Dossiê “Escrituras do corpo: poéticas e políticas cinematográficas”
No centenário do filósofo e historiador francês Michel Foucault, propomos retornar a uma ideia incessantemente posta em sua obra: o corpo está longe de ser natural e imediato, ele não emerge de uma “folha em branco”, tabula rasa da experiência, mas se constrói no “espaço quadriculado” de uma sociedade disciplinar que distribui e molda corporeidades. O corpo é lugar de inscrição dos acontecimentos, sujeito ao controle e à disciplinação de acordo com certos regimes de saber, campo de uma escritura que o prescreve a certa posição subjetiva e muitas vezes impõe a certos corpos a posição de outridade, mas é também o espaço produtivo de uma escritura viva e desejante, a tensionar as posições que lhe foram delimitadas — nunca houve, afinal, uma delimitação cultural do corpo que não encontrasse nos sujeitos e nas comunidades formas singulares de resistência.
O século XX acompanhou o desenvolvimento de uma série de reflexões sobre a relação entre o corpo e a sua escritura, desde a emergência de uma escrita testemunhal, após a Primeira Guerra, que tentava relatar as experiências-limite do corpo frente às catástrofes que se colocam para além da capacidade simbolizante da linguagem, até uma série de reflexões (feministas, negras, indígenas, queer, crip, decoloniais, etc.), com acentuada expansão a partir da década de 1970, que cruzavam métodos historiográficos, antropológicos, sociológicos, psicanalíticos e filosóficos para considerar o corpo uma construção discursiva inscrita em contextos culturais e regimes epistemológicos, que instituem usos concretos da corporeidade e modos de experimentar e utilizar o mundo sensível.
Na crítica de arte e nos estudos literários, renovava-se o interesse por poéticas dilacerantes (como a abjeção, o grotesco e o informe), que recolocavam a questão da corporeidade e das formas de assujeitamento. Na política e nas artes, desenvolviam-se práticas contestadoras que produziam escrituras desviantes do corpo, como as que encontramos na pintura de Francis Bacon e Pablo Picasso, nas esculturas de Louise Bourgeois, no teatro de Meyerhold e na literatura de Georges Bataille. Nesse sentido, a emergência das chamadas “artes do corpo” é incontornável, com expressões corpóreas marcadamente nas artes plásticas, na arte da performance, no teatro, na dança, entre outras manifestações.
O cinema não esteve distante dessa discussão. Ele foi um dos principais campos de codificação e disciplinação de corpos do século XX, ao mesmo tempo que criou em suas formas de escritura um espaço para a transgressão das normas sociais e para a produção de um corpo heterogêneo, inorgânico e variável. Assim, o cinema produziu, desde os seus primórdios, corporeidades codificadas e desviantes, excessivas e hieráticas, histriônicas e comedidas, absortas e teatralizadas.
Em seu comentário sobre A morte de Maria Malibran (Der Tod der Maria Malibran, Werner Schroeter, 1972), Foucault ressaltou a potência da câmera cinematográfica para desmantelar as regras da organicidade e da hierarquização corporal, servindo como um espaço de construção, descoberta e exploração do corpo, fazendo-o escapar de si mesmo, desorganizando-o, multiplicando-o, fermentando-o, germinando-o em suas imagens. Desse modo, o cinema inventaria “com o corpo, com seus elementos, suas superfícies, seus volumes, suas densidades, um erotismo não disciplinar: o do corpo em estado volátil e difuso, com seus encontros ao acaso e seus prazeres não calculados”. (Foucault, 2025, p. 374)
Para além da experiência do corpo do espectador com o corpo fílmico, a relação do corpo com a própria sala de cinema se configura enquanto experiência erótica — o escuro, a distância entre as poltronas, a proximidade sugestiva entre os corpos… — , como sugeriria Barthes em seu clássico texto “Ao sair do cinema”: “É nessa escuridão urbana que se trabalha a liberdade do corpo: esse trabalho invisível dos afetos possíveis procede daquilo que é um verdadeiro casulo cinematográfico [...] é porque estou fechado que trabalho e brilho com todo o meu desejo”. (2004, p. 429)
O presente dossiê da revista Movimento se dedica às relações do cinema com as escrituras do corpo: Como o cinema nos permite pensar o corpo enquanto constructo discursivo, social e político, ou seja, enquanto espaço de inscrição da história e da cultura? Como ele registra e arquiva experiências desviantes às normas desse “espaço quadriculado” da experiência? Como a imagem em movimento pode produzir, em seu próprio gesto escritural, corporeidades distintas, desviantes e transgressoras? O próprio filme poderia se constituir como um corpo?
Propomos abordar essas questões a partir dos seguintes eixos:
Relações entre corpo, cultura e política no cinema;
Abordagens do corpo e da experiência sensível na teoria do cinema (fenomenologia, teoria háptica, cinema corpóreo, realismo dos sentidos, gêneros do corpo, etc.);
Relações entre as artes do corpo (teatro, dança, performance, etc.) e a imagem em movimento;
Estudos atorais voltados ao jogo corporal do ator;
Obras centradas no problema da corporalidade a partir de perspectivas feministas, negras, queer, crip, decoloniais, indígenas, diaspóricas, fronteiriças, etc.
Ensaios e escritas testemunhais que lidam com a experiência do corpo diante da catástrofe (concentracionária, ditatorial, ambiental, etc.);
Experiências cinematográficas voltadas ao grotesco, ao abjeto, ao informe, ao erótico e ao profano;
O cinema e as mídias como espaços de criação de corporalidades.
A revista convida seus colaboradores a oferecerem posições críticas e arejadas sobre as escrituras cinematográficas do corpo ao longo das décadas, seja no histrionismo das performances do cinema mudo, no jogo atoral das comédias físicas de Charlie Chaplin e Buster Keaton, na contenção de cineastas como Robert Bresson e Chantal Akerman, na arqueologia da sexualidade operada por Barbara Hammer, na excessividade corpórea do melodrama hollywoodiano e das chanchadas e pornochanchadas brasileiras, ou nos variados experimentos do surrealismo, do expressionismo alemão, do impressionismo francês, da nouvelle vague, do novo cinema alemão, do underground norte-americano, do cinema marginal brasileiro, do Dogma 95, do novo realismo iraniano, do cinema contemporâneo do leste asiático, do realismo fantasmagórico, do new queer cinema, do new french extremity, entre muitos outros. Abarcamos, além disso, as escrituras cinemáticas do vídeo numa era multiplataforma, pensando as mídias como constitutivas de corporeidades e a integração do ser humano em amplos sistemas de organização sócio-tecnológica — passagem da sociedade disciplinar foucaultiana à sociedade de controle deleuziana — que quebram barreiras entre a máquina e o orgânico, assim ressignificando a própria noção de vida.
Na esteira de Foucault, mas também de Espinosa e Deleuze, questionemos, então, para além de toda naturalização, como se fabrica um corpo e, extrapolando qualquer condenação à impotência, o que pode um corpo.
Trazemos abaixo uma bibliografia sugerida sobre o tema, ressaltando que os textos, por certo, não precisam limitar-se a essas sugestões. Também incentivamos os contribuintes dessa edição a enviar resenhas de livros, teses e dissertações publicadas nos últimos 5 anos que dialoguem com os debates levantados pelo dossiê.
Importante: As submissões para dossiê serão recebidas até o dia 14 de junho de 2026 e devem ser publicadas até dezembro deste ano. Os textos devem ser enviados exclusivamente para o email movimento@usp.br. O email deve conter em seu assunto “Dossiê Escrituras do Corpo - Artigo [NOME DO AUTOR]”. Para maiores informações, ver nossas diretrizes para autores.
Lucas Mazuquieri Reis (Mestrando PPGMPA-USP)
Renato Trevizano dos Santos (Doutorando PPGMPA-USP)
Let Pei Galvão Martins (Doutoranda PPGMPA-USP)
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Em adição ao dossiê, a Revista Movimento estará aberta em um próximo momento à submissão de artigos, ensaios, entrevistas e resenhas que versem sobre meios audiovisuais. Destacamos, ainda, o desejo de contribuições na seção de Resenhas dedicadas à análise de teses e dissertações, de modo a fazer circular pesquisas relevantes de nossos pares. É obrigatório que as contribuições enviadas atendam aos requisitos de publicação dispostos na seção Diretrizes para autores.