Proposta
Rindo das próprias inseguranças
Comemorando os 152 anos de Artur Azevedo a companhia de teatro Arte Gullik preparou este espetáculo que é uma homenagem ao autor . Pesquisando em sua vasta obra o grupo procurou um texto que apesar de escrito a mais de cem anos tivesse o perfil , a cara do momento em que vivemos e dentre tantas opções foi escolhido o texto Amor por anexins , que traz um conflito extremamente atual - A solidão . A necessidade de o homem encontrar uma companhia , alguém para dividir os seus sonhos e pareceu-nos perfeita a história de Isaías e Inês , porém , como o próprio SABATO MAGALDI diz em seu livro O Panorama do Teatro Brasileiro (... Poucas peças de Artur Azevedo parecem resistir a prova do palco ...) pedimos licença para discordar e fazer como o próprio Artur Azevedo fez em boa parte de sua obra - Adaptar . Ele adaptou peças francesas para a realidade nacional , de outros autores e adaptou a si próprio em dezenas de textos . O espetáculo resultante desse trabalho fala de pessoas comuns , com algo em comum : a solidão . As duas personagens têm pouco a dizer uma à outra , como num relacionamento desgastado , antes mesmo de começar . Mas a falta de sentido da situação vai dando lugar ao reconhecimento do outro , na mesma medida em que começam a se comunicar realmente . Exprimem-se , a princípio , como pessoas tentando antes se camuflar do que se conhecer . A palavra é totalmente desprovida de conteúdo , no início , mas as lacunas vão pouco a pouco sendo preenchidas . As frases feitas , os provérbios , os ditados , utilizados compulsivamente por Isaías funcionam como máscara com a qual se apresenta socialmente , enquanto Inês fantasia a sua realidade , para que essa possa corresponder aos seus desejos . Um jogo de palavras e aparências . A gratuidade daquele encontro só poderia resultar num desfecho previsível e sem maiores conseqüências . Mas , acuados pela solidão , acabam descobrindo ou redescobrindo o sentido da palavra , emprestando-lhe significado e utilizando-a como um veículo para os seus sentimentos , revelando-se aos poucos , com suas diferenças a afinidades . Na verdade , salvo as aparências , têm muito em comum . Deixando de utilizar a palavra como escudo para se esconderem deles próprios ou do mundo , abrem-se um para o outro para se confortarem , alimentarem uma conflituosa amizade ou talvez até um relacionamento que dure mais que uma noite de Reveillon Ambientada num apartamento do centro velho da cidade , o habitat típico dos solitários de baixa renda de São Paulo , pretendemos focalizar o paulistano comum , em seu deserto particular . A nostalgia do centro da cidade , aliada ao abandono em que se encontra , pareceu-nos a ambientação correta para os encontros e desencontros das personagens , tão atuais hoje , como o eram no século passado , quando a peça na qual baseamos foi escrita . Apresentamos as personagens e esta história de uma forma alegre e divertida para que possamos rir delas e de nossas próprias inseguranças .
A adaptação foi feita por Alexandre Darbilly , sendo muito elogiada em apresentação especial para a classe teatral . Destacamos os profissionais que ressaltaram o alto grau de qualidade do texto :Carlos Lupinacci ( Diretor SESC Anchieta ) , Rosi Campos (Atriz ) , Roberto Lage ( Diretor ) , e Silvana Garcia ( Professora USP-EAD ) .