Albert K. Cooper

Um homem notável

Por André Luiz Medeiros

artigo da Revista Pattapio, ed.26


Quando nos vem à mente o nome Albert Cooper, logo o associamos ao grande pesquisador da flauta no século 20. Guardadas as devidas proporções, seu nome representa para o instrumento um pouco do que Theobald Boehm representou no século anterior. Cooper nasceu na Inglaterra em 1924 em um tranqüilo subúrbio ao sul de Londres. Seu primeiro emprego foi em 1938, na fábrica da Rudall Carte & Co. Ltd (RC), onde começou aos 14 anos como faxineiro, servente e técnico-aprendiz, a fabricar sapatilhas e confeccionar plaquetas para estojos com o nome RC estampado. Daí a montar piccolos de 6 chaves foi um pulo. Aprendeu também a fazer flautas com pé em si bemol para bandas militares. Em seguida, vinda a Grande Guerra, a RC, de seus 15 funcionários, ficou reduzida à metade, convocados que foram para as linhas de frente. Em plena Guerra, o staff da fábrica caiu para apenas 3 ou 4 empregados. Findo o conflito e a mobilização, foram readmitidos mais 2, inclusive Cooper. Mas a produção da Rudall Carte nunca voltou a ser a mesma de antes, quando chegara a ter 400 instrumentos em estoque. A essa altura, em 1946, Cooper já era um habilidoso técnico e flutemaker.

Albert Cooper trabalhando na Rudall Carte

Cooper deixa a RC em 1959 e se estabelece por conta própria como técnico, restaurador e, logo após, construtor de flautas. Sua maior contribuição ao desenvolvimento do instrumento foi a criação da chamada "escala Cooper" (a primeira surgiu em 1948, ainda em caráter experimental), um novo esquema matemático-acústico de distribuição e diâmetros dos furos que possibilitou uma melhor afinação das flautas para os poucos afortunados que na época puderam adquirir seus instrumentos. As flautas mais populares na Inglaterra até os anos da Guerra eram as de madeira, mas essa matéria-prima começou a escassear, o que praticamente decretou seu fim. Nesta época, as únicas flautas estrangeiras disponíveis em Londres eram as Haynes e as Powells, antes da grande invasão das japonesas. Os flautistas londrinos queixavam-se de que as flautas americanas eram baixas nos graves e altas nos agudos, como as antigas vintages francesas, muito comuns em Londres. Mas a afinação utilizada começou a subir do A=438 (em 1920) até 442. A primeira escala Cooper foi desenhada para um A=440, seguindo-se as 442, 444 e 446 (sob encomenda). As flautas americanas embora nominalmente 440, não o eram. Na verdade, eram cópias das francesas, com a afinação mais baixa que prevaleceu antes da Guerra. Anos depois, Cooper apresentou uma nova escala aperfeiçoada, assessorado, principalmente, pelo amigo e flautista William Bennett.


Os clientes de Cooper às vezes comentavam que seus instrumentos lembravam asRudall Carte & Co. Ltd. Viu-se ele, então, na tarefa de alterar seu estilo e desenho, a princípio para um desenho algo francês (Cooper sempre admirou as flautas francesas), até encontrar enfim o seu design próprio. Para Cooper, a flauta "ideal" teria chaves fechadas na mão esquerda e abertas na direita, o sol fora de linha e um mi mecânico. Achava que chaves abertas na mão esquerda são boas para quartos-de-tom e música contemporânea, coisas que não despertavam muito seu interesse. Achava também o fá sustenido agudo difícil numa dessas flauta com chaves abertas. Quanto a pés em dó ou em si, considerava ambos bons, tendo alguma preferência pelos últimos. Para Cooper, também precisava ser melhorado o mi médio, cuja sonoridade julgava meio precária, além dos problemas de afinação e igualdade de som na 3a oitava, o que poderia ser obtido algum dia, segundo ele, com chaves fechadas na mão esquerda e abertas na direita.


Com o correr dos anos, Cooper passou a dedicar-se mais à fabricação de bocais, devido ao crescente mercado para os mesmos. Dizia ele, em sua habitual franqueza: "os japoneses e os americanos produzem mecanismos, chaves e sapatilhas com métodos hichtech (alta tecnologia), se comparados aos meus. Posso competir com eles em bocais, mas não na fabricação de mecanismos. Vamos encarar a verdade: os meus são feitos com garfo e faca". Daí também o fato de ele ter começado a fazer bocais. Seus bocais têm algumas características: furação bem planejada, sonoridade brilhante e moderna, amplo volume de som, e podem ser tocados com sopro vigoroso, no estilo preferido por muitos flautistas londrinos.


Certa vez, perguntado a respeito de qual material seria o melhor para flautas, disse não ter um veredicto final para a questão, ele que já havia feito bocais de prata, ouro, aço inox, nickel-silver e até um de prata e ouro em iguais proporções. Uma tarde, Cooper levou um seleto grupo de flautistas para testar um novo tipo de material para bocais no qual estava trabalhando. Terminado o teste-cego, foram dadas as mais variadas opiniões sobre a liga testada: uns disseram que seria ouro, outros, platina etc. Cooper revelou, para surpresa geral, que o material testado fora obtido a partir de uma simples panela de cozinha fundida. Conclusão: o mais importante não é o material, e sim o know-how e a habilidade artesanal.




Em toda sua vida, Cooper contabilizou 98 instrumentos com sua marca, incluindo-se 8 flautas-alto, 2 piccolos e 3 flautas baixo, além de várias centenas de bocais. A maioria dos fabricantes, hoje em dia, usa escalas derivadas da escala Cooper, ou diretamente copiadas dela, embora, segundo ele, apenas a Brannen e a Boosey & Hawkes tenham sua permissão para uso. Os irmãos Brannen, Bickford e Bob, quando abriram sua fábrica em 1978, tiveram a feliz idéia de convidar Cooper para os cargos de Vice-Presidente Emérito e Diretor de Pesquisas da indústria, nascendo assim uma ampla cooperação entre ele a fábrica de Boston. A escala Cooper fez um enorme sucesso e espalhou-se quase que de imediato pelo mundo afora. De algumas décadas para cá, com a rápida expansão do intercâmbio musical gerado pelos meios de comunicação, Cooper dizia que chegamos a uma flauta globalizada, universal, do tipo que poderíamos chamar de "Boehm-Lot-Cooper". Em 1983, proeminentes flautistas ingleses fundaram a The British Flute Society. Cooper foi nomeado, na ocasião, Vice Presidente vitalício. Criou-se, também, o Concurso Albert Cooper em 1990, voltado principalmente para novos talentos. Até sua aposentadoria, Cooper presenteou os vencedores com suas cabeças de prata, feitas à mão e especialmente ornamentadas.


Simbolo dos bocais e flautas Cooper.

Em 2002, Cooper sofreu por um grave acidente: foi atropelado em Londres, tendo tido sérias lesões, inclusive fratura da pelvis. Ficou bastante tempo internado num hospital em recuperação. Atualmente, encontra-se tranqüilo e feliz em uma instituição de repouso para idosos, junto à sua esposa. Ambos têm o mal de Alzheimer, conta-me seu grande amigo, o luthier Robert Bigio. Hoje, aos 82 anos, Cooper só se recorda nitidamente de fatos acontecidos antes dos anos 40. Sua memória média e recente apagou-se quase por completo, inclusive seu antigo desejo de redesenhar o piccolo, além de outros planos inacabados. Restaram-lhe longínqüas e tênues lembranças de sua vida.


Albert foi um homem notável, além de extremamente modesto. Há uns 10 anos atrás, Bigio recebeu um telefonema. Era Cooper perguntando se poderia levar-lhe uma flauta que acabara de fazer para ser testada, pois precisava despachá-la para um cliente. Antes, porém, queria ouvir sua opinião. Bigio conta-me que pensou: "Albert Cooper quer a MINHA opinião?". Sim, era verdade. Queria. O velho artesão atravessou Londres inteira com o precioso pacote debaixo do braço em direção à casa do amigo, no outro extremo da cidade. Como se vê, ele não tocava flauta. Dizia apenas que "sabia soprá-la"… Considerava isto até uma vantagem, pois "poderia trabalhar no instrumento sob um ponto de vista mais neutro". Além de sua simplicidade, outra característica o levou ao sucesso: o hábito de sempre se fazer perguntas e, em seus experimentos, tentar respondê-las. Nosso instrumento deve muito a ele.

Flautista Philipp Jundt tocado a Fantasia para Flauta Solo em A menor, TWV 40:3, Nº 2 de Telemann com sua Flauta Cooper de ouro.


Autoria: André Luiz Medeiros - artigo da Revista Pattapio, ed.26

FONTES

- Entrevista a Alexander Eppler, em 1988.

- "Flute", Albert Cooper e J.Galway.

- "The Flute", Ardal Powell.

- Minha correspondência particular com o flutemaker inglês Robert Bigio.

- Minhas conversas com o maestro e flautista inglês David Evans.

- "Who's Who of British Flute and Head Joint Makers": site da Topwind.










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