1° de Agosto de 2006
Estou começando a escrever minhas memórias... Tudo começou quando 4 italianos chegaram aqui no Brasil: Pietro Manginelli, Angelina Taccari, Francisco Longhini e Fortunata Azoim. Eles se casaram e deste casais nasceram João Manginelli que é filho de Pietro e Angelina, Yolanda Longhini que é filha de Francisco e Fortunata. João e Yolanda se conheceram ainda garotos, namoraram e se casaram no dia 4 de Novembro de 1939 e tiveram 5 filhos: Aldo, Heraldo, Laerte, Davina e Norberto, todos de partos normais, nascidos em casa por parteira.
Nós morávamos em uma casa velha quase caindo... Me lembro de quando tive sarampo e ficava na rede... e era aquela briga para ficar na rede, porque todos gostavam dela. Minha mãe sempre costurava na máquina pequenas coisas como cueca, camisa para trabalhar na roça, fazer pano de prato, toalha de mesa e até lençol de saco e ainda remendava as roupas de roça. Minha mãe também lavava roupa no rio, passava a roupa em ferro de brasa, geralmente a noite porque no dia não dava tempo pois no sítio tinha muita coisa para fazer.
Nós tínhamos muitas árvores ao redor da casa e as folhas faziam muita sujeira. Me lembro que saindo da porta da cozinha, subindo para o chiqueirão dos porcos, tinha um pé de tamarindo grande e mais outro pé de tamarindo perto de um pé de manga espada, um ranchinho de galinhas, uma privada e do lado do pé de manga peito-de-moça, vários pés de limão de boa qualidade. Tinha também o poço que ficava próximo da casa e os pés de jabuticaba, o paiol, os pés de jambo, o campo de boccia e mais para baixo tinha uma parreira de uvas deliciosas e mais um pé de tamarindo. Seguindo em frente tinha alguns pés de café do Darcy e casa do tio Tonico e tia Linda. Voltando do outro lado da minha casa tínhamos o terreiro de cimento para secar o café e a tulha onde se guardava o café seco para ser vendido. E ali também do lado de cima tinha o carro dos bois e o carreti também de bois. Nossa, que saudades daqueles pés de manga espada e manga banana... indo mais acima só se encontrava pés de manga... Também tinha uma plantação de abacaxi. Depois meu pai querido fez uma plantação de mexerica e laranja enxertada que produzia belas frutas. Também tinha figo da Índia plantado ali, muito bom... O tio Gigio tinha uma moita de vara de pescar linda. Ali perto, descendo, tinha a casa do tio Gigio e da tia Ignês. Nossa como era bom aquele tempo... sofrido mas bom. Tio Luiz, era como se chamava o tio Gigio... Ele teve muitos filhos também: Lenir, Álvaro, Marileide, Vandair, Meire e Luiz Henrique. Também tinha varias árvores ao redor da casa dele: pé de manga, tamarindo, jambo, um pé de coco e um pé de laranja lima que nós crianças trepávamos e com uma faca e cada criança descascava aquelas delícias e chupava até ficar torta.
A Lenir gostava de cuidar do jardim, do pé de São Miguel, Flor de Natal - não esqueço da cerca que ficava em frente a casa deles, e da porteira bem alta. Me lembro quando o tio Tonico fez a casa nova e logo depois o Darcy se casou com a Ordalina. Tinham um quintal bem gostoso que à tarde fazia uma sombra deliciosa pelo bambuzal que ficava do lado de cima do quintal. E meu pai também tinha plantado um pomar de laranjas atrás do bambuzal. Tinha um pé de laranja baiana que eram tão grandes que hoje se eu falar ninguém iria acreditar no tamanho das laranjas. Como informação, a laranja tinha um umbigo que era do tamanho de uma laranja normal...
Do lado de baixo da casa do tio Tonico tinha um piquete e um pé de manga rosa que era uma delicia. Descendo até o rio tinha uma jabuticabeira do mato. Tinha a horta onde eram plantados mudas de café em balainhos de bambu e também se plantava muito alho, cebola e alface. O Nono também tinha uma bonita horta, onde ele plantava várias coisas como almeirão, rúcula, repolho, salsa, cebolinha, alface, cenoura... ele vendia estas delicias na feira às quartas-feiras e sábados. Nós sempre o ajudávamos a colher e lavar os pés de alface que eram colocados em jacás feitos de bambu. E a noitinha quando meu pai chegava da roça ele ia buscar tudo que meu avô colhia. Nós também colhíamos laranjas, tangerinas, jabuticabas para vender. Minha mãe de vez em quando fazia queijo e ricota para alguma freguesa. Toda tarde minha mãe fazia café e colocava em uma caneca de alumínio grande com um pouco de pinga e nós íamos levar para o Nono na horta. Ele sempre descansava em baixo de uma jabuticabeira sentado em um tronco de árvore seco e nós crianças ficávamos ouvindo as histórias que ele contava lá da Itália.
Subindo o caminho da horta, do lado direito, tinha um pé de gurumixama, uma fruta marronzinha e bem doce, um pé de cereja, um pé de oliveira e pés de pera. E continuando, bem no topo da subida, mais jabuticabeiras, do outro lado um pé de lima e 2 pés de carambola onde ficava uma granja velha onde às vezes cobras eram encontradas. Tinha um pé de coqueirinho, aquela flor amarela, pé de primavera, ao lado tinha a mangueira das vacas, era assim que nós chamávamos o curral... Os pés de nonas, uma fruta delicada com um gosto exótico, a paineira que tinha embaixo dela pés de guiné à vontade... Bom parece que só quero falar de pé disso e daquilo, mas era essa a vida que levávamos.
Quando construímos nossa casa nova, nossa família teve que ficar morando na tulha por aproximadamente 3 meses. Nessa tulha tinha café e veneno, não sei como não tivemos uma doença daquele pó que tinha lá. Depois quando a casa ficou pronta foi muito bom, só que os móveis eram velhos. Meu pai não era aquela pessoa que gostava de comprar coisas. Tendo o essencial de coisas já era o bastante. Comida por exemplo e saúde.
Depois de quase 2 anos voltei hoje para dar mais relatos. Ontem felizmente completei 62 de vida. Até que foi um dia parcialmente feliz. Logo de manhã recebi visita dos meus filhos Eric e Engrid. Fiz uma feijoada que estava um pouco salgada. O Zé foi para casa da sogra mas voltou logo. Recebi os parabéns do mano Heraldo e da família dele. Logo depois minha querida mamãe e a Juraci também me felicitaram. Minha sobrinha e afilhada Geovana também me deu um abraço por telefone pois ela está trabalhando e a Juliana estava indo para Nova Granada e também me ligou. A Míriam, Giulia e Maria Eduarda me enviaram uma mensagem telefônica muito bonita. A Geovana também me pediu tudo do que eu fiz para ela comer. Por volta das 13 horas a Sueli e o Norberto chegaram de Piu-Piu, o Fiat amarelo. Estava me esquecendo, Plácida e Célia também me ligaram. Almoçamos, comemos manjar branco com calda de ameixa e mais tarde comemos bolo recheado com creme e pêssego. Depois atendi o telefone e era a Meire, minha prima querida de Itápolis sempre sorridente contando as boas e as más noticias. Sobre a família dela está tudo bem, a tia Ignês, as irmãs e sobrinhos. Só Rodrigo, o filho, que saltou de paraquedas em Boituva e fraturou o tornozelo mas está bem.
Voltando mais ou menos 1 mês atrás eu sonhei com nossa prima Walkiria também de Itápolis. Mas conversando com a Meire, ela me disse que a Walkiria faleceu em Novembro passado. Fiquei boquiaberta de susto. Mas é pura realidade, coisas de quem está vivo. Mais a noite a prima Dione me ligou pois a filha dela também fez aniversário. A Lena da Moóca, amiga de tantos anos, eu é quem tive de ligar... Liguei também para a Dona Bela, mãe da Juraci pois foi aniversário dela também. Ao redor das 20 horas a Leonor me ligou mas nós só falamos do Condor; com dor aqui, com dor ali... muito bom conversar com ela, nós rimos muito.
Voltando a contar a história de minha infância, foi bom ser menina, foi bom ter pai, mãe, irmãos, avós, tios e primos. Muito bom ter nascido no Bairro da Areia, era esse o lugar, era o bicho. Ar livre, pé no chão e alpercatas. Cabelo ressecado pelo sol, shampoo naquela época, nem pensar. Era sabonete Gessy-Lever ou Vale Quanto Pesa, creme Rugol, perfume era Royal Brias, talco Ross. Oh vidão, a nossa... Nossas roupas de brincar eram costuradas em casa pela minha mãe. Ela costurava as cuecas dos homens da casa e as cuecas do meu Nono que eram compridas e amarradas no tornozelo, lindas que davam gosto. O que menos gostei foi ir para a escola. Oh porcaria de vida era aquela. Tinha que andar a pé pelo caminho que mais parecia o caminho do lobo mau. A estrada era de terra, cheia de poeira. Quando o guanxuma estava viçoso, dava aqueles bigatos que atravessavam o caminho e nós meninas tínhamos medo pois os bestas dos moleques jogavam os bigatos em nós. Quanta besteira! O pior mesmo era enfrentar a maluca da Dona Alice (a professora). Uma megera, uma catatau em forma de gente. Brava e curta, a anã... Só sabia fazer tricô e comer ameixa preta. Devia ser mal-amada e ainda ter o intestino preso. Foi a fase mais ruim da minha vida. Só tive problema com meus irmãos, o Laerte e o Norberto. O Laerte porque apanhava da Dona Alice com régua e o Norberto só chorava agarrado na minha saia. Acho que ele não gostava muito de escola. Minha melhor amiga da Escola Mista do Bairro do Caetê era a Amélia Rebellate. Tinha também a Lidia Grande, Caetano Grande, Valentim Grande e Luíza Grande, Pedro Massa, Valter Michelleti, Lourdes Michelleti, Orivan Michelleti, Sérgio e Anísio Peronte, José Rebellati, Wanda, Neusa, Norberto, Laerte, Walkiria, Zenir, Ivanir, Marileide, todos primos, e tinha os filhos da Porcinda e mais crianças cujos nomes agora não me vêm à cabeça.
Quando tinha procissão na cidade, nós íamos a pé, de semi-trole ou bicicleta. Eta fé religiosa... Rezar mesmo acho que nunca, era só farra por aqueles caminhos. Quando iamos para a festa era só alegria, mas na volta era só canseira: joelho esfolado, canela raspada pelos tombos da bicicletas... mesmo assim se era feliz por pouca coisa e nós não reclamávamos nunca, era só aventura... pouca mas sadia. Quando eu tinha aproximadamente 2 anos, assim minha mãe conta, era o Nono e a Nona que me levavam para a missa todo domingo e assim foi até os meus 10 anos mais ou menos. Minha Nona morreu quando eu era bem pequena, pois não me lembro dela, mas o Nono continuou me levando à missa. Eu gostava muito de ir pois ele me comprava guaraná do Martinelli muito gostoso e gelado, pois no sítio não tinha geladeira. Quando acabava a missa nós voltávamos no semi-trole e era o cavalo Cabrito que puxava. Oh que aventura, trote a trote. Meu Deus isto é que era gostar das origens.
Também o tio Tonico e a tia Linda me levavam para as procissões. Tia Linda levava no colo seu filho, o Alcides (Cide) que por uma fatalidade teve meningite quando era menino e ele não falava nem andava, era um rapaz muito bonito e querido. Nós crianças não entendíamos muito destas coisas de doenças mas era a vida. O Cide era muito amado por todos, um doce de criança que foi crescendo sem poder andar, paixão dos meus tios.
E a vida foi passando e nós fomos empurrando para a frente todos os obstáculos. Meus irmãos foram para o Ginásio mas fizeram o quinto ano ou Admissão, não sei se era isso mesmo. Fizeram o 4º ano com Dona Natalina. Aliás todos nós passamos pelas mesmas professoras, acho eu... Ficaram bem pouco estudando, pois o dever os chamava para a roça. Eles enfrentavam qualquer coisa pela frente. Pegavam roça para arrancar tocos das queimadas e plantavam arroz. Não tinha tempo ruim para eles. Bons filhos eram eles, sempre dispostos para enfrentar qualquer coisa. Quando eu fui fazer 4º ano na cidade junto com a Wanda, nós estudávamos das 11 às 2 da tarde, um horário chato. Íamos de bicicleta até a casa da tia Ada e lá vestíamos o uniforme, 7 Vidas nos pés, fita branca nos cabelos e lá íamos nós. Aí nós ficamos conhecendo a Maria Laú que estudava na mesma sala e que morava perto da tia Ada. Bom depois de algum tempo nós começamos a deixar as bicicletas na casa da Laú. Ficamos muito amigas e ela sempre ia para o sítio de caminhão de propriedade do pai, Luiz Laú. Uma família muito boa. Tinha a mãe dela, Dona Jefa, o pai Luiz, os irmãos Jefinha, Antonio, Pedro, Luiz e a Rosa. Lá íamos nós para a escola, a Laú trabalhava em casa de família e sempre se atrasava para a escola. E nós íamos quase sempre correndo para chegar a tempo do sinal de entrada. Quando saíamos, passávamos pela sorveteria Sônia para tomar picolé de milho verde, nata ou chocolate. Quando tinha dinheiro, é claro! Aí pegávamos as bicicletas e vínhamos pelo caminho da Chácara dos Bichos e eu e a Wanda tínhamos muito medo. Uma vez encontramos um homem com olhos muito grandes e na volta tomamos um outro caminho, pela estrada oficial. Pois sempre achávamos que ia sair alguém do meio do mato para correr atrás de nós. Nós sempre tivemos medo de tudo pelo caminho – até do cavalo e do burro do Belmiro Rondelli. Eles corriam atrás de nós e nós passávamos por baixo da cerca de arame farpado. Anos atrás, quando eu e a Wanda estávamos com 6 anos de idade nasceu a Meire e nós duas tomávamos o leite que sobrava da mamadeira da Meire. Até hoje ela fala que nós tirávamos o leite da boca dela... Ah que maldade boa...
Quando o Darcy se casou com a Ordalina, foi aquela festa. Deus meu, nunca tinha visto tantos doces na vida. Depois foi o casório da Isaura e o Nélson. Depois nasceu o Luizinho e daí alguns meses nasceu a Lena, o Maurinho, e foi uma fase muito boa para todos. Eram crianças lindas e amadas. Sem contar que a Meire é afilhada do João e Yolanda, nossos pais. O tempo foi passando e a Lena se tornou minha comadre em criança. Hoje ela nem se lembra mais... Foi bom o tempo que durou. Nossa, tem tanta história nesta minha vida que vocês que vão ler nem sabem... Até mais.
Bom, hoje é 4 de Maio de 2008, voltei mais rápido que você imagina. Estava eu hoje e minha filha Engrid fazendo panqueca e nós estávamos conversando, e sem saber porquê, falamos alguma coisa sobre o dia 20. Eu disse preciso ligar para a Wanda que faz aniversário dia 6 de Junho e sobre o 20 de Outubro, 20 de Setembro e 20 de Dezembro, todos dia 20. Neste momento o telefone toca e era a Marileide dando a noticia que uma prima, a Nair, filha do Fernandes Manginelli tinha falecido no dia 2 de Maio, vítima de um aneurisma cerebral. Já é a segunda notícia vinda de lá de Itápolis que me deixa triste.
Bom mas hoje é o aniversário do Heraldo e nós ligamos para ele e lhe demos a má notícia, e também os parabéns, é claro. (O Palmeiras vai jogar com a Ponte Preta, será que o Verdão ganha?) Mas voltando às lembranças... Bom quando se é criança: nem imaginamos o que pode nos acontecer, o que é certo, o que é perigoso. Nós trepávamos nas árvores bem altas, nos pés de manga, passávamos de uma galho para o outro sem medo de cair. Mas um belo 2 de Fevereiro o Heraldo subiu no pé de manga, o galho quebrou, ele caiu e quebrou o braço. Yolanda coitada quase morreu de susto quando viu o Laerte levando o sapatão do irmão com o braço na mão. Isto lhe custou um mês de Hospital sem se levantar e mais alguns dias com o braço e o peito engessado. Também tudo acontecia com eles, eram uns meninos que não tinham medo de nada. O Laerte também quando era bem pequeno quase moeu o joelho na roda da carroça. Estou contando um pouco do que me lembro. A Wanda era bem engraçada, só fazia palhaçada para a gente rir. Olha só o que ela falava: Lestufubo (macaquinho), nem ela sabia o que era, o que estava falando, mas era engraçado. Um dia eu, ela, o Luizinho e a Meire estávamos perto de uns pés de mandioca e havia alguns arrancados que ficavam com aqueles garranchos. Ela deu nome para os garranchos (cafoto e manhôto) que ela manobrava e fazia o som de um caminhão atolado: arranha-arranha!
Tinha um livro de lição que tinha um quadrinho que dizia: aqui, dique, leque, toque, baque, fique, saque, roque... e ela conseguiu fazer um tom musical com essas palavras. Coisas boas ninguém queria aprender, mas coisas engraçadas eram a nossa distração. Também lá no Bairro da Areia era só isso: subir em árvores, comer coquinho, chupar tamarindo, jabuticaba, mexerica, manga, brincar no rio, aguar a horta e os balainhos de muda de café, lavar coador, moer café... A Meire chorava sempre quando a Wanda ia buscá-la onde quer que fosse para lavar o coador e moer café.
A Lena, por ser meu rabicho, não saia de trás de mim. Ela tinha a mania de se engasgar com tudo o que comia: goiaba, cenoura... e tinha medo de tudo, ficava quase o dia todo lá em casa, ou eu, ia para a casa dela. Nós éramos bem unidas, ela sempre com um chapeuzinho feito de pano e quando ela ia para sua casa só se via o chapéu por entre os pés de café que ficavam entre minha casa e a dela. Ela gostava tanto da boneca que eu tinha que acabou levando e ficou para ela. Falando em boneca, olha só a ideia do Sr. João, meu pai... um dia ele me comprou uma boneca de papelão, olha só a cor dela, cinza, com os olhos pretos e a boca bem vermelha e se isso não fosse o bastante, a boneca estava pelada. Nossa, prá que... eu tinha medo daquilo, pois a boneca era maior que eu. E os meus queridos e malucos irmãos pegavam a bruxinha e corriam atrás de mim em volta da mesa e eu chorava... Um belo dia afoguei a boneca em um coxo de água para galinhas!
Quando foi feita a casa nova, tinha a sala de visitas e lá tinha um buffet onde minha mamãe guardava o jogo de jantar de 42 peças de porcelana, algumas toalhas de mesa boa para algumas festas. Também a cristaleira que tinha copos e taças de cristal que até hoje eu guardo nem sei pra que, uma mesa com 6 cadeiras de verniz, uma espelheira onde se pendurava chapéus e colocava guarda-chuvas, porta vasos. O chão era de assoalho no qual minha mãe passava cera Parquetina amarela e quando secava, ou ela ou nós passávamos o escovão com um pedaço de pano Cashmire. Mas mesmo assim nós pegávamos um cobertor velho e um subia sobre o cobertor e o outro puxava para dar mais lustro ao assoalho. As vezes o que estava puxando fazia o outro raspar com a cabeça no chão, no que virava aquela briga. Também nessa casa nova tinha uma sala de jantar com uma mesa de madeira branca com um banco bem grande, do comprimento da mesa, que ficava encostado na parede. A hora do jantar era sagrada e as pessoas se sentavam da seguinte maneira:
Nesta hora, mais ou menos às 7 da noite, sob o brilho da lamparina, era ali que comíamos arroz, feijão, almeirão cozido (que o Nono chamava de verdura cota), carne de frango caipira, linguiça ou carne de porco frita que era tirada dos latões de alumínio e esquentada na frigideira, alface romana com a folha inteira, porque o Nono e meu pai gostavam de ir comendo do começo ao fim sem tirar da boca. Nesta sala tinha um guarda-comida azul e um móvel que tinha um rádio de pilha. O filtro de água era o maior do sítio, só nós que tínhamos aquilo. A casa tinha 3 quartos e uma pequena cozinha com fogão a lenha onde Yolanda fazia suas guloseimas, as polentas e tudo o mais. Tinha uma estante onde se pendurava panelas bem areadas, conchas, escumadeiras e para as tampas tinha o tampeiro. Tinha a despensa onde se guardava o saco de açúcar cristal, o de farinha, o caixote de madeira onde meu pai colocava o toucinho salgado para comer como torresmo de vez em quando e a massadeira de pão. Ao sair da cozinha tinha uma pequena área com um banheiro onde só se tomava banho – para outras coisas tinha a privada lá fora, subindo o quintal perto dos pés de limão. Meu pai colocou motor no poço para puxar água, tinha a caixa d’água, o tacho para ferver as roupas, pois não se usava água sanitária para branquear as roupas e tinha pedra de anil para por na roupa branca. O sabão era feito em casa para a roupa e se usava também para lavar louça. Em frente ao poço e o tanque tinha muita jabuticabeira, o forno de pão, o paiol... Deus era muita coisa em volta das casas.
Aproveitando os acontecimentos que todos um dia vamos ter que passar, vou relembrar um pouco dos primos do meu pai que moravam no sítio perto de nós. Tudo começou com o Neno. Ele também teve um pai e mãe como meu pai que era o tio Pepe e a Tia Menga. E o Nazareno (Neno) se casou com a Maria. Eles tiveram vários filhos, deixa ver se me lembro, eram: Josefina, João Carlos, Nica, Hortência, Jeremias, Antenor, Armando, Valdomiro, Fernandes e Diomar. Não lembro muito bem, sei que eles se mudaram para o Paraná quando o Diomar era bem moleque. Lembro que ele e o Heraldo se gostavam muito como primos. Ficaram no sítio o João Carlos, Jeremias e Fernandes. A Nica e a Josefina já eram casadas e moravam na cidade. Parece que o Fernandes também foi para o Paraná e voltou depois com a Neusa, a filha, já bem grande, que ia para a escola junto com a gente, eu, Norberto, Wanda e as meninas da Porcinda. João Carlos é casado com Carolina (Lola e filhos Ivanir, Zenir, Carlos e Clóvis), Jeremias com Lidia Dalmasso (filhos Walkiria e Vanderlei) e Fernandes com Lidia Coletti (filhas Neusa, Nair e Nereide). Para nós irmos para a escola tínhamos que passar em frente da casa de todos eles. Em frente a casa do João Carlos tinha a mangueira das vacas que quando eles colocaram capim gordura não dava para nós crianças passarmos porque era bem alto de capim. Quando ia abaixando era só cocô das vacas. Era doloroso passar sem escorregar nos merdas... eta vida de gado!
Quando nós meninas nos reuníamos aos domingos, gostávamos de brincar muito de casinha, ir catar caquinho de louça quebrada para enfeitar as casinhas. Pegávamos folha de bucha verde e fazíamos bordados nestas folhas com espinhos de limão. Fazíamos destas folhas roupas para as bonecas feitas com o talo da folha dos pés de mamão... olha só quanta sabedoria. E éramos felizes com pouca coisa.
Antes do Fernandes voltar do Paraná morava na casa dele o seu Gino Cariolli e a mulher. Eles tiveram só filhas: Helena, Laura, Neiva e Terezinha... eram boas amigas sempre bem comportadas. Quando tinha reza em casa de alguém todas brincávamos de roda. Olha só, a serpente quando se enrola fica bem grande que nem uma bola e quando enrolava alguém dava um jeito para todas caírem no chão. Também senhora dona Sauja coberta de ouro e prata descubra o seu rosto, queremos ver não-sei-o-que... aí todas se abaixavam e quem estava na roda com os olhos fechados tentava adivinhar o nome de cada uma que estava brincando passando aos mãos no rosto ou nas orelhas para saber quem era, pelos brincos. Eu elas sempre sabiam, porque só eu tinha brincos de argola.
Terezinha de Jesus
A Canoa Virou
Onde Vai Maria Ó Mariazinha
Brincadeira do Lenço Atrás
Passar Anel
Agá Agá, a galinha quer botar
Agê-Agê, minha mãe me deu uma surra, fui parar no Tietê.
A fulana na cozinha abraçada com o fogão, com os olhos arregalados, parece um gato ladrão.
Osquindolelê, Osquindolelê, lá-lá vou tocar viola para nós dançar... e por aí vai...
As brincadeiras de pular corda, pular distância para nós se chamava pular pauzinho. Hoje em dia as crianças brincam de estátuas. Nós brincávamos de jogar. Jogar era assim: Uma menina ou menino pegava uma de nós e dava um impulso e lá ia a pessoa que parava e fazia uma pose. Aí aquela que jogou a outra escolhia quem tinha ficado mais bonita e assim seguia a brincadeira. Sempre teve a cadeirinha: duas entrelaçavam os braços, uma sentava e elas carregavam de um lugar para outro. Sempre no sítio tinha uma família que ia morar em uma das casas de colonos para trabalhar no café ou em outros afazeres. Lembro do Domingos Vieira, da Laza, Aurora, João, Chico, Maria Aparecida, do Guirro, Dona Angelina... quer que eu carregue a menina, quem sabe da história vai se lembrar. O Barranco e família, o Mantáia e família...
Quando a Marileide ia se encontrar com o Otairdes em dias de semana eu e o Laerte íamos junto com ela de companhia. Baile na casa dos Bambas quando teve um temporal... Quando fazia footing no jardim e quando era hora de ir embora todo mundo cansado e se escorando nas portas das casas que davam para a calçada... O Aldo ia também porque também namorava. É um irmão adorável quase não fala muito, prefere ouvir. Ele é bem calado e calmo. Bom irmão que no momento toma conta da mãe e Juraci, minha cunhada.
05/05/2008
Não pensem que só gosto de lembrar coisas que aconteceram aos outros. É que neste meio eu quase sempre estou, ou estava, presente. Sempre gostávamos de ir aos bailes nos sítios perto de nós. Aqueles bailes de chão de terra que até quase levantava poeira. Era o maior divertimento da época para nós. Não tinha nada o que fazer aos sábados e não era sempre, só de vez em quando. Em uma véspera de São João fomos no baile na casa dos Bambas, parece até que é tema de samba. Mas lá fomos nós, eu, o Heraldo, Laerte, Lenir, Wanda e o Darcy... imagine ele já casado e com filhos foi atrás de nós. Quando acabamos de chegar, levantou um temporal que parecia que o mundo estava se acabando. Não deu nem para pensar, demos meia volta e começamos a correr pelo meio dos pastos até chegar no meio de nosso cafezal que tinha um rancho de sapé. Era aquela ventania, trovões e relâmpagos por todo lado. Sem contar que nós ficamos com as canelas todas arranhadas pelos cipós e arranha-gatos e na hora nem percebemos. Muito engraçado lembrar agora. Mas era triste e doído, nós éramos bem crianças para passar por isso.
Também aos domingos íamos com a Lenir e a Marileide passear no jardim da cidade. A Marileide namorava o Otairdes, eu, a Wanda e a Lenir ficávamos no footing olhando as pessoas que passavam e assim chegava a hora de voltar. Essa hora era cansativa com bolha nos calcanhares dos sapatos apertados. Chegava na casa da Rita, irmã da tia Linda, engatava a Gaúcha ou a Pilintro no semi-trole e lá vinhamos nós passo a passo pelo caminho. Mas sempre tinha um dos meninos que vinha com a bicicleta nos acompanhando. Que pitorescos esses passeios... mas era bom!
Falei muito, só não contei os nomes de nossos animais de estimação. Nós tínhamos o cavalo Cabrito que era branco e bem manso que nos ensinou a andar à cavalo. Meu pai tinha um cavalo chamado Sabiá que era pintado e que só sabia empinar. Quando meu pai montava nele dava muito medo. Tinha a égua Gaúcha que era de todos e a mula Crioula também. Tio Tonico tinha o cavalo Pilintro e o Darcy, a Cigana que era uma égua que também era bem brava que só galopava de lado. Tio Gigio tinha o Estrelão, cavalo preto e mole, que não andava de jeito algum. Parecia o cantor Jamelão. Bem mole que podia bater nele até quebrar o chicote e ele nem se importava.
Cachorros:
Nosso: Bobi, Ringo, Flash e Caipira
Darcy: Paxá, Fulgor e Lulu
Gigio: Bilic, Nego e uma gata
Se tiver mais algum, alguém vai me dizer.
Quando nossas mães queriam fazer polenta, elas mandavam nós irmos buscar o fubá lá no Baltazar, que tinha um moinho d’água que era bem legal. Só que lá era uma sujeira de arrepiar. Nós levávamos o milho e trazíamos o fubá. Um dia fui lá com a Marileide para pegar o fubá. Todo mundo contava que o Gino lavava a dentadura no pote de água. Eu morria de nojo e falei que se me oferecessem qualquer coisa para comer ou beber eu não iria querer. Pois não é que eles quiseram nos dar caldo de cana? Eu falei que não gostava. Mas a Marileide para ser gentil acabou tomando, coitada... A Maria era tão sujinha coitada, que dava dó. Tinha até nata de leite nos cabelos e a roupa acho que ela nunca tirou do corpo. Mas eram pessoas boas demais, nos recebiam com tanto carinho, isso porque ainda éramos crianças e Manginelli, mais importante, netos do Pedrão.
07/04/2011
Ontem a noite recebi um telefonema de um primo que não nos vemos à mais ou menos 50 anos. Ele é o Carlos, filho do João Carlos e da Lola. Fiquei muito feliz em falar com ele. Mora aqui perto em Vinhedo. E ele nos convidou para uma reunião entre os Manginelli e Mancinelli que vai acontecer dia 09 de Julho em Itápolis. Não tenho certeza se vou, mas vou fazer de tudo para comparecer. Tenho vontade de rever todos meus entes queridos. Pena que nós demoramos tempo demais para esse acontecimento. Muitos já partiram para um mundo distante. Mas será bom rever quem ainda estiver entre nós.
E voltando às minhas lembranças de infância e adolescência... O meu Nono contava muita coisa, mas nós quase não entendíamos o que ele queria dizer, naquela língua italianada com português mal falado. Era meio difícil para entender, mesmo ele estando a muito tempo no Brasil. Quando ele pedia alguma ferramenta para roçar os matos eu quase não entendia que peça era. Para saber o que era alfange, finare, era um tipo de foice mas era mais aberta, que roçava mato mais baixo. Ele enrolava a língua que não se entendia quase nada. Andava sempre de sapatão com as polainas acima na perna. O Nono tinha um gênio forte mas meigo de coração, o que era dele era de todos. Acho que quando ele chegou em Itápolis, ele era meeiro, depois morou em uma chácara onde nasceram os filhos. Depois compraram um sítio no Bairro da Areia junto com o irmão tio Pepe. Não conheci minha Nona, pois ela faleceu quando eu tinha 2 anos. Mas o Laerte me contava do dia que ela se foi. O Nono não teve coragem de acompanhar o funeral. Ficou na janela acenando, dando tchau de despedida para o seu amor que não mais veria. Mas tocou sua vida guardando e engolindo mágoas e foi com orgulho que ele suportou tanta dor. Pois eu acho que no tempo passado as pessoas não se abraçavam e nem se beijavam para confortar os que ficavam. Mas era muito valente e continuou vivendo e sobreviveu até os 90 anos.
Houve um acidente com um ônibus em Ribeirão Preto, não sei exatamente o local, onde estudantes morreram no acidente. Foi a primeira vez em que vi o Nono chorar de emoção e dor. E alguns dias após esse acidente ele deu sinais de Alzheimer. Já não se lembrava de quase nada, não dormia à noite. Deu muito trabalho para minha mãe, meu pai e o Heraldo que quando podia dava banho nele, com muito custo, pois ele era arisco para ir embaixo do chuveiro. Ele gostava de comer pão com café. Leite ele nunca bebeu, pois nem sabia que gosto tinha. E se sabia que algum doce ou bolo era feito de leite ele cuspia longe. Não conheci o tio Pepe. Mas conheci tia Menga, era assim que nós a chamávamos. Quase todo dia ela ia nos visitar na parte da tarde e minha mãe servia pão feito em casa com café, que ela gostava muito.
Passávamos por muitas fases naquele sítio. Sempre com os parentes ao redor. Muita festa de santos: Santo Antonio, São João, São Pedro. Sempre a festa de São Pedro era feita na minha casa, quase sempre na véspera de São Pedro. Minha mãe fazia pão doce, bolacha champanhe-anizete, café, batata doce e amendoim. Era o Jeremias e a Lidia que puxavam o terço e o pessoal acompanhava. Para nós meninas e meninos era só bagunça, correr e brincar de roda. Quando levantava o mastro do santo, soltava-se rojões, morteiros, traque e fósforo de cor. E quando as velas estavam quase acabando de queimar, nós pingávamos cera nas palmas das mãos, o que dava uma sensação bem quentinha, que nos dava prazer.
Minha cabeça é quase um computador de vidas passadas, só que as vezes tem muita lembrança boa e também as não muito boas. Como quando na escola do Caetê a professora batia no Laerte e o deixava sem comer o lanche. Eu era criança mas aquilo doía em meu coração. Ele quando pequeno, era bem pequeno em estatura, que parecia estar sempre doente. E ele comia o lanche na volta para casa de cabeça baixa e tristonho. Eu menina mais nova, andava ao seu lado compartilhando aquela tristeza. Ainda apanhava com régua feita de madeira. Sabe, hoje relembrando, parece que não havia uma aprendizagem, era como uma escola escrava. Sofri muito com tudo isto pois nós não contávamos para meu pai porque tínhamos medo que a professora fizesse coisa pior.
Meu pai João, quando na adolescência, sofria de um mal que se dizia “ataque”. Era um tipo de desmaio que demorava para a pessoa se recompor. E o Nono Pedro ficava assustado com aquela situação e como ele era muito devoto e religioso, rezava muito e pediu em suas orações ajuda para São Valentim, o santo que era o protetor para este mal que atingia seu filho, e meu pai foi melhorando. Mas no meio de tudo isso ele prometeu ao santo que enquanto ele pudesse e tivesse força iria passar pelos sítios vizinhos e pediria uma contribuição como café, arroz, feijão, galinha... e ele vendia a contribuição e com o dinheiro da venda ele mandava fazer pãezinhos que eram distribuído no dia 14 de Fevereiro que era o dia de São Valentim. Nesse dia sempre era rezada uma missa e no final ele ajudava a distribuir os pães. Este dia eu nunca esqueço. Quando nasceu meu primeiro irmão deram a le o nome de Aldo Valentim. Quantas e muitas lembranças boas tenho guardado ao longo desta minha vida. Guardo também as tristes porque também fizeram parte deste imenso passado. Nas vésperas de Domingo de Ramos, o nosso Nono ia até o pé de oliveira e com um facão ou serrote cortava galhos do pé da árvore. E no domingo quase todo ano eu ia com ele à missa de Ramos onde ele distribuía um galhinho da oliveira para as pessoas. Hoje se eu quiser um ramo de qualquer planta neste dia tenho que pagar. Ele sempre teve um grande coração.
Aos domingos os homens iam jogar boccia no sítio do Michelleti. E as mulheres iam lá para minha casa conversar com o tio Pedro e ele ficava muito feliz. Quando meu pai e minha mãe se casaram, o Neno e a Maria foram padrinhos deles e aí ficaram compadre e comadre. Quando eu nasci minha Nona Angelina me presenteou com um par de brincos que ela recebeu da Itália dentro de uma carta. E foi o Neno que furou minhas orelhas com uma agulha de aplicar injeção. Eu ainda tenho minhas duas madrinhas, tia Ignês e tia Ercília. O Heraldo é afilhado do João Carlos e da Lola. O Nono teve 7 filhos: Nazarena, Carlos, Antonio, Rosa, Luiz, João e Geraldo. Tia Nena se casou com tio Nanin Zarelli e teve 10 filhos: Vicente, Angelina, Lúcia, Letícia, Natalina, Tereza, Antonio, Pedro, Amélia e Maria Inês. Tio Carlos e a esposa Orlanda tiveram 4 filhos: Paulo, Neide, Pedro e Osvaldo. Tio Antonio e a esposa Olinda tiveram 2 filhos: Darcy e Alcides. Tia Rosa era esposa do Nazareno Marucci que tiveram 6 filhas: Jovite, Diva, Elides, Neiva, Leide, Neusa e Sônia.
Tio Luiz era casado com tia Ignês e tiveram 7 filhos: Lenir, Álvaro, Clóvis, Marileide, Vandair, Meire e Luiz Henrique. Meu pai João casado com a amada Yolanda, nossa lutadora mãe querida, nos deu a honra de colocar neste imenso mundo abençoado por Deus, 5 filhos: Aldo, Heraldo, Laerte, Norberto e eu, a única filha que sempre os amará. Tio Geraldo se casou com tia Ercília e nasceram Laura e Aparecida. Infelizmente o tempo passou tão depressa que nossos pais envelheceram, nós crescemos e nos casamos e tivemos nossos filhos também. Foi um tempo de humildade e inocência onde se podia confiar uns nos outros. Meu coração fica frágil com tantas lembranças. Queria que o tempo parasse ou voltasse atrás para aqueles tempos em que se podia brincar, correr ao ar livre, sem ter medo de tanta violência como está tendo por este mundo afora.
Se alguém tiver a oportunidade de ler algumas dessas lembranças ficarei feliz. Tenho guardado com muito carinho tudo isso. Quando vendemos o sítio foi como se tivessem tirado uma parte de nós. Parecia que o tempo tinha parado ali. E que nunca mais nós o veríamos. Como se separa um cordão umbilical, segue-se cada um seu caminho. O tio Luiz se mudou para a cidade em final de 1962. Bem no início de Janeiro de 1963 o tio Antonio foi morar em Limeira. Nossa, que separação... Parecia que tinha morrido alguém. Éramos tão apegados aos filhos do Darcy que eles pareciam meus irmãos menores. Foi por aí que a ficha caiu. No dia 28 de Janeiro foi a nossa vez de dar aquele adeus à terra em que nascemos. Deixar para trás o primeiro chão em que nós pisamos, o ar puro que nós respiramos. Foi dor misturada com ansiedade. Seu João, meu querido pai, foi para São Paulo tentar uma vida melhor. A última parada foi em Itápolis, cidade das pedras, na casa do tio Luiz onde nós fizemos nosso último jantar junto com a família dele. Choramos pois nesta despedida levamos também o bem maior de minhas lembranças, o pioneiro, o herói, o dono do sangue que corria e ainda corre em nossas veias, o velho Nono Pietro.
Que nem sabia o que estava acontecendo e nem pode dar adeus à terra que lhe havia dado tudo e tanto e que o amparou quando chegou no Brasil. Fizemos uma boa viagem, chegamos no dia 29 de Janeiro de 1963. Todos nós logo começamos a trabalhar e minha mãe Yolanda ficava cuidando do Nono, mas devido aos seus 90 anos e o Alzheimer ele veio a falecer no dia 13 de Julho deste mesmo ano de morte natural. Todos os seus filhos estavam presentes na hora de seu falecimento. Foi a primeira vez que vi uma pessoa morta. E sei que foi muito triste. E ele voltou para seu sono infinito no lugar que ele mais gostava, sua segunda terra natal, Itápolis. Assim Deus fez sua vontade.