Docente da rede pública estadual de ensino desde 2003, a professora Camila Clivati é formada em Letras Português-Inglês pela UEL (1994-1998), atuando também como supervisora do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) das turmas de Letras Inglês da UEL.
Entrevista 1 (Docência)
Camila
Há quanto tempo você dá aula na rede pública?
Eu sou professora na rede pública desde 2003. Fui formada em 98 pela UEL em letras português-inglês, mas na rede pública comecei a dar aula em 2003.
Para qual faixa etária você leciona?
O meu padrão é para Ensino Médio Profissionalizante, que é o Castaldi, mas eu posso lecionar do Ensino Fundamental II em diante, que é do sexto ano em diante. Mas o meu foco é o Ensino Médio.
Já atuou na rede privada?
Sim, por 8 anos.
Antes da pandemia, você já trabalhava com o ensino remoto? Qual metodologia era usada e qual sua familiaridade com a metodologia remota? E por quanto tempo você atuou remotamente antes da pandemia?
Não, antes não. A pandemia foi meu primeiro contato com essa forma remota. O que eu trabalhei remoto foi o que a gente chama de tutoria lá na Unopar, mas não tinha contato com o aluno diretamente, era só correção das atividades deles via sistema, que eles mandavam. Mas nunca vi, não conhecia alunos nem nada, foi só agora que eu tive a primeira vez desse sistema remoto de ensino.
(Caso a resposta seja que não tinha metodologia ou não tinha dado aulas) Como foi criar e desenvolver a metodologia remota para o ensino?
Então… criar e desenvolver metodologia… não sei exatamente como eu vou responder a isso… na verdade, acho que foi mais adaptar o que a gente fazia no presencial, e tentar fazer no remoto… porque exatamente, pesquisar como deveria ser no remoto eu não fiz. Então mais foi pegar o que a gente fazia no presencial e tentar fazer no remoto e aí partir na tentativa e erro. E vamos indo, indo, indo… acredito que foi mais ou menos assim que as professoras fizeram, na tentativa de trazer pro aluno uma vivência próxima do que o que ele já conhecia.
Em algum momento, durante a pandemia, você teve de comprar alguma ferramenta para usar online? Se sim, quais?
Eu comprei a assinatura do Quizizz por um ano. Foi só aquela que eu paguei.
Quais foram as estratégias de adaptação para você e para seus alunos? As estratégias de ensino foram criadas por você ou foram criadas por terceiros? Foram eficazes?
As estratégias de adaptação eu não sei… era um dia de cada vez… testando né? A gente montava, planejava a atividade, utilizava a plataforma digital e aplicava. Aí a gente via o que dava certo e beleza… replicava. O que dava errado, descartava e adaptava de novo. E assim foi indo, então eu não sei se foram eficazes… talvez eu tenha que parar para pensar com calma para responder isso a vocês. Sobre essas estratégias de adaptação né? Elas foram criadas pelos professores mesmo. As ideias elas vêm de fora, mas a gente vai adaptando conforme a realidade de cada turma ainda.
Quais as marcas da pandemia agora durante o retorno presencial? Como foram ou estão sendo solucionadas?
No retorno para o presencial a gente não tem mais a tecnologia que a gente tinha, né? Ainda no Castaldi a gente tem uma televisão em cada sala, a gente tem computador, a gente tem WiFi, internet, a gente pode ainda trazer as ferramentas digitais e trabalhar com eles ali. Não que eles consigam conectar pelo dispositivo deles, mas a gente consegue utilizar pela televisão como se fosse um datashow. Mas, assim, em outras escolas não tem. Então sem chance, uma frustração!
Quais foram os principais problemas e dificuldades encontrados? Como foi para lidar?
Foi um desafio, apesar de eu sempre gostei de trabalhar com as plataformas digitais, o mais difícil era manter o engajamento dos alunos.
Você sente que a volta para o ensino presencial motivou novamente os alunos de alguma forma?
A volta do ensino presencial motivou os alunos a… não é que os motivou a estudar… eles gostam de ir para a escola, gostam de encontrar com os amigos… estudar é uma consequência e estar na escola. Mas eu acredito que o ensino presencial é bem melhor do que o de forma remota, porque sem estar socialmente integrado não se há aprendizagem, né? Então, por isso que eu acredito que estarmos juntos é melhor.
Docente da rede particular de ensino, a professora leciona em uma escola bilíngue do Paraná.
Entrevista 2 (Docência)
Rosangela
Há quanto tempo você dá aula na rede privada?
10 anos.
Para qual faixa etária você leciona?
Já atuei de 03 anos até 17 anos. Do infantil até o Ensino Médio.
Já atuou na rede pública?
Já, por 01 ano. 01 ano como concursada e 02 anos como contratada.
Antes da pandemia, você já trabalhava com o ensino remoto? Qual metodologia era usada e qual sua familiaridade com a metodologia remota? E por quanto tempo você atuou remotamente antes da pandemia?
Não, nunca. Nunca tinha trabalhado com o ensino remoto. Zero familiaridade! Nem aula particular eu dava à distância.
(Caso a resposta seja que não tinha metodologia ou não tinha dado aulas) Como foi criar e desenvolver a metodologia remota para o ensino?
Foi muito difícil, foi muito trabalhoso. Primeiro porque, no início, eu não sabia mexer nas ferramentas. Então, por exemplo, eu nunca tinha editado um vídeo na minha vida. Então, eu precisei editar os vídeos para as aulas que eram gravadas. Segundo que, eu precisei aprender a mexer em aplicativos interativos para as aulas que eram online. Então, alguns aplicativos em que eu podia mexer ao mesmo tempo em que os alunos, que estavam lá do outro lado, mexiam junto comigo, para que eu pudesse ver a produção deles. A parte de tecnologia foi o que eu achei difícil. Outra coisa que foi difícil foi a adequação do tempo. Porque o tempo é menor online, e o nosso conteúdo já é bem apertado, então, foi difícil priorizar o que precisaria ficar de fora e o que teria que ser dado. Aqui, normalmente, eu dou duas horas e meia de aula por dia, no ensino remoto, eu tenho 40 minutos.
E você teve algum suporte nessa parte de aprender a mexer nas tecnologias?
Não, a gente foi aprendendo a mexer com o tempo.
Em algum momento, durante a pandemia, você teve de comprar alguma ferramenta para usar online? Se sim, quais?
Não, porque… aí eu acho importante colocar. O meu computador já é um computador que vinha com programa de edição, só que é um privilégio da minha parte ter isso já instalado. E eu usava um computador, não usava um celular, então no meu caso, não precisei comprar nada.
E a respeito de jogos, e coisas assim, você precisou fazer alguma assinatura?
Não, tudo o que eu achei foi gratuito. Eu encontrei muita coisa de graça, hoje muitas coisas que eu descobri, eu continuo usando. Mas, existe uma outra questão que, por exemplo, eu tive acesso à plataformas de leitura online por conta da escola, eu tinha acesso por causa da escola. Eu tinha um recurso a mais. Outra coisa que foi difícil, acho importante colocar, é a questão do assessment, que seria a testagem. Foi muito difícil verificar o desenvolvimento deles à distância, porque eu conseguia dar um input, mas ter o retorno… Então, na hora de fazer a avaliação, foi muito difícil, foi bem vago. Quase não existiu avaliação no ano passado. Pensa comigo, se você está diminuindo uma aula de 2h30 para 40 minutos, você ainda vai tirar disso para avaliar?
Quais foram as estratégias de adaptação para você e para seus alunos? As estratégias de ensino foram criadas por você ou foram criadas por terceiros? Foram eficazes?
Tá bom… é estratégia foi migrar as leituras de livros físicos para as plataformas de leitura online, que foi uma coisa que deu muito certo. E a gente conseguia ler juntos e era um momento bom. Outra estratégia foi criar vários documentos compartilhados, em que eu tinha acesso e via o que eles estavam fazendo. Outra estratégia foi ter uma pessoa ali comigo, uma assistente, em que eu podia ter duas salas de aula ao mesmo tempo, e aí eu conseguia ter um atendimento mais individualizado, mesmo que uma vez por semana com alguns alunos, para puxar para essa sub sala. Outra adaptação foi deixar de usar muitos materiais de papel e passar a usar mais coisas virtuais, então, no início, por exemplo, eu queria que eles fizessem as coisas no caderno e mostrasse na câmera, e não dava muito certo, e depois de um tempo eu meio que abandonei isso e passei a usar boards online, sabe? Porque é mais fácil de acompanhar. Dentro do tempo que eu tinha, elas funcionaram bem, foram estratégias… a edição de vídeo também, criar vídeos pequenos, foram partes que deram certo.
Quais as marcas da pandemia agora durante o retorno presencial? Como foram ou estão sendo solucionadas?
Acho que dos conteúdos que são acumulativos, então, por exemplo, matemática e língua, são os que a gente demorou mais tempo para retomar, porque eles são construídos como blocos, um em cima do outro, então, por exemplo, certos conteúdos, como geometria, eu não dei ano passado, então os meus alunos estão vendo pela primeira vez esse ano, mas na verdade eles já teriam que estar construindo em cima. Esse gap não foi fechado esse ano, ele vai ser fechado mais pra frente, porque houveram conteúdos que foram, de fato, cortados, então houve um atraso nessas disciplinas que foram cortadas. Disciplinas que não são contínuas, por exemplo, ciências, eu acho que a gente só vai ver o gap mais para a frente, porque quando os meus alunos verem as unidades que eles deveriam ver ano passado lá no Fund II, eles vão estar quase que zerado, porque, dentro de 40 minutos, você tem linguagem, matemática e ciências para cobrir, eu priorizada linguagem e matemática. Além disso, acho que as crianças ficaram cansadas rápido esse ano, a gente viu que elas ficaram cansadas mais cedo do que normalmente elas ficavam, sabe? E muitas crianças vieram com o vício de ter pouca autonomia, porque passaram o ano passado inteiro com o pai e a mãe muito próximos, então no retorno, nós percebemos que muitas crianças travavam para resolver problemas, ou travavam para resolver alguma coisa sozinhas, ou requerem muita atenção individualizada, ou estavam, se sentiam inseguros de tentar escrever um texto ou fazer alguma coisa porque eu não estava ali com eles o tempo inteiro. Então, isso foi algo que algumas crianças ainda têm esse traço e outras crianças já conseguiram passar. Mas algumas ainda têm.
Você sente que a volta para o ensino presencial motivou novamente os alunos de alguma forma?
Muito, muito! No início do ano, nós ainda estávamos fazendo o híbrido, e assim que eles ficaram sabendo que iam voltar, mesmo fazendo rodízio, eles ficaram muito animados, e muitos falaram que as aulas online eram muito ruins, porque eram cansativas, porque eles não conseguiam brincar, e a gente tem muito essa coisa de sentar no chão, e usar materiais concretos, e isso não existia. E para a idade, para essa faixa etária, é muito difícil para eles ficarem só no abstrato, então eles sempre se mostraram muito inclinados a voltar, e no início do ano, mesmo com todas as dificuldades, eu acho que uma coisa que não faltou foi ânimo deles de voltar presencial.
Nota: A professora entrevistada acima optou por não revelar a identidade e seus dados particulares.