O SILÊNCIO DE MARLY
A partir de hoje aquela risada gostosa e aguda, em que se fechavam os olhinhos e balançavam os ombros, viverá apenas na memória dos que ficaram, talvez nas noites mais saudosas ecoe com assombro pelos corredores da casa como um bom fantasma. Os almoços e as festas agora estarão sem uma parte, faltará para sempre, a partir de então, um pedaço daquele mundo, o barulho da casa perdeu a força, calou de uma hora a outra.Todos no bairro e a distância conheciam a família, ouviam-se das esquinas as risadas, as muitas vozes tumultuadas quase como em uma quermesse. Isso tudo digo como observador do pequeno mundo, talvez a algazarra toda se desse ainda mais, porque aquele corpo que se foi era carente de saudáveis ouvidos, era preciso falar alto, quase gritar, ela não poderia ser mais perfeita do que foi. Não houve velório, bolacha de motor com café preto na madrugada, ela sequer foi levada para a cidade natal, findou enterrada em uma terra que não era a sua: exílio fúnebre. Hoje o silêncio grita chamando aquela alma que não mais retornará para sua cadeira de embalo, perguntará se o visitante almoçou, abraçará forte um parente, pois vive agora com o Deus a quem foi tão devota “felicidade, felicidade, felicidade em Jesus!”. Ausência é o que se tornou Marly, um espaço que jamais será ocupado, não haverá no mundo outra igual, outro corpo envelhecido e macio abraçando este sobrinho-neto que chegava para a merenda.O cheiro dela ainda permanece na casa, e assim será até que as roupas se vão, até que troquem a cama, até que vendam os móveis ou a própria casa, que está em silêncio para sempre, porque a Marly, irmã de Madá, Sabazinho, Ivete, Marlene, Margarida e Sila, filha de Dalila e Sabá, se foi. A casa está em silêncio, a mesma casa que outrora estava cheia de gargalhadas, de conversas gritadas, está em silêncio, ele é estridente e doloroso, a casa sussurra, ela sente saudade, assim como todos do universo de Marly, que descansa como viveu: em paz.