Hospital S. José

DO HOSPITAL REAL DE TODOS OS SANTOS ATÉ AO HOSPITAL DE S. JOSÉ
 
 
O início da construção do Hospital Real de Todos os Santos deu-se na manhã de 15 de Maio de 1492, tendo sido lançada a primeira pedra na presença do rei D. João II no ano em que este tinha feito 40 anos, tendo morrido aos 43 anos no paço do alcaide-mor (Álvaro de Ataíde) em Alvor. A direcção da obra ficou a cargo do mestre arquite cto Diogo Boitaca. De seguida o rei D. João II foi almoçar a Casa dos condes de Monsanto – D. João de Castro 2º conde de Monsanto e bisneto de João das Regras, no Poço do Borratém, embora na altura chamassem ao almoço jantar. Mas andava triste desde a morte do seu único filho legítimo, o infante Afonso, aos 15 anos de idade numa queda de cavalo em Santarém. O infante Afonso deixou viúva, a futura e primeira mulher (das três) de D. Manuel I. Foi inaugurado nove anos depois, já no reinado de D. Manuel I (que era primo e cunhado de D. João II) em 1501, no ano em que este fazia 35 anos, tendo morrido aos 52 anos. Era o Hospital de Todos os Santos, (Omnia Sanctorum) que é o O com o S no meio e que ainda é utilizado como logotipo do actual Hospital de S. José.
 
 

Chamavam-lhe Hospital Grande, Hospital de Todos os Santos, Hospital Grande de Todos os Santos, ou Hospital Real, mas tinha ficado conhecido verdadeiramente por Hospital dos Pobres. As razões eram múltiplas. Primeiro, a criação deste hospital foi o resultado da concentração de vários hospitais pequenos, e ao ter que denominar este grande hospital para contento de todos os outros que tinham denominações de Santos, escolheu-se a denominação de Todos os Santos. Mas com era com o apoio do Rei D. João II era também denominado de Hospital Real, e como se destinava a servir os pobres, ficou realmente conhecido na altura por Hospital dos Pobres. A mulher de D. João II, a rainha D. Leonor (que repousa na entrada da Igreja de Madre de Deus em Lisboa), tinha mandado construir um hospital num sítio descampado que tinha umas águas sulfurosas onde se banhavam os doentes. Estas águas termais eram conhecidas por caldas.

Daí surgiu o Hospital e o sítio das Caldas da Rainha. A rainha não gostava do filho legitimado de D. João II, D. Jorge de Lencastre. No fundo, D. Leonor também não lhe tinha perdoado ter apunhalado o seu irmão D. Diogo no castelo em Setúbal, e ter mandado degolar em Évora o seu cunhado D. Fernado (3ºduque de Bragança) casado com sua irmã D. Isabel. Esperava que o seu marido D. João II, deixasse em testamento a coroa a seu irmão D. Manuel, o que veio realmente a acontecer.
As escadarias do Hospital de Todos os Santos encontravam-se de facto na Praça da Figueira e iam acabar sob os edifícios actuais. Em 1620 Henrique José de Couto descreve-as, como uma escadaria de 21 degraus (ou 19 depois do aterro do Rossio ordenado por D. Manuel I), de 76 pés de comprimento a nível do solo, e 33 pés de comprimento no tabuleiro superior que era quadrado e plano e que dava acesso ao pórtico da Igreja. As duas escadarias laterais e que faziam conjunto com esta mediam no solo 64 pés e terminavam de cada lado do tabuleiro da entrada da Igreja. O pórtico era de estilo manuelino, naturalismo náutico, vegetalista, com colunas torsas, como se de cabos de embarcações se tratassem, semelhantes à Igreja matriz da Golegã e capela da Universidade de Coimbra, e provavelmente de pedra da Arrábida como o pórtico do Convento de Jesus em Setúbal. É notório os símbolos indirectos da Paixão de Cristo que para além das chagas e cravos, eram representados por pelicanos que eram também o símbolo de D. João II. A esfera armilar que encimava o pórtico era símbolo emblemático do Venturoso, e o escudo deformado como que soprado, símbolo do vento que impulsionava caravelas e naus pela costa Africana e além Atlântico. Aparecem aqui representadas as cruzes da Ordem de Cristo (sucedânea da ordem dos Templários) constantes em todas as obras de estilo manuelino (duas sobre cada porta), mas estão ausentes os símbolos vegetalistas como as cápsulas e folhas de papoila invertida da Igreja de S. Julião em Setúbal, ou os cachos de uva, romãs ou espigas de milho noutras obras deste período. Mas outras versões sobre este pórtico apareceram.
 

Mestre arquitecto Diogo Boitaca foi realmente o responsável pela direcção da construção do Hospital Real de Todos os Santos, embora o seu sogro Mateus Fernandes (o principal responsável pela construção do mosteiro da Batalha) fosse o projectista. Tinha Diogo Boitaca sido o responsável pela construção da igreja matriz da Golegã pelo convento de Jesus em Setúbal que foi uma das suas primeiras obras em Portugal, e pela Igreja de St. Maria de Belém nos Jerónimos entre outras obras como a continuação do mosteiro da Batalha em vários períodos. Aliás, sobre a sua origem francesa ou italiana o cronista Soror Leonor de S. João escreveu sobre o projecto do Convento de Jesus de Setúbal que “...mestre Boitaca em Itália, por inspiração divina, sonhou com todo o projecto ...” além de que D. João II admirava muito a Florença dos Médicis, e encarava-a como o paradigma da sociedade ideal, pelo que nos parece credível mestre Boitaca ser Italiano. O vedor de obras foi o fidalgo Nuno Martins da Silveira, e o vidreiro João Varela que também contribuiu para este novo e grande Hospital com os seus vitrais. A traça original cruciforme do Hospital Real de Todos os Santos foi de Mateus Fernandes, estando depois a obra propriamente dita e a Igreja, entregue a seu genro mestre Diogo Boitaca.

O primeiro Provedor, foi Estevão Martins mestre Escola da Sé de Lisboa. Mas as obras iam amaldiçoadas pelos judeus e mouros, pois as pedras para a construção vieram em parte das campas e cabeceiras de jazigos de mouros e do cemitério de judeus. A Igreja tinha de cada lado os quadros dos reis de Portugal. Os tectos da Igreja foram pintados por Fernão Gomes em dourado como o tecto da sala dos brasões no palácio real em Sintra, tectos maneiristas. No dia 27 de Outubro de 1601 cerca da 1 hora da madrugada, deu-se o primeiro grande incêndio que destruiu todos estes quadros dos Reis de Portugal e pinturas maneiristas dos tectos. Outros dois incêndios foram destruindo o que ia sendo reconstruído, um novo em 10 de Agosto de 1750 às 3 horas da madrugada e o terceiro e último, a 1 de Novembro de 1755 no incêndio que deflagrou após o terramoto sobre Lisboa. Coincidência ou não, o Hospital Real de Todos os Santos foi destruído no seu prórpio dia, no dia de Todos os Santos. O primeiro físico foi o mestre Burgalês doutor Delimylam, que foi dispensado por não ser suficientemente bom, e foi substituído a 13 de Abril de 1509 pelo Mestre Jorge Físico Solorgião. O físico era o médico de medicina, e o primeiro cirurgião foi Mestre Pedro, nomeado a 18 de Fevereiro de 1502, e que vivia dentro do Hospital iniciando o ensino cirúrgico neste País, e Mestre Gonçalo que vivia fora do Hospital. Havia também um farmacêutico, aliás chamavam-no de boticário, e quem preencheu pela primeira vez este cargo, foi Álvaro Rodrigues. Em 1644 os enfermeiros leigos portugueses voltaram para o Hospital, pois tinham sido despedidos em massa pela Mesa da Misericórdia que iniciou a administração do Hospital em 29 de Junho de 1564. E voltaram porque em sua substituição tinham colocado os irmãos Obregões, espanhóis, tendo-os autorizado a tratar doentes. Só que após muitas incompetências que foram perpetuando, foram submetidos a inquéritos em que “provou-se a sua incapacidade profissional e moral, sendo expulsos para sempre do Reino”. Era uma prática comum pela Europa desse tempo colocar dois doentes no mesmo leito. Só foi proibida após o terramoto de 1755 “... não se consinta em cada leito mais de uma pessoa.” Os tratamentos da época consistiam em: purgas, xaropes, mezinhas, místicas, água de cevada, sangrias, ventosas, panaceias, unguentos, limonadas, águas de cheiro, sanguessugas, laxativos, vesicatórios, pó da raiz do Angelicô etc. Mas os problemas económicos desta grande instituição, iam de mal a pior. Por todos estes problemas a 29 de junho de 1564 a irmandade da St. Casa da Misericórdia de Lisboa tomou posse da provedoria do Hospital como já se disse, e criou o cargo de Enfermeiro-Mor sendo o primeiro designado o conde de Odemira – D. Sancho de Faro. Na altura do incêndio pós terramoto de 1755 era enfermeiro-Mor o conde de Castro Marim, Monteiro-mor do Reino, sendo o enfermeiro-Mor aquando da transferência de todos os doentes para o actual Hospital de S. José José em 1775 António de Castilho Furtado Mendonça. O Hospital tinha dois pisos, estando situado na actual Praça da Figueira. A frente estava voltada para o Rossio e tinha aproximadamente 100 metros. Tinha a nível do solo umas arcadas que iam até ao convento de S. Domingos, e a meio estava a escadaria da Igreja. No piso a nível do solo estavam situados os alojamentos do pessoal residente (cerca de 50). No piso superior, estavam as três grandes enfermarias iniciais (S. Vicente, Santa Clara e a de S. Cosme) que constituíam os braços da cruz, ao redor do altar-mor. O regimento que regulava este hospital data de 1504, e foi outorgado por D. Manuel I tendo sido eventualmente inspirado nos estatutos dos hospitais de Santa Maria de Siena e Santa Maria Nova de Florença. Participaram na sua elaboração o cónego Estêvão Martins e o Cardeal Alpedrinha. Os doentes eram separados em diversas enfermarias em relação à patologia e sexo. Havia também uma “casa das boubas”, onde eram tratados os doentes com mal gálico(sífilis). Esta doença era na época considerada como castigo dos pecadores, sendo vergonhosa e portanto escondida da sociedade. Havia um banco destinado a todos os doentes que fossem em urgência ao hospital, onde depositavam as “águas”. Esse banco em que eram observados os doentes por ordem de chegada, julga-se estar na origem da designação única dada às urgências em Portugal de “banco. O hospital tinha ainda a obrigatoriedade de receber todas as crianças abandonadas (os expostos) da cidade, que depois eram entregues ao cuidado de amas externas. Compunha o quadro de pessoal do Hospital Real de Todos os Santos, directamente relacionado com os doentes: o provedor (director), um físico (médico), dois cirurgiões, dois ajudantes de cirurgião, um boticário (farmacêutico), três ajudantes de boticário, doze enfermeiros, um barbeiro-sangrador e uma cristaleira (mulher que ministrava os clisteres). Existia ainda o almoxarife (contabilidade, tesouraria e aprovisionamento), o escrivão (contabilista), o hospitaleiro, o vedor, o despenseiro, a costureira, a lavadeira, etc. Tudo estava previsto e regulado. Era uma benesse nessa altura, residir e alimentar-se no hospital. Todos lá residiam, com raras excepções. Tinha o físico de fazer a visita de todos os doentes, ao nascer do sol e às duas da tarde. Devia ser acompanhado nestas visitas pelo provedor (director), pelo cirurgião e pelo boticário, vedor, hospitaleiro, e pelo enfermeiro-mor da respectiva enfermaria. Nessas visitas deviam tomar os pulsos de cada doente, e observar a sua urina apresentada pelos enfermeiros menores. O físico indicava os preparados a dar a cada um dos doentes, e o boticário deveria compô-los de acordo com as instruções dadas e registadas num papel encarnado. Nestas visitas o enfermeiro registava na “tavoa” de cada doente a dieta prescrita que seria assinada pelo físico ou pelo cirurgião. O cirurgião residente no Hospital tinha ainda funções de ensino. Deveria cada dia dar lições teóricas e práticas, para a formação de cirurgiões que entrariam para o serviço do dito Hospital. Aos enfermeiros cabia além da higiene pessoal dos doentes, a muda das camas e a limpeza das enfermarias. Teriam de administrar aos doentes as purgas, lamedores, unções e outras mezinhas prescritas pelo médico. Os urinóis eram limpos pelos enfermeiros menores e escravos africanos, duas vezes por semana no Verão, e uma no Inverno. Tinham também como obrigações os enfermeiros, retirar os mortos sem os outros doentes verem, amortalhá-los e enterrá-los. Algumas profissões foram desaparecendo ao longo dos anos. É o caso curioso da profissão de barbeiro-sangrador que foi extinta só em 1870. O convento de St. Antão da Mouraria que foi inicialmente uma mesquita moura, foi cedido por D. João III aos jesuítas. Ficava na Rua do Marquês de Ponte de Lima. Foi a primeira casa própria que a Companhia de Jesus teve no mundo inteiro. A ela estão ligados Simão Rodrigues e Francisco Xavier, primeiros jesuítas em Portugal. Mas o convento inicial de St. Antão estava no vale da estrada que corre das portas de Sancto Antam para Benfica e Nossa Senhora da Luz. Este convento tinha sido fundado em 1400 por João de S. Vicente e sua mulher Lourença Joana. Dedicaram-no ao ilustre povoador dos desertos do Egipto, terror do Inferno, António o Grande, a que se costuma chamar Sancto Antam. Esse convento tinha um hospital que tratava os abrasados com o fogo que chamavam de Sancto Antam, em latim Ignis Sacer, ou seja a erisipela. Mas já no convento da mouraria, a 22 de Fevereiro de 1538, passam a ocupá-lo por troca real, as freiras do convento da Anunciada, a pedido da prioresa D. Brite de Meneses. Os Jesuítas ocupam-no a 5 de Janeiro de 1542 ficando conhecido pelo Coleginho, mas a 8 de Novembro de 1593 por ser grande o seu número de estudantes, mudam-se para St. Antão-o-Novo, pois em 1567 o Cardeal D. Henrique ordena a construção junto ao mosteiro de St. Ana do Colégio Novo de Santo Antão (actual Hospital de S. José).

Mas sobre as obras da construção deste novo colégio de Santo Antão, novamente parece ter começado por caminhos sinuosos. O capelão das freiras de Sant´Ana, por não querer na sua vizinhança jesuítas, excomungava os vereadores que apareciam para demarcar os limites da cerca do terreno municipal. Da outra parte houve o arremesso de pedras e excomungação do excomungador. E a obra não se iniciava. A primeira pedra foi lançada a 11 de Maio de 1579, sendo reitor dos inacianos o reverendo Cristovão de Gouveia, estando presentes o arquitecto Baltazar Álvares, e os padres Silvestre Jorge, José Valeriani e Filipe Terzi. O arquitecto da sacristia, (de construção posterior) que ainda hoje se mantém como a Igreja do Hospital de S. José, foi João Antunes. Mas as lutas prosseguiam. Os fundibulários do terreno onde havia um curral, escorraçavam os operários à pedrada em fúrias selváticas, dando-se autênticas batalhas. A população de Lisboa era quase toda contra esta construção. Atribuíam aos reverendos jesuítas, o desaire de Alcácer Quibir, pois como tinham sido mestres de D. Sebastião, dizia-se que o rei tinha escutado os seus conselhos aquando da partida. Mas a obra prosseguiu a bom ritmo com a descoberta de uma pedreira no local. A inauguração deu-se em Novembro de 1593. Foi grande benemérita da sacristia da Igreja do colégio de Santo Antão o Novo, D. Filipa de Sá Gomes de Linhares (terceira condessa de Linhares), filha do terceiro governador do Brasil, Mendo de Sá, cuja lápide tumular em boa hora (Janeiro de 1882) a administração do Hospital de S. José (Dr. Tomás de Carvalho – Enfermeiro-Mor) reclamou tendo-a obtido da irmandade de S. José, colocando-a do lado direito da entrada da sacristia, actual igreja do Hospital de S. José.

Com o terramoto, a Igreja inicial foi destruída, conservando-se a sacristia. Os jesuítas ao serem expulsos em 1759 e passando este edifício para os bens da coroa, logo o Marquês de Pombal aproveitou para instalar o Hospital Real e Nacional de S. José (por reinar D. José I) em 1770, em substituição do destruído Hospital Real de Todos os Santos. Mas muitas obras de adaptação necessitava, destacando-se em 1811 o conde de Galveias, D. Francisco de Almeida Mello e Castro, na altura Enfermeiro-Mor, que entre os vários melhoramentos mandou fazer o pórtico, de influência italiana que glorifica a expulsão da terceira invasão francesa, comandada pelo General André Massena, e entre outros, a colocação na fachada principal do edifício das estátuas em mármore dos apóstolos, que estavam colocadas na nave principal da Igreja do Colégio antes de ser destruída pelo Terramoto.

 
Do púlpito que possuía a Igreja, hoje somente resta a sua imagem.

O actual Salão Nobre, também conhecido antigamente como aula da esfera, era a antiga aula magna do colégio Jesuíta de Santo Antão-o-Novo.

Como curiosidade, refira-se que o pátio do relógio até meados do século XIX, estava dividido a meio por uma grade de ferro, servindo de logradouro a doentes do foro mental.
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Augusto Martins,
01/12/2008, 04:16
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Augusto Martins,
01/12/2008, 04:17
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