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MACDONALD.WORKS / 12.05.2025[*]

ANÁLISE 

PAINÉIS DE NUNO GONÇALVES:

CRUZES E QUINCUNXES NO PAVIMENTO


Os ladrilhos das seis pinturas mostram um padrão com três símbolos bem identificáveis. Uma esquematização simples evidencia-o. 



João Macdonald




O pavimento nos painéis atribuídos a Nuno Gonçalves é uma grelha de ladrilhos esbranquiçados e esverdeados (simplificando cromaticamente). A disposição destas cores não é aleatória. Obedece a uma matriz. É perceptível em observação directa, mas mais clara quando transposta para um esquema gráfico.


Nesta análise demonstra-se essa matriz. Trata-se de um módulo onde figuram um quincunx, uma cruz latina e uma cruz de São Jorge. O módulo repete-se em todos os painéis.


O exemplo destacado é o painel do Arcebispo. É o que mostra maior área de pavimento. Para a análise recorreu-se a uma imagem digital. Não foi feita observação presencial da obra (que à altura deste trabalho encontrava-se em restauro - ver aqui um registo fotográfico do estado desse processo em Agosto de 2025). A totalidade dos painéis está em grande detalhe nas versões do Google Arts & Culture e do jornal Público. 


O quincunx — ⚄ — é uma forma recorrente na iconografia e arquitectura cristãs, com diversas variantes (e dispensa leituras esotéricas). Uma das interpretações mais simples: Cristo ao centro com os Quatro Evangelistas nos cantos. Para uma leitura aprofundada sobre a utilização do quincunx ver Cosmatesque Ornament - Flat polychrome geometric patterns in architecture, de Paloma Pajares Ayuela (Londres/Nova Iorque: W.W. Norton, 2001), em particular o capítulo 5. (E, in extenso, embora não trate dos painéis, o estudo "Pavimentos Cerâmicos na Pintura Portuguesa do século XVI (1500-1550)" de Teresa Peralta.)* 


* In A Herança de Santos Simões — Novas perspectivas para o estudo da azulejaria e da cerâmica, ed. Susana Varela Flor. Lisboa: Edições Colibri, 2014. (Agradeço a Clemente Baeta o alerta para este trabalho.)



---


Esta página foi revista e acrescentada em: 

- 05.06.2025

- 06.07.2025

- 12.08.2025

01

Parte do painel do Arcebispo usado para a análise, destacando-se a totalidade da área em que se observa o pavimento.



Ver o painel na íntegra, em alta-resolução, aqui ou aqui.


Ver aqui todos os painéis com o pavimento recortado.

02

O azul assinala os ladrilhos visíveis que compõem as formas, ou seja, os esverdeados na pintura.


No entanto, note-se haver quatro discrepâncias, assinaladas a amarelo, que contrariam o padrão. (O motivo para tal, por ordem decrescente de probabilidade, poderá ser um ou vários: má observação do autor desta análise; desgaste da tinta; erro de restauro; imperfeição do registo fotográfico; erro do pintor.) 

Parâmetro cromático.

03

Convertendo o pavimento perspectivado dos painéis num plano bidimensional e inserindo o parâmetro cromático numa grelha, clarifica-se o padrão. As quadrículas cinzentas representam a especulação lógica das formas enunciadas pelas azuis.

04

Este é o módulo repetido no pavimento dos painéis. Compõe-se pelo quincunx, com a cruz latina à direita e a cruz de São Jorge em baixo. 

05

O pintor inseriu pavimentos semelhantes noutras obras a ele atribuídas, como São Pedro (detalhe à esq.; ver em melhor resolução aqui) e São Paulo (detalhe à dir.; ver em melhor resolução aqui). Em ambas o padrão é um simples xadrez.

06

Já os pavimentos de São Vicente na cruz em aspa (detalhe à esq.; ver em melhor resolução aqui) e São Vicente atado à coluna (detalhe à dir.; ver em melhor resolução aqui) têm um padrão mais desenvolvido que os de São Pedro e São Paulo.

Nestas pinturas o módulo compõe-se por uma cruz grega e um quincunx. Será legitímo supor que o quincunx representa a cruz em aspa do martírio do santo — ou seja, uma cruz de Santo André (martírio apenas representado, claro, em São Vicente na Cruz em Aspa). 

07

Existe pelo menos uma outra obra em território português que em parte apresenta vários quincunxes pintados no pavimento, e perfeitamente idênticos em desenho e proporção aos dos painéis. É o Tríptico de Miragaia, datável de 1512-1517 e de provável autor flamengo, guardado no núcleo museológico da Igreja de São Pedro de Miragaia, no Porto. Os quincunxes observam-se na zona intermédia do painel central. Ver detalhes nesta página.    

Por último, para dissipar interpretações erróneas que esta análise possa suscitar ao recorrente debate sobre a ordem dos painéis, considere-se as seguintes duas observações.

1. 

Feito o mesmo exercício gráfico sobre as outras cinco pinturas e justapondo as seis grelhas — assumindo a normalizada disposição em políptico, isto é —, observa-se que o padrão não tem continuidade entre os painéis. Ou seja, um módulo interrompido no lado de uma tábua não se completa na outra —, excepto entre Pescadores e Infante, o que será apenas coincidência. 



Para melhor compreensão deste esquema eliminaram-se as quadrículas amarelas no painel do Arcebispo que assinalam as discrepâncias (ver ponto 02). Note-se ainda que as grelhas esquematizam apenas as partes dos painéis em que se vê o pavimento e/ou onde se conseguiu perceber as cores dos ladrilhos, tal como no exemplo central desta análise.

Para haver continuidade ter-se-ia de acrescentar partes do módulo - assinaladas a rosa neste esquema especulativo - e baixar uma linha à grelha do Painel dos Cavaleiros. 


Portanto, repetindo e sublinhando: o módulo detectado não garante, longe disso, qualquer forma de demonstrar a ordem dos painéis de acordo com a actual apresentação em políptico.[*]


De resto: ver nesta página os esquemas e as imagens individuais das seis grelhas.



[*] Falta, claro, ensaiar este jogo de justaposição do módulo noutras propostas de ordenamento dos painéis.

2.

Ora ainda, tal ausência de justaposição dos módulos conduz ao clássico tópico do ponto de fuga dos painéis, lançado por Almada Negreiros em 1926 (imagem infra; original aqui). 


Na realidade, quando se realça nos painéis as linhas longitudinais e transversais do pavimento, verifica-se que variam na inclinação. De onde, não é possível estabelecer o ponto de fuga de cada painel, ou um comum a todos. Na melhor das hipóteses, pode-se especular sobre os pontos de fuga prováveis que as longitudinais correctamente melhor traçadas permitem apurar.


Ver nesta página todos os painéis com as linhas do pavimento realçadas. (Destaca-se nessas imagens apenas as linhas que esta análise conseguiu traçar no pavimento visível.)

FICHA TÉCNICA



TEXTO

ESQUEMAS GRÁFICOS

EDIÇÃO DE IMAGENS

João Macdonald


IMAGENS

Painéis: Museu Nacional de Arte Antiga / Google Arts & Culture

São Pedro: Alberto Augusto de Abreu Nunes / Biblioteca de Arte Gulbenkian

São Paulo: Alberto Augusto de Abreu Nunes / Biblioteca de Arte Gulbenkian

São Vicente atado à coluna: Museu Nacional de Arte Antiga / Google Arts & Culture

São Vicente na cruz em aspa: Alberto Augusto de Abreu Nunes / Biblioteca de Arte Gulbenkian

Tríptico de Miragaia [cores]: Luís Bravo Pereira (ver referência de autoria na Bibliografia desta página)

Tríptico de Miragaia [preto-e-branco]: autor desc. (ver referência de autoria na Bibliografia desta página)


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