Neste espaço você encontrará textos que versam sobre histórias das cidades, de seus espaços e sujeitos, sobre patrimônios culturais materiais e imateriais, produzidos por participantes do projeto. São artigos, materiais didáticos, planos de aula, poesias, etc.
Índice
Por Edmilson Batista Santana
Publicado em 13/06/2024
O espaço é produto e também é produtor,
De relações que se entrelaçam em direções desiguais.
Uns conseguem “mais espaço”, outros sequer espaço têm,
E o direito à cidade exige privilégios para aqueles a quem convém.
É a relação entre o morar; o viver e o consumir,
Uma “pluralidade de espaços”, no jogo do existir.
São relações assim, que faz da cidade uma “obra”
Da negação do espaço, a espaços que se (des)encontram.
A vida na cidade é realmente um “espetáculo”
Uns vivem, outros apenas moram,
Uns comem, outros só olham.
O heterogêneo presente, nas relações sociais,
De uma cidade tão distinta, nas fronteiras relacionais.
Os espaços descontínuos hoje definem a cidade,
São espaços que (des)encaixam, muitas vezes até se abraçam.
A “obra” (cidade) simplesmente acontece, como numa peça teatral.
Cada qual no seu lugar, e mesmo com “ensaio”,
Segue a lógica do desigual!
Por Dulceli de Lourdes Tonet Estacheski
Publicado em: 13/06/2024
Ao pesquisar as escritas de histórias sobre Nova Andradina me deparei com uma lacuna significativa em relação às histórias das mulheres. Infelizmente, era comum que as histórias das cidades fossem escritas a partir de uma lógica que privilegiava alguns homens que atuaram na colonização e na estruturação política das cidades e com isso, muitas pessoas ficavam de fora de tais narrativas.
Com o objetivo de romper com um silenciamento em relação às mulheres na história de Nova Andradina, apresento aqui algumas produções escritas sobre elas em trabalhos de conclusão do curso de História da UFMS/CPNA e destaco a história de uma mulher, Laurecy Correia Tomazinho, que contribuiu com a escrita da história da cidade produzindo, em parceria com Zenilde Osti de Oliveira, um livro didático sobre o tema.
O primeiro TCC - Trabalho de conclusão de curso - que teve como tema a história das mulheres foi apresentado em 2010, escrito por Auristela Maria Antonio sobre a participação política feminina em Nova Andradina. No ano seguinte, 2011, dois trabalhos foram apresentados, o de Fernanda de Carvalho Souza sobre violência doméstica e o de Vanessa Silva da Paixão, sobre a prostituição feminina e a prevenção das DST/AIDS. Cabe ressaltar que estes foram os trabalhos localizados na biblioteca do campus. Depois disso, houve um considerável espaço de tempo em que as pesquisas de estudantes do curso tomaram outros rumos, deixando a história das mulheres na cidade em silêncio.
No ano de 2022 surgiram novos trabalhos, como o de Carla de Melo Marcelo que escreveu sobre o movimento feminista na cidade, destacando as ações da Alameda Cultural. Em 2023 foram defendidos os TCCs de Lilian Daiane Both sobre vozes femininas na rádio, com destaque para a trajetória da locutora Leka; de Priscila Aponucena Lima que escreveu sobre jovens mulheres provenientes de assentamentos rurais da região que ingressaram na UFMS/CPNA e de Maithê Calegari Alexandre que analisou a produção científica do curso de História da UFMS/CPNA em relação à história das mulheres na cidade até o período de 2021.
A produção escrita sobre as histórias de mulheres de Nova Andradina tem aumentado e há outras pesquisas em andamento, seja em trabalhos de conclusão do curso de História, seja em pesquisas em desenvolvimento para a produção de um livro sobre o tema que será publicado pelo nosso projeto ‘Memórias e histórias de mulheres: o acervo do Museu Antônio Joaquim de Moura Andrade’ que recebe recursos da Chamada Fundect Nº 10/2022 Mulheres na Ciência Sul-Mato-grossense.
Valorizar a escrita sobre as mulheres é fundamental, tanto quanto valorizar a escrita desenvolvida por elas. Laurecy Correia Tomazinho e Zenilde Osti de Oliveira, por exemplo, escreveram o livro ‘O município de Nova Andradina’ publicado em 1985 pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura. O livro era destinado a estudantes da 3ª série do então, primeiro grau, hoje denominado de ensino fundamental.
Dona Laurecy, aposentada no cargo de Supervisora Escolar, nasceu em Santos/SP e mudou-se para Nova Andradina com sua família em 1979. Ao ser entrevistada por integrantes do já mencionado projeto ‘Memórias e Histórias de Mulheres’, nos contou que, em parceria com a senhora Zenilde, decidiu pesquisar em documentos, órgãos públicos e por meio de entrevistas, a história da cidade para então escreverem o livro didático. Para ela a experiência de escrita foi significativa, com percalços, com poucos recursos, utilizando uma máquina de escrever e um mimeógrafo, pois como afirmou: “ainda não havia computadores, os rascunhos eram manuscritos e em seguida eram datilografados, a maioria das ilustrações do livro foram desenhadas pela Professora Zenilde”.
O trabalho dessas mulheres na pesquisa e na escrita foi fundamental para um ensino da história da cidade, configurando-se em uma importante contribuição para o trabalho de professores e professoras das escolas públicas.
Laurecy e Zenilde; Auristela, Fernanda e Vanessa; Carla, Lilian, Priscila e Maithê, assim como tantas outras, são mulheres que fazem e escrevem as histórias de Nova Andradina. Suas trajetórias e suas escritas precisam ser conhecidas e valorizadas.
Capa do livro didático
Fonte: Acervo do Museu Histórico e Cultural Antônio Joaquim de Moura Andrade
Por Matheus da Silva Souza
Publicado em:
Em breve...
Por Valéria Costa Fortunato
Publicado em 18/06/2024
A história da criação de Nova Casa Verde inicia-se no ano de 1987, quando o Assentamento Casa Verde foi institucionalizado, quando os/as moradores/as dos recém formados assentamentos dessa região tiveram a necessidade de ter um local onde pudessem comercializar suas produções feitas em seus lotes.
A princípio sua localidade não seria onde se encontra atualmente, entre as rodovias MS 134 e BR 267, pois quando o assentamento foi institucionalizado, o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) havia reservado uma área dentro do assentamento, nas terras denominadas hoje em dia como Gleba Angico, onde então seria formada a Feira do Produtor e também para a ocupação das famílias assentadas.
Porém, devido a distância entre a rodovia MS 134, os/as interessados/as a comprar teriam que percorrer cerca de 7 Km de uma estrada precária, sem pavimentação para chegar ao local onde seria implantada a Feira do Produtor. Assim, muitos/as assentados/as não viram essa proposta de uma forma positiva.
Pensando nisso, alguns/mas moradores/as da região se mobilizaram para que a feira fosse construída em um local de fácil acesso, pensando então no entroncamento das rodovias MS 134 e BR 267, uma das mais importantes rodovias do estado do Mato Grosso do Sul, a qual liga ele aos estados de São Paulo e Paraná, possibilitando a que muitas pessoas tivessem acesso, pois ao estarem transitando pelas rodovias poderiam se interessar por algo a ser vendido no local.
No entanto, assim como o próprio órgão do INCRA foi contra a mudança, alguns/mas moradores/as de assentamentos ao redor, como Peroba e Angico, também foram contra a mudança de localidade do centro urbano. Foi nesse momento que eles/as resolveram fazer uma votação entre os grupos de assentados/as, vencendo então, por maioria dos votos, aqueles/as que eram a favor da mudança de localidade. Não aceitando a resistência do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) em não reconhecer a decisão do povo, os/as próprios/as moradores/as tomaram uma iniciativa, quando em um final de semana, sabendo que os/as funcionários/as do INCRA não estariam trabalhando, dificilmente eles/as iriam até o local para impedir que eles/as continuassem com o plano, os/as assentados/as, visando conseguir uma “data” (refere-se a um lote ou parcela de terra demarcada dentro de uma área maior) decidiram ocupar as terras, começaram a derrubar o mato e limpar os terrenos para construir as primeiras residências.
Assim iniciou-se a construção do centro urbano, no ano de 1996, após ser resolvido o impasse da localidade, em uma área que a princípio possuía cerca de 10 hectares. Nos primeiros anos de construção da vila, qualquer família de assentados/as que tivesse interesse em ter uma “data” naquela localidade teria direito, e esta pagaria somente uma taxa de R$60,00, para a instalação de um hidrômetro. A partir disso, famílias de outras cidades passaram a ter a oportunidade de se fixar no núcleo urbano recém instalado.
Um dos nomes mais importantes na criação de Nova Casa Verde é Dilson Casarotto, um dos homens que lutou para que a vila fosse instaurada em seu local atual. Casarotto, desde o surgimento do local, passou a reivindicar recursos junto aos órgãos públicos do município de Nova Andradina para a melhoria de Nova Casa Verde. Ao ter conquistado popularidade junto aos/às moradores/as locais, ele foi o primeiro vereador a ser eleito por Nova Casa Verde, exercendo o seu mandato de 2000 a 2004, quando foi reeleito, porém neste mesmo ano faleceu vítima de um câncer. Atualmente ele é conhecido como o fundador de Nova Casa Verde, tendo seu nome como homenagem em uma das principais avenidas da vila.
A escolha do local, onde foi construído o distrito, foi de extrema importância, visto que como já dito anteriormente, o primeiro local que foi discutido, ficaria muito afastado, dificultaria o acesso caso fosse construída a vila.
Podemos considerar que caso não se encontrasse em sua localidade de hoje, Nova Casa Verde não estaria se desenvolvendo tão bem quanto está. O distrito, juntamente com os assentamentos e fazendas ao seu redor, formam uma população de cerca de 10 mil habitantes. O local tem como principal produção econômica a criação de gado de corte e gado de leite, como também a plantação de cana-de-açúcar, eucalipto e produção de carvão. Conta também com vários comércios, e empresas que oferecem empregos para essa população, fazendo crescer ainda mais a vila de Nova Casa Verde.
Foto 1: Distrito de Nova Casa Verde. Foto: Jornal da Nova
Patrimônio Material em Nova Casa Verde- Igreja São Pedro
A Igreja São Pedro em Nova Casa Verde, foi construída a partir da década de 1980, dentro do terreno da antiga Viação Motta. A princípio a única atividade era a visita de viajantes que estavam de passagem e entravam na Igrejinha, seja para conhecer ou para pedir proteção à Nossa Senhora da Boa Viagem, cuja imagem estava dentro da igreja.
Os/as moradores/as tinham o costume de organizar terços em suas próprios casas por nao terem um local apropriado, essas pessoas sentiam falta de ter algumas celebrações, então tiveram a iniciativa e começaram a rezar os terços e novenas dentro da igreja. Por volta de 1990, através de uma mobilização dos/as moradores/as que foram até a cidade de Nova Andradina, cerca de 60 km do local, para conversar com o pároco para que fosse realizada uma missa pelo menos uma vez ao mês, e conseguiram. Quando o padre ia até o local, cerca de 30 pessoas frequentavam a Igreja São Pedro. Assim, então, foi que aconteceram os primeiros batizados, as primeiras celebrações de Primeira Eucaristia, primeiro grupo de jovens, etc, da Vila de Nova Casa Verde.
Com a construção de uma Igreja maior dentro da vila e o fechamento da Viação Motta, as pessoas passaram a não mais frequentar o local.
A Igreja São Pedro não foi tombada como Patrimônio Material e acabou sendo demolida no ano de 2024, mas era considerada pelos/as moradores/as de Nova Casa Verde um prédio de muita importância para a formação da cidade, pois trazia ótimas recordações, e agora tristeza por não mais existir.
Foi através dessa Igreja que nasceu a oportunidade para outras igrejas na vila, tanto que foi dela que nasceu a Igreja Matriz, São Pedro e São Paulo, que tem atividade hoje em dia na vila. E é a partir dela que vai acontecer a festa da Carneirada, festa típica do local que se tornou uma tradição feita ano a ano.
Foto 2: Igreja São Pedro em Nova Casa Verde.
Acervo pessoal, Valéria Costa
Foto 03: Matriz São Pedro e São Paulo
Acervo pessoal, Valéria Costa
Patrimônio Cultural Imaterial em Nova Casa Verde - Festa da Carneirada
A primeira Carneirada aconteceu no ano de 2008, em meados de julho daquele ano, quando se comemora o Dia dos Padroeiros da Igreja São Pedro e São Paulo. A festa foi pensada pelo Pároco da época, José Vieira Pinto, o Pe. Vieira como era chamado pela população, e pela administração da paróquia com o intuito de arrecadar fundos para a construção do centro catequético e a reforma do Salão de eventos da Igreja.
A festa contou com o almoço, onde o prato principal seria carne de carneiro, daí o nome, logo após teria o bingo e ao final o famoso Bailão dos Garotos dos Pampas, grupo de músicos residentes em Nova Casa Verde, vindos do Sul do país, com músicas originais e covers, seu som não fazia ninguém ficar parado. Tudo isso organizado pela própria população de Nova Casa Verde, mais especificamente da comunidade católica do local, a qual conseguiu muitas doações para o evento e também ajudou nos trabalhos da festa.
Mesmo sendo uma festa da igreja católica, toda a população de Nova Casa Verde participou e também vieram pessoas de outras cidades, próximas ou também um pouco distantes, como a cidade de São José dos Campos. Fazendo, então, um grande sucesso, o que motivou para que no ano seguinte a Carneirada acontecesse novamente.
E assim, a festa virou uma tradição, todos os anos era de praxe, no mês de julho acontecer a festa da Carneirada, até mesmo a data foi inserida ao calendário municipal de eventos.
O ano de 2019 foi o último ano em que aconteceu a Carneirada, por conta da pandemia do Covid 2019 que exigiu o distanciamento social. O evento, sempre com o intuito da arrecadação para a Igreja, foi se transformando, passando a ser feita feijoada delivery, outro bingo online e leilão online.
Alguns registros da Carneirada nos últimos anos:
Foto 4: Facebook, Luana Antonini. Ano 2015, disponível em:https://www.facebook.com/share/Y2xo89aS82uFz3E5/?mibextid=oFDknk
Foto 5: Preparativos para a Festa da Carneirada, ano de 2017. Foto: Facebook- Jurandir de Lima Costa, disponível em: https://www.facebook.com/share/p/he2YqyvK5cb4nnK2/?mibextid=oFDknk
Foto 6 e 7: Facebook- Fernanda Calixto, 2018, disponível em:https://www.facebook.com/share/p/9RjHHJwadMfkdURd/?mibextid=oFDknk
Foto 8 e 9: Grupo Os Garotos dos Pampas. Facebook, Fernanda Calixto. 2017, disponível em: https://www.facebook.com/share/p/sVCofSP5e4ALqQ6Z/?mibextid=oFDknk
Foto 10: Comunidade reunida na preparação da festa. Facebook, Fernanda Calixto, 2018, disponível em: https://www.facebook.com/share/p/vXWfWVGCuNNPec2N/?mibextid=oFDknk
Foto 11: Prefeito e Primeira- dama presentes na Carneirada em 2018- Facebook, Joana Darc, disponível em: https://www.facebook.com/share/p/TVTQQPuTgH7MNthf/?mibextid=oFDknk
Referências
TORRES, Claudiomiro Morales. Nova Casa Verde: A Reforma Agrária e a Criação da Vila em Espaço de Assentamento Rural. 2016. Disponível Em: https://sucupira.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/trabalhoConclusao/viewTrabalhoConclusao.jsf?popup=true&id_trabalho=4710336#. Acesso em: 11 de jun 2024
Por Nayara Queiroz Machado da Silva
Publicado em: 24/06/2024
O contexto histórico do movimento hip-hop tem suas raízes nos Estados Unidos, especificamente no Bronx-NY, na década de 1970. Surgido em meio a um contexto de marginalização social e econômica, o hip-hop nasceu como uma forma de expressão das comunidades afro-americanas e latinas, abordando temas de resistência, identidade e pertencimento. Composto por cinco elementos principais – o RAP, o DJing, o Break Dance, o Graffiti, e o Conhecimento – o hip-hop rapidamente se espalhou pelo mundo, chegando ao Brasil nos anos 1980 e adaptando-se às realidades locais. No Brasil, o movimento ganhou características próprias, influenciado pelas desigualdades sociais e pela rica diversidade cultural do país, a partir da ocupação de espaços urbanos como a Estação São Bento do metrô paulistano e a rua 24 de maio em São Paulo-SP.
Em Nova Andradina-MS, o movimento hip-hop encontrou terreno fértil para se desenvolver, apesar das diversas dificuldades enfrentadas por seus praticantes. O cenário local é marcado pela persistência e paixão dos seus integrantes, que se esforçam para manter viva a cultura hip-hop na região. As entrevistas realizadas com sete artistas locais – b-boys/b-girl, grafiteiros, MCs e DJs – revelam um panorama diversificado e resistente da cena hip-hop no município.
A pesquisa entrevistou sete artistas que compõem o hip-hop em Nova Andradina-MS, visando entender o desenvolvimento desse movimento na cidade. Conhecida também por “Capital do Vale do Ivinhema”, está situada a 300 km de Campo Grande, e é reconhecida por sua predominância sertaneja e agrária, mas também pela contribuição de diversos povos na construção da identidade cultural local.
O Break Dance foi o primeiro elemento a se popularizar em Nova Andradina-MS, começando em 2002 com grupos como “Requebra” e “Pânico”, que mais tarde deram origem à “Companhia Storm de Dança”. O grupo feminino de dança “Art Femini”, fundado em 2019 por Karol Xavier (também membra da Cia Storm de Dança), destaca a luta pela visibilidade das mulheres no hip-hop, principalmente no Break Dance.
O RAP começou a ganhar espaço em 2012, impulsionado por artistas como Cristiano Alex (Crizis) e Márcio Henrique (Satsui), que também atuaram como DJs. Em 2018, Crizis co-fundou a Batalha das Águas, um evento central para a cena RAP local. Já o Graffiti, mais recente, começou a ocupar espaços públicos em 2020 com Rafael Vasconcellos, conhecido por suas obras na pista de skate da Praça da Fogueira e demais locais urbanos de Nova Andradina-MS.
O movimento hip-hop em Nova Andradina-MS é recente e enfrenta falta de apoio e investimento público. Os artistas são autodidatas, utilizando a internet para aprender técnicas e desenvolver suas habilidades, no entanto, apesar das dificuldades, o hip-hop tem sido uma ferramenta de transformação social e pessoal para os entrevistados. A presença feminina no hip-hop local ainda é limitada, e iniciativas como o “Art Femini” são fundamentais para dar visibilidade às mulheres. O cenário é promissor, mas requer maior mobilização e apoio da administração pública para se desenvolver ainda mais.
Os hip-hoppers sugerem várias ações para fomentar o hip-hop, como a inclusão da Cultura de Rua nas escolas, incentivo por parte do departamento de cultura e a presença de profissionais do hip-hop na gestão pública. Essas medidas são essenciais para reconhecer e apoiar o movimento hip-hop, que já se mostra sólido no município.
Fernando Gomes Gonçalves de Morais, um b-boy ativo na comunidade, compartilhou suas experiências sobre a importância do Break Dance como ferramenta de transformação social e pessoal. Ele destaca que " O hip-hop é tudo para mim porque ele me ajudou a crescer como ser humano, a perder preconceitos, me ajudou a ser respeitado por ser dançarino do hip-hop". Edinaldo Junior de Oliveira Lima, também b-boy, ressaltou as dificuldades enfrentadas para reconhecimento do movimento: “Esse ano mesmo o hip-hop fez cinquenta (50) anos e só agora que a gente “tá” conseguindo fazer com que o hip-hop entre no PPA (Plano Plurianual) do país, entendeu?". Pontuando que a falta de reconhecimento do hip-hop acarreta também a dificuldade de inventivo governamental para a cultura de rua.
Por sua vez, Ana Carolina Xavier Vieira, b-girl, destacou a luta pela representatividade feminina no movimento: “Foi bem interessante a gente mostrar o nosso trabalho, porque é muito difícil aqui na região a gente ter essa representatividade e o “Art Femini” é mais questão de visibilidade mesmo, para o lado feminino, para a gente conseguir ter esse espaço dentro do hip-hop e mostrar que a gente também consegue fazer, a gente consegue desenvolver, a gente estuda.".
Rafael Vasconcellos da Silva, grafiteiro, falou sobre o Graffiti e o hip-hop como uma forma de arte que comunica e transforma espaços urbanos, sendo muito importante na construção de quem ele é: “o hip-hop significa para mim uma maneira de expandir a minha criatividade. Porque através do hip-hop eu posso desenvolver mais o meu lado artístico do Grafite, a parte literária e de dança que é o meu foco. Então hoje eu levo o hip-hop como um estilo de vida".
Kaique Moura da Silva, MC, sublinhou a importância do RAP como meio de expressão das realidades vividas na periferia: “eu acho que isso é muito importante e tem que colocar muito em pauta: o quanto o hip-hop em si, que é uma cultura tão criminalizada em diversos lugares do nosso país, principalmente no nosso Estado e na nossa cidade, acaba sendo uma chave para mudar a vida de jovens, tanto a minha quanto a dos meus amigos, quanto a de muita gente que conhecemos e isso é importante. Hoje a gente pode ouvir que o hip-hop é a vida de alguém, entendeu?".
Cristiano Alex da Silva, DJ, compartilhou sobre a dificuldade em ser artista independente no Brasil, que, sem renda fixa, vive a incerteza do amanhã: “para a gente que é artista, o sofrimento é duas vezes mais dobrado. Porque você não tem dinheiro para nada, não tem o que fazer, não tem dinheiro para nada, não tem, às vezes, motivo para viver. E o hip-hop traz esse brilho na vida. A música, essas paradas que estão relacionadas ao hip-hop. Você pensa que não tem nada, mas a gente tem o hip-hop. E ele segue salvando nossas vidas aí no decorrer do tempo." Mas apesar dos enfrentamentos diários, o hip-hop traz o fôlego necessário para continuar sobrevivendo.
Por fim, Márcio Henrique Oliveira Cavalcante, MC e DJ, reforçou a importância do hip-hop como ferramenta de transformação social e pessoal: “O movimento hip-hop foi o que mudou minha vida, na verdade. Eu senti que no hip-hop eu mudei a pessoa eu era. Eu me tornei uma pessoa mais preocupada em fazer a diferença. E estou aí na busca até hoje.".
O movimento hip-hop é um testemunho da força e resiliência dos seus praticantes, que enfrentam desafios significativos para manter viva esta cultura. Através das histórias e memórias compartilhadas pelos entrevistados, fica claro que o hip-hop desempenha um papel crucial na formação de identidades e na luta por reconhecimento e espaço na sociedade. Este trabalho não só documenta essa trajetória, mas também celebra a riqueza, diversidade e resistência do movimento hip-hop em Nova Andradina-MS.
REFERÊNCIAS
TEPERMAN, Ricardo. Se liga no som; as transformações do RAP no Brasil. São Paulo: Claro Enigma, 2015.
SILVA, Nayara. Carpir o Mato e Fazer Acontecer: Nova Andradina-Ms como Epicentro do Movimento Hip-Hop do Estado de Mato Grosso Do Sul. 2023, p. 62. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em História) – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, 2023.
Por Marina Ferreira da Silva
Publicado em 25/06/2024
O Coletivo Cultural Gema, fundado no final de 2020, surgiu em meio à pandemia com o objetivo de transformar e dinamizar a cena cultural de Nova Andradina, Mato Grosso do Sul. Iniciado por um grupo de estudantes de História da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), o coletivo evoluiu rapidamente para incluir diversas formas de expressão artística, impactando profundamente a comunidade local.
Histórico do Coletivo
O Coletivo Cultural Gema nasceu de um desejo de inovar e humanizar as ações culturais fora dos limites acadêmicos. Originalmente composto por quatro fundadores, todos estudantes de História na UFMS, o coletivo começou suas atividades realizando saraus e eventos culturais que aproximavam a academia da comunidade local. Durante a pandemia de 2020, o grupo se reinventou, passando a operar de forma independente e focando inicialmente no audiovisual. Com o fim das restrições pandêmicas, o coletivo expandiu suas áreas de atuação e cresceu em número de membros, consolidando-se como uma força cultural diversificada.
Estrutura e Organização
Atualmente, o Coletivo Gema é composto por 17 membros e está estruturado em três frentes principais: técnica, artística e administrativa.
- Administrativa: Inclui o Coordenador Geral, Produtor Executivo, Coordenador Pedagógico e Diretor de Projeto. Estes membros são responsáveis pela gestão geral, planejamento estratégico e operacionalização das iniciativas do coletivo.
- Técnica: Composta por três técnicos especializados na elaboração de projetos culturais. Eles desempenham um papel crucial na captação de recursos e na concepção de projetos inovadores que atendam às necessidades culturais da comunidade.
- Artística: Coordenada por uma Diretora Artística Geral, que supervisiona os diversos segmentos culturais. Estes incluem:
Teatro: Representado pelo Grupo Teatral Enigma, que realiza espetáculos e promove a arte cênica.
Dança: Através do grupo Fever Dance, que organiza apresentações e workshops.
Música: Com a Banda Gema, que realiza shows e tributos.
Audiovisual: Com o Gema Filmes, produzindo curta-metragens e documentários.
Cultura de Rua: Promovida pelo Conexão Urbana e Dedos Sujos, que abrangem hip-hop e grafite.
Diretrizes e Objetivos
O Coletivo Gema orienta-se por diretrizes claras de descentralização, difusão e democratização do acesso à cultura. Seus princípios incluem:
- Descentralização Cultural: Levar a cultura para todas as regiões da cidade, especialmente para as áreas periféricas.
- Difusão Cultural: Promover a arte e a cultura local, valorizando os artistas e os fazedores de cultura de Nova Andradina.
- Democratização do Acesso: Garantir que a cultura e a arte sejam acessíveis a todos, independentemente de classe social, idade ou localização.
- Ocupação de Espaços Públicos: Utilizar praças e outros espaços públicos para realizar eventos culturais, humanizando e revitalizando esses locais.
- Engajamento da Juventude: Mostrar para a juventude que a cultura e a arte podem ser caminhos de desenvolvimento cidadão e social.
- Valorização da Cultura Local: Potencializar e valorizar a cultura e a arte locais, incentivando o reconhecimento e o respeito pelos artistas da cidade.
Atividades e Realizações
O Coletivo Gema realiza uma ampla gama de atividades culturais, incluindo:
- Espetáculos Teatrais: Apresentações do Grupo Teatral Enigma, que trazem histórias envolventes e performances de alta qualidade.
- Produções Audiovisuais: Curta-metragens e documentários através do Gema Filmes, que exploram temas relevantes e dão voz a diversas narrativas.
- Eventos de Cultura Urbana: O projeto Conexão Urbana ocupa praças periféricas com hip-hop e outras expressões culturais, promovendo a inclusão e a diversidade.
- Gemada Cultural: Espetáculos de artes integradas em praças públicas, oferecendo uma plataforma para músicos, dançarinos, atores e outros artistas locais.
- Colorindo a City: Projeto de grafite que transforma espaços urbanos em galerias a céu aberto, embelezando a cidade e promovendo a arte de rua.
- Cinema a Céu Aberto: Exibições de filmes em espaços públicos, democratizando o acesso ao cinema e criando momentos de convivência comunitária.
- Workshops e Oficinas: Capacitação em elaboração de projetos culturais para a comunidade, ajudando artistas e produtores culturais a acessarem recursos e desenvolvendo suas próprias iniciativas.
Impacto na Comunidade
O impacto do Coletivo Gema na comunidade de Nova Andradina é significativo. Além de promover a cultura e a arte local, o coletivo oferece suporte técnico para a elaboração de projetos culturais, ajudando artistas a acessar financiamentos e desenvolver suas próprias iniciativas. Os workshops de capacitação são particularmente valiosos, proporcionando aos membros da comunidade as ferramentas necessárias para transformar suas ideias em projetos viáveis. Feedbacks positivos e o engajamento crescente da população atestam a relevância e a necessidade do projeto.
Desafios e Futuro
Embora enfrente desafios comuns a projetos culturais, como a busca por financiamento e a ampliação de sua atuação, o Coletivo Gema tem planos ambiciosos para o futuro. A meta é consolidar-se cada vez mais como um coletivo de artes integradas, expandindo suas ações e fortalecendo suas diversas áreas de atuação. A busca é por uma massificação do projeto, levando suas ações e princípios a um público cada vez maior e solidificando seu papel como um agente de transformação cultural em Nova Andradina.
Visibilidade e Divulgação
O Coletivo Gema utiliza suas redes sociais para promover suas atividades e alcançar um público maior. Fotos e materiais visuais dos eventos e projetos são regularmente compartilhados, aumentando a visibilidade e o engajamento da comunidade. As redes sociais servem como uma plataforma de comunicação eficaz, permitindo que o coletivo mantenha um diálogo constante com a comunidade e promova suas iniciativas de maneira abrangente.
Conclusão
O Coletivo Cultural Gema representa um exemplo vibrante de como a arte e a cultura podem ser ferramentas poderosas de transformação social. Com uma estrutura bem definida e uma abordagem inclusiva, o coletivo continua a expandir seus horizontes, levando cultura e arte para todos os cantos de Nova Andradina. Seu compromisso com a democratização do acesso à cultura e a valorização dos artistas locais reforça a importância de iniciativas comunitárias na promoção do desenvolvimento social e cultural.
Pequenos Recortes Da História Do Projeto
Imagem: integrantes do Projeto Gema na estreia do curta-metragem “Cada Canto da Cidade”.
Foto: Instagram - projetoav.gema
Disponível em: https://www.instagram.com/p/CxekDvlMkLz/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==
Imagem: Integrantes do Projeto Gema recebendo Moção Honrosa pela realização do evento “Conexão Urbana”.
Fonte: Instagram - projetoav.gema
Disponível em: https://www.instagram.com/p/C8HedzbR-qG/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==
Imagem: cenas da peça “A Vila”, realizada pelo Grupo Teatral Enygma.
Fonte: Instagram - grupoteatralenygma
Disponível em: https://www.instagram.com/p/CuhjWgSux2Q/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==
Imagem: equipe do Projeto Gema durante 4° edição do Conexão Urbana.
Fonte: Instagram - conexãourbana67
Disponível em: https://www.instagram.com/p/C8nJuGyxLll/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==
Por Tamyris Ferreira de Santana
Publicado em 25/06/2024
Todos os anos, o terço de Santo Antônio acontece no sítio de mesmo nome, próximo ao bairro São João, em Taquarussu/MS. Neste ano de 2024 a tradição familiar do senhor Lúcio e da senhora Lourdes comemorou seu 80º aniversário. Ambos são figuras importantes para a cidade interiorana do Mato Grosso do Sul.
Conversei com o senhor Lúcio, que me recebeu em sua casa e compartilhou a história dessa tradição familiar. Segundo ele, o terço foi iniciado por seus pais, recém-casados e agricultores. Embora a origem exata da promessa seja incerta, ele citou três possíveis motivos: a recuperação de um irmão após um acidente grave, a perda de outro irmão devido a um raio, e a conquista de um pedaço de terra pelos seus pais.
Os pais de Lúcio eram muito queridos na comunidade. Seu pai aplicava penicilina e sua mãe realizava benzimentos, o que os tornava padrinhos de muitas crianças. Eles começaram a rezar o terço em 12 de junho, véspera do dia de Santo Antônio, um evento que atraia familiares, amigos, vizinhos e conhecidos.
Em 1992, devido à idade avançada, a mãe de Lúcio passou a responsabilidade do terço para ele e sua esposa Lourdes, um momento que ele descreve como emocionante e memorável. Ele conta que sua mãe pediu aos outros filhos para apoiarem Lúcio nessa missão, e a família, até hoje, participa ativamente.
Este ano, assisti ao terço em 12 de junho de 2024. Muitas pessoas se reuniram, e pude testemunhar o capricho e a dedicação de Dona Lourdes na decoração e nos preparativos. Durante o terço, há cânticos especiais, a queima de fogos, uma procissão com vela em volta da fogueira e a elevação da bandeira de Santo Antônio.
Após a procissão, a bandeira é levantada e as velas são coladas no mastro ou colocadas no chão próximas a ele na crença de conquistar um namoro ou casório, ou simplesmente para participação na festividade. Há também o socador antes da colocação das velas, que reúne cantos mais o bater no chão, um gesto que, segundo a tradição, aumenta a longevidade e permite fazer pedidos. A noite termina com comida e música para os participantes.
Este ano, senhor Lúcio e Dona Lourdes realizaram o 32º terço consecutivo, uma tradição que só foi interrompida pela pandemia, quando ocorreu de forma online. Decidi escrever este artigo para compartilhar a rica história dessa tradição familiar, que é um marco cultural em nossa cidade. Agradeço ao senhor Lúcio e à Dona Lourdes por me receberem e compartilharem essa história enriquecedora. Espero participar novamente no próximo ano.
Imagem 1 - Santo Antônio
Imagem 2 - Fogueira
Imagem 3 - Bandeira de Santo Antônio já levantada no mastro
Imagem 4 - Momento em que as pessoas colam a vela no mastro da bandeira de Santo Antônio
Imagem 5 - 32° terço de Santo Antônio
Por Taís Trindade Avelino
Publicado em 26/06/2024
Nas noites frias de junho, na década de 1980, em uma rua de Batayporã-MS, moradores/as se reuniam para comemorar e festejar no ritmo das tradicionais festas juninas. Era sobre a alegria do povo e o sereno que recobria a noite fria que se deu origem ao "Baile do Sereno" que posteriormente veio a ser chamado de “ Festa do Sereno”.
A tradicional festa ganhou espaço e se tornou famosa, entrando no calendário oficial de eventos de Mato Grosso do Sul.
O festejo acontece na última semana de junho, sendo três dias de comemorações, recebendo várias pessoas das cidades vizinhas, com shows musicais e gastronomia.
Para saber mais:
O Pantaneiro. A Festa do Sereno de Batayporã entra no calendário de eventos de MS. Disponível em: https://www.opantaneiro.com.br/cultura/festa-do-sereno-de-bataypora-entra-no-calen dario-de-eventos-de-ms/130818/. Acesso em: 25 jun. 2024.
Lugares Eco. A Festa do Sereno entra no calendário turístico e cultural de MS. Disponível em: https://www.lugares.eco.br/noticias/festa-do-sereno-entra-no-calendario-turistico-e-c ultural-de-ms/18/. Acesso em: 25 jun. 2024
Veja algumas imagens da festa que foram retiradas de: https://www.bataypora.ms.gov.br/noticias/festa-do-sereno
Por Leandro Cordeiro
Publicado em: 17 de julho de 2024
Os assentamentos rurais do município de Anaurilândia-MS, desempenham um papel crucial na configuração socioeconômica de município, contribuindo significativamente para a ocupação do território e o desenvolvimento agrícola da região. O surgimento desses assentamentos está intimamente ligado à história do município, refletindo as políticas de reforma agrária e os desafios enfrentados pela população rural.
A ocupação e distribuição de terras em Anaurilândia remonta a diferentes momentos históricos, ganhando destaque especialmente na segunda metade do século XX e nos primeiros anos do século XXI, com a implementação de políticas públicas voltadas para a promoção da reforma agrária e a distribuição de terras para pequenos agricultores e trabalhadores rurais sem terra.
Os assentamentos Santa Ana, Santa Rosa, Santa Irene, Esperança e Barreiro, surgiram como resposta às demandas por acesso à terra e melhores condições de vida no campo e projeto de reassentamento devido aos impactos ambientais causados pela usina de Porto Primavera. Por meio de programas governamentais, como o Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA), áreas foram destinadas à criação de assentamentos, onde famílias sem-terra puderam se estabelecer, cultivar a terra e garantir sua subsistência.
Além de promover a inclusão social e econômica de famílias rurais, os assentamentos desempenham um papel crucial na produção agropecuária do município. A agricultura familiar é a base da economia dessas comunidades, com cultivos diversificados e práticas sustentáveis que contribuem para a segurança alimentar, apoiadas por investimentos governamentais. No entanto, os assentamentos rurais enfrentam desafios como a falta de infraestrutura, acesso a crédito e assistência técnica adequada. A luta pela regularização fundiária e o fortalecimento das organizações comunitárias são pautas constantes nessas comunidades, que buscam garantir seus direitos e melhorar suas condições de vida.
Em suma, os assentamentos rurais de Anaurilândia representam não apenas uma estratégia de distribuição de terras, mas também um lugar de memória, trajetórias e história. São espaços onde a luta pela terra se entrelaçam com a busca por justiça social e dignidade humana, contribuindo para a construção de uma sociedade mais equitativa e solidária.
Por Suellen Oliveira da Silva
Publicado em 15 de julho de 2024
Bataguassu, um município no estado de Mato Grosso do Sul, é um local rico em história e tradições culturais. Fundada em 11 de novembro de 1952, Bataguassu está situada às margens do rio Paraná, uma importante via para navegação, transporte de cargas, turismo e atividades aquáticas. Vizinha aos municípios de Nova Andradina, Anaurilândia, Santa Rita do Pardo e Presidente Epitácio, em São Paulo, a cidade se destaca por uma celebração religiosa que se tornou um patrimônio cultural imaterial: a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes.
Origem da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes
A origem da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes remonta ao final de 1944, no então Distrito de Porto XV, que pertencia a Bataguassu quando ainda era parte do estado do Mato Grosso. Durante esse período, o filho de um morador local, Bento, partiu para combater na Segunda Guerra Mundial. Seu pai, Quinzinho, temendo pela vida do filho, fez uma promessa: se Bento retornasse são e salvo, ele construiria uma capela dedicada a Nossa Senhora dos Navegantes.
A ideia de realizar uma festa semelhante à de Porto Alegre (RS), sugerida por Armênio Macário Ribeiro, uniu-se à promessa de Quinzinho. Após o retorno seguro de Bento, Quinzinho iniciou a construção da capela, que era pequena e feita de madeira. A primeira celebração ocorreu em 2 de fevereiro de 1948, com uma procissão fluvial que partiu do Porto XV (MT) rumo a Presidente Epitácio (SP). A festa contou com a participação de inúmeras embarcações e botes a motor, além de uma banda que veio de Assis (SP).
Figura 1: Cartaz antigo com a programação da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes.. Foto: Bataguassu: Memórias e História. Disponível em: https://bataguassumemorias.blogspot.com/2016/07/retalhos-de-relogiosidades-em-tempos.html. Acesso em 26 de junho de 2024.
Resistência em tempos de mudanças
Com a construção da Usina Hidrelétrica Sérgio Motta (1980-2000) em Rosana (SP), o distrito de Porto XV passou por grandes transformações. O alagamento do rio Paraná resultou na desapropriação de várias famílias e na realocação da população para um novo local, Nova Porto XV, construído com apoio da empresa CESP. Durante a construção da barragem, a procissão fluvial não pôde ser realizada, e a população decidiu, em 15 de agosto de 1999, realizar a procissão por terra, mantendo viva a tradição.
Figura 2: Construção da Usina Hidrelétrica de Porto Primavera, localizada em Batayporã, em fevereiro de 1992. Foto:Acervo A Crítica. Disponível em: https://www.acritica.net/editorias/cultura/memoria-a-critica-construcao-da-usina-hidreletrica-de-porto-primavera/433392/. Acesso em: 26 de junho de 2024.
A Festa Hoje
Em 2021, a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes foi reconhecida como Patrimônio Histórico Cultural Imaterial. A celebração acontece anualmente de 6 a 15 de agosto, com a procissão fluvial realizada no dia 15. O evento conta com o apoio das prefeituras locais, da marinha e do corpo de bombeiros, garantindo a segurança dos participantes. A festa simboliza a união e a amizade entre os estados de Mato Grosso do Sul e São Paulo, superando as mudanças geográficas e preservando uma tradição que se tornou conhecida em todo o estado.
A Festa de Nossa Senhora dos Navegantes é um testemunho da fé, resiliência e espírito comunitário dos habitantes de Bataguassu. Enfrentando adversidades, a comunidade manteve viva uma tradição que une gerações e celebra a devoção e a esperança. Este evento não é apenas uma celebração religiosa, mas também uma manifestação cultural que reforça a identidade e o patrimônio de Mato Grosso do Sul.
A história da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes em Bataguassu é um exemplo de como a fé e a tradição podem resistir ao tempo e às transformações. Reconhecida como Patrimônio Histórico Cultural Imaterial, a festa continua a ser uma celebração vital para a comunidade local, demonstrando a importância da preservação das tradições culturais. Para os estudantes de licenciatura em história, este evento oferece uma rica fonte de estudo sobre a interação entre fé, cultura e mudanças sociais ao longo do tempo.
Figura 3: Travessia fluvial com a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes pelo Rio Pardo. Foto: Integração Regional. Disponivel em: .https://www.integracaoregionalnews.com.br/storage/images/cache/39-devocao-e-tradicao-39-75-festa-nossa-senhora-dos-navegantes-de-bataguassu-se-encerra-nesta-terca-feira-com-a-tradicional-travessia-fluvial-da-imagem-da-santa-ate-presidente-epitacio-730x485-1b72e25c.jpg. Acesso em 26 de jun de 2024.
Figura 4: Procissão da festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Foto: Redação Bataguassuense.com. Disponivel em: https://bataguassuense.com/images/noticias/874/80a0237772f40e65abb826d5e93aa370.jpg Acesso em 26 de jun de 2024.
Por Dayane Bernal Aniceto
Publicado em 26 de julho de 2024
O Grupo Vocal Vida&Voz surgiu nos anos 1990 como um projeto de extensão acadêmica da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul/Nova Andradina, sob a liderança do professor Fernandes Ferreira de Souza. Composto por alunos/as do campus de Nova Andradina e membros da comunidade apaixonados/as por canto coral. O grupo rapidamente se destacou pela sua diversidade de gênero e comprometimento com a música popular e religiosa local.
Sem fins lucrativos, o grupo dependia de apoio financeiro de patrocinadores/as locais e órgãos públicos para suas apresentações, que aconteciam no anfiteatro da UEMS, na Câmara Municipal e até mesmo em locais emblemáticos como a Cantata de Natal no Santuário Imaculado Coração de Maria. Com o tempo, Vida&Voz expandiu seu repertório e produziu espetáculos musicais memoráveis como "Aquarela Nordestina" com canções popularmente conhecidas e adaptações de clássicos da Broadway como "Mamma Mia" e “Godspell”. Os novos projetos foram importantes para o amadurecimento do grupo Vida&Voz, agora como “Nova Cena”, uma organização teatral e musical, criada a fim de expandir suas produções e angariar fundos para a compra de figurinos, cenários e equipamentos musicais.
Para ampliar seu alcance, fundaram a Companhia de Teatro Cia Tau, levando produções como "Sacra Folia", " Peter Pan" e “De Pai para Filhos”, por todo o estado de Mato Grosso do Sul. Em conjunto com as atividades teatrais e musicais, também houve excursões culturais a São Paulo, enriquecendo-se com visitas a museus e teatros renomados, com espetáculos musicais Comunitá - O Musical com direção de Cláudio Magnavita e O Fantasma da Ópera no Teatro Abril, no ano de 2005 com direção de Arthur Marselha.
Além disso, o grupo realizou em 2009 e 2010, o Festival Tuiuiú em Nova Andradina, o evento era destinado a apresentações de curtas-metragens, uma competição inicialmente voltada para as escolas locais. Em 2011, o Festival foi aberto para outros públicos, com destaque para o grupo Teatral “Arte Insana”, vencedores em 4 categorias com o curta metragem “O Negro d´agua” sob a direção de Germino Roz, atualmente prefeito de Batayporã/MS. Vale mencionar que as cenas foram produzidas na zona rural de Batayporã, especificamente nos rios Samambaia e Bahia retratando belezas naturais da região.
Em 2013, com a mudança de Fernandes Ferreira para Campo Grande, Alex Pires assumiu a direção, levando o grupo a enfrentar novos desafios, como a montagem do espetáculo musical "O Trovador e a Legião", que cantou as músicas mais emblemáticas da Banda de rock Legião Urbana. O grupo musical Vida&Voz não apenas movimentou a cena cultural de Nova Andradina, mas também deixou um legado inspirador para grupos subsequentes, fortalecendo um cenário cultural que demanda apoio contínuo e valorização. Uma história que não só enriquece a narrativa local, mas também ressalta a importância do Vida&Voz como um ícone de resistência cultural e musical em comunidades fora dos grandes centros urbanos. Em cidades interioranas, onde as opções de entretenimento e acesso a produções culturais de grande escala podem ser limitadas, esses grupos se tornam as principais fontes de cultura e lazer. Eles possibilitam que a população local experimente a arte e a cultura de forma acessível, muitas vezes gratuitamente ou a baixo custo.
A presença de grupos culturais ativos pode atrair visitantes e promover o turismo local, gerando benefícios econômicos. Para, Diogo Silva Manoel (2014, p. 1) “[...] ao longo da história, a música tem se destacado como uma importante contribuição cultural, na desafiadora tarefa dos historiadores de reviver objetos e lugares através da prática histórica”. Resgatam e celebram tradições, ao mesmo tempo que inovam e criam novas formas de expressão cultural. O grupo, por exemplo, não apenas apresentou grandes clássicos, mas também produziu musicais autorais que refletiam a cultura e as histórias do Nordeste brasileiro, criando um vínculo profundo entre a arte e a vida cotidiana dos moradores.
O Grupo fez sua última apresentação na UEMS/NA no ano de 2018, um evento intitulado “Vida&Voz Reunion”, contou com a presença de vários integrantes, que a época, espalhados por todos os cantos do Brasil e também fora do país, como a presença marcante do “Bé”, Devanil Duarte, músico que atualmente reside na República Tcheca. O grupo cantou e “encantou”, com a “casa” lotada, o que exemplifica como grupos de representação cultural podem enriquecer a vida de uma comunidade, promovendo a arte, a educação e a coesão social. Seu legado continua a inspirar e a moldar a cena cultural de Nova Andradina, demonstrando a importância vital de apoiar e preservar tais iniciativas em todas as comunidades.
Referências Bibliográficas
MANOEL, Silva Diogo - Música para Historiadores: [Re]Pensando Canção Popular como Documento e Fonte Histórica, 10 páginas - 2014 - Disponível em: https://www.encontro2014.mg.anpuh.org/resources/anais/34/1401504922_ARQUIVO_Artigo-prototipo-Anpuh_corrigido-DiogoUnesp.pdf
Figura 1 - Apresentação do grupo Vida&Voz na UEMS/NA na década de 90
Fonte: Nova Andradina no Passado/ Página de Facebook
Figura 2: Cantata de Natal no Santuário Diocesano Imaculado Coração de Maria
Fonte: Grupo Vocal Vida&Voz/ Página de Facebook
Figura 3 - Cantata de Páscoa - Anfiteatro da UEMS/NA
Fonte: Grupo Vocal Vida & Voz/ Página de Facebook
Figura 4 - Aquarela Nordestina
Fonte: Grupo Vocal Vida & Voz/ Página de Facebook
Figura 5 - Godspell: O Musical/ Câmara Municipal
Fonte: Grupo Vocal Vida & Voz/ Página de Facebook
Figura 6 - Moção de Parabenização pelo Musical Godspell/ Câmara de NA
Fonte: Grupo Vocal Vida & Voz/ Página de Facebook
Figura 7 - Overdose d’Amore/Cartaz
Fonte: Grupo Vocal Vida & Voz/ Página de Facebook
Figura 8 - O Trovador e a Legião/Cartaz
Fonte: Grupo Vocal Vida & Voz/ Página de Facebook