Hoje contemplo uma geração que viveu quase totalmente a experiencia virtual, e para essa geração não existe uma diferença muito grande entre contato e a intermediação, não existe diferenciação do contanto sem o contato real, de forma que esse padrão de “amizades” e de convivência social virtual está modificando a nossa forma de ver, viver e conviver em sociedade; por um lado sentimos a expansão das redes como algo positivo, uma vez que é hoje a principal forma de divulgação de informações e de comunicação; por outro lado temos talvez o defeito dessa nova forma do contato sem o contato real, que é algo mais narcisista e egocêntrica, ao modo que afasto de mim e de meu mundo, tudo e todas as pessoas e ideias que se posicione contra meu narcisismo e minhas ideologias, bastando apenas que eu exclua ou bloquei tais irregularidades do meu suposto “mundo perfeito”, tudo isso é aparentemente perfeito, pois agora com um simples clique eu posso fazer com que o meu narciso seja exercido inteiramente sem o risco de ouvir algo desagradável e sem o risco do enfrentamento físico. Leandro Karnal afirma que somos a espécie que fez a evolução cognitiva, saiu da árvore, mas agora ao vê o leão, eu posso apertar uma tecla e o leão desaparece.
Agora nos deparamos com esse novo modelo de modernidade, a qual Bauman chamou sabiamente de “modernidade líquida”, onde tudo é precário, e vivido em condições de incertezas constantes.
“A vida líquida é uma sucessão de reinícios, e precisamente por isso é que os finais rápidos e indolores (...) tendem a ser os momentos mais desafiadores e as dores de cabeça mais inquietantes”. (BAUMAN, Z. 2007. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Zahar. p.8.).
Esse pensamento de Bauman retrata a atual sociedade, a qual busca refugio na internet e nas redes sociais, como uma fugacidade da vida real. É uma forma de aceitação, autopiedade e narcisismo, que muitos encontraram para justificar suas falhas e desvio de caráter. Hoje é bem mais fácil para muitos cortarem os laços do que mudarem seus maus hábitos, reflexo de uma convivência na virtualidade que muitos trazem para suas vidas reais. De forma que sem se darem conta, tornaram suas realidades virtuais em suas virtualidades reais, num verdadeiro retrocesso a caverna platônica.
“O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”, frisou o escritor e filólogo Umberto Eco, ao receber o título de doutor honoris causa em Comunicação e Cultura, na Universidade de Turim, na Itália. Crítico do papel das novas tecnologias na disseminação de informações, o pensador italiano foi enfático, ao reclamar que “normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”. Para o autor de Apocalípticos e Integrados (1965), antes das redes sociais, os “idiotas da aldeia” tinham direito à palavra “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.
Segundo Nelson Rodrigues, antigamente o idiota vivia recluso, o idiota tinha uma certa vergonha de sua idiotia, um dia ele saiu a rua e descobriu outro idiota... ele ficou surpreso em descobrir que tinha outro idiota, ele ficou surpreso em descobrir que tinha alguém como ele, em breve houve mais pessoas, daí os idiotas fizeram a maior descoberta de suas vidas... eles descobriram que eles eram a maioria.
A internet possibilita que qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo e em qualquer momento, expresse qualquer ideia em grau de igualdade com um especialista. Sendo assim fica claro que a internet e as redes sociais divulgam informação e não formação, pois formar um médico, formar um advogado, formar um jornalista, continua demandando anos e anos de preparo, e não basta querer, é preciso um esforço muito grande. Hoje todas as informações estão na rede, todas as poesias estão na internet e mesmo assim não á muitos mais poetas, e isso porque a busca por formação não é algo observado e almejado pela geração que nasceu com todo acesso à informação, mas sem nenhuma vontade de aprender a aprender, e aprender a pensar.