Conservatório de Paris e a Escola Francesa
por Michel Debost

Ainda que nos anos 70 a República Francesa tenha criado um outro Conservatório Nacional de Música em Lyon, completamente equiparável ao de Paris, o modelo para a maior parte das instituições europeias continuava sendo o Conservatório de Paris.  Fundado em 1784 como Escola Real de Música, adotou o nome atual somente em 1975.

Tem contado com diretores como Luigi Cherubini, Ambroise Thomas, Theodore Dubois, Gabriel Furé e Marcel Dupré.  Entre seus professores encontramos Hector Berlioz, Anton Reicha, Paul Dukas, Jules Massenet, Charles-Marie Widor, Charles Tournemire, Marcel Dupré, Olivier Messiaen e Nadia Boulanger.  Até 1977 havia apenas uma classe de flauta; Paul Taffanel, Philippe Gaubert, Marcel Moyse e Jean-Pierre Rampal foram alguns de seus professores.  Adolphe Hennebains e Crunelle, ainda que não tão conhecidos, deixaram sua marca, tal como fizeram Willian Kincaid, Joseph Mariano e Julius Baker nos Estados Unidos.  No existem aulas privadas com o professor; o aluno recebe sua lição diante dos demais estudantes de flauta.  Todos eles devem, em teoria, assistir a 12 horas de Master-class por semana.  Lições particulares eram ministradas pelo professor assistente (em minha época, era Raymond Guiot para a sala de Alain Marion e Kathleen Chastain para a minha sala).

Como sucede com a maior parte da educação na França, a matrícula é gratuita, inclusive para estudantes de nacionalidade que não a francesa.  Isto explica o fato da prova de acesso ser extremamente competitiva.  As provas de admissão são ao vivo (o que muitas vezes desanimam os candidatos estrangeiros, que devem comparecer pessoalmente para realizar as provas); na primavera se realiza uma primeira fase que dura três dias, na qual se exibem ao redor de 150 candidatos que devem escolher duas peças de uma lista de seis.  Aproximadamente um dentre dez é selecionado para a última fase.  O programa para esta etapa tem divulgação pública três semanas antes da prova, é o mesmo para todos os candidatos e devem ser acompanhados com piano.  Normalmente, dependendo do ano, somente cinco a dez concorrentes são admitidos.

O currículo é estritamente musical e dura três anos.  Anteriormente podia-se competir pelo prêmio¹ depois de um ano de estudos; foi o que fizeram Rampal e Maxence Larrieu em sua época.  Em seguida, o mínimo de tempo de estudos passou para dois e, então, para três anos.  Atualmente já não é possível apresentar-se ao Concours de Prix² sem haver completado um certo nível de linguagem musical.

Uma vez que se é estudante do Conservatório, as matérias não musicais são deixadas um pouco de lado para favorecer um estudo intenso do instrumento, da música, ainda mais horas de prática com a flauta, teoria, leitura à primeira vista (leitura e execução de uma partitura, sem que o músico a tenha visto antes), orquestra e música de câmara.  Os horários dos estudantes não são carregados de disciplinas não musicais, como trabalhos de investigação, levantamentos, etc.  A filosofia implícita é que, se você deseja desenvolver seu intelecto e sua cultura, o fará de qualquer maneira, à medida que fizer suas escolhas e encontrar seu lugar no mundo.  Entretanto a disciplina e a oportunidade de aprender música como um verdadeiro profissional não voltará a apresentar-se.  Como nos esportes, existem habilidades que só são apendidas com grandes dificuldades a partir de 20 anos.  Alguns especialistas creem que a melhor “janela” de idade para aprender música é antes dos 10 anos.  O amadurecimento vem depois; necessita de tempo, como o bom vinho; contudo para as habilidades necessárias para tocar, o tempo que se leva é ainda maior do que se pensa.  Ademais, o sistema de avaliação francesa baseia-se no que é obtido nas audições e não no progresso realizado ou no histórico.

A vantagem de um sistema artístico liberal é que se conhece pouco de muitas coisas diferentes.  Pode-se escolher o que quiser para a sua educação; mas deve-se ter muito talento (e sorte) para destacar-se em duas ou três áreas de uma vez.

A qualidade de uma escola reflete-se no talento de seus melhores estudantes, mas também pelo fato de que todos têm um bom gabarito, um certo nível profissional garantido pelo Primeiro Prêmio ou pelo segundo. Existem mais de um prêmio a cada ano, que ocorrem quando um jurado crê que o candidato merece e não estritamente segundo um escopo competitivo.

Costumava pensar que este currículo puramente musical não deixava espaço suficiente para a educação acadêmica, mas mudei de ideia quando comecei a fazer parte da cena universitária americana.  Existem tantas cadeiras e matérias obrigatórias e optativas que os alunos simplesmente não dedicam seu tempo o suficiente para praticar com o instrumento.  Sempre penso que uma mente curiosa pode ampliar e aprofundar sua cultura praticamente em qualquer idade, sempre que haja o desejo de fazê-lo.

Creio que a principal razão para a excelência do Conservatório de Paris é a capacidade de seus estudantes: mesmo os professores de segunda categoria produzem estudantes de primeira; e os alunos de segunda aprendem com os professores de primeira.

Uma ampla rede de conservatórios especializados de outras regiões da França apoia o Conservatório de Paris; preparam aspirantes para estudar no Conservatório de Paris.  Assim, de certa maneira existe uma raiz comum na educação musical.  No caso da flauta, a escola francesa é um pouco mais na dedicação da educação musical e na prática instrumental.

Existem tantas Escolas Francesas de flauta quanto flautistas franceses.  Suas semelhanças não estão em algum segredo da cor da sonoridade ou do virtuosismo, mas simplesmente em um modo básico de estudar e de tocar o instrumento.  As pessoas morrem, mas a tradição não; como meu pai costumava dizer: “Os cemitérios estão cheios de flautistas insubstituíveis”.

A tradição que não evolui não está viva.  Vivemos em nossa época e aprendemos tanto de tradição como de inovação, que será, por sua vez, a tradição do futuro.  Um conservatório musical é a expressão da imaginação e da nobreza transmitida, não algum tipo de escritura congelada.  A arte e a música estão em constante mutação, não necessariamente para pior.

Não existe flautista que possa se adonar da Escola Francesa de flauta, ou de qualquer outra, e reivindicar os direitos da sua tradição.

“A tradição é a inovação que deu certo” (Jean d’Ormesson, escritor e filósofo francês nascido em 1925).

De todos os modos, é óbvio que um professor do Conservatório de Paris deixa uma enorme influência em uma geração.  Antes havia somente uma classe para instrumentos de sopro.  Devido à popularidade da flauta, atualmente existem duas:  seus professores são Sophie Chérrier e Pierre-Yves Artaud.  O Concours de Prix (exame para obtenção do Prêmio ou título) é o grande evento no final do ano acadêmico, em junho.  Seria como uma espécie de evento esportivo, onde reúnem-se todos os aficionados.  É aberto ao público e o jurado é composto por famosos flautistas do mundo todo.  Nos últimos 100 anos, a tradição tem sido encomendar uma obra de nova criação especialmente para a ocasião, que se publica em sigilo um mês antes e a qual os candidatos ao Prêmio estreiam no dia do evento, tocando de memória.  Assim tem nascido muitas obras bem conhecidas do repertório¹ de flauta durante a primeira metade do século XX; mais recentemente Ibert, Dutilleux, Messiaen e Jolivet têm contribuído com importantes peças, sem as quais nosso acervo não seria o que é.  Inevitavelmente algumas obras, pelo seu nível, acabaram dando crédito ao ditado: “não valem nem o papel na qual estão escritas”. 

Muitos estudantes estrangeiros estudam no Conservatório de Paris em igualdade de condições de liberdade e de competitividade em relação aos alunos franceses; no passado, dentre eles, se contaram americanos², canadenses, espanhóis, italianos, alemães, japoneses, coreanos, escandinavos e, obviamente, britânicos.  Um deles, que se fez muito famoso, estava constantemente em desacordo e discutindo com Crunelle; depois se queixou que Crunelle ficava lendo jornal durante sua aula.  Perguntei a meu professor por que razão fazia isso e ele me respondeu que, já que seus conselhos não eram levados em conta, não via motivo para conversar com o aluno.  Na realidade, o que incomodou o aluno é que Crunelle havia tomado a decisão correta: o aluno queria era ser escutado.  Alguns se irritam mais com a indiferença do que com a contradição do outro.

De certo modo, o que identifica um bom professor ou a escola é o fato do pior aluno tocar bem.  Os estudantes de instrumentos de corda das escolas de violino de Galamian, Gingold ou Delay; os de violoncelo de Parisot ou de Staker...  Talvez não sejam todos uns “novos” Heifetz³, contudo têm uma metodologia comum, tal e qual podemos observar nas orquestras americanas onde trabalham.  Crunelle possuía esse empenho: todos chegam ao final do ano tocando melhor do que nunca poderiam tocar.  As obras para o Concours deviam ser executadas todas de cor e ninguém se queixava de que isso seria impossível.

Na minha opinião, o segredo da Escola Francesa é sua abordagem metódica no tocante à prática instrumental e ao estudo. É diferente dos exercícios de aquecimento; quando ocorrer alguma dificuldade, a separemos e trabalhemos com ela à parte e logo voltaremos a inseri-la, devidamente superada, no contexto.  Com demasiada frequência as pessoas buscam soluções prontas: “Como se faz para articular rapidamente?”, “Como posso aumentar minha velocidade?”, “Como se produz o vibrato?”; com umas poucas notas rotineiras ou com alguns aquecimentos informais não conseguiremos solucionar nada.  É simples: deve-se trabalhar não com as peças, mas sim com exercícios específicos.  Para cada problema musical existe uma solução técnica e para cada problema técnico, uma solução musical.

A Societé des Concerts de Conservatoire (atualmente chamada de Orchestre de Paris), fundada em 1928, se nutria originalmente dos professores e dos melhores estudantes do Conservatório; durante um século esteve associada ao Conservatório somente devido ao seu nome.  Nos dias de hoje, o Conservatório de Paris tem um nível muito alto; mas, infelizmente, por várias razões, a história das orquestras francesas não está à altura da fama de uma das melhores escolas de música do mundo.

Em Poucas Palavras

Tradição não é o oposto de inovação. Os distintos estilos interpretativos evoluem sob a tutela de grandes instituições educativas e de professores eminentes.

Nota
1. O prêmio, na CNSMP (Conservatório Superior de Música de Paris), equivaleria a um título de graduação em uma Universidade.
2. O equivalente a um exame final para a obtenção de um título.
3. Flute Music by French Composers, editado por L. Moyse (New York: Schirmer).
4. Robert Dick.
5. N. do T.: O lituano Jascha Heifetz (1901-1987) foi por muitos considerado o melhor violinista do século XX, famoso por suas interpretações de melodias famosas de Paganini, Bach e Saint-Saëns.

Autor: Una flauta sencilla. Dasí – Flautas Ediciones, Valencia, 2007. (p. 161-7) - [Tradução para o espanhol feita por Taciana Gómez Malet de DEBOST, Michel. Une simple flûte. Editions Van de Velde, Paris, 1996.]
Tradução: STEFANO FRUGOLI PEIXOTO - Especiais agradecimento a Stefano por essa tradução.


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