o sistema de financiamento por grants e a burocracia estatal. O convívio com o rigoroso inverno de Buffalo, as dificuldades de transporte e a adaptação a um cotidiano diferente também integraram o aprendizado intercultural. Posteriormente, em Atlanta, no Laboratório de DNA Antigo do Dr. Lindo (Emory University), a experiência se ampliou com o contato direto com as técnicas de Biologia Molecular aplicadas ao DNA antigo, e com o diálogo entre abordagens genéticas e históricas sobre doenças infecciosas. Essa vivência reforçou a importância da internacionalização da Arqueologia brasileira não apenas como intercâmbio técnico, mas como um exercício de convivência entre mundos — científicos e culturais — que, ao se tocarem, ampliam o próprio sentido de fazer Arqueologia.
Desde 2006, meus caminhos na Arqueologia foram guiados pelas pedras, assim como pela busca de compreender suas histórias por meio da tecnologia lítica e da chaîne opératoire. No início, o grande desafio era o idioma: a literatura essencialmente estava em francês, e as noites eram dedicadas a decifrar palavras e métodos vindos do outro lado do Atlântico. Assim começou meu primeiro contato com a França, pela palavra, antes mesmo de cruzar o oceano. Com o tempo, sob a orientação de professores Paulo Jobim, Emílio Fogaça, Lucas Bueno e Antoine Lourdeau, aprofundei-me nos métodos analíticos franceses, aplicando-os ao nosso contexto arqueológico brasileiro. Em 2016, no doutorado, surgiu a oportunidade de integrar o projeto Povoamento Inicial da América, financiado pela Capes-Cofecub, que promoveu a cooperação científica entre o Muséum National d’Histoire Naturelle (MNHN) e universidades brasileiras (UFSC, UFMG, UFRGS e UFOPA). A experiência foi rica e desafiadora. Apesar de um preparo linguístico prévio, o cotidiano revelou tensões entre o domínio da língua e o pertencimento. Nas instituições, percebi que a rigidez com o falar corretamente transcendia a gramática, ela por sua vez, marcava fronteiras simbólicas. Ao solicitar acompanhar uma disciplina de um renomado professor, ouvi que eu “não conseguiria acompanhar o conteúdo”, marcando atravessamentos desafiadores da academia europeia. Frequentei cursos no MNHN e na Université Paris Nanterre, analisei materiais líticos no Institut de Paléontologie Humaine (IPH) e apresentei pesquisas em eventos, enfrentando, em cada diálogo, o peso de ser estrangeira, métisse e mulher em um espaço de excelência. Ainda assim, o convívio com colegas de diversas origens e a efervescência cultural de Paris mostraram outras formas de pertencimento e troca. Entre a pedra e a palavra, compreendi que a cooperação científica traz consigo resistência e reinvenção, assim resume o sentido da cooperação Brasil-França, na minha experiencia.
Esta apresentação discute minha trajetória acadêmica construída entre o Brasil e a França e marcada por deslocamentos geográficos, linguísticos e formativos que “façonaram” o meu modo de fazer ciência. Retomo uma contribuição recente ao número especial da revista Brésil(s) Sciences Humaines et Sociales – “Circulações acadêmicas entre a França e o Brasil: relatos de três gerações de brasilianistas” – para o qual fui convidada a narrar meu percurso como pesquisadora brasileira, brasilianista e formada na pós-graduação francesa, com mestrado e doutorado desenvolvidos no antigo laboratório Préhistoire et Technologie (UMR7055) junto à Université Paris Nanterre. Neste período, desenvolvi pesquisas com coleções arqueológicas oriundas de Missões Franco-Brasileiras e fui bolsista de instituições dos dois países – CAPES, Musée du Quai Branly e Maison Française d’Oxford. A partir da experiência de formação na França e da inserção profissional no Brasil, proponho uma leitura pessoal das circulações acadêmicas e de seus efeitos sobre a produção de conhecimento. Mais do que um relato individual, busco problematizar o que se constrói nas margens dessas circulações: as assimetrias linguísticas e institucionais, os modos de reconhecimento e pertencimento nesses dois espaços científicos e as readaptações que se impõem a uma pesquisadora do Sul global como eu, formada na lá e atuante aqui, ao mediar trocas e saberes entre esses dois contextos. Nesse movimento, a reflexão sobre minha própria trajetória perpassa a forma como as políticas de internacionalização, as redes acadêmicas e as condições concretas de trabalho influenciam as escolhas de pesquisa e os modos de inserção científica. Ao narrar minha experiência, proponho pensar as relações França–Brasil não apenas como cooperação, mas como campo de negociações epistemológicas e institucionais. Uma circulação que também é enraizamento; um modo de habitar fronteiras e reinscrever nelas novas formas de presença intelectual.
A minha experiência internacional se deu bem no meio da pandemia de Covid-19, o que me fez enfrentar grandes desafios para chegar ao meu destino, os Países Baixos. O primeiro deles foi conseguir tomar ao menos uma dose da vacina antes de viajar, afinal era ainda o início das campanhas. Tive que unir forças com outros estudantes de Pernambuco, que iam para o sanduíche , para acelerar o processo vacinal. Com toda a documentação resolvida, o outro desafio foi passar por uma quarentena de uma semana ao chegar na Europa; Foi só a partir daí que pude viver uma vida “normal”, com todas àquelas restrições que pandemia demandava, nas ruas de Amsterdam. Nesse meio tempo novas variantes do vírus surgiram, exigindo medidas de Lockdown do governo dos Países Baixos e essas políticas vão durar até quase meu retorno ao Brasil. Durante o tempo em que lá estive, apesar dos percalços, pude participar de alguns eventos científicos, como Archon Day e o Brazil Research Day, este último inclusive me rendeu uma premiação como o 2º melhor trabalho apresentado. Além disto, a estada na Europa me possibilitou ministrar a disciplina de Arqueologia Digital, para os alunos do Curso de Bacharelado da Universidade de Amsterdam, junto ao Professor Verhagen. O período no exterior ainda me deu a oportunidade de acompanhar uma escavação no âmbito da Arqueologia de Contrato, na cidade de Eindhoven, o que me fez entender um pouco da dinâmica da prática arqueológica neerlandesa.
Trata-se da apresentação de uma experiência de realização de uma tese de doutorado junto à Université de Paris I, Panthéon – Sorbonne, desenvolvida por uma pesquisadora piauiense de 29 anos, mãe de três crianças de 2, 4 e 5 anos. O tema da tese foi pioneiro para pesquisas em arte rupestre da época, pois objetivou realizar análises químico-mineralógicas dos pigmentos rupestres de cada uma das tradições rupestres dos sítios arqueológicos da Serra da Capivara. A apresentação trará os pontos positivos e os negativos enfrentados pela doutoranda.
This talk will offer some personal reflections on my collaborations both past and present between myself and Brazilian scholars, as well as future prospects and key areas where developing partnerships could be beneficial. Increased mobility, exchange, and open research will very likely be central to achieving and continuing cooperation.
À primeira vista, a atuação de um profissional de arqueologia português em contexto brasileiro pode parecer algo simples. Uma língua compartilhada, fruto de uma história colonial que também originou algumas semelhanças culturais entre os dois países, sugere uma maior familiaridade. Porém, existem mais camadas nessa interação, nem sempre evidentes. Uma língua em comum não significa um vocabulário igual. A construção da arqueologia em cada país revela igualmente especificidades nem sempre evidentes. Um passado compartilhado implica na exposição a leituras que contradizem com frequência a visão predominante em meu país de origem. Enfim, trabalhar com realidades históricas nesse contexto nos expõe a questionamentos sobre os processos históricos em que nosso país de origem foi parte determinante.
Realizar estágio em Coimbra, Portugal, representou uma experiência profundamente enriquecedora, tanto no âmbito profissional quanto pessoal. Vivenciar o cotidiano em outro país de língua portuguesa foi, ao mesmo tempo, familiar e desafiador. Apesar da semelhança do idioma, diferenças de sotaque, vocabulário e expressões exigiram adaptação e proporcionaram um aprendizado intercultural valioso. O estágio obrigatório do Curso de Arqueologia da Universidade Federal do Piauí ocorreu entre abril e maio de 2019, na Universidade de Coimbra, no Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), sob supervisão da Professora Cláudia Cunha, no Brasil, e da Professora Ana Maria Silva, em Portugal. Teve como principal objetivo aprimorar a identificação de ossos humanos em contexto arqueológico. As atividades foram divididas entre workshops, aulas teóricas, educação patrimonial, atividades de campo e práticas laboratoriais. Foram abordados temas como legislação e história da Antropologia Funerária, Tafonomia e tratamento de dados de enterramentos. A vivência em laboratório foi especialmente significativa, permitindo contato direto com esqueletos de diferentes estados de conservação, ampliando o aprendizado sobre morfologia, diagnose sexual e estimativa de idade à morte. A convivência com professores e colegas portugueses favoreceu a troca de conhecimentos e o amadurecimento acadêmico, além de evidenciar o reconhecimento e a seriedade com que a pesquisa científica é tratada em Portugal. Nos momentos livres, foi possível explorar a cidade de Coimbra, seus espaços históricos e sua atmosfera universitária, o que tornou a experiência ainda mais memorável. Que outros estudantes possam vivenciar oportunidades semelhantes e que futuras parcerias entre o CIAS e a Arqueologia/UFPI se fortaleçam.
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