Em 1971, o Dr. José Botelheiro apresentava na inauguração do Serviço de Ortopedia e Traumatologia no antigo Hospital de S. Lázaro o texto que se transcreve:
A inauguração dum hospital ortopédico no nosso país pode considerar-se um pequeno acontecimento nacional, mas dentro desta especialidade e nos Hospitais Civis de Lisboa representa um progresso apreciável que nos merece registo. Desde a época em que começou a funcionar o Anexo de Fracturas do Serviço 3 que foi instalado nas águas-furtadas do Hospital de S. José, passando pela criação de dois serviços de ortopedia e fracturas, até esta inauguração, trinta e dois anos se passaram metade dos quais se perderam na rotina hospitalar.
Com efeito, foi em Outubro de 1938, pelo Decreto - Lei 29 045 que pela primeira vez se falou na «especialidade de traumatologia» dos H. C. L. e designou-se o serviço 9, Bordalo Pinheiro, para a sua instalação. A criação dum serviço de traumatologia nos H. C. L. levantou uma série de problemas pois no quadro permanente não havia especialistas, as pessoas deste quadro, sobretudo os cirurgiões, não queriam mais especialistas cirúrgicos e nenhum director de serviço de cirurgia queria ficar definitivamente ligado a um serviço destes. Assim a Ordem de Serviço nº 2116 de Junho de 1939 que transformou este serviço 9 em «anexo de Fracturas» ligado ao Serviço 3 do Hospital de S. José, com um director comum, foi um arranjo para satisfazer ao mesmo tempo o desejo do legislador e a vontade dos cirurgiões. Em vez de ali se alojarem os doentes operados no Banco começaram a enviar-se os fracturados e o serviço era dirigido pelo director do Serviço 3 e os assistente. eram os cirurgiões mais novos que acumulavam com outro serviço de cirurgia geral.
Embora de organização precária, começaram a convergir, para ali uma série de internos que no seu foro íntimo já procuravam estudar e tratar estes doentes. As condições eram péssimas, não havia bloco operatório neste piso, os doentes estavam numa água - furtada sem acessos fáceis, a corporação de bombeiros tinha condenado esta localização duma enfermaria de fracturados que um incêndio fatalmente os impedia de qualquer salvação. Apesar disto, em Novembro de 1941, por Ordem de Serviço n.º 2410 «anexo» transformado em Serviço de Traumatologia sendo colocado como seu director o Dr. José Paredes. Os assistentes continuaram a ser transitórios pois eram sempre os mais novos e enquanto não arranjassem vaga em serviço de cirurgia geral. O Dr. Paredes foi pois o primeiro director do serviço de traumatologia dos H. C. L. e honra lhe seja prestada, deu àquelas águas-furtadas um prestígio que nunca tinham conseguido.
Mas para os internos que ali trabalhavam o problema do futuro era angustioso. O serviço era de traumatologia mas o quadro permanente pertencia à cirurgia geral. Ao cirurgião hospitalar agradava esta solução pois deste modo impedia o acesso do especialista. Para os internos era um trabalho sem futuro, sem acesso, a negação da carreira médica, metidos nesta engrenagem cerrada e egoísta de quadros antiquados mas defendidos com força. Esporadicamente aparecia uma voz isolada reconhecendo a injustiça desta situação. O próprio Enfermeiro -Mor no relatório da Gerência de 1950 dizia: - «Tal como nas próprias instalações hospitalares há serviços clínicos a actualizar, a criar e a organizar, como, por exemplo, os de tuberculose e de ortopedia, que ainda funcionam em serviços gerais de medicina e cirurgia.» Foi deste ambiente injusto e ingrato que surgiu a chamada luta pela independência da nossa especialidade nos Hospitais Civis de Lisboa. Um grupo de internos resolve levantar o problema, expô-lo a todas as entidades e levá-lo até onde fosse necessário. Percorremos todos os graus da hierarquia da saúde, fizemos exposições, contámos o que se estava fazendo em todo o mundo e criticámos o atraso e anacronismo da nossa organização. Para os tempos que corriam foi um acto de coragem esta reposição da verdade, mas no íntimo de todos nós estava aquela certeza de lutar por uma causa justa e tínhamos por nosso lado a razão e a consciência até daqueles que se negavam a aceitá-la em seus pareceres oficiais.
Nos primeiros anos desta segunda metade do nosso século, todos os países do mundo estavam comemorando os cinquenta anos da cirurgia ortopédica. O maior jornal da especialidade The Journal of Bone and Joint Surgery, vinha trazendo as notícias de todas as conquistas feitas no campo científico durante este período de tempo. Num dos artigos sobre a cirurgia ortopédica na Europa Continental, de Espanha e Portugal apenas se citavam dois nomes um de Madrid e outro de Barcelona. Estes números da revista foram por nós mostrados aos nossos dirigentes sem que isso trouxesse qualquer benefício para a nossa causa.
Em Julho de 1952, no número americano do mesmo jornal vem um artigo sobre os cinquenta anos de ortopedia e traumatologia no Brasil com várias fotografias das quais a mais impressionante é a dum Hospital de 10 pisos, a Clínica Ortopédica e Traumatológica da Universidade de São Paulo. Este volume foi mostrado ao ministro do interior dessa época e o subsecretário da saúde ficou com ele durante semanas para leitura mais demorada Não sabemos se na realidade foi este um dos bons argumentos para esta causa, mas o que é facto é que a partir daí tudo se começou a tornar mais fácil e pouco tempo depois saía no «Diário do Governo» a criação, dentro dos H. C. L. de dois serviços de Ortopedia e Fracturas com o seu quadro próprio, que a Ordem de Serviço n.° 15536 de 15 de Setembro de 1953 punha em execução.
Estava vencida a grande batalha. Esse «Diário do Governo» caiu como uma bomba no meio hospitalar, que se considerava seguro nesta questão de tal modo que nem precisava argumentar junto das altas esferas. Um cirurgião meu amigo disse-me que lhe parecia incrível ter-se conseguido tanto, que ninguém esperava este resultado e que nos acautelássemos com o concurso. A abertura destes concursos arrastou-se durante um ano e só em Setembro e Outubro de 1954 se realizaram, com um júri constituído por cirurgiões gerais e uma prova de patologia cirúrgica, além das 5 da especialidade. Os dois serviços foram primeiramente mistos, isto é, de cirurgia geral e cirurgia ortopédica e só a partir de 15 de Fevereiro de 1955 entram em pleno funcionamento os dois serviços de ortopedia e fracturas, no hospital de S. José.
Desde o decreto-lei de 1938, citado no princípio deste artigo até esta data do começo da actividade dos serviços desta especialidade, passaram-se quase dezoito anos o que não abona muito a favor dos nossos processos. Um legislador de visão tinha resolvido encarar o problema e dar-lhe solução, mas a rotina dos nossos costumes, o egoísmo de muitos, os interesses que porventura iria ferir, foram mais fortes e conseguir arrastar por todos estes anos um problema que em todos os países europeus estava resolvido. A questão dos doentes e seu tratamento apropriado, a recuperação destes para se reinstalarem no trabalho nacional, os princípios fundamentais de que estes fracturados devem ser seguidos desde a urgência à alta sob a mesma orientação, tudo isso era secundário.
Fez portanto em Fevereiro, passado 15 anos, que esta especialidade tem plena autonomia como serviço dentro dos H. C. L. Foram anos de luta por instalar os nossos departamentos em condições apropriadas pois de princípio só nos foram dadas enfermarias e blocos operatórios. As camas apropriadas, as talas, as mesas ortopédicas, o pessoal treinado tanto médico como de enfermagem, tudo isso representou também mais uma série de anos para se conseguir. Mas houve dois aspectos importantes da organização do tratamento destes doentes que não se conseguiu - Um deles foi a recuperação anexa aos serviços, pois apesar de no esquema geral desta, estar prevista a hipótese, só com manobras fora dos nossos anquilosados quadros se conseguiu a colocação de dois elementos do serviço 5 de S. José. O outro que ainda se não obteve foi uma organização do tratamento dos fracturados desde a urgência até à alta, sob a mesma orientação e responsabilidade. As fracturas urgentes são tratadas no Banco de S. José sob a responsabilidade do cirurgião de serviço, em regra muitas delas ali esperam uns dias que haja vaga nestes dois serviços de Ortopedia Fracturas ou nas secções a eles destinadas nos serviços de Cirurgia Geral, para depois serem tratadas segundo nova orientação.
No entanto, os tempos mudaram, os doentes vão tomando consciência da gravidade das suas sequelas quando os tratamentos não são os adequados, a mentalidade dos responsáveis está diferente pois os problemas são já comuns e têm pleno conhecimento deles, as nossas instalações estão melhorando e o equipamento hospitalar vai-se modernizando, o funcionamento e organização dos serviços está em constante debate no sentido de se poder melhorar. A abertura deste novo serviço representa já um esforço notável no sentido de melhorar as condições de tratamento e instalações dos nossos doentes. Esperamos que os que para aqui vêm trabalhar consigam ser dignos desse esforço e que aquilo ainda por realizar seja objecto de estudo e próxima efectivação nos outros hospitais desta grande organização que são os Hospitais Civis de Lisboa.