Este texto foi extraído de uma edição especial, cujo titulo é : Allan Kardec - Obras Completas, editado por Opus Editora, no ano de 1985, obra esta doada por Antonio Carlos dos Santos em 15/07/1996 à Sociedade Espírita Antonio de Pádua (SEAP), Kardec escreveu esse texto, que se encontra no final do livro, em resposta à alguns questionamentos, conforme segue abaixo :
- Allan Kardec tinha claramente respondido a este "ponto de interrogação" em seu último escrito a propósito da "Declaração da fé Americana", definida na Quinta Convenção Espiritualista dos Estados Unidos, e publicada no Le Salut de Nova Orleans, que comparava os princípios da "Escola Européia", os quais expunham em 20 pontos.
- Este escrito foi publicado no dia seguinte do seu falecimento (31 de Março de 1869), no último número da Revista Espírita redigida pelo próprio Kardec.
- Não há texto mais recente, nem mais adequado do que este que inserimos sob o titulo de Princípios Fundamentais da Doutrina Espírita Reconhecidas como Verdades Adquiridas.
- Isto não dispensa o Movimento Espírita de proceder a uma modernização constante e contínua a fim de assimilar sucessivamente o progresso do conhecimento.
- Abril de 1869. Andre Dumas
________________________________________
PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA DOUTRINA ESPIRITA RECONHECIDAS COMO VERDADES ADQUIRIDAS
01. O homem possui uma alma ou Espírito, princípio inteligente, onde reside o pensamento, a vontade, o senso moral, e do qual o corpo não é mais que um invólucro material. O Espírito é o ser principal preexistente e sobrevivente do corpo, que não é mais que um acessório temporário.
O Espírito, seja durante a vida carnal, seja após deixá-la, é revestido de um corpo fluídico ou “perispírito” que reproduz a forma do corpo material.
02. O Espírito é imortal; só o corpo perece.
03. Os Espíritos, libertos do corpo carnal, constituem o mundo invisível ou Espiritual, o qual nos rodeia e no meio do qual nós vivemos.
As transformações fluídicas produzem as imagens e objetos também reais para os Espíritos, que são eles mesmos fluídicos, como são as imagens e os objetos terrestres para os homens que são materiais. Tudo é relativo nesses dois mundos. (ver A Gênese segundo o espiritismo cap. XIV).
04. A morte do corpo não muda em nada a natureza do Espírito, conservando as aptidões intelectuais e morais adquiridas durante a vida terrena.
05. O Espírito leva em si próprio elementos de sua felicidade ou de sua infelicidade, ele é feliz ou infeliz na razão do grau de sua depuração moral; sofre de suas próprias imperfeições as quais submete as conseqüências naturais, sem que a punição seja realizada por uma condenação especial e individual.
A infelicidade do homem sobre a Terra provém da não observação das leis divinas; quando ele confronta os seus atos e suas instituições sociais às suas leis, será tão feliz quanto comporta sua natureza corporal.
06. Tudo que o homem adquire durante a vida terrena, em conhecimentos e em perfeição moral não será perdido; ele é, na vida futura, o que fez na vida presente.
07. O progresso é a lei universal, e em virtude desta lei, o Espírito progride indefinidamente.
08. Os Espíritos estão entre nós; eles nos rodeiam, nos vêem, nos ouvem, e se misturam até um certo ponto às ações dos homens.
09. Os Espíritos são apenas as almas humanas, encontram-se entre eles, todos os graus de saber, de bondade e de perversidade, como entre os homens que vivem na Terra.
10. O céu e o inferno, segundo a crença vulgar, são lugares circunscritos de recompensas e punições. Segundo o Espiritismo, o Espírito leva em si próprio os elementos de sua felicidade e de seu sofrimento, são felizes ou infelizes em todas as partes onde eles se encontram. As palavras céu e inferno são apenas figuras que caracterizam um estado de felicidade ou de infelicidade.
Existe, por assim dizer, tantos graus entre os Espíritos, quanto existem nuanças nas aptidões intelectuais e morais, não obstante, se considerarmos os caracteres mais divididos, pode-se agrupar em nove classes ou categorias principais podendo subdividir-se ao infinito, sem que esta classificação tenha nada de absoluto. (livro dos Espíritos - questão 100).
Na medida que os Espíritos avançam na perfeição, eles habitam em mundos cada vez mais avançados física e moralmente. Sem dúvida, é o que se ouvia das palavras de Jesus : “Há várias moradias na casa de meu pai” – (Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. III).
11. Os Espíritos podem se manifestar aos homens de diversas maneiras, pela inspiração, pela palavra, pela vista, pela escrita, etc.
É um erro crer que os Espíritos tenham ciência infusa (ou seja, que tenham conhecimento das verdades religiosas, morais e físicas necessárias a instrução de si mesmo), seu saber no espaço, como na Terra, é subordinado ao seu grau de avanço, e em certos assuntos eles sabem menos que os homens. Suas comunicações estão de acordo com seus conhecimentos, e por isso mesmo, não poderiam ser infalíveis. O pensamento dos Espíritos podem, de outra forma ser alterado pelo meio que ele atravessa para se manifestar.
Aos que perguntam para que servem as comunicações dos Espíritos já que não sabem mais que os homens, se responde inicialmente, para provar que os Espíritos existem, e, por conseqüência, a imortalidade da alma; em segundo lugar, nos ensina onde estão, o que eles são, o que fazem, e em que condições são felizes ou infelizes na vida futura; em terceiro lugar, para destruir o preconceito sobre a natureza dos Espíritos e o estado das almas após a morte e todas a coisas que não se saberia sem as comunicações com o mundo invisível.
12. As comunicações dos Espíritos são opiniões pessoais que não devem ser aceitas cegamente. O homem, não deve em nenhuma circunstância fazer abnegação (renunciar) de seu julgamento e de seu livre-arbítrio. Estaríamos dando provas de ignorância e leviandade em aceitar como verdades absolutas, tudo que vêm dos Espíritos, pois eles dizem o que sabem; cabe a nós submeter seus ensinamentos ao controle da lógica e da razão (bom senso).
13. As manifestações sendo a conseqüência do contato incessante dos Espíritos e dos homens, existirão em todos os tempos; elas estão na ordem das leis da natureza, e não há nada de miraculoso, seja qual for a forma sob a qual elas se apresentem. Estas manifestações, relacionando o mundo material e o mundo espiritual, tendem à elevação do homem, provando-se que a Terra não é, nem o começo, nem o fim de todas as coisas, e que para ele (o homem) há outros destinos.
14. Os seres designados sob o nome de anjos ou de demônios não são criações especiais, distintas da humanidade; os anjos são Espíritos colhidos na humanidade e que chegaram à perfeição. Os demônios são Espíritos ainda imperfeitos, mas que no devido tempo se aperfeiçoarão.
Seria contrário à justiça e a bondade de Deus criar seres perpetuamente consagrados ao mal, incapazes de retornar ao bem, e ainda, privilegiados e isentos de todo trabalho para chegar à perfeição e à felicidade.
Segundo o Espiritismo, Deus não dá favores nem privilégios para nenhuma de suas criaturas. Todos os Espíritos possuem o mesmo ponto de partida e o mesmo caminho para percorrer, a fim de chegar através de seu trabalho, à perfeição e à felicidade. Alguns chegaram; são anjos ou Espíritos Puros, os outros estão ainda atrás; são os Espíritos imperfeitos.
15. O Espiritismo não admite milagres no sentido teológico da palavra, bem entendido, que nada se cumpre fora das leis da natureza. Alguns fatos supondo-os autênticos, só foram reputados milagrosos porque se ignorava as causas naturais. O caráter do milagre é o de ser excepcional e insólito. Quando um fato se reproduz espontaneamente ou facultativamente, é que ele é submisso a uma lei, e daí, não é mais considerado milagre. Os fenômenos: dupla vista, aparecimentos, pré-consciência, curas por imposição das mãos, e todos os efeitos designados sob o nome das manifestações físicas, estão neste caso. (ver A Genese, 2ª. parte\; Os Milagres).
16. Todas as faculdades intelectuais e morais têm suas fontes no princípio espiritual, e não no princípio material.
17. O Espírito humano, se depurando, tende a aproximar-se da divindade, princípio e fim de todas as coisas.
18. A alma humana, emanação divina, leva consigo o germe ou o princípio do bem que é seu objetivo final, e deve fazê-lo triunfar as imperfeições inerentes ao seu estado de inferioridade sobre a Terra.
19. Tudo o que tende a elevar o homem, a livrar sua alma entrelaçada da matéria, seja sob a forma filosófica ou religiosa, é um elemento do progresso que o aproxima do bem, ajudando-o a triunfar sobre seus maus instintos.
20. Todas as religiões conduzem a este objetivo, por meios mais ou menos eficazes e racionais, segundo o grau de avanço dos homens para uso dos quais foram feitas.